por Rafael Gonzaga

Nesta segunda (15), Taylor Swift levou a principal categoria, Melhor Álbum do Ano, da edição 2016 do Grammy, maior premiação da música nos Estados Unidos. Contudo, quantitativamente, o maior vencedor da noite foi o rapper Kendrick Lamar, que abocanhou cinco prêmios de suas 11 indicações. Indo além dos troféus, o cara foi o responsável por uma das mais significativas apresentações da cerimônia nos últimos anos: Kendrick levou para o palco da maior premiação da indústria fonográfica uma performance que abraçou a herança cultural africana dentro do contexto americano e que expôs sem filtros o racismo sofrido pela população negra.

A militância de Kendrick não é novidade para quem acompanha o trabalho do rapper. Nascido no Compton, Califórnia, local conhecido por ser o berço do gangsta rap e pelos índices altos de violência, a crítica social foi a principal diretriz do seu álbum To Pimp a Butterfly, lançado em março de 2015. O disco, aplaudido pela crítica, põe um holofote sobre problemas urgentes sofridos pela comunidade negra norte-americana ao trazer letras que falam desde escravidão até violência policial.

O cunho político da performance de Lamar já era esperado: o rapper já havia anunciado que usaria a visibilidade do grande evento para falar da violência específica sofrida pelos negros nos Estados Unidos. Os próprios organizadores da premiação já haviam classificado a futura apresentação de Kendrick como “provocadora”. Antes da cerimônia do Grammy acontecer, produtores chegaram a comentar que o rapper daria algo para as pessoas pensarem à respeito e que possivelmente poderia, se não ofender, no mínimo provocar uma parcela da audiência. Bem, aparentemente eles estavam certos. Separamos cinco itens que provam que Kendrick Lamar dominou o palco do Grammy como há muito não era visto:

1. Quando ele estabeleceu um paralelo entre as cadeias e a escravidão
Logo na abertura da performance, Kendrick deixou bem claro seu propósito no palco: o rapper entrou acorrentado, seguido de outros prisioneiros negros. Em volta deles, os músicos tocavam atrás de grades que simulavam uma prisão. Kendrick enrolou as correntes que o algemavam ao redor do microfone antes de começar a cantar. Foi impossível não associar a forma como os negros estavam caminhando enfileirados e acorrentados na cadeia com o tempo de escravidão, onde negros eram submetidos a esse mesmo tipo de tratamento. Vale lembrar que, de acordo com um estudo da socióloga Michelle Alexander, da Universidade de Ohio, há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850. A performance só melhorou: em dado momento, os bailarinos se livram das correntes e são iluminados com pinturas que remetem à herança cultural africana.

Imagem: Reprodução/ Youtube
Imagem: Reprodução/ Youtube

2. Quando ele foi o artista com mais indicações desde Michael Jackson em 1982
Indo além do que rolou no palco – e que não foi pouca coisa – vale lembrar que o cantor de 28 anos já havia grifado seu nome na história da premiação bem antes da cerimônia ao vivo. Kendrick Lamar, com um álbum orientado pela crítica ao racismo, conseguiu o feito de somar nada menos de 11 indicações. Essa quantia representa o segundo maior total de indicações acumuladas em um ano desde 1982, quando Michael Jackson recebeu 12 e levou oito prêmios para casa.

3. Quando ele celebrou a cultura negra em frente a uma enorme fogueira
Depois de usar o sistema carcerário norte-americano como plano de fundo para denunciar a realidade atual da comunidade negra nos Estados Unidos, Kendrick embarcou em uma celebração da herança africana. Com danças, cores e instrumentos característicos, o cantor mudou de cenário e se posicionou em frente à uma grande fogueira, cercado por outros bailarinos negros cobertos por trajes e pinturas típicas de festas e rituais africanos. Se Beyoncé já havia esfregado a herança cultural africana dos Estados Unidos durante sua apresentação do SuperBowl no dia 6 de fevereiro, Kendrick foi ainda mais didático ao passar a mensagem de que as raízes negras não serão esquecidas ou, muito menos, suprimidas.

Imagem: Reprodução/ Youtube
Imagem: Reprodução/ Youtube

4. Quando ele emendou as canções The Blacker the Berry e Alright
Não é difícil usar as canções de Kendrick para cutucar o racismo na sociedade, mas é interessante ver que, ao pegar dois de seus principais hits de 2015, o rapper conseguiu abranger vários pontos importantes na hora de falar de empoderamento negro. Se liga em trechos de The Blacker the Berry:

“Eu sou afro-americano, sou africano
Sou preto como a lua, herança de uma pequena aldeia
(…)
Meu cabelo é crespo, meu pau é grande, meu nariz é redondo e largo
Você me odeia, não é?
Você odeia o meu povo, seu plano é exterminar minha cultura
(…)
Você sabota minha comunidade, promove uma matança
Você fez de mim um assassino, a emancipação de um verdadeiro nigga”.

Em seguida, já em frente à fogueira, foi a vez dele entoar o hino Alright. Confere só alguns pedacinhos da canção:

“Você sabe, nós já fomos feridos, já fomos colocados para baixo antes, nigga.
Quando meu orgulho estava lá embaixo, olhando para o mundo tipo, ‘para onde nós vamos, nigga?’
E nós odiamos a polícia, ela quer nos assassinar nas ruas com certeza, nigga.
Eu estou na porta do pastor
Meus joelhos estão ficando fracos e minha arma pode disparar, mas nós vamos ficar bem”

5. Quando ele terminou a performance em frente ao mapa da África
Para encerrar a apresentação, Kendrick Lamar se despediu do palco com um mapa do continente africano grifado pela palavra Compton no meio. A palavra é uma referência não só ao bairro onde o rapper nasceu, mas também ao fato de o rap, manifestação cultural afro, ser uma das formas de manter viva a África nos Estados Unidos. O mapa com o nome da cidade californiana foi a forma que Kendrick encontrou de lembrar que, por mais que tentem dissociar os Estados Unidos da África, a herança existe e os dois continentes estão ligados para sempre. Não só pela herança genética, mas pela cultura – que não será mais apagada, seja nas ruas do Compton, seja no SuperBowl, seja no palco do Grammy.

Imagem: Reprodução/ Youtube
Imagem: Reprodução/ Youtube

Confira a apresentação do rapper no Grammy 2016:

Kendrick Lamar’s performance blew the audience away at the #Grammys.

Posted by Mashable – Entertainment on Monday, February 15, 2016