Mr. Brainwash

Por Camila Bahia Braga*

Podia ter sido só mais um dia azul na cidade dos anjos. Não lembro a que horas acordei e nem o vestido que escolhi para enfeitar minhas esquinas. Tanto posso ter comido o amado ravióli de espinafre do Enzo quanto engolido qualquer McDonald’s por falta de dinheiro.

Mas o final do meu dia foi um; um para ser lembrado. Peguei o ônibus em direção à Hollywood para assistir meu primeiro filme em 3D, em inglês, sem legenda. Chegando ao cinema – que não era nem o Chinese nem o Kodak Theatre, mas aquele que estava sempre meio vazio e todo amável –, encontrei uma parte do chão coberta de pôsteres coloridos. Meus olhos e espírito logo se enamoraram. Um moço escorava uma perna na parede, usava óculos escuros e um cigarro atrás da orelha. Eu fui puxar papo. Perguntei se o trabalho era dele, e dei-lhe os parabéns.

– Eu gosto de cores.

– Bem-vinda à Hollywood.

Ele me desbravava com os olhos e não queria falar de si; queria me dar os desenhos mais bonitos para eu trazer para o Brasil. Todo mundo podia pegar o que quisesse, era de graça. América Latina, faculdade, pipoca, Los Angeles. Os loucos nos ônibus, a diversidade cultural, as praias. A conversa fluía, mas eu precisava ir aprender como treinar um dragão desdentado.

O filme acabou e eu saía da sala destrambelhada com os tantos pôsteres que carregava. Lá fora, ele ainda se escorava na mesma parede, esquadrinhando as idas e vindas e o ar fresco de maio. Abriu um terno sorriso quando me viu. Recolheu os últimos pôsteres que restavam e fomos andando juntos até meu ponto de ônibus – noite caída. Falei de como eu queria que déssemos todos mais valor à arte, às cores, às ruas. Que ele era bom e vivo, e eu ainda ia ouvir falar dele. O mundo é povoado de sorrisos e os nossos podiam, por quê não?, se esbarrar de novo.

Ele disse que éramos iguais, gostando assim das pessoas. E que eu seria uma grande jornalista, porque sabia olhar. Coração só sabia sorrir em afeto.

Nunca perguntamos nossos nomes. Ele soube que eu gostava de passar as tardes conversando com qualquer coisa que se movesse em Venice Beach e eu soube que um de seus sonhos era grafitar as favelas do Rio. Na hora de dizer tchau, ele só escreveu seu nome artístico na palma da minha mão com uma caneta perdida em um bolso – que era para eu achar cor se um dia a vida precisasse de menos cinza.

Mr. Brainwash – eu li, quando já seguia para Westwood. Caminho longo, longas avenidas, noite serena, colorida, iluminada por dois pares de olhos que se cruzaram por qualquer sorteio do destino. Que energia boa a desse moço – pensei. Vou até olhar o nome dele no Google.

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*Camila Bahia Braga é jornalista, mora em Belo Horizonte, e escreve no blog  Para Ver Se Cola.
Ilustrações por Mr. Brainwash.

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