por Girrana Rodrigues

Foto: Felipe Cotrim

Foto: Felipe Cotrim

Imagine que você tivesse a oportunidade de voltar no tempo e pudesse reviver a época da rainha Vitória com direito a um bucólico chá da tarde – cheio de damas e cavalheiros; vestidos no melhor estilo dândi. Se você passasse no domingo (26) pelo Parque Ibirapuera teria se sentido exatamente assim. Homens com cartolas e mulheres com vestidos armados e espartilhos conversavam entre si, enquanto comiam frutas e bebiam chá. Não era nenhuma regravação de Sinhá Moça ou de Orgulho e Preconceito, mas sim a 5ª edição do Piquenique Vitoriano de São Paulo.

O evento acontece desde 2011, em São Paulo, e é organizado pelo professor de Língua Portuguesa Rommel Werneck, 27. Werneck estava impecável para o evento. Vestia uma blusa com babados e uma calça azul bebê feitas de crepe e cetim. Ele mesmo fez e customizou o traje que remetia aos Macaronis, homens muito vaidosos que viveram no século 18.

(Rommel posa para foto com uma maça verde, frutas são boa pedida para o evento/Foto: Felipe Cotrim)

Rommel posa para foto com uma maça verde, frutas são boa pedida para o evento (Foto: Felipe Cotrim)

Enquanto parava para cumprimentar os colegas do evento, o professor tentava explicar de onde surgiu a paixão pelo vintage. “Meu pai foi general nas décadas de 1930 e 1940 e eu cresci gostando de coisas antigas.” Em uma dessas buscas por informações da Era Vitoriana, na internet ele descobriu que piqueniques com o tema aconteciam no sul do país, em Curitiba, e em países como Alemanha e Itália. Por que não fazer um em São Paulo? Muitos dos seus amigos gostaram da ideia e logo no primeiro evento 50 pessoas compareceram.

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Apesar do nome, não é obrigatório se vestir como na Era Vitoriana. As roupas de outros períodos, como a Belle Époque (uma época de inovações artísticas e tecnológicas na Europa que durou de 1871-1914), também podem ser usadas. “A ideia é reviver. Aqui conseguimos nos sentir em outro tempo”, afirmou Werneck.

Até quem passava pelo local se sentia ambientado. Afinal, você podia ser fotografado por uma máquina lambe-lambe desembolsando 90 reais. O fotógrafo Dom Guedes, 48, ostentava um cachimbo enquanto uma ou outra pessoa posava para um retrato. “Essa câmera é herança de família. Eu a restaurei. Fotografar é uma forma de preservar o patrimônio histórico”, afirmou. Dom estava no piquenique pela primeira vez e foi levado pelos organizadores, já que seu trabalho com fotografias tinha tudo a ver com o clima.

Dom Guedes com uma típica lambe-lambe (Foto: Felipe Cotrim)

Dom Guedes com uma típica lambe-lambe (Foto: Felipe Cotrim)

Dom Guedes e seu filho com a câmera que é uma herança de família (Foto: Felipe Cotrim)

Dom Guedes e seu filho com a câmera que é uma herança de família (Foto: Felipe Cotrim)

Um pouco adiante, próxima a uma toalha florida repleta de taças e bolinhos, uma moça se olhava em um espelho com um penteado de ao menos 40 cm de altura e um navio de enfeite no topo. Era a rainha francesa Maria Antonieta, ou a personal cad Sileide da Silva Ferreira, 33. Primeiro vamos explicar o que um personal cad faz: ele desenha plantas e projetos animados em 3D para arquitetura e construção civil. Moderno, né? Mas o estilo de Sileide não tinha nada de geek. Com postura perfeita – provavelmente por causa do espartilho – Sileide explicou que a rainha foi a responsável por popularizar a moda dos penteados altos. “Quanto mais alto seu penteado, mais admirado ele era”, contou.

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Sileide Silva Ferreira se inspirou em Maria Antonieta para o traje do piquenique (Foto: Felipe Cotrim)

Sileide Silva Ferreira se inspirou em Maria Antonieta para o traje do piquenique (Foto: Felipe Cotrim)

Antonieta estava acompanhada. Não por seu marido Luís XVI, mas por Alexandre Fernandes, 39, seu namorado há cinco meses. Vestido com um colete e uma cartola, ele frequentava o piquenique pela primeira vez. “Quando nos conhecemos, eu vi as fotos dela caracterizada no Facebook e inicialmente achei que ela fizesse teatro. Depois descobri que não. Resolvi participar e estou gostando bastante.”

Alexandre Fernandes é namorado de Sileide e foi ao seu primeiro piquenique temático (Foto: Felipe Cotrim)

Alexandre Fernandes é namorado de Sileide e foi ao seu primeiro piquenique temático (Foto: Felipe Cotrim)

E não eram só os casais que estavam na vibe de se transportar para outro século. Se você caminhasse um pouco mais pelo local, poderia encontrar algumas famílias que estavam realmente a fim de sair da rotina. A professora Eliane Rose dos Santos, 51, e seu marido Silvio Lopes, 57, levaram o filho Lucas de oito anos para o encontro. Lopes disse achar importante resgatar os costumes antigos. “Chegamos aqui e as pessoas são tão educadas. Não é só a roupa, a polidez do ser humano também precisa ser admirada e recuperada.”

Eliane Rose dos Santos e seu marido Silvio Lopes apreciam os valores antigos e levaram o filho Lucas de 8 anos para o evento (Foto: Felipe Cotrim)

Eliane Rose dos Santos e seu marido Silvio Lopes apreciam os valores antigos e levaram o filho Lucas de 8 anos para o evento (Foto: Felipe Cotrim)

A auxiliar de enfermagem Selma de Carvalho, 47, já havia ido há outros dois piqueniques vitorianos com sua mãe de 72 anos. “Dessa vez ela não pode vir, mas trouxe meu filho e minha filha. Nós também já frequentamos o Encontro de Piratas que acontece todo ano em alguma praia no litoral brasileiro. Gosto de programas diferentes e adoro filmes e novelas antigas.” Selma contou que a saia que compunha seu look parecia de outro século, mas havia sido comprada em uma loja de produtos de umbanda. “É fácil montar uma roupa antiga.”

Família de Selma frequenta o Piquenique Vitoriano há 3 anos (Foto: Felipe Cotrim)

Família de Selma frequenta o Piquenique Vitoriano há 3 anos (Foto: Felipe Cotrim)

Otávio Henrique de Carvalho resolveu acompanhar a mãe a irmã no piquenique pela primeira vez (Foto: Felipe Cotrim)

Otávio Henrique de Carvalho resolveu acompanhar a mãe a irmã no piquenique pela primeira vez (Foto: Felipe Cotrim)

Otávio recomenda a Galeria do Rock em São Paulo para encontrar itens de época (Foto: Felipe Cotrim)

Otávio recomenda a Galeria do Rock em São Paulo para encontrar itens de época (Foto: Felipe Cotrim)

Apesar disso, muitas pessoas preferem mandar fazer as roupas em costureiros. A estilista Melissa de Vargas, 27, faz as vestimentas de alguns participantes e gosta de frequentar o piquenique. “Acho que essa paixão por coisas de época existe porque desde criança ouvimos histórias de conto de fadas. Eu também tenho muitas encomendas de encontros medievais, eles acontecem quase todo final de semana em diversos lugares.” Melissa fez a roupa de Paola Cartens, que frequenta o piquenique desde a 2ª edição. “Sou atriz e gosto de viver outros personagens. Aqui é como se eu incorporasse alguém em outra época.”

A estilista Melissa, à esquerda,  costurou o seu vestido e o de Paola, à direita (Foto: Felipe Cotrim )

A estilista Melissa, à esquerda, costurou o seu vestido e o de Paola, à direita (Foto: Felipe Cotrim )

Paola gosta de reviver personagens de época (Foto: Felipe Cotrim)

Paola gosta de reviver personagens de época (Foto: Felipe Cotrim)

O sol já estava desaparecendo do parque próximo das 16h. Cada qual com seu motivo, cerca de 50 pessoas vestidas a caráter estavam no local. Felizes. Uma das mais entrosadas era a professora de inglês Bonnie Huntterer, 28, que inspirou sua roupa no filme Moulin Rouge. Ela explicou bem o sentimento e os motivos da alegria do grupo. “Eu sinto que em outra vida vivi no tempo da Princesa Isabel. Quando eu vejo uma carruagem e uma coroa eu me emociono. Aqui eu sinto que encontrei pessoas que são como eu.”

Bonnie Huntterer acredita que em outra vida viveu na época da Princesa Isabel (Foto: Felipe Cotrim)

Bonnie Huntterer acredita que em outra vida viveu na época da Princesa Isabel (Foto: Felipe Cotrim)

 

Confira mais fotos do evento:

Uma exigência do evento é que sejam usados copos e garrafas de vidro para combinar com as roupas e a época; plástico não é permitido (Foto: Felipe Cotrim)

Uma exigência do evento é que sejam usados copos e garrafas de vidro para combinar com as roupas e a época; plástico não é permitido (Foto: Felipe Cotrim)

Leques e espartilhos fazem parte da maioria dos figurinos (Foto: Felipe Cotrim)

Leques e espartilhos fazem parte da maioria dos figurinos (Foto: Felipe Cotrim)

A estilista Melissa e sua mãe frequentam o evento todos os anos (Foto:Felipe Cotrim)

A estilista Melissa e sua mãe frequentam o evento todos os anos (Foto:Felipe Cotrim)

Foto: Felipe Cotrim

Foto: Felipe Cotrim

Foto: Felipe Cotrim

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(Foto: Felipe Cotrim)

(Foto: Felipe Cotrim)