por Xenya Bucchioni*

Meu pai, Enio Bucchioni, é um dos sobreviventes do Estádio Nacional do Chile. Eu era menina e costumava brincar com seu anel dourado de pedra azul. Durante muito tempo esse anel era, para mim, apenas um anel – até o dia em que descobri o seu verdadeiro dono. Um outro brasileiro também sobrevivente do golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende e colocou o general Augusto Pinochet no comando do país.

 Setembro de 2013. Pesquiso na internet o nome “Dirceu Messias”. Até este momento, Dirceu era, para mim, personagem das muitas histórias que meu pai conta sobre o exílio. Tudo o que eu sabia era que ele havia sido um dos poucos operários brasileiros a se refugiar no Chile de Allende e a vivenciar os horrores do campo de concentração que se tornou o Estádio Nacional. E ficaria nisso, se eu não tivesse acessado o blog do Comitê Carlos de Ré da Verdade e Justiça e descoberto que Dirceu fora barrado no aeroporto de Santiago e impedido de entrar no Chile para acompanhar, junto à delegação brasileira, o evento de descomemoração dos 40 anos do golpe.

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Para a minha surpresa, na área de comentários, deparei-me com uma mensagem deixada por meu pai dias antes do meu acesso ao blog. Nela havia um pedido de ajuda para que ele pudesse se comunicar com Dirceu. Mas não só. As linhas registradas levam-me a setembro de 1973 e contam que:

“Dirceu estava muito mal fisicamente. Eu tive mais sorte, pois ‘apenas’ um soldado que me prendeu cortou levemente minha perna com a ponta de sua baioneta. Foi um corte superficial, com o tempo, cicatrizou. Ao ver Dirceu naquele estado crítico, com vários soldados perto de nós, apenas apertei sua mão e lhe disse: ‘Aguente firme, amigo!’

Vi que Dirceu se emocionou e ele me passou um anel que ele usava em seu dedo e me disse: “Fica com ele, amigo”. Entendi que Dirceu pensava na possibilidade de ser morto. Ao me dar seu anel, entendi que deveria levar esse anel para sua família caso ele morresse”. Vale lembrar que 3,065 pessoas foram assassinadas pela ditadura chilena e mais de 30.000 foram torturados.

Ao contrário do que eu sempre imaginara, o encontro entre os dois não acontecera nas dependências do Estádio Nacional, mas sim no Ginásio do Chile, onde Dirceu foi barbaramente torturado. Após esse rápido diálogo, que até então eu desconhecia, os dois jamais voltaram a se ver. Ambos foram encaminhados ao Estádio Nacional e, ali, permaneceram meses sem, contudo, terem se cruzado uma única vez. De lá, meu pai foi expulso para a França e Dirceu para a Suécia.

Agosto de 2015. Pouco mais de quatro décadas depois desse episódio, os labirintos da memória seriam, novamente, percorridos. Mas, dessa vez, eu é que estaria frente a frente com Dirceu para lhe devolver o anel. Aquele mesmo anel dourado de pedra azul que, nas minhas lembranças de infância, me escorregava pelos dedos finos de criança. Histórias que se cruzam. Histórias de vida. Histórias do exílio – e do Brasil. “Histórias em aberto que, às vezes, um simples anel ajuda a fechar; ou um poema, uma carta, um risco na parede que diante da presença da morte se convertem em toda a herança, todo o amor e a recordação de quem morreu por um segundo ou para sempre”[1].

[1] Um dia antes de terminar este texto, recebi por e-mail este trecho que consta no livro “Frazadas del Estadio Nacional”,  de Jorge Montealegre I. Por coincidência, também se trata da história de um anel, no caso, uma aliança na qual se lê: Kristina Gunster D.,  10/02/62. O dono, no entanto, não sairia vivo do vestiário.


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*Xenya Bucchioni é jornalista, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.
Foto: Belizean Man.