por Tatiane Rosset

Você provavelmente já ouviu falar da marca de cosméticos americana Mary Kay. Mas, mesmo que não saiba quem são as representantes da empresa no Brasil, a chance de já ter cruzado com um dos 800 chamativos carros cor-de-rosa que circulam pelas ruas do país é grande. Símbolo do estilo de vida dessas mulheres “barbies”, que vendem maquiagem no esquema porta a porta, como outras grandes empresas do ramo, o carro é só a parte mais aparente de uma organização controversa, que atrai cada vez mais seguidoras.

Uma delas é Marcia Ovalle, há mais de dez anos uma Mary Kay woman e uma das 64 diretoras nacionais da marca no país. Em 1998, quando a empresa chegou por aqui, a executiva, que trabalhava como tradutora em uma multinacional, não tinha nenhum conhecimento sobre maquiagem ou cuidados com a aparência. Resolveu entrar no negócio em 2001, com o objetivo singelo de poder passar mais tempo com as filhas. “Trabalhamos provavelmente as mesmas oito horas que todo mundo, mas a flexibilidade permite que tenhamos outras prioridades”, explica.

Hoje, aos 55 anos, ganha um salário que varia entre 30 mil e 100 mil reais por mês e, como ela mesmo define, foi contaminada pela causa: sua aparência é retocada por pós-compactos e blushes de cinco em cinco minutos, o salto alto é padrão, e o visual, sempre profissional e moderno, ainda que um tanto caricato. Simpática, não perde a oportunidade de conquistar novas clientes e mirar em consultoras em potencial – distribui cartões, tratamentos faciais gratuitos e fala com convicção de como a marca de cosméticos foi a melhor coisa que já aconteceu na sua vida: “Mary Kay tem o poder de enriquecer a sua história, de fazer você sonhar, renovar a sua vida”, diz, como uma adolescente apaixonada.

HERDEIRAS DA MAQUIAGEM

Tanta empolgação, veja só, também contaminou suas filhas gêmeas, Karen e Carolina. Aos 26 anos, as jovens já ostentam o status de diretoras seniores da marca – a trajetória começou aos 20, enquanto estavam na faculdade, após muita insistência da matriarca. Na época, o dinheiro que recebiam graças aos produtos de beleza servia para cobrir pequenas despesas que os salários dos estágios, pouco remunerados, não davam conta.

Aos poucos, perceberam que as vendas em sala de aula eram lucrativas e passaram a acreditar no potencial rosa. “Entendi que a Mary Kay era um negócio quando comecei a ganhar dinheiro”, conta Carolina, formada em psicologia e dona do tal carro cor-de-rosa, há pouco mais de dois meses. “É uma oportunidade de ganhar a vida, conquistar os meus sonhos e, ao mesmo tempo, ter a oportunidade de fazer o meu horário”, completa Karen, graduada em publicidade e propaganda. Atualmente, as duas coordenam equipes com cerca de 80 pessoas.

Ambas dão aulas e ensinam novas consultoras a ganharem dinheiro – ajudando, é  claro, a transmitir também a paixão doente pela marca. Em comum, o visual impecável e o salário mensal entre R$ 15 mil e R$ 20 mil. Carolina, a mais direta da dupla, gosta de exaltar as conquistas materiais que a marca proporcionou na sua vida: “A Mary Kay me trouxe muitas realizações pessoais e materiais. A gente compra, a gente casa, a gente viaja…tudo graças à ela”.

O SEGREDO DO NEGÓCIO

Fundada em 1963 nos Estados Unidos pela empreendedora Mary Kay Ash, a marca tem como missão “enriquecer a vida das mulheres”. Presente em 35 países atualmente, a empresa conta com mais de 3,5 milhões de consultoras de beleza independentes. Só no Brasil, são 320 mil homens e mulheres que vendem seus produtos. No ano passado, o país registrou um crescimento de 147% no número de vendedores, e o mercado nacional de cosméticos, um dos maiores do mundo, surpreendeu tanto os diretores que eles planejam investir cerca 300 milhões por aqui neste ano. E todos esses números só são possíveis porque as representantes da Mary Kay também são excelentes garotas-propagandas delas mesmas: “Além de vender um produto, a gente vende uma imagem”, admite Carolina.

Sem nenhum vínculo trabalhista, as consultoras são remuneradas de acordo com o que vendem. “Se não vendi um batom este mês, não ganho nada, mas ao mesmo tempo não bati cartão”, explica Karen. Para incentivar as companheiras de luta, a empresa oferece prêmios para quem se destaca. Os mimos? Jóias, relógios, bolsas de grife, óculos escuros e, em alguns casos, até viagens internacionais. Mas a parte mais importante do negócio é o recrutamento de pessoas. A cada novo “pequeno empreendedor” cadastrado no nome de uma das representantes, a mesma sobe de cargo na empresa e, a partir de três novas protegidas, é possível garantir um bônus de 4% referente às compras de cada uma. Um negócio que é apontado por muitos como um sistema de pirâmide, ilegal de acordo com a legislação brasileira. “Esse modelo segue a ideia de uma pirâmide em que a base é responsável pela sustentação do topo. Então, o empresário que está em cima incentiva o recrutamento de mais pessoas para ingressarem no sistema e assim por diante. A cada pessoa nova, o modelo determina uma meta para recrutar novas pessoas e esses novos integrantes também recebem a mesma orientação”, explica Bruno Boris, professor de Direito do Consumidor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

VÍRUS COR-DE-ROSA

Faz sentido, portanto, que as representantes da Mary Kay se preocupem muito mais com a aparência do que você. A imagem é importante não só porque elas vendem produtos de beleza, mas porque elas também comercializam uma ideia, um sonho, uma carreira. “É muito difícil ver alguém que não se encaixa nessa imagem. A pessoa se sente até um pouco excluída. Mas ela vai se adaptando e você vê a transformação da consultora quando ela entra e quando ela literalmente vira uma Mary Kay”, explica Karen sobre como as novatas acabam se adaptando aos padrões de beleza propostos pela empresa.

Claro que nem todas compram a história das mulheres perfeitas. A estudante Stephanie Vapsys, 19 anos, fez parte do negócio por um ano e acabou desistindo: “Como se trata de uma marca de maquiagem, há uma exaltação muito grande da aparência. Não só em estar sempre bonita como também provar ser superior. E isso não faz muito meu estilo”.  A família Ovalle, porém, garante que não existe competição. “Na Mary Kay a gente diz: ‘Quantas mulheres são necessárias para trocar uma lâmpada? ’; a resposta são cinco, uma para trocar e quatro para aplaudir”, conta Carolina.

De alguma forma, a ideologia e as ambições dessas representantes vão se espalhando pelo Brasil e contaminando jovens de todas as idades, quase como uma lavagem cerebral. “A gente é realmente muito apaixonada. Chamamos isso de vírus pink”, finaliza Marcia, cheia de orgulho da prole. “Todo mundo quer uma filha Mary Kay.”