por Rafael Gonzaga

Há alguns anos, acompanhar séries internacionais era um exercício de paciência para os fãs brasileiros. A distância entre o lançamento no exterior e a exibição em solo nacional podia durar dias, semanas ou até meses. De uns anos para cá, esse intervalo temporal diminui consideravelmente, rolando até estreias simultâneas por aqui em relação aos países de origem dos seriados. Mas durante esse tempo todo em que as séries demoravam demais para chegar – ou nem chegavam –, o pessoal dava alguns pulos para se manter atualizado e evitar spoilers gringos nas redes sociais. Não é novidade para ninguém que, com a presença onipresente da internet, basta um produto digital ser lançado para que cópias não-autorizadas pipoquem em vários sites. Confessa, vai: se você nunca baixou nada na internet, no mínimo conhece uma dezena de pessoas que faz isso regularmente. E quem está acostumado já a essa dinâmica de correr para o computador no dia seguinte ao lançamento de alguma série ou filme nos Estados Unidos, talvez nunca tenha se dado conta de onde exatamente vêm as legendas traduzidas muitas vezes em menos de 24 horas.

Sim, é claro que essas legendas não-oficiais não vem junto com os arquivos em vídeo não-oficiais. Como só os vídeos que vêm do exterior não são o suficiente para alcançar um grande público dentro do Brasil, devido à barreira do idioma, os próprios fãs começaram a se mobilizar em prol de colaborar substancialmente para que esse conteúdo se tornasse acessível. São os legenders, os caras que criam legendas não-oficiais das séries e, em alguns casos, de filmes. Só que, dentro do contexto nacional, produzir legendas para tanto conteúdo não é exatamente uma tarefa fácil. Em 2015, um estudo colocou o Brasil em segundo lugar em um ranking de países que fazem downloads de conteúdo por meio de redes peer-to-peer. A pesquisa feita pela consultora Tru Optik apontou que os internautas do país, registrados em mais de 71 milhões de endereços IPs, realizaram mais de 1,1 bilhão de downloads dessa forma em 2014, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. A explicação para isso está em uma série de fatores que vão desde a já comentada lentidão na chegada de conteúdo oficial no Brasil até a barreira financeira dos canais pagos.

Imagem: Reprodução/ YouTube

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Quem consome esse conteúdo que é distribuído sem autorização pela internet já conhece alguns grupos pelos nomes que aparecem no começo e no fim das legendas: InSUBs, que carregam o lema “Qualidade é inSUBstituível”, e os “diabolicamente maníacos” ManiacSubs são alguns deles. O primeiro cuida das legendas de séries populares como American Horror Story, Arrow, The Good WifeGrey’s Anatomy, Scandall e até The Simpsons. Já o segundo grupo toca as legendas de superproduções como How To Get Away With MurderModern Family e Supergirl, entre outras. Parece muito trabalho – e é –, o que faz com que as pessoas que consomem esses arquivos traduzidos se perguntem o que essa galera ganha com isso. A resposta é: nada. Quer dizer, nada do ponto de vista financeiro. Um fator no qual todos os grupos de legenders concordam é que a prática de legendar é um hobby. Ou seja, os caras fazem de graça essa trabalheira toda, consumida por milhares de pessoas, só pelo prazer de colaborar ativamente com alguma série ou de aperfeiçoar o inglês.

Organização, disciplina e qualidade na legenda

O ManiacSubs, por exemplo, surgiu a partir de um grupo de amigos que jogava RPG e mantinha um site de download de séries que, em um dado momento, resolveu arriscar legendar séries que não tinham tradução em texto. O site de downloads surgiu em 2008, mas a equipe de legendagem foi criada oficialmente em junho de 2009. Atualmente, o grupo é composto por 67 membros, divididos hierarquicamente em 14 revisores, dos quais três ainda estão em treinamento; 13 novatos em período de experiência; dois moderadores; e um administrador. Já a galera do InSUBs tinha um pouco mais de experiência na área. O grupo foi criado em função do fim de outro site que fazia legendas. Após o encerramento das atividades, alguns amigos resolveram se juntar e tocar o projeto do InSUBs. O grupo completa nove anos em 2016 e conta com algo entre 40 e 50 membros ativos, divididos entre rookies, como eles chamam as pessoas que estão aprendendo a legendar, os membros efetivos, os revisores e os administradores. São três os administradores do grupo, que atendem pelas alcunhas de Penélope, Billy e Floydz.

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Penélope conta que a rotina dentro do InSUBs envolve uma logística um pouco complexa, mas onde, no fim das contas, todo mundo sempre acaba se entendendo. “Nós fazemos parte de uma grande comunidade de legenders, o Legendas.TV. Os administradores desse grupo gerenciam as séries e determinam quem vai legendar o quê, de acordo com as preferências de cada equipe de legenders. Então, quando uma série é passada para uma equipe, ela se compromete a fazer todas as legendas dessa série até que a mesma acabe. E com o prazo de até uma semana para entregar cada novo episódio traduzido (senão viraria uma bola de neve, já que cada semana tem episódio novo). Dentro da InSUBs, cada revisor se torna responsável pela série que ele cuida e a administração supervisiona tudo isso”, explica.

Imagem: Reprodução/ YouTube

Imagem: Reprodução/ YouTube

O pessoal do ManiacSubs também é parceiro do Legendas.TV. O mais importante dessa relação é evitar trabalho dobrado: é isso o que garante que apenas uma equipe parceira faça a legenda de uma série específica. A cada início de temporada eles recebem uma lista das séries disponíveis e, a partir dela, fazem uma análise interna de interesse e disponibilidade, tanto de legenders quanto de revisores. “Nós utilizamos uma tabela no Google Spreadsheets com uma planilha para cada série. A planilha é aberta por volta de uma semana antes da exibição do episódio e daí os legenders podem preencher com seus nicknames para ajudar na legenda. Cada episódio possui sua divisão específica que depende do tipo de série, mas basicamente é feita a divisão de ‘slots’, que costumam ter entre cinco e sete minutos cada. Os legenders preenchem esses slots e entregam a legenda, com tradução e sincronia nos padrões da equipe, até um prazo que costuma ser entre 12 e 36 horas após a exibição. Depois disso, todos os slots são unificados e passam então por duas revisões”, explica Caiol, um dos membros da comunidade do ManiacSubs.

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E fazer parte desses grupos não é exatamente uma tarefa simples. Para entrar na equipe do pessoal da ManiacSubs, os interessados precisam preencher o formulário e entregar um teste básico de avaliação de português e inglês. Inicialmente, eles não exigem que o novato saiba sincronia, mas caso role a aprovação e a pessoa não saiba sincronizar texto e áudio, eles mesmo fazem um treinamento para ensinar sincronia e padrões de legendagem. Tempo disponível é outra coisa fundamental. O ideal é que se tenha pelo menos quatro horas diárias disponíveis, visto que eles explicam que um novato leva, em média, entre três e seis horas para finalizar um trecho. E essas quatro horas precisam estar concentradas até as 19h, pelo fato de que as legendas dos caras costumam estar prontas até esse horário do dia seguinte à exibição original da série. Mas tanta exigência para gastar o tempo legendando série? Para Caiol, não existe a ideia de perda de tempo quando se está fazendo algo que dá prazer. “Eu pessoalmente comecei na ManiacSubs para aperfeiçoar meu inglês; era uma oportunidade legal de fazer isso assistindo às séries que eu gosto. Ainda hoje aprendo cada vez mais com os desafios de séries novas e de temáticas diferentes. Além disso, é prazeroso poder usar esse conhecimento para contribuir com tantas outras pessoas”, conta.

Acusações de incentivo à pirataria

Apesar de toda a dedicação e amor dos fãs pelas séries e filmes legendados, a questão é um pouco mais complexa do que parece do ponto de vista legal. Em 2009, por exemplo, o InSUBs teve alguns problemas com a Associação Antipirataria de Cinema e Música (APCM) por conta da ideia de que o conteúdo produzido pelos caras é uma das etapas que viabilizam o consumo de cópias pirateadas. Na ocasião, o órgão entrou em contato diretamente com os provedores norte-americanos que hospedavam to site do grupo e a medida foi suficiente para que  o serviço fosse cancelado nos Estados Unidos. Para continuar mantendo a atividade, os caras transferiram os arquivos para um servidor no Canadá, visto que o país que não possui leis específicas que sejam contrárias à distribuição de materiais como legendas amadoras.

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Para Ygor Valerio, vice-presidente jurídico da divisão latino-americana da Motion Picture Association of America (MPAA), a questão passa por alguns pontos necessários de serem avaliados. Valerio explica que nos termos da lei de direito autoral vigente no país, a legendagem de obras, ou seja, a tradução, depende de autorização do titular dos direitos. Sem essa autorização, a tradução colocada em disposição do público é uma violação dos direitos autorais, de acordo com o inciso IV do artigo 29 da lei nº 9.610. “Existem alguns aspectos que merecem ser destacados. Um aspecto importante é que os movimentos de fãs que traduzem obras e que fazem legendas demonstram algo muito interessante, que é o amor dessas pessoas por produtos audiovisuais, principalmente séries. É o sujeito que gosta tanto da série que quer contribuir. Desse ponto de vista, é uma atividade interessante que, em alguma medida, mostra o quanto um produto audiovisual está sendo bem recebido. A questão toda do problema é que, mesmo sem saber, essas pessoas acabam sendo uma etapa muito importante da distribuição de conteúdo pirata. Na legendagem das obras, acaba acontecendo que a série copiada ilegalmente fora do país passa a ser consumida aqui dentro, pelo público brasileiro. Ou seja, elas acabam virando uma etapa importante no sucesso da pirataria. Isso causa impactos muito grandes, reduzindo a prosperidade e a própria viabilidade do negócio audiovisual”, conta.

Imagem: Reprodução/ Facebook

Imagem: Reprodução/ Facebook

Caiol conta que o ManiacSubs nunca teve problemas relacionados a essa questão, no máximo alguns vídeos de trailers legendados bloqueados no YouTube. “Sinceramente, acho que sou indiferente quanto a quem acredita que a legendagem desse tipo seja um incentivo à pirataria. Comecei a legendar bem depois da prática de legendagem existir, e acredito que esse compartilhamento pela web surgiu por conta da demanda pelo conteúdo que não foi sanada pelas fornecedoras de TV e acabou parando na Internet. Como consequência e pela necessidade, surgiram os legenders”, diz. E Penélope, do InSUBs, faz coro ao rapaz. “Eu comecei a fazer legendas porque queria assistir um filme e não encontrava nada na internet. Aí, fiz tudo sozinha, vi que dava um trabalho enorme, e resolvi entrar em uma equipe para ajudar o pessoal. Isso foi em 2008, e desde então continuo firme e forte na InSUBs. Hoje, eu legendo porque acho que esse conteúdo deve ser acessível a mais pessoas. Já chorei algumas vezes ao ler comentários do tipo: ‘poxa, as legendas de vocês salvam a minha vida. Eu sou surdo, e sem elas eu não conseguiria ter passatempo algum’. É muito legal sabermos que as nossas legendas podem ser tão importante para certas pessoas. Por isso, eu continuo”, pontua a jovem.

No geral, a comunidade costuma ser bem grata aos caras que facilitam o consumo desse conteúdo em um modelo que funciona mais barato e mais eficiente do que o convencional – ainda que role toda essa discussão sobre se é algo legal ou não. Tanto nos sites dos grupos quanto nas páginas oficias de Facebook, chovem elogios e agradecimentos ao serviço prestado. Ocasionalmente, rola também uma pressãozinha. Mas nada que os heróis, ou anti-heróis das legendas, não consigam resolver. “Cada vez mais as pessoas querem a legenda “pra ontem”, e não entendem que os legenders fazem as legendas no tempo disponível, é um hobby pra gente. Então muitas vezes vem alguém reclamar que a equipe X faz a série Y em menos de 24h, enquanto tem dois dias que o episódio foi ao ar e não saiu legenda nossa ainda. Bom, os legenders têm vida, como costumamos dizer. Trabalham, estudam, namoram, praticam atividades físicas. E legendam. Então a nossa resposta sempre é: estamos dentro do prazo de sete dias. Se está com tanta pressa, pode aprender a falar inglês para não precisar das nossas legendas”, encerra a jovem.