por Rafael Gonzaga

Imagina trabalhar recolhendo meias recém usadas e carregadas de chulé ou então ensacando os pés de voluntários para capturar o mau cheiro dos pés humanos? Pois é esse o trabalho da holandesa Renate Smallegange, especialista em chulé. De acordo com uma matéria publicada pela BBC, o motivo de Smalleganze trabalhar com esse tipo de objeto desagradável é muito nobre: a luta contra o mosquito transmissor da malária. Segundo uma matéria divulgada nesta segunda-feira (3), o odor ruim que exala dos pés é um forte atrativo ao inseto responsável por transmitir a infecção que causa a morte de mais de 580 mil pessoas anualmente, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Segundo a reportagem, um dos primeiros pesquisadores a descobrir que determinadas espécies de mosquitos transmissores da malária curtem um chulé foi o cientista holandês Bart Knols. Smallegange absorveu o conteúdo reunido por ele e vem trabalhando nesta linha de pesquisa pela Universidade de Waganingem, na Holanda. Uma das descobertas da estudiosa foi que o parasita da malária parece alterar a percepção olfativa dos mosquitos fazendo com que eles passem a se sentirem atraídos por pés com mau cheiro. O mecanismo levaria, portanto, o mosquito a picar seres humano, fazendo com que o parasita pudesse continuar seu ciclo de vida dentro do corpo de alguma pessoa.

Foto: Joan Sebastián Araújo/ Creative Commons

Foto: Joan Sebastián Araújo/ Creative Commons

Em função disso, Smallegange se dedica a tentar mapear as bactérias que vivem dentro dos nossos sapatos para tentar descobrir quais são as que causam o tal aroma não muito agradável. Aliás, uma coisa é certa: é quase inevitável que nossos pés exalem algum odor, visto que uma pessoa normal concentra cerca de 600 glândulas sudoríparas por centímetro quadrado na região. Estas glândulas são responsáveis por secretar sais, glicose, além de vitaminas e aminoácidos, combinação ideal para alimentar uma colônia de bactérias. A pesquisadora já conseguiu perceber que determinadas combinações de bactérias tendem a atrair mais ou menos mosquitos por conta do cheiro: pessoas com mais estafilacocos, um gênero de bactérias, tendem a chamar mais atenção dos insetos voadores.

Segundo a BBC, combater essas bactérias seria também combater a própria malária. Além disso, uma opção também seria montar armadilhas com meias usadas, visto que cheiro do chulé pode ficar entranhado nelas por até oito dias. Contudo, não se sabe ainda com exatidão qual a eficiência dessas ideias na proteção efetiva contra a malária. Para testar como esse conhecimento impactaria no combate à doença, a ilha de Rusinga, no Quênia, está recebendo um pequeno testa para investigar se armadilhas desse tipo seriam suficientes para matar ou, pelo menos, distrair uma quantidade significativa de mosquitos a ponto de reduzir a quantidade de picadas e de infecções.

Além diss, Smalleganze teria a esperança de conseguir reproduzir o mau cheiro de forma sintética através do uso de ácido isovalérico junto a outras substâncias. As iniciativas que estão sendo feitas são, pelo menos, úteis para detectar a presença de mosquitos transmissores em uma região. Ou seja, o chulé pode ser incômodo, mas pode ser também muito útil para salvar vidas.