por Felipe Germano

Confesso que não sou grande fã da Björk, tampouco conhecedor da música islandesa em geral. Claro que para fazer essa matéria pesquisei sobre as duas coisas.  Descobri que a cantora teve uma fase punk nos anos 1980, que sua música Human Behavior é um sample de Go Down Dying, do Tom Jobim, e que em junho os islandeses comemoram o dia do Marinheiro – mas não acho que isso faz de mim um especialista.

Em todo caso, acho os clipes da islandesa muito bons. Wanderlust é uma obra prima. Então, quando me ofereceram a chance de usar um óculos de realidade virtual para entrar dentro de um vídeo da cantora, eu topei.

A instalação Stonemilker VR ficou no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS- SP), durante o final de semana (6 e 7). Nela, você é equipado com o já citado óculos e mais um fone de ouvido para ter uma visão 360° de uma praia, enquanto a Björk canta, só para você, a música homônima à experiência. Stonemilker faz parte do seu novo álbum,

Assim que entrei na área do projeto, pediram para eu retirar meu óculos de grau. A ideia é um pouco óbvia, porque colocaria um óculos de realidade virtual, e as aulas de física já haviam me contado que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, principalmente quando esse corpo é a minha cara. O ponto é que, ao colocar o equipamento, me encontrei num lugar cheio de estrelas e com alguns quadrados flutuantes com coisas escritas. A moça, que me orientava, pediu para eu ficar olhando para a tela que estava escrito “start”, mas eu não conseguia ler. Tudo se resolveu quando ela disse que era o quadro azul. Isso eu conseguia ver. Tudo ficou escuro. Quando as luzes acendem, estou numa praia deserta, ou melhor, quase deserta, já que a Björk está a dois palmos do meu rosto.

A primeira reação natural é olhar ao redor. Conforme você vira para os lados, é possível ter uma visão geral da paisagem. A segunda reação natural é voltar para o lugar onde a cantora estava, para checar se ela continua ali. Ela estava. Com os olhos meio arregalados. Fiquei levemente assustado.

Björk começou a andar, e fui me virando para acompanhar, enquanto tentava entender que, apesar da paisagem linda na minha frente, eu ainda estava numa sala com outras quatro pessoas passando simultaneamente pela mesma experiência. Movimentos bruscos podiam acarretar em um trombão. Aparentemente eu era o único preocupado com isso, já que, durante duas vezes, senti aquele ventinho que só surge quando alguém passa rápido a menos de um centímetro da sua cara. Na terceira vez uma mão bateu no meu ombro e eu só não fiquei bravo porque a cantora islandesa me olhava com compaixão naquele momento.

Depois de quase dois minutos de vídeo, quando você está começando a se acostumar com tudo aquilo, as coisas começam a ficar ainda mais loucas. Björk anda para o lado, e de trás dela surge uma nova Björk. Fico confuso para saber qual eu vou olhar, escolho a que fica mais perto de mim, porque já estou me sentindo meio íntimo.

Aos 2:36 minutos de Stonemilker, Björk para de cantar e, por 18 segundos, apenas a orquestra que toca melodia é ouvida. É exatamente nesse momento que a experiência tem uma mudança significativa: uma das Björks some lentamente, a outra vira de costas e começa a andar para o horizonte. A tela escurece, e quando reacende estamos em outro lugar. A locação ainda é uma praia, mas dessa vez não estamos na areia, e sim em um rochedo, com um farol no horizonte. Tento olhar até onde as pedras vão, mas, como já disse, estou sem óculos e as rochas do fundo são só borrões. Björk está ficando super próxima do meu rosto agora. Acho que estamos ficando amigos.

Começo a tentar descobrir quais são os limites dessa maravilha tecnológica. Tento andar, para ver se eu me aproximo da cantora, mas ela não para de se mexer então fica difícil medir as distâncias. Demorou bastante até eu ter a ideia de olhar para o chão, e usar o solo como referência fixa. Descobri que, mesmo se corresse bastante, Björk sempre estaria há alguns palmos de mim, sem contar que provavelmente eu bateria em alguma parede.

Nesse novo cenário, o diretor Andrew Thomas Huang se permite surtar. Quando eu percebo, já tem três Björks ao meu redor. Elas dançam freneticamente, e em alguns momentos, quase se esbarram. O mais legal é que, independente de qual eu escolho olhar, ela parece estar curtindo a própria canção, enquanto passa aquele tempo comigo.

A melodia vai ficando mais aguda e denuncia que o tempo da experiência está acabando. Pouco a pouco, as réplicas vão sumindo. Volto a ficar só com uma Björk. Ela olha nos meus olhos, balança a mão como quem diz tchau. A tela vai escurecendo, e eu volto para aquele lugar cheio de estrelas com quadrados flutuantes, do começo. Faço o sinal para retirarem o equipamento de mim. Uma moça tira o óculos do meu rosto, e lembro que estou no MIS, que meu óculos está no meu bolso, por isso está tudo absurdamente desfocado, e que, agora, vou sentir falta de estar pertinho da Björk.

A cantora disponibilizou, também nesse fim de semana, a experiência para ser feita no Youtube. Não vou mentir, é muito mais legal com o óculos, mas quem quiser matar a curiosidade, use as setinhas para se movimentar nesse vídeo aqui: