por Rafael Gonzaga

Dezembro costuma aflorar o que há de melhor em todos nós. Conforme vai chegando o Natal, as pessoas se sentem mais estimuladas a ajudar os mais necessitados, a olhar os outros com menos julgamentos e a pensar como poderia ser um membro mais útil dentro da sociedade. Para pessoas como Nildes Mattos Nery, o Natal é só a cereja do bolo. Passando grande parte do seu tempo em um ambiente considerado muito inóspito, a Cracolândia do Centro de São Paulo, Nildes dedica sua vida à missão de dar um tratamento mais humanitário aos moradores de rua viciados no crack. Através do projeto Ação Retorno, ela e o marido, Jair Nery, atuam sem medo e sem preconceito em um contexto ignorado pela maioria das pessoas. Após passarem o ano inteiro em contato direto com os moradores de rua, é na semana do Natal que eles lideram a organização de uma ceia com muita comida, música e sorrisos.

O que Nildes e Jair fazem no Ação Retorno é, basicamente, implementar ações concretas de prevenção, tratamento, recuperação e reinserção social de pessoas com dependência química. Na prática, eles oferecem todo tipo de assistência social e psicológica, sempre alinhados na ideia de manter um relacionamento de cordialidade com os usuários de crack. “A minha relação com eles foi construída na base da amizade. Relacionamento de confiança e amizade. Eu abraço, eu beijo, brigo. Eles sabem que é com amor. É uma conquista muito grande ter a confiança deles, não só para mim, mas para toda a minha família. Isso aqui é construído no dia a dia, não é fácil”, conta Nildes.

E não parece ser mesmo, ainda mais para quem tem uma história como a dela. Baiana, Nildes veio de Salvador para o bairro da Liberdade, São Paulo, em 2005, mas na Bahia ela já realizava um forte trabalho social vinculado à igreja evangélica. Ela e o marido, casados desde 1987, já atuavam em zonas pobres e de risco por lá, quando, em 2004, foram convidados pelo ministério da Igreja a qual eram vinculados para ir até São Paulo. O que eles não sabiam é que, com uma filha de 11 anos e outra de 15, a família iria passar a morar no local conhecido em São Paulo como Boca de Lixo, onde fica a Cracolândia. O local onde Nildes e a família morava ficava exatamente ao lado de um bordel. Ao invés de se assustar com a realidade brutal ao seu redor, Nildes resolveu que aquele problema social era também um problema dela e começou um trabalho independente à igreja em função de ajudar aquelas pessoas. Foi assim que surgiu o projeto Ação Retono.

Para o almoço de Natal, foram disponibilizadas 800 quentinhas, além de salada de fruta e refrigerantes. Em uma tenda localizada ao lado da rua onde a maior parte dos usuários de crack fica, área conhecida como fluxo, Nildes liderava a organização do local com enfeites, toalhas de mesa coloridas, cartazes e um espaço para apresentações musicais. “O Natal significa pra mim nascimento, o recomeço, a vida de Jesus. Eu lembro muito da minha história, eu não venho de uma família estruturada, com Natal, com festa, com comida e mesmo assim sempre entendi que, mesmo não tendo muito, sempre posso dar um pouquinho. Sou filha de mãe solteira, não conheci o meu pai. Tenho 25 irmãos. Eu posso dizer para você que eu sei o que é passar fome, mas sei que, mesmo não tendo recursos financeiros, eu tenho pernas e braços, então eu posso dar alguma coisa. Talvez não seja muito, mas eu posso. O Natal para mim é isso, é mais do que solidariedade, é vida”, diz.

Mas, às vezes, o corpo acaba dando sinais de cansaço. Para Nildes, se dedicar à Cracolândia não é só dar palavras de apoio e comida. E, nessa empreitada de viver de fato os dramas dessas pessoas, Nildes acabou tendo um infarto no dia 29 de abril deste ano. Hoje, olhando para trás, ela acredita que o motivo do ocorrido foi uma sobrecarga de eventos pesados. Em um deles, ela foi resgatar um rapaz que estava se drogando em um quarto de motel e, na volta, teve o van interceptada por pessoas que queriam assassinar o homem. Em outra ocasião, agentes estavam fazendo a troca do fluxo de lugar, empurrando os usuários de crack para outra rua e houve tumulto, tiros, duas pessoas foram baleadas e Nildes viu uma delas quase morrer nos seus braços. Para terminar, ela e o marido foram chamados para resgatar uma mulher que estava sendo mantida em cativeiro. O companheiro da mulher havia sido morto e os criminosos resolveram preservar a vida da moça por conta de ela ter um filho pequeno, que também estava no local. Foi muita coisa para ela.

Uma única família

Apesar das dificuldades, não dá para dizer que a Cracolândia também não trouxe coisas boas para Nildes e Jair. Se o número de integrantes da família era um total de quatro pessoas quando eles chegaram à São Paulo, a quantidade hoje aumentou para seis. Do contexto das ruas, os dois adotaram Cauã e Rafael, que se juntaram às filhas biológicas do casal, Talita e Laís. Aliás, um dos principais focos do trabalho social de Nildes está nas crianças. Ela conta que as mulheres em situação de rua acabam usando o sexo como moeda de troca para o sexo e isso gera um alto índice de doenças sexualmente transmissíveis e de mulheres grávidas. Nildes conta que as crianças, na maior parte das vezes, são levadas por agentes do Conselho Tutelar e ficam sob tutela do Estado.

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Rafael passou a integrar a família de Nildes durante um trabalho noturno que ela realiza com a população de rua, fornecendo um espaço para banho e alimentação. O pai biológico de Rafael apareceu por lá para comer e, em seguida, desapareceu. “É triste você saber que as crianças sofrem abandono e todo tipo de abuso O Rafael tinha 4 anos quando o pai dele saiu para fazer um assalto e deixou ele nas ruas. Eu achava que ia ficar com ele por dois dias, só que hoje ele é nosso filho, já é registrado por nós, nós adotamos ele. A mãe dele está presa, o pai dele nunca apareceu. É uma superação muito grande, hoje ele está dentro de um lar onde ele não vê brigas, onde ele não tem drogas. O Rafael com 4 anos já sabia o que era drogas, o que era roubar, foi o que ensinaram pra ele”, diz.

Já Cauã foi adotado por Nildes junto à própria mãe. A moça, há seis anos, tinha apenas 14 anos e ela resolveu levar os dois para dentro da própria casa. Um dia, ela pediu para visitar a avó e nunca mais retornou à casa de Nildes e Jair, deixando Cauã para trás. “A mãe do Cauã também era usuária de cocaína, já tinha sido rejeitada pela família e com 12 anos a guarda dela tinha sido entregue ao Conselho Tutelar. Mas, mesmo assim, eu não disse não, eu sou meio uma missionária louca. Eu adotei a mãe, o filho e coloquei os dois na minha casa. O Cauã hoje tem seis anos, mas quando ele veio morar comigo, ele tinha seis meses.”, lembra.

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Talita Nery, a filha mais velha do casal, hoje é formada em Psicologia e conta que escolheu a profissão em função do contato que teve a vida inteira com pessoas em situações de dificuldade. No almoço do Natal, ela conseguiu uma folga no trabalho para participar da festa. “Meus pais vieram primeiro para São Paulo, um ano depois eu e minha irmã viemos e já encontramos o trabalho sendo feito na Cracolândia. Aos poucos, o trabalho foi se desenvolvendo, no início a gente levava uma água, uma marmita, aquilo que a gente tinha em casa mesmo. Com o tempo, fomos encontrando gente que apoiava. Quando nós chegamos, ajudar eles foi uma coisa meio natural, meus pais já faziam isso em Salvador, a gente já estava envolvida desde pequenas. Quando viemos para cá, só entramos no ritmo. Na adolescência, era nossa rotina de vida. Meus pais viviam para isso e a gente estava junto com eles, então acabava participando também”, conta.

A gente não quer só comida

O almoço de Natal estava marcado para começar 11h30, mas como todo Natal em família que se preze, atrasou um pouquinho. Enquanto vários voluntários se revezavam carregando os mantimentos e organizando mesas de bebidas e frutas, uma fila de moradores de rua se formava junto à grade da tenda na Rua Helvétia, próxima à estação Júlio Prestes da CPTM, onde aconteceria o almoço. Por conta da limitação de lugares, a orientação era entrar, comer e sair, abrindo espaço nas mesas para outras pessoas. Nildes ficava na porta, ajudando a organizar o entra e sai dos moradores de rua. Além da comida, a festa teve muita música ao vivo, inclusive feita pelos próprios dependentes químicos. Coordenada por Anderson Rogério, uma bateria digna de escola de samba formada só pelos usuários de crack se apresentou por lá, com direito até mesmo à madrinha de bateria.

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De outro projeto, Anderson é arte-terapeuta e era uma das várias pessoas que estavam na tenda ajudando a construir o Natal na Cracolândia. A missão dele ali é reeducar socialmente os usuários de drogas através da música. “Eu tive que primeiro ganhar a confiança deles. Eu pegava um tamborim e tocava dentro do fluxo. Eles estavam usando o crack, ouviam a música, um deles parava de usar e falava ‘ei, eu sei tocar isso’. Daí eu chamava para tocar. Esse um virou dois, que virou três, quatro. Quando eles chegaram próximo a mim, eu pedi que eles entrassem no projeto. Daí era uma coisa mais rígida, com horários, até porque, se eles arrumarem um emprego amanhã, eles vão precisar dessa restituição social. É superimportante para eles. Esse trabalho vai fazer oito meses, todos os integrantes vieram direto do fluxo. Só não tem mais gente participando porque não tem mais instrumentos”, conta.

No fim da tarde, com a tenda bem mais vazia e a música diminuindo, Nildes contou que se chateou com alguns policiais que questionaram ela por fazer esse tipo de serviço para as pessoas da Cracolândia. O recado que ela deu é o que muita gente acaba esquecendo não só no Natal, mas em todos os outros dias do ano. “Não me interessa se merece ou não merece. Acho que a gente tem que se colocar no lugar do outro, se colocar no lugar da família dessas pessoas. Como moradora, eu poderia falar que não vou fazer nada por eles, eu conheço todos e sei o que fazem, as coisas certas e as coisas erradas. Eu não sabia que Deus ia me tirar de Salvador e me colocar dentro da Cracolândia. Quando eu cheguei aqui, eu olhei para essas pessoas e falei: é um problema meu, eu quero ajudar. O que eu quis dar para elas foi amor incondicional, sem julgamentos, sem placa de igreja. Eu tenho certeza que se Jesus estivesse na Terra agora, ele ia estar andando na Cracolândia”, finalizou, deixando acessa uma chama de ver que tem gente fazendo algo para nos deixar um pouquinho mais perto de um feliz Natal de verdade.