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O olhar do entregador

Sem emprego, Allan Weber começou a fazer bicos de entregador durante a pandemia. Suas fotos do corre se tornaram livro e capa de revista

por Artur Tavares Atualizado em 19 Maio 2021, 00h16 - Publicado em 18 Maio 2021 08h50
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Clube Lambada/Ilustração

história não é incomum. Jovem morador do subúrbio, Allan Weber perdeu o emprego de faz-tudo em uma grande marca de roupas carioca em 2020. Com um filho recém-nascido – seu primeiro, uma situação tão desconhecida como uma pandemia –, ele só tinha duas opções: os aplicativos de entrega de comida ou o crime.

Quantas notícias diferentes Allan Weber poderia estampar nas capas dos jornais brasileiros em 2021? Chacinas, vírus, balas perdidas, casualidades nada casuais de um país cuja dor e a violência têm preferência de classe e cor. Se assim fosse, a história dele terminaria aqui. Mas Allan Weber venceu.

Sem que tivesse racionalizado a atitude, Weber começou a fazer suas entregas com uma câmera a tiracolo. Nada profissional, uma point and click analógica totalmente automática, como a que nossos pais tinham quando éramos crianças (se você for velho o bastante, assim como eu). Do Cordovil, na Zona Norte do Rio, até a riquíssima Zona Sul, ele fotografou seus colegas entregadores, moradores dos condomínios, as embalagens de comida. Sem qualquer domínio técnico da arte fotográfica, seu trabalho tornou-se rapidamente um exemplar contemporâneo naïf.

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Allan Weber/Divulgação

No final de 2020, Allan lançou o potente livro Existe uma vida inteira que tu não conhece, registro dessa luta diária e também dos seus momentos de intimidade na Favela 5 Bocas, os bate-bolas da molecada e o pixo. Agora, seu trabalho chega à capa da edição mais recente da revista ZUM, que o Instituto Moreira Salles lança nesse mês de maio.

“Descobri a fotografia em 2012, quando comecei a andar de skate”, conta Allan. “No meio do rolé, sempre tinha alguém com vontade de filmar, fotografar. Comprei uma câmera em 2016, mas nunca tinha mexido em um equipamento daqueles. Coloquei muitos filmes errados, perdi muitas fotos. Até tentei ver umas aulas, mas nunca tive paciência, tá ligado?”

“Por causa da pixação, saí do meu bairro e fui conhecer a Lapa. Vi uma diversidade de culturas, os roqueiros, a galera do reggae, a turma do rap, os gringos. Depois que conheci esse universo, saia todo final de semana da minha comunidade”

Allan Weber

Allan é um diamante bruto cuja obra tem a potência e a beleza de uma pedra preciosa muito bem lapidada. Seu instinto e sua estética são difíceis de alcançar através de exercícios de prática e racionalização. No entanto, estão ali em pureza cristalina. Os mais desavisados podem imaginar que o artista foi privilegiado em estudos sobre a arte, mas não passa de instinto, um talento natural. “Na época do skate, ia a galerias com amigos, mas não entendia nada. Via coisas abstratas, não fazia sentido para mim. Hoje entendo um pouco mais”, ele conta.

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Allan Weber/Divulgação

Na rua, o pixo foi outra porta de entrada no mundo artístico: “A pixação é tão foda que me tirou da rua. Antes eu ficava como? Na esquina, indo para baile, andando junto com a rapaziada envolvida. Por causa da pixação, saí do meu bairro e fui conhecer a Lapa. Vi uma diversidade de culturas, os roqueiros, a galera do reggae, a turma do rap, os gringos. Depois que conheci esse universo, saia todo final de semana da minha comunidade.”

Entre montagens de lojas e carregamentos de roupas, um dia Allan mostrou suas fotos para Zé Tepedino, artista que faz trabalhos para a mesma confecção. Foi naquele dia que se descobriu artista: “Fiquei tentando entender. Eu nem postava minhas fotos no Instagram. Não fazia ideia do potencial que elas tinham. Para mim, era muito bonito, gostava de fazer. Mas, quando mostrei minhas fotos para o Zé, ele achou muito brabo.”

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“Se você tem um iPhone, as fotos ficam pica. Eu tinha, mas troquei porque o aplicativo para entregadores funciona só no Android. Depois que aprendi o que era estética, percebi que a do Moto G não me agradava. Já o filme deixava mais maneiro ainda”

Allan Weber

Tepedino fez acontecer: ajudou Allan a se inscrever em um edital da ZUM ao mesmo tempo em que trabalhou na organização das fotos que ilustram as 216 páginas de Existe uma vida inteira que tu não conhece.

Se a tecnologia traz a praticidade na hora de fotografar, Weber não quis trocar sua câmera fotográfica antiga por uma máquina profissional, ou mesmo por um celular: “Nunca tive um celular tão bom, tá ligado? Se você tem um iPhone, as fotos ficam pica. Eu tinha, mas troquei porque o aplicativo para entregadores funciona só no Android. Depois que aprendi o que era estética, percebi que a do Moto G não me agradava. Já o filme deixava mais maneiro ainda.”

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Allan Weber – Revista ZUM/Divulgação

A venda do livro e a publicação de seus trabalhos na ZUM aliviaram um pouco o problema da grana de Allan, mas ele confessa ainda fazer o rolê de entregador para garantir seu sustento diário. No entanto, seu sonho é levar a vida como artista. Sua grande referência é Maxwell Alexandre, que saiu da Rocinha e hoje é um dos brasileiros mais admirados em galerias e museus no exterior: “Ele é muito foda. Me ajudou a entender que o que faço é arte também. Quando mostro suas pinturas para meus amigos, ele se identificam.”

“Lá onde a gente mora, tem a Igreja, né? Dizem que a igreja salva. Pô, a arte também salva, entendeu? Pergunta pro menor se ele quer assistir o culto, ou se quer trabalhar com arte? Até porque, mano, Até porque, mano, a igreja é a única parada de bem que temos lá dentro. A arte nunca tinha chegado lá antes”

Allan Weber

Allan escancara sem rodeios a realidade das periferias brasileiras em seu discurso, não esconde os amigos com quem cresceu e que hoje fazem parte do crime. Pelo contrário, enxerga neles muitos outros diamantes a serem lapidados: “Lá onde a gente mora, tem a Igreja, né? Dizem que a igreja salva. Pô, a arte também salva, entendeu? Pergunta pro menor se ele quer assistir o culto, ou se quer trabalhar com arte? Até porque, mano, a igreja é a única parada de bem que temos lá dentro. A arte nunca tinha chegado lá antes.”

Neste mês, a capa da revista ZUM, do Instituto Moreira Salles, tem fotos de Allan Weber
Neste mês, a capa da revista ZUM, do Instituto Moreira Salles, tem fotos de Allan Weber Zum – IMS/Divulgação

Agora, Allan prepara sua nova série, chamada “Traficando Arte”, uma mistura de escultura e fotografia. Ele tem pego aparelhos eletrônicos e tornando-os peças que remetem ao tráfico, como fuzis que são feitos de câmeras velhas – como sua própria – embalados como endolas, os pacotes de drogas feitos de fita adesiva: “Não adianta eu pegar um trabalho de arte muito conceitual, muito pá, e mostrar para essa galera, porque não vão entender. Essa série é muito sobre isso. Para eles entenderem, precisa ser dessa forma. Porque vejo lives de artistas e não consigo entender, são palavras que não conheço. É a mesma coisa com eles. Mas, quando faço as armas, os moleques colam em casa, pedem para fazer foto com elas. Pedem mais. Prometi fazer arma pra geral. Nos conhecemos desde pequenos, e vejo que eles estão interessados, seduzidos por esse trabalho, tá ligado? Até neguin da boca já pediu para trabalhar comigo na endola das câmeras. É algo muito forte.”

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Nessa quinta-feira, 20, Allan Weber participa da live de lançamento da nova edição da ZUM, às 18h. Você confere no Facebook e no YouTube da revista.

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