expressão

O ano da loba

Aos 40 e em seu melhor momento na carreira, Ana Cañas se prepara para aquecer 2021 com programa na televisão e disco homenageando Belchior

por Artur Tavares Atualizado em 25 fev 2021, 14h38 - Publicado em 24 fev 2021 22h51
-
Clube Lambada/Ilustração

erca de 15 anos atrás, os astros e planetas entraram em algum tipo de conjunção privilegiada ao redor do universo, e, aqui no Brasil, uma nova geração de poderosas cantoras apareceu. Uma por uma, como um efeito cascata, elas chegaram para renovar sonoridades já bastante estabelecidas. Céu, com seu reggae pop, Mariana Aydar com um forró para dançar juntinho, Marina de La Riva, sua voz potente interpretando jazz cubanos e boleros, e, com uma atitude libertina invejável, Ana Cañas com o rock ‘n roll.

Cada uma delas se consagrou nas reinterpretações desses estilos, mas a potência de Ana Cañas não a deixou estacionada naquele espaço onde havia alcançado o sucesso. De Amor e Caos, seu primeiro álbum, até o mais recente deles, Todxs, de 2018, ela viajou do blues ao rap, passou pelas notas sensuais do trip-hop, e reencontrou a brasilidade no meio do caminho.

Dentro e fora dos palcos, Ana nunca negou a que veio. Suas letras provocantes (e provocativas) falam abertamente sobre sexo, prazer, amores, política. Quando deixa o microfone de lado, seu discurso aparece com a mesma força em entrevistas e em suas postagens na rede social Instagram.

Aos 40 anos, a cantora sabe que não deve nada para ninguém – e, é claro, nem gostaria que fosse diferente. Com a passionalidade de quem tem nada menos do que três planetas de seu mapa astral em escorpião, Ana fala o quem quer para quem quer ouvir, e se você não gostou, bem… esse problema é só seu.

-
Marcus Steinmeyer/Fotografia

Descontente com a guinada conservadora e obscurantista que o Brasil tomou nos últimos anos, Ana Cañas se envolveu de cabeça com o ativismo. Redescobriu na obra do falecido cantor Antônio Carlos Belchior uma maneira transmitir para novas gerações pensamentos que todos já deveríamos ter ouvido antes. Nesse ano, ela lança um álbum com reinterpretações de algumas das maiores canções do cearense, uma estrela um tanto apagada dentro do nosso grande panteão da MPB. Além disso, estreia no segundo semestre como apresentadora de televisão no programa Sobrepostas, do Canal Brasil, feito apenas por mulheres para mulheres (todas elas).

Nós conversamos com Ana em um bate-papo delicioso, sua simpatia contagiante e sua paixão sempre presentes, como de costume. Confira:

Você estreou com Amor e Caos, em 2007, momento em que diversas novas cantoras brasileiras estavam surgindo na cena. O que chamou atenção na época é que muitas delas estavam indo para um caminho mais bossa nova, ou então canções mais intimistas, e desde aquele momento, e até hoje, você sempre esteve mais para o lado do rock, do blues. O que te inspira a seguir essa identidade no seu som?
Meu trabalho começou com essas influências de blues, rock e jazz porque cantei na noite paulistana, em bares, e sempre desenvolvi essa linha como intérprete. É um repertório que eu adoro e escuto até hoje. Cantoras como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Nina Simone são grandes referenciais de voz, de postura artística e de militância para mim. Acho que isso se refletiu posteriormente no meu trabalho autoral, e minha discografia reflete esse meu lado mais eclético, as fases pessoais da minha vida. Consigo ver exatamente o que aconteceu em cada fase da minha vida olhando para cada um dos meus álbuns. Tem a ver com maturidade. Estou com 40 anos, já consigo ter um certo distanciamento, e entender esse diálogo com o que estava vivendo naqueles momentos. É quase como um retrato. Eu tenho muito orgulho de fazer parte de uma geração de cantoras e compositoras, como a Céu, a Tulipa Ruiz, a Mariana Aydar e a Karina Buhr, para citar algumas das minhas colegas e amigas, e fico muito feliz de fazer parte dessa cena.

Você também sempre teve posicionamentos muito firmes nas suas letras, principalmente nas questões feministas, mas parece que só ultimamente a mídia e o público têm dado mais atenção para seu lado ativista. Ano passado, inclusive, você relatou publicamente não ter conseguido patrocínios para algumas lives devido aos seus posicionamentos. O que aconteceu? O Brasil se encaretou e de repente nós regredimos a ponto de até questionarmos certas posturas de figuras públicas?
Quando faço essa análise com o distanciamento do tempo, também consigo reparar que existe uma postura feminista desde o início da minha carreira autoral, mesmo que de forma mais sutil e ingênua. Até porque essa primavera feminista que temos vivido é um pouco mais recente. A minha militância teve um auge quando resolvi gravar o disco Todxs, um álbum que até o título configura um posicionamento ao lado da igualdade e da equanimidade do direito das minorias políticas. Realmente vivi uma fase muito intensa em relação a isso quando decidi apoiar publicamente o Lula no processo que culminou em sua prisão. Nesse momento, em que o Brasil se encontrou em um momento muito exacerbado de emoções, fiz o que fiz tomada pelo coração. Porque conheci a figura dele, e por entender o mecanismo jurídico do país. E, tudo o que sabemos hoje em relação ao processo são comprovações das maneiras que as coisas acontecem por aqui. Então, achei que, como figura pública, artista, cantora, compositora e mulher, era meu dever como cidadã usar a minha voz e a minha visibilidade para falar sobre o que eu considerava, e ainda considero, uma injustiça, uma prisão arbitrária, que tinha um viés bastante nítido, que era impedir a reeleição do Lula.

“Consigo ver exatamente o que aconteceu em cada fase da minha vida olhando para cada um dos meus álbuns. Tem a ver com maturidade. Estou com 40 anos, já consigo ter um certo distanciamento. É quase como um retrato”

-
Marcus Steinmeyer/Fotografia

Já passei desse momento de uma militância extrema, onde me envolvi com coletivos. Aconteceu em 2017, quando lancei o single “Respeita” e atuei junto com movimentos sociais, com movimentos de periferia, de antirracismo, de feminismo intersecional, com o MST. Estive de corpo presente, fiz diversos shows gratuitos, usei minhas redes para manifestar opiniões políticas e tudo mais. Logo depois, aconteceu a eleição do Bolsonaro, e acredito que faça parte da democracia eu me posicionar aos valores que ele representava como candidato, posicionamentos confirmados hoje por suas posturas e ações.

Então, entendo que isso foi algo que marcou a mim e a minha imagem, e sei disso pela quantidade de pedidos de shows que continuam chegando. A militância no Brasil precisa muito de apoio de figuras públicas, porque dá visibilidade aos movimentos. É importante, um tipo de parceria que acontece sempre ao longo da história. Mas, teve o ônus, que também sempre estive ciente que aconteceria. Perder marcas, publicidade, ou até outras possibilidades da fonte renda de um artista. Tenho orgulho de ter me posicionado e de ainda me posicionar, de lutar pelas causas das minorias, inclusive porque faço parte do feminismo, ainda como mulher branca e privilegiada, porque sabemos que as mulheres pretas e trans são as maiores vítimas de violência e destituídas das posições de decisão e poder. Foi um momento forte, em que militância, arte e música se misturaram, e tudo passou a fazer parte de uma coisa só.

Mesmo com essas dificuldades todas, você fechou com o Canal Brasil para ser apresentadora de um programa chamado Sobrepostas, que vai colocar todas as mulheres no centro de debates para falar sobre questões de empoderamento e autoconhecimento. Como você tem se sentido preparando os primeiros episódios?
Ser convidada para apresentar Sobrepostas foi uma grande alegria, uma honra, porque é um programa que pretende abordar assuntos que ainda são tabu na nossa sociedade, entre eles a sexualidade, o prazer, o orgasmo e o autoconhecimento femininos, temas que já estiveram no meu último disco de forma bastante relevante. É um desafio para mim. Eu nunca apresentei programas, sempre fui à televisão para cantar e para participar respondendo entrevistas. Então vai ser massa ficar em outro lugar, um lugar que também é de aprendizado, porque o programa pretende entrevistar mulheres gordas, trans, cis, pretas, enfim… abarcar todo o tipo de vivência feminina. E também vamos ficcionalizar as experiências que estão sendo contadas pelas convidadas. Acho que isso vai trazer uma novidade para a televisão brasileira. Tenho plena confiança no trabalho das mulheres que estão à frente desse programa, diretoras e roteiristas que me mandaram muitas referências interessantíssimas. É um programa que vai contribuir de maneira sensível para um assunto importantíssimo e libertador. Já passou da hora de discutirmos, enquanto sociedade, que a mulher não é um objeto, que a sexualidade feminina faz parte do poder feminino. Sabemos que isso muitas vezes é apagado e ignorado porque é um instrumento de empoderamento para alterar estruturas, porque o autoconhecimento te confere poder para pleitear direitos, sair de relações abusivas, não permitir uma violência física ou psicológica. Porque nós, mulheres, ainda estamos em posição de silenciamento dessas violências. Acredito que esse programa vai tocar em lugares que têm reverberações muito profundas e importantes.

O Brasil é um país muito violento com as mulheres, muito machista, com dogmas antiquados que ainda castram muitos aspectos do feminino. A mulher emancipada ainda tem fama de “puta”, sair das normas heteronormativas e monogâmicas causa uma série de preconceitos. Qual a importância de falar sobre isso abertamente na televisão?
Acho que temos que emancipar. E, uma das formas de impedir violência é romper o silenciamento. O silenciamento é um alicerce do tabu, do dogma. Quanto mais se discutir e falar abertamente sobre temas como a sexualidade, e de forma bastante interseccional – eu nem acredito em um feminismo que não seja dessa forma, que não seja para todas as mulheres –, melhor. É um programa que pode ser um gesto muito importante. Ainda mais no momento de retrocessos e poucos espaços para se discutir esse tipo de coisa que vivemos hoje.

O cerceamento dos espaços de liberdade está se dando com muita força, Tem essa questão da mulher ter fama de puta, de vagabunda, quando na verdade ela só está exercendo sua liberdade perante a sociedade, da mesma forma que o gênero masculino sempre exerceu, e que entendemos isso como estruturas patriarcais de direitos… onde um homem teria direito a ter diversas parceiras, agir com irresponsabilidade, sem responsabilidade afetiva, e ainda ter fama de que ele é o comedor, fodão, garanhão… a mulher é castrada na sua liberdade, silenciada em seus direitos, que são conferidos iguais em relação ao gênero masculino. A gente percebe que isso permeia o inconsciente coletivo, e a mulher é apartada da sociedade quando simplesmente resolve exercer os mesmos direitos do gênero que, inclusive, a oprime. Então, é preciso olhar para frente e debater.

“O silenciamento é um alicerce do tabu, do dogma. Quanto mais se discutir e falar abertamente sobre temas como a sexualidade, e de forma bastante interseccional – eu nem acredito em um feminismo que não seja dessa forma, que não seja para todas as mulheres –, melhor”

-
Marcus Steinmeyer/Fotografia

Sobrepostas vai misturar esse momento de bate-papo com as convidadas com encenações ficcionais das experiências ali retratadas. Como se deu essa escolha de incluir a dramaturgia e como tem sido gravar o programa nesse momento de isolamento?
Ainda não estou gravando o programa, isso vai acontecer apenas em junho. Estou acompanhando a ideia do programa desde 2018, quando recebi o convite, e já teria sido gravado se não fosse a pandemia. Agora, vamos respeitar todas as normas de saúde pública. Não tenho muitas informações ainda sobre como a parte ficcional vai ficar, mas acho muito interessante e que pode ser algo inédito na TV brasileira isso de filmar e trazer aspectos do cinema, trazer ganhos no debate sobre a libertação de tudo que acontecesse nesse lugar de opressão à sexualidade feminina.

Continua após a publicidade

Muitas mulheres inseridas na mídia hoje não têm posturas tão abertas e incisivas quanto as suas, muito por uma questão de preservação da própria imagem. Como tem sido a escolha das convidadas para Sobrepostas? Você espera trazer muitas dessas mulheres famosas “pra fora do armário” com o programa?
Eu não faço nenhum julgamento de valor ou cobrança a nenhum colega de profissão. Cada um define para si o que tem pra si. No meu caso, tudo isso é muito natural, não é algo pensado ou articulado. Ao contrário. Vou fazendo as coisas movida pelo coração, pelo instinto, pela necessidade, por desejo de movimentar estruturas e derrubar aquelas que sejam opressoras. Sexualidade é um assunto que hoje é bastante natural para mim, está dentro do feminismo, de tudo que a gente estuda. É uma coisa que me sinto confortável, é o que eu sou. Desde a escola, fui tida como rebelde, onde eu questionava padrões hierárquicos, figuras opressoras. Sofri bullying na escola, na época me relacionei com meninas, tive fama de sapatão, cheguei a ser agredida por um professor em sala de aula durante uma chamada. Então, sempre tive esse aspecto aventureiro de me jogar em certas situações que muitas pessoas não entrariam com medo do que pode acontecer.

Você lançou Todxs em 2018, seu disco mais pé na porta até agora, com uma variedade imensa de ritmos, com alguns beats que vão até para o lado do rap e do trip-hop, e agora está preparando um disco inteiro de covers do Belchior. Como tem sido virar essa chave e gravar o álbum?
Gravar Belchior tem sido uma das experiências mais incríveis, loucas, difíceis, desafiadoras, intensas, profundas. Porque isso é o Belchior. Ele é um espírito, um artista tão complexo. A história de vida dele é tão complexa, que esse mistério permanece até hoje para o Brasil. Mais misterioso ainda é entender como um gênio da nossa música escreveu letras há quase 50 anos, e elas se tornam hoje mais atuais do que quaisquer outras. Acho que isso exerce um poder de atração para todos aqueles que estão sofrendo, sejam por questões políticas, pessoais, de pandemia, de restrição social, de perdas de parentes… Sabe? É tanta coisa posta na mesa nesse momento, e o Belchior tem uma alquimia que permaneceu intacta. Músicas como “Alucinação”, “Como Nossos Pais”, “A Palo Seco”, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Fotografia 3×4”, “Divina Comédia Humana”, perduram, e tenho a impressão que vão durar muitas décadas ainda. A complexidade humana, que é o escopo mais preciso do Belchior… ele é um cara pouco metafórico, tem uma linguagem muito direta, que acho que inclusive o aproxima do rap. Acho que, não a toa, o Emicida utilizou “Sujeito de Sorte”.

“Sofri bullying na escola, na época me relacionei com meninas, tive fama de sapatão, cheguei a ser agredida por um professor em sala de aula durante uma chamada”

Então, durante esse caos da pandemia, decidi fazer uma live para homenagear um compositor, e obviamente não me ocorreu outro nome que não fosse Antônio Carlos Belchior. Eu tive vários prenúncios até esse momento, como cantar “Como Nossos Pais” no Carnaval, em pleno Bloco do Baixo Augusta. Vi muita gente chorando, eu chorei também, foi uma catarse. Depois, no Teatro Municipal, então fiz uma releitura do disco “Alucinação” em programa no Canal Bis. O Belchior estava muito presente na minha vida, como se o universo estivesse me dizendo que uma hora isso fosse acontecer. E, agora esse momento de gravar o disco chegou. Recebi muitos pedidos dos fãs ao redor do Brasil, e havia essa vontade minha, e por achar que agora, com 40 anos, eu poderia me debruçar sobre um compositor e oferecer uma leitura que acrescentasse algo. Então, é um desafio imenso. Tem gravações de outras cantoras, que geram um padrão estabelecido de interpretação e releitura, existe também um diálogo com essas mulheres que admiro muito. É uma montanha muito grande para escalar, mas é muito enriquecedor. Estou aprendendo muito. Já finalizei as gravações, o disco está entrando em mixagem agora, e vai ser uma aventura saber o que as pessoas vão sentir com esse disco.

Belchior foi um gênio, gravou grandes discos, foi reinterpretado por Elis Regina e mais um monte de outros músicos, mas, mesmo assim, seu legado não permaneceu como de outros músicos contemporâneos. Hoje, você e outros artistas puxam o coro dessa recuperação de Belchior. Pra você, qual é a potência de Belchior, e porque ele merece ser escutado por uma nova geração?
Acho ele um gênio muitas vezes subjugado e subestimado em relação a outros do panteão da música brasileira. O Belchior não galgou, não por ele mesmo obviamente, mas historicamente falando… acho que ele ainda não é considerado a altura de outros nomes, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. E, o resgate conversa com esses tempos avassaladores que estamos vivendo. Parece até uma distopia, de tão surreal que estão as coisas. Acho que ele capturou esse sentimento, inclusive porque sempre foi apartidário, sempre considerou a arte maior que a política. Ele inclusive foi frei dos 16 aos 19. Depois, nos seus últimos dez anos de vida, ele pratica um autoexílio, morando de favor na casa de fãs e desconhecidos, uma aventura e tanto. Ele também tinha um projeto de traduzir Dante Alighieri… a vida dele é um livro, um grande filme, um roteiro maravilhoso, digno do Tarantino, do Kubrick, dos grandes gênios do cinema. Porque é muito intenso, misterioso e muito genial. O resgate dessa obra, não só por mim, mas por todas as pessoas que têm falado sobre ele, a possibilidade de sair um filme e um documentário, um livro, é necessário, importante, energético e espiritual.

No ano passado você já fez uma live tocando praticamente todo o disco “Alucinação”, além de muitos outros sucessos dele, em um especial de duas horas. O que você está preparando para o disco? Quer lançar algo que tenha o mesmo fôlego?
O disco dialoga muito com essa live. Vai surpreender em termos de arranjos, mas é basicamente o pessoal viu na minha transmissão, mas com outras camadas, porque são processos muito diferentes, um show e a gravação de um disco. Você ter um público de frente para você desperta emoções diferentes em um estúdio, onde o processo de estar em uma cabine cantando cercada de quatro paredes é mais solitário. Os músicos que fizeram a live comigo também participaram da gravação, com a alguns outros convidados.

“”Gravar Belchior tem sido uma das experiências mais incríveis, loucas, difíceis, desafiadoras, intensas, profundas. Porque isso é o Belchior. Ele é um espírito, um artista tão complexo”

O grande desafio foi estar a altura das canções dele, emocionalmente, como intérprete. Dar uma carga honesta e… Isso é tão difícil de dizer em palavras, o que seria cantar? É um bagulho que fode, né? Estou a vida inteira pensando sobre isso e ainda não tenho uma reposta. Mas te digo que o maior desafio é fazer algo que represente aquilo que ele escreveu, e que tenha muita beleza. Tentar chegar em uma interpretação que esteja à altura daquilo que escreveu, algo que eu nem sei se é possível, mas no sentido de que você acrescente algo através da sua vivência, da sua voz, da sua expressão, dos lirismos que lhe competem.

-
Marcus Steinmeyer/Fotografia

Com tantas notícias boas sobre sua carreira ainda no comecinho desse ano, dá pra dizer que 2021 será especial para você? Tem sido um respiro para encarar essa pandemia e o Brasil de ponta cabeça?
Fico muito feliz com essas notícias todas porque… a gente tá fudido, né? Estou há um ano sem trabalhar. E não é só a questão financeira, como a nossa cabeça, o emocional. Nossa rotina é de viajar pelo país, encontrar as pessoas, se apresentar, trocar ideia no camarim, sair para beber cerveja com os amigos. A gente desaprendeu tudo isso por segurança, por necessidade, e por empatia e responsabilidade civil, no sentido de que somos um coletivo e precisamos agir para cuidar da saúde de todo mundo. É um exercício que infelizmente alguns ainda negam. Tem bastante gente negacionista em relação a esses cuidados, e isso é muito triste de ver.

Eu estou bastante esperançosa, embora ainda esteja sem perspectiva nenhuma de fazer show, mas acho que é um ano ‘menos pior’ do que 2020, que foi um ano que ninguém vai esquecer na vida por tudo que ele nos exigiu emocionalmente, espiritualmente, financeiramente, a porra toda. Estou feliz de apresentar o programa, lançar o disco e voltar a fazer show quando puder. Porque acho que vai ser um público novo, que vai chegar até esse show por ser fã do Belchior. Estou muito feliz em conhecer uma parte do público que talvez ainda não me conheça.

-
Marcus Steinmeyer/Fotografia

Você acha que vamos sair dessa bad vibe em breve? Qual seu recado, o que você espera pra nossa sociedade daqui pra frente?
É difícil falar sobre isso, porque a bad vibe emana dos governantes desse país, do direcionamento, das prioridades e das atrocidades que estão sendo feitas. É muito difícil, como sociedade, se libertar disso. É muita tristeza… eu já passei por todos os estágios, desde choque, angústia, ansiedade, raiva, ódio, resignação até, em um sentimento de impotência, de não conseguir fazer mais nada. Isso é muito frustrante. Mas, tenho para mim também que é em momentos como esse que temos a possibilidade de aprendizado, que em momentos mais cômodos não teríamos. O sofrimento nos transforma muito. E acho que a luta é fundamental do micro ao macro, de pequenas ações que geram bons karmas. Desde ser legal com alguém na rua até o seu voto. É um esforço hercúleo estar se mantendo sempre positivo nesse momento.

“É em momentos [políticos e sociais] como esse que temos a possibilidade de aprendizado, que em momentos mais cômodos não teríamos. O sofrimento nos transforma muito. E acho que a luta é fundamental do micro ao macro, de pequenas ações que geram bons karmas”

Mas, sou esperançosa. O viés espiritual é muito presente na minha vida, independente de religiões, porque gosto e respeito todas… estou falando de energias e ciclos do universo, de tudo que você planta, você colhe. Tudo que você faz, você recebe. E aí, nesse âmbito, que pode se tornar muito pessoal, tenho muita esperança, porque você pode dar seu melhor. Há de se fazer um trabalho interno, muitas vezes, de se perdoar, relevar coisas que te deixam puto, mas é nesse microcosmo que o macro se constitui. Então, vai dar certo. Vamos conseguir. A custos muito grandes, emocionais, materiais, psicológicos, mas acho que as coisas vão se reestabelecer aos poucos, porque não é possível que a mediocridade e a ignorância permaneçam, vençam e se instalem de uma forma contínua e infinita. Nós temos ciclos na história, e se olharmos para trás vemos que é assim esse movimento de direitos e retrocessos. Cultura, arte, expansão, crescimento, fartura, possibilidades, equidade, e então fascismo, guerras, violência. Eu torço para que entremos no ciclo da luz de novo em breve, e que ele permaneça bastante tempo. Quiçá infinito, poderia ser.

Continua após a publicidade
Tags Relacionadas
mais de
expressão
Histórias para se emocionar e fazer pensar? Programação para curtir shows em segurança? Na nossa lista de dicas tem tudo
Ela quer mostrar a mulher que sempre esteve por trás da rapper: “Tenho vontade de falar de como me sinto com o empoderamento que encontrei aos 42 anos”
carnaval-em-madureira-1924-tarsila-do-amaral–foto-isabella-matheus_51386125966_o

Novamente 22

Por
MAM inaugura exposição “Moderno onde? Moderno quando?” questionando a importância de São Paulo para o Modernismo artístico brasileiro
Estética soviética ou jardins muito bem cuidados nos Estados Unidos? Não precisa escolher só um: aqui tem dicas pra todos os gostos
3-3-urias

Urias na Cama Elástica

Por
Única brasileira escolhida pelo Facebook para celebrar o mês da cultura latino-americana, a artista responde nosso questionário

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.