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Artistas da Amazônia para colocar nas suas playlists

Em uma conversa sobre música, eles nos contaram a importância de ouvir os sons que saem do eixo Sul e Sudeste

por Beatriz Lourenço Atualizado em 24 jan 2022, 13h10 - Publicado em 24 jan 2022 11h06
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Clube Lambada/Ilustração

uantos artistas da Amazônia estão, atualmente, nas suas playlists? Você sabe de onde vêm os cantores e cantoras que você costuma escutar? A Amazônia abrange 49% do território nacional e se estende também pelo território de oito países vizinhos. No Brasil, ela ocupa os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Maranhão. Em toda a extensão, encontra-se a Bacia Amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, com cerca de um quinto do volume total de água doce do planeta.

Esse também é o local onde reside 55,9% da população indígena brasileira, cerca de 250 mil pessoas. A produção cultural, por sua vez, é vasta e, na música, há até quem misture o batuque regional com eletrônico. O carimbó, que surgiu a partir dos agricultores paraenses, domina os palcos e as pistas com o ritmo alegre e a dança marcada por passos miúdos e em roda. Já o rap local pode receber letras que falam sobre a invisibilidade indígena e a demarcação de terras.

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“As pessoas precisam conhecer nosso gingado, nosso baque, nosso tambor. Os instrumentos que usamos são diferentes dos outros porque usamos muitos deles acústicos”, explica Dona Onete. “A nossa alegria contagia e nossos versos conquistam as pessoas porque falam da história que muitos brasileiros não conhecem.”

Foi pensando nisso que o Festival Se Rasgum selecionou cinco artistas regionais para tocar no Se Rasgum da Paz, que aconteceu no Pará em janeiro. Para conhecer mais sobre seus sons, conversamos com eles sobre suas inspirações e a importância de ouvir vozes que não estão nos eixos Sul e Sudeste.

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Vitoria Leona/Fotografia

Liège

Natural do Belém, a cantora e compositora Liège tem referências africanas e regionais. Em suas músicas, ela faz questão de preservar seu sotaque e adicionar a temática amazônica na mistura dos ritmos pop, MPB e R&B. Seu primeiro disco, Ecdise, foi lançado em 2021 e tem canções que abordam a ancestralidade, o autoconhecimento, a paixão e a emancipação pessoal. 

O clipe mais recente, “Deixar ir”, acompanha um ritual próprio das matriarcas de sua família, que tem origem indígena, evocando de modo poético a Amazônia ao mesmo tempo ancestral e moderna. “Quanto mais a gente conseguir disseminar ideias através das artes, da música, das letras e das composições, mais vamos conseguir tirar a Amazônia desse lugar caricato e colocá-la no Brasil como um polo de conhecimento e de vasta produção artística, científica e econômica”, diz.

Para ela, conhecer artistas que não sejam do sul e sudeste é um movimento que rompe fronteiras. “A gente tem uma vastidão de artistas e diferentes sons e figuras no norte e no nordeste. Fazer essa pesquisa requer um esforço e uma prática que vai na contramão dos algoritmos. Mas esse é um exercício que dá visibilidade para aqueles que estão dentro do mercado há anos, mas que não aparecem tanto porque são independentes.”

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Anna Suav/Fotografia

Anna Suav

A rapper e produtora manauara Anna Suav fortalece a cena cultural de Belém desde 2017. Suas letras reforçam a representatividade feminina e contam quais foram os processos de invisibilidade do Norte do país. 

Seu EP de estreia, Eva Grão, foi lançado em 2021 e conta com o single BNTA — que fala sobre as opressões que cercam os corpos de mulheres negras a partir do racismo e machismo. No Spotify, a música já conta com mais de 60 mil reproduções. “Ser uma artista da Amazônia não é só falar sobre pautas socioambientais. A resistência e o orgulho também se expressa no nosso fenótipo, no mantimento do nosso sotaque, na nossa estética e na nossa vivência”, declara.

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Adriano Fagundes/Fotografia

Dona Onete

A paraense Ionete da Silveira Gama, também conhecida como Dona Onete, não começou na música. Ela foi secretária de cultura, professora de história durante 25 anos e fundadora de grupos de danças folclóricas. A diva do carimbó chamegado só passou a cantar após os 60 anos, quando chegou sua aposentadoria e terminou o casamento com o primeiro marido. Hoje, seu repertório conta com mais de 300 canções, incluindo o sucesso “Procurando um Grande Amor”, que virou tema do filme Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Renato Ciasca, Beto Brant.

Seus sons são divertidos e as letras exaltam a cultura popular, o folclore e o amor, atraindo ouvintes de todas as idades. “A nossa alegria contagia e nossos versos conquistam as pessoas porque falam de histórias do Brasil que muita gente não sabe”, afirma. “O ritmo da Amazônia basta tocar pra balançar. Os sons são variados porque sofreram influências de outros Estados até de outras nações. Os instrumentos que usamos são diferentes dos outros. Nós usamos muitos deles acústicos porque dão um som maravilhoso”, conta. 

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Filipa Aurelio/Fotografia

Nelson D

O indígena Nelson D foi encontrado ainda bebê nas ruas de Manaus. Passou alguns meses em um orfanato e foi adotado por um casal de italianos. Cresceu em Savon, cursou Artes Plásticas em Milão, mas retornou ao Brasil para resgatar seu passado, conhecer suas origens e difundir seu trabalho como músico e produtor. 

Morando em São Paulo, Nelson se deu conta dos lugares que os povos indígenas ocupam na sociedade da invisibilidade que ainda sofrem. Aí, surgiu a necessidade de se aprofundar em suas raízes e transformá-las em arte, misturando sonoridades tradicionais com processos tecnológicos. “A música funciona como amplificador das mensagens sociais e políticas que precisamos passar para as pessoas”, explica. “A música brasileira pode ser entendida como uma junção de culturas e isso expõe seu grande potencial.”

Seu último álbum, lançado em 2021, é chamado Anga, que significa alma no idioma indígena nheengatu. Com 12 músicas cantadas em português e nheengatu, o disco buscou referências da música internacional, como Massive Attack, Chemical Brothers e Sonic Youth. A arte da capa também é assinada por ele, o que só reforça sua versatilidade.

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Shaira Mana Josy - Dandaras do Norte/Fotografia

Shaira Mana Josy

Shaira Josy tem uma trajetória de mais de 20 anos no movimento hip-hop. É fundadora do “Slam Dandaras do Norte”, escritora de livros de poesia e pedagoga. O nome do grupo é uma homenagem a Dandara, companheira de Zumbi dos Palmares, que lutou ao seu lado pela libertação do povo negro escravizado no Brasil. Entre os temas tratados pelas integrantes estão o machismo, racismo, violência doméstica e a vida na periferia de Belém. 

“Meu estilo não é nada parecido com o que se conhece no eixo sul e sudeste”, revela Shaira. Para ela, a Amazônia é uma inspiração: “Nós não temos uma única forma de expressar nossa arte, e isso nos faz um universo de possibilidades para todos os gostos. Temos um tempero especial que são nossas vivências, a natureza, o dialeto, a forma ímpar de viver nos diversos territórios, comunidades e nos centros urbanos.” 

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