envolvimento

Ela faz a bike dela

Espalhados pelo Brasil, bike shops e oficinas comandadas por mulheres incentivam a mobilidade delas sob duas rodas

por Carol Ito Atualizado em 31 mar 2021, 15h51 - Publicado em 24 mar 2021 01h59
-
Clube Lambada/Ilustração

 interesse pela bike no Brasil vem aumentando expressivamente, seja para prática esportiva, de lazer ou como forma de evitar a aglomeração no transporte público durante a pandemia. De acordo com o levantamento realizado pela Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), a venda de bicicletas aumentou 93% entre maio e agosto de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019. Entre os modelos mais procurados (cerca de 90%) estão as chamadas bikes de entrada, que são usadas para o transporte no dia a dia e possuem um preço mais acessível. 

As mulheres também estão pedalando mais, ainda que seja um desafio maior para elas enfrentar o trânsito, principalmente nos grandes centros urbanos. “O interesse pela bike já vinha aumentando e a pandemia deixou isso mais claro. Algumas pessoas se viram sem meios de lazer, sem poder ir à academia, outras ficaram isoladas. A bike se mostrou uma boa alternativa”, diz Talita Noguchi, proprietária da Las Magrelas, bike shop e bicicletaria paulistana. “Na pandemia, aumentou bastante o número de meninas da população periférica pedalando. Não tenho dados, mas dá para observar que elas estão buscando a bicicleta para gerar renda, vender produtos, fazer corre de entrega e economizar com ônibus”, concorda Lívia Suarez, co-fundadora da BiciPr3ta, loja e oficina de bikes de Salvador, na Bahia. 

“O interesse pela bike já vinha aumentando e a pandemia deixou isso mais claro. Algumas pessoas se viram sem meios de lazer, sem poder ir à academia, outras ficaram isoladas. A bike se mostrou uma boa alternativa”

Talita Noguchi

Além de pedalarem juntas em diversos grupos e coletivos espalhados pelo país, mulheres também marcam presença no mercado de bikes, à frente de bicicletarias e na produção de acessórios e modelos alternativos. Batemos um papo com seis mulheres que, com seus negócios, incentivam a inserção feminina e LGBTQIA+ no mundo da bike. 

-
Bruna Caldeira/Arquivo

Allen 5

Depois de fazer alguns cursos de mecânica de bicicleta, Bruna Caldeira decidiu se tornar profissional da área, abrindo sua oficina em Belo Horizonte, Minas Gerais. “Meu atendimento visa a escuta empática com todos os meus clientes, em especial, as mulheres. Muitas reclamam de terem sofrido machismo na hora de conversar com mecânicos homens, dizendo que eles não levam em consideração suas demandas, sentem que são tratadas de forma inferiorizada ou menosprezada”, relata.

“Alguns motoristas não admitem a bicicleta como veículo e pensam que não temos direito às ruas. Falta estrutura e políticas públicas, campanhas educativas e de fiscalização para a aplicação efetiva das leis que protegem os ciclistas”

Bruna Caldeira

Andando de bike desde 2015, Bruna conta que o maior problema enfrentado no trânsito da capital de Minas Gerais é a falta de apoio e respeito aos ciclistas: “Alguns motoristas não admitem a bicicleta como veículo e pensam que não temos direito às ruas. Falta estrutura e políticas públicas, campanhas educativas e de fiscalização para a aplicação efetiva das leis que protegem os ciclistas”. Ela também faz parte do grupo Terça das manas, que incentiva que mais mulheres comecem a pedalar: “Além dos desafios dos ciclistas em geral, elas enfrentam desafios da opressão patriarcal, como falta de incentivo a ocupar os espaços públicos, ter que lidar com assédios e se preocupar mais com a segurança”. 

Oficina Allen 5
Instagram: @allen5bike
Tel: (31) 99430-0300

-
Vulgo Moura/Divulgação

BiciPr3ta

O número de ciclistas mulheres nas ruas de Salvador vem aumentando graças às políticas públicas implantadas nos últimos dois anos e à atuação da Movimenta La Frida Bike, criada para incentivar o uso da bike entre mulheres negras periféricas. Além de desenvolver uma série de ações voltadas para esse público, elas criaram a BiciPr3ta, oficina e loja física e on-line de bicicletas, que vende modelos pensados para o público preto há um ano.

“Criamos modelos com uma identidade que nos agrada, reverenciando escritoras como Carolina Maria de Jesus, por exemplo. Também são feitos sob medida, entendendo que os produtos não são feitos para pessoas gordas e, sim, para pessoas que estão dentro de um padrão”, conta Lívia Suarez, co-fundadora da La Frida Bike. “Também temos roupas para ciclistas e desenvolvemos um capacete para pessoas crespas, pensando na geometria adequada, identidade e proteção capilar. Está em fase de fabricação e em breve vai estar na loja.” 

Lívia Suarez, co-fundadora da La Frida Bike com o capacete desenvolvido para pessoas crespas
Lívia Suarez, co-fundadora da La Frida Bike com o capacete desenvolvido para pessoas crespas Vulgo Moura/Divulgação

A La Frida Bike surgiu como forma de promover o transporte sustentável e a emancipação financeira de mulheres negras periférias, a partir do diagnóstico de que muitas delas sequer aprendem a pedalar. “Falta estímulo na infância, passa por questões históricas e sociais. Os meninos são estimulados a ter esse tipo de brinquedo, enquanto as meninas ficam cuidando da casa, dos irmãos. Muitas mulheres que fazem parte da La Frida relatam essa mesma história”, explica. 

Loja BiciPreta
Rua Direita do Santo Antônio, 360 – Salvador, Bahia
lafridabike.com

Continua após a publicidade
Telma Molskaitė, criadora do Ciclocostura
Telma Molskaitė, criadora do Ciclocostura Arquivo/Divulgação

Ciclocostura

Telma Molskaitė abandonou o ramo da moda para se dedicar à criação de acessórios para bicicletas, como caps e alforges personalizados. Com foco em sustentabilidade e consumo consciente, ela criou, em 2011, a Ciclocostura, que hoje possui um espaço no bairro da Vila Ipojuca, em São Paulo. Os produtos são feitos a partir de materiais que seriam descartados:  “90% do que é produzido na Ciclocostura é feito com sobra industrial, como o algodão, que é de ótima qualidade. Comecei a ir nas bicicletarias e pegar câmaras de bicicleta e pneus para transformá-los em cintos e bolsas, para dar mais tempo de vida para esses materiais”, explica Telma. 

“A bicicleta traz autoconfiança. Quando as meninas chegam até a Ciclocostura, a primeira coisa que a gente identifica é a insegurança. Aos pouquinhos, você coloca um alicate na mão delas, uma chave de roda, ensina a trocar pneu e vão ficando mais confiantes”

Telma Molskaitė

No mesmo espaço da loja, ela oferece uma espécie de consultoria para quem está começando a andar de bike. “A bicicleta traz autoconfiança. Quando as meninas chegam até a Ciclocostura, a primeira coisa que a gente identifica é a insegurança. Dizem ‘ai, eu não sei fazer isso’. Aos pouquinhos, você coloca um alicate na mão delas, uma chave de roda, ensina a trocar pneu e vão ficando mais confiantes.”

Ciclocostura
Rua Ibiquara, 112, Vila Ipojuca, São Paulo
Instagram: @ciclocostura
Telegram: (11) 97415-4293

-
Heloisa Koffke/Divulgação

Cuida Caps

Há um ano, Deysi Kushmanski, de Blumenau, Santa Catarina, fundou a Cuida Caps, marca de bonés de ciclismo feitos à mão. “A Cuida só existe pelo apoio de uma rede de amizade unida principalmente pela bicicleta, que me incentivou a criar e desenvolver um negócio onde fosse possível viver do meu próprio trabalho e das coisas que eu acreditava”, conta a empreendedora e designer.

Deysi Kushmanski, de Blumenau, Santa Catarina, fundadora do Cuida Caps
Deysi Kushmanski, de Blumenau, Santa Catarina, fundadora do Cuida Caps Heloisa Koffke/Divulgação

A empresa funciona como uma cooperativa, com a maioria de profissionais mulheres, que mantém parcerias com outras marcas de acessórios e bikes autorais, como a Ciclocostura, de São Paulo. “Tudo é feito em parceria com outras marcas pequenas. Sinto que é realmente uma transformação que está acontecendo no meio. É importante que a gente seja resistência”, diz ela. “Com esse apoio, nos sentimos fortalecidas o suficiente para acreditar na gente e conquistar nosso próprio espaço. As barreiras que nós mulheres enfrentamos se tornam muito menores quando estamos dispostas a torcer e a incentivar nossas conquistas.”

Cuida Caps
Instagram: @cuidacaps
Tel: (47) 99267 4955

Talita Noguchi e equipe Las Magrelas, bike shop e bicicletaria no bairro de Pinheiros, em São Paulo
Talita Noguchi e equipe Las Magrelas, bike shop e bicicletaria no bairro de Pinheiros, em São Paulo Arquivo/Divulgação

Las Magrelas

Desde 2013, a bike shop e bicicletaria Las Magrelas atende ao público do ciclismo urbano  no bairro de Pinheiros, em São Paulo. “A gente oferece todos os serviços para bicicleta, é uma oficina bastante completa”, conta a proprietária Talita Noguchi. “Atendemos bastante mulheres e pessoas LGBTQ. Não é exatamente um objetivo da gente, acontece de forma natural. Elas acabam se sentindo mais confortáveis por serem atendidas por mulheres lésbicas, negras, por exemplo”, acrescenta. 

“Atendemos bastante mulheres e pessoas LGBTQ. Não é exatamente um objetivo da gente, acontece de forma natural. Elas acabam se sentindo mais confortáveis por serem atendidas por mulheres lésbicas, negras, por exemplo”

Talita Noguchi

Talita, que circula pela metrópole de bike há uma década, fez cursos de mecânica e foi trabalhar em uma bike shop até decidir montar sua própria loja. Ainda que tenha uma marca consolidada no mercado, ela relata que encontra resistência: “É comum duvidarem da credibilidade do meu trabalho. O preconceito está em toda a sociedade”, relata.

Las Magrelas
Rua Artur de Azevedo, 922, Pinheiros, São Paulo
Instagram: @lasmagrelas
Tel: (11) 94141 3328

Maria Escorel e Patricia Quintella fundadoras da Reciclo Bikes, em Recife, Pernambuco
Maria Escorel e Patricia Quintella fundadoras da Reciclo Bikes, em Recife, Pernambuco Gabi Vitória/Divulgação

Reciclo Bikes

Em 2013, Maria Escorel e Patricia Quintella decidiram entrar no mercado de bicicletas e fundaram a Reciclo Bikes, que atua com customização e venda de acessórios em Recife, Pernambuco. “Pati comprou uma bike da década de 70 e reformou. Depois, eu comprei uma bike e ela me ajudou a reformar. Essas nossas bikes chamavam muita atenção das pessoas, então, começamos a customizar para alguns amigos e acabou virando um negócio”, conta Maria. “Primeiro, veio a loja virtual e, alguns meses depois, sentimos necessidade de montar uma loja física para vender produtos focados em bikes urbanas, além de oferecer serviços de mecânica e revisão.”

“Foi bem complicado no início, muitas pessoas não confiavam no nosso conhecimento técnico. Já chegou cliente pedindo pra falar com ‘o homem da loja’. É respirar fundo, dizer que somos duas mulheres e falar o que precisamos falar”

Maria Escorel
Reciclo Bikes em Recife, focada em customização e venda de acessórios
Reciclo Bikes em Recife, focada em customização e venda de acessórios Marília Sobral/Divulgação

Maria narra os desafios de entrar no ramo da bike: “No Recife, boa parte do mercado é masculino. Foi bem complicado no início, muitas pessoas não confiavam no nosso conhecimento técnico. Já chegou cliente pedindo pra falar com ‘o homem da loja’. É respirar fundo, dizer que somos duas mulheres e falar o que precisamos falar”. A Reciclo Bikes também realizava cursos de mecânica básica exclusivos para mulheres, que foram pausados por conta  da pandemia: “Muitas chegam na loja e não sabem os nomes dos componentes da bicicleta. A gente ensina a trocar câmara de ar e corrente, por exemplo, para não ficarem tão dependentes de oficina mecânica”, diz Maria.

Reciclo Bikes
Mercado da Encruzilhada – R. Dr. José Maria, s/n – box 220
Instagram: @reciclobikes
Tel: (81) 93300-0718

Tags Relacionadas
mais de
envolvimento

“Quero ser a Oprah brasileira”

Por
Thelma Assis, comunicadora, apresentadora e campeã do BBB 20, bate um papo com a gente sobre cancelamento, racismo, política e maternidade
Dez anos após o início da Revolução Egípcia, o líder revolucionário Ahmed Hassan assegura que a “revolução ainda não acabou”
foto 1

O fim da primavera

Por
Movimentos da Primavera Árabe esbarraram em intransigência de regimes e em influências externas; moradores da região relatam uma década de desesperança
Parafraseando a canção de Liniker, cantora, travesti e preta, Bárbara não goza do privilégio de ser e/ou ter morada em alguém, ainda que possua nome
GALO-E-BIU_20_08_2021_FOTO-RENATO-NASCIMENTO-00

Fogo nos racistas

Por
Membros da Revolução Periférica, Paulo "Galo" Lima e Danilo "Biu" de Oliveira discutem sentidos históricos, artísticos e políticos do incêndio do Borba Gato

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.