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Por trás das câmeras: a realidade das camgirls

Elas ganham dinheiro conversando e realizando fetiches. Com a chegada da pandemia e do desemprego, mais mulheres migram para trabalhos sexuais

por Camila Rosa Atualizado em 3 jun 2021, 10h31 - Publicado em 2 jun 2021 22h22
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Clube Lambada/Ilustração

uando a designer de moda Lívia* decidiu voltar para São Paulo depois de se formar na faculdade, imaginou que sua renda e independência financeira viriam de algum emprego relacionado à área. Entretanto, a chegada da pandemia acabou significando que a empresa onde ela trabalhava precisasse cortar gastos e, assim, a jovem de 22 anos foi demitida. Sem renda e com contas para pagar, Lívia descobriu uma maneira de ganhar dinheiro sem sair de casa. “Vi uma publicação num grupo de Facebook sobre renda extra e lá tinha o comentário de uma garota que ganhava para fazer ligações em vídeo com estrangeiros. Ela postou uma foto do comprovante de pagamento e o valor chegava a quase R$1.600 por semana. Foi aí que decidi falar com ela”, conta.

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Arquivo/Reprodução

Depois de conversar com a garota, Lívia descobriu que as chamadas de vídeo com estrangeiros se tratavam de uma prática bastante conhecida aqui no Brasil. Ser camgirl – ou “garota de webcam”, em português –, significa dedicar parte do seu tempo em frente a uma câmera, muitas vezes se exibindo de maneira sexual ou apenas conversando com outras pessoas dispostas a pagar pelo seu tempo. Ela entrou no LivU, aplicativo recomendado para pessoas maiores de 18 anos em que você conversa e fala com pessoas novas por vídeo, no início de dezembro de 2020. 

Funciona da seguinte forma: a cam girl conversa com estrangeiros e ganha dinheiro a partir do tempo de chamada, ou seja, quanto mais tempo batendo papo, mais grana você ganha. Além disso, os clientes também podem presentear as modelos com ‘moedas’, que são convertidas em pagamento no fim da semana. 

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Arquivo/Reprodução

O pagamento é feito em dólares e convertido automaticamente em reais a partir de uma conta feita num banco internacional. Os dados dessa conta bancária ficam sob sigilo do aplicativo e as camgirls são orientadas a nunca passarem esses dados para seus clientes. Uma quantia parcial do dinheiro produzido no LivU fica com os responsáveis pela plataforma, como uma taxa de administração, e o restante é disponibilizado para a modelo, que pode sacar a quantia semanalmente se atingir a meta de 20 mil moedas. Para conquistar esse número, é preciso receber presentes dos clientes e ter muito tempo de chamadas efetuadas. Quem está melhor no ranking, recebe com mais facilidade

Em relação às conversas vivenciadas dentro da plataforma, a jovem relata que é sempre uma caixinha de surpresas. “Tem muito cara lá que está bem solitário por conta da pandemia e só quer conversar, saber como está o lockdown no meu país e fazer amizade. Outros são mais objetivos e logo pedem para me ver pelada ou realizar algum fetiche. Elogios não faltam, mas pessoas escrotas também não. Pode ser um ambiente bem tóxico se você não estiver bem emocionalmente”, conta a designer de moda.

“Tem muito cara lá que está bem solitário por conta da pandemia e só quer conversar. Outros são mais objetivos e logo pedem para me ver pelada ou realizar algum fetiche. Elogios não faltam, mas pessoas escrotas também não. Pode ser um ambiente bem tóxico se você não estiver bem emocionalmente”

Lívia*, cam girl
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Kareen Sayuri/Redação

Vale a pena ser cam girl?

Apesar disso, estar atrás de uma câmera passou a ser uma opção para Lívia logo nos primeiros dias de uso do LivU por conta da remuneração. “Com duas semanas de trabalho, consegui ganhar R$700 a mais do que eu ganhava no meu emprego antigo. Vi que poderia receber bem mais se me dedicasse nos horários certos”, relata. Outro ponto que conquistou a jovem, além da possibilidade de receber em dólar com a moeda brasileira tão desvalorizada, foi o anonimato. Para entrar no LivU, ela precisou apresentar os documentos para comprovar que era maior de idade, além de se cadastrar previamente com uma entrevista – mas todos esses dados ficam assegurados com a gestão do aplicativo. Já na hora de trabalhar, a jovem pode usar outro nome e ter a certeza de que não seria encontrada, uma vez que seu nome verdadeiro e suas contas nas redes sociais não ficam vinculadas à plataforma. A única exigência do aplicativo é que as modelos mostrem o rosto.  Mesmo assim, para garantir sua privacidade e anonimato, ela também pode bloquear chamadas de brasileiros atendendo apenas pessoas de outros países. 

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Arquivo/Reprodução

“Ninguém nunca me encontrou fora do aplicativo. Apenas uma vez passei meu Instagram para um rapaz que eu considerava meu amigo, mas logo me arrependi porque, quando eu não o respondia pela plataforma, ele me chamava na DM. Então, acabei bloqueando ele das minhas chamadas”, relembra. A opção de bloqueio, inclusive, é bastante usada e muito bem-vinda quando os clientes têm atitudes que as camgirls interpretam como indelicadas ou sujas. “Nesses aplicativos, você encontra de tudo mesmo. Tem muitos homens com fetiche esquisito, que querem que você faça coco no chão ou então tenha relação sexual com pessoas mais velhas da sua família, como seu pai ou avô. Eles fantasiam isso. Eu sou uma garota que não aceita esse tipo de coisa, tenho meus limites e sempre tento respeitá-los”, admite Lívia.

Segundo a sexóloga Maitê Silva Cambraia, parte desse comportamento se deve à liberdade que a relação online traz. “A internet possibilita que as pessoas falem coisas que elas não necessariamente fariam pessoalmente, você é livre para imaginar. Nem tudo que as pessoas têm como fetiche são práticas possíveis de serem feitas. Dessa forma, pela webcam, elas conseguem falar, experimentar e colocar seus desejos para fora sem que isso acarrete danos, culpa ou julgamento”, explica.

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Kareen Sayuri/Redação

Seja você, mesmo que seja…

Embora tenha que conversar com pessoas do mundo todo, ter uma segunda língua não é pré-requisito para ser camgirl. A publicitária Bia*, de 24 anos, conheceu o aplicativo pensando que seria uma ótima maneira de treinar seu inglês, já que conversaria com gringos. Entretanto, descobriu que o LivU possui tradução simultânea durante as conversas, facilitando a comunicação. “Eu tinha acabado de me formar na faculdade e o contrato do meu estágio também tinha terminado. Estava sem grana e precisava me programar para o meu intercâmbio, vi a oportunidade de trabalhar conversando com estrangeiros num grupo de Facebook e fui”, conta a jovem, que começou a trabalhar como camgirl em junho de 2020.

Quando viu que conseguiria tirar uma boa grana trabalhando de casa, começou a levar a atividade com seriedade, como um emprego CLT. “Hoje em dia, muitas pessoas conhecem o aplicativo, então a concorrência é grande para você conseguir mais dinheiro. Eu trabalhava com meta, ou seja, estipulava que teria que fazer pelo menos R$1 mil por semana, por isso trabalhava das 21h às 8h da manhã todos os dias. De madrugada é o horário de pico”, relata. Hoje, a jovem mora nos Estados Unidos e admite que a viagem foi paga com todo o dinheiro arrecadado durante as madrugadas. Embora Bia não preste mais serviços para o aplicativo com tanta frequência, ela ainda o usa quando acontece alguma urgência. “Atualmente, só faço quando preciso mesmo”, conta.

“Eu trabalhava com meta, ou seja, estipulava que teria que fazer pelo menos R$1 mil por semana, por isso trabalhava das 21h às 8h da manhã todos os dias. De madrugada é o horário de pico”,

Bia*, camgirl

A publicitária escondeu a atividade dos pais e até da terapeuta por medo do julgamento alheio. “Nunca contei pra minha terapeuta porque nunca tive coragem. Apesar de não me arrepender de ter feito, porque me ajudou muito quando eu precisei, ainda sinto que tem um certo julgamento por parte da sociedade, é um assunto muito delicado”. 

O julgamento se deve ao fato das conversas estabelecidas dentro da plataforma serem, em sua maioria, de cunho sexual. Apesar de ser um aplicativo para conversas com pessoas do mundo todo, a ideia central é se exibir na frente de uma tela, seja para matar o tédio ou para realizar fantasias eróticas e o machismo ainda ressoa nesses ambientes. “Tem muita menina que ganha grana mostrando o corpo todo. Eu comecei de uma maneira diferente, tanto que os clientes com que eu mais lucrava eram aqueles que eu conseguia passar horas conversando, você acaba fazendo amizade com essas pessoas, alguns estão ali apenas para conversar mesmo”, conta Bia.

Essa necessidade de conversar, claro, aumentou com a chegada da pandemia no começo de 2020. As pessoas passaram a ficar mais tempo em casa e a busca por conteúdos pornográficos disparou. Tanto que grandes canais eróticos, como o Sexy Hot, liberaram o acesso a alguns vídeos e a plataforma de conteúdos adultos PornHub ofereceu assinatura premium gratuitamente com o intuito de aumentar a adesão das pessoas ao isolamento social.

A procura pelas camgirls também aumentou pelo mesmo motivo. “Com a impossibilidade do contato físico, corpo a corpo, as pessoas encontram nas camgirls uma proposta de vivenciar sua sexualidade sem correr muito risco. Hoje vivemos cada vez mais dentro da tecnologia, resolvemos tudo pelo celular – e com a sexualidade não seria diferente”, explica a sexóloga Maitê.

“Com a impossibilidade do contato físico, corpo a corpo, as pessoas encontram nas camgirls uma proposta de vivenciar sua sexualidade sem correr muito risco. Hoje vivemos cada vez mais dentro da tecnologia, resolvemos tudo pelo celular – e com a sexualidade não seria diferente”

Maitê Cambraia, sexóloga

Apesar de também encontrarem clientes mulheres dentro desses aplicativos, tanto as modelos quanto a sexóloga concordam que o número de homens é bem maior nas plataformas. Não só para explorar um lado sexual reprimido pela sociedade, como admitir fetiches que são reprimidos pela maioria das pessoas, mas também para conversar e desabafar sobre problemas que não conseguem levar para uma psicoterapia ou para suas parceiras sexuais. 

“A terapia sexual é pouco falada e a psicoterapia convencional ainda é um estigma para muitos homens, eles ainda enxergam essa busca por ajuda como um sinônimo de doença. Com essas garotas eles encontram um espaço para uma amizade e afetividade, no sentido de ser um local onde eles podem ser eles mesmos, conversar e se expor sem medo de ser rotulado. Além disso, outra questão que pesa é o jogo de sedução que não aconteceria nas consultas psicológicas”, exemplifica a sexóloga.

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Kareen Sayuri/Redação

Hora da xepa

A designer de moda Cyara Moon*, de 22 anos, descobriu a possibilidade de trabalhar atrás das câmeras em 2018 através de uma amiga que já era camgirl há alguns anos. “Eu era analista financeira numa startup de educação. Depois que fui demitida passei a trabalhar como camgirl e ainda fazia alguns freelas com costura. Nunca foi minha renda principal, mas sempre me ajudou bastante”, comenta.

Com a demissão e a reta final da faculdade, ela precisou buscar alternativas. “Eu cursava Moda e, apesar de ter bolsa, estava na época do TCC, então os materiais para o projeto eram bem caros. Essa renda extra acabou me ajudando bastante”, explica a jovem que conseguia arrecadar quase R$500,00 por mês.

“Eu sempre tive uma preocupação muito grande com as pessoas descobrirem minha identidade, por isso sempre usei máscaras durante o atendimento. Começou despretensiosamente e depois se tornou quase que uma marca registrada”

Cyara Moon*, camgirl

Diferente de Lívia e Bia, a plataforma escolhida por Cyara Moon foi a Cam4, focada apenas na produção e divulgação de conteúdos pornográficos. O diferencial era que ela não precisaria mostrar o rosto durante os atendimentos. “Eu sempre tive uma preocupação muito grande com as pessoas descobrirem minha identidade, por isso sempre usei máscaras durante o atendimento. Começou despretensiosamente e depois se tornou quase que uma marca registrada”, conta. 

Quem também decidiu usar máscaras para se sentir mais à vontade com os clientes foi a Kat, personagem vivida pela atriz brasileira Barbie Ferreira, na série estadunidense Euphoria, da HBO. Na trama, a jovem tem um sextape vazado em um site pornô e, apesar de se desesperar com o ocorrido, decide reverter a situação a seu favor.

Depois de olhar os comentários do vídeo sentindo-se tão desejada, Kat resolve se arriscar no mundo das camgirls. Lá, encontra diversos homens que a endeusam, com elogios e muitos presentes. Entretanto, os fetiches que aparecem podem ser considerados estranhos por muitas pessoas, como a vontade insaciável de ser xingado e humilhado por mulheres. 

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Arquivo/Reprodução

Apesar de se tratar de uma ficção, Cyara Moon afirma que encontrar homens assim é muito comum na realidade. “A coisa mais esquisita que já me pediram pra fazer foi me masturbar com uma cenoura e depois comer. Você literalmente encontra de tudo, desde gente muito bacana a outras pessoas muito insuportáveis de lidar e não é sempre que dá pra xingar o cara porque você precisa do dinheiro daquele tempo de chamada. Então, você suporta”, conta. Nesses encontros virtuais os homens têm coragem de mostrarem lados que geralmente omitem de suas parceiras da vida real. “Muitos homens adoram estimular a próstata, é engraçado porque parece que eles se sentem mais confortáveis com uma desconhecida na internet, do que em assumir essa vontade fora dali”, conta. 

“A coisa mais esquisita que já me pediram pra fazer foi me masturbar com uma cenoura e depois comer. Você literalmente encontra de tudo, desde gente muito bacana a outras pessoas muito insuportáveis de lidar e não é sempre que dá pra xingar o cara porque você precisa do dinheiro daquele tempo de chamada. Então, você suporta”

Cyara Moon*, camgirl

É claro que todo esse receio surge junto com a construção de uma sociedade machista. De acordo com a sexóloga Maitê, é preciso construir um espaço de diálogo entre o feminino e o masculino, uma vez que muitas mulheres ainda se encontram resistentes à ideia de explorar o corpo do parceiro em sua totalidade. Se para as mulheres isso ainda é uma dificuldade, para os homens a questão é ainda pior. “Ainda existe um estigma sobre experienciar o toque na próstata. ‘Se eu sou um homem hétero eu não posso gostar disso porque isso está relacionado a uma prática homoafetiva’, pensando dessa forma se altera a maneira como eles se enxergam diante da sociedade. É por isso que nesse espaço [das chamadas de vídeo] eles se sentem tão confortáveis para experienciar isso”, explica Maitê.

Se por um lado os homens se sentem tranquilos com a presença das camgirls, do outro muitas meninas relatam situações conflituosas. “É um ambiente machista e tóxico demais. Por isso, criar uma personagem foi uma saída para mim, porque eu aguento tudo o que eu vejo e os xingamentos enquanto personagem. “É preciso ter uma cabeça muito boa para saber diferenciar aquilo da sua vida real. Além disso, a terapia me ajuda muito. Eu aprendi a saber quando estava chegando no meu limite para dar uma pausa de um dia, colocar as ideias no lugar, respirar fundo e voltar a trabalhar com energia total”, relata Cyara Moon.

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* Os nomes das entrevistadas foram substituídos por pseudônimos para preservar suas identidades

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