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É pra dar ressaca

Antes do gim tônica, a febre brasileira era tomar drink ruim. Separamos algumas receitas que nunca vão deixar de ser raiz

por Artur Tavares Atualizado em 8 jun 2020, 16h14 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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elástica//Ilustração

xistem poucos lugares no planeta que têm uma cultura tão peculiar para a coquetelaria como o Brasil. Somos bons bebedores, adoramos uma cachaça, mas, ao mesmo tempo, não temos medo de inovar. Enquanto marcas estrangeiras tentam nos vender a cultura do gim tônica, a masculinidade do negroni e a leveza dos spritz, a verdade é que o brasileiro médio tem um gosto tosco para bebida. Tosco e doce: “É apenas uma suposição minha, mas acho que isso se origina na confeitaria portuguesa, que é bem doce. Como colônia, o Brasil tinha o açúcar como um artigo de luxo. É um produto que ganhou muito valor na nossa cultura”, explica Diogo Sevilio, eleito melhor bartender brasileiro pelo World Class Brasil em 2017 e chefe de bar do Cozinha 212. “Além disso, falta repertório no paladar das pessoas. Elas acham que misturar uma coisa gostosa com outra coisa gostosa dá certo. Não manjam das técnicas, fazem do jeito que dá, sempre supervalorizando o açúcar.”

Reconhecido como um astro entre os seus colegas bartenders, Diogo também é um dos responsáveis pelo projeto sazonal Marginália, que ressignifica drinks toscos em alta coquetelaria, oferecendo-os a preços bastante atrativos. Sua pesquisa o levou a entender mais sobre a peculiaridade do doce no paladar das bebidas alcoólicas: “Não faz muito tempo, as marcas de leite condensado colocavam as receitas de coquetéis em suas latinhas, acessibilizando o conteúdo. Isso causou uma explosão de pessoas fazendo batidas, por exemplo. Tenho certeza que a ‘moça da latinha’ tem um pouco de culpa”, diz.

Vilão entre os bartenders de respeito, o leite condensado não deveria ter esse ar tão negativo: “É um ingrediente usado para dar cremosidade e doçura. É um problema? Não! Mas nem toda receita precisa disso. Um copo grande de batida é pesado, nutritivo. Não dá para beber mais de um. É por isso que os restaurantes servem em shots, como digestivos.”

E mesmo com a popularização da coquetelaria de qualidade, ainda arriscamos tomar um capeta de vez em quando. Diogo tem uma teoria sobre isso: “Esse tipo de bebida tosca ainda hoje é consumida porque tem relação com o momento. Não se trata de algo afetivo com relação à receita em si. Ninguém tem saudade de tomar essas misturas esdrúxulas, mas uma reunião de amigos pode ser um ambiente propício para alguém jogar a ideia no ar e a galera se empolgar nas lembranças, de quando bebiam sem responsabilidade e recursos.”


Abaixo, selecionei algumas receitas das bebidas mais toscas que já vi ou tomei nessa vida. Experimente por sua conta e risco.

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Felms/Ilustração

Pau na Coxa
(ou Espanhola)

Ingredientes
1 litro de vinho tinto
1 lata de leite condensado
Gelo

Modo de preparo
Bata todos os ingredientes em um liquidificador e sirva

Com um litro de vinho, é pau na coxa dos brothers todos. Aqui, vale um adendo: na cidade mineira de Passa Quatro, uma barraca de bebidas chamada Pais e Filhos serve uma versão do Pau na Coxa acompanhada de calda de morango, como um sundae. Lá o coquetel se chama saco roxo. E, por falar nisso…

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Felms/Ilustração

Saco Roxo

Ingredientes
1 copo americano de pinga
1 copo americano de água
1 lata de leite condensado
1 lata de creme de leite
3 colheres (chá) de café solúvel
2 colheres (chá) de chocolate em pó
1 colher (chá) de canela em pó
Gelo

Modo de preparo
Bata tudo no liquidificador e sirva

Trata-se de outra versão mineira do Saco Roxo. Não sabemos qual é pior.

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Felms/Ilustração

Adrenalina

Ingredientes
50 ml de vodca
10 ml de licor de menta
20 ml de leite condensado
Gelo

Modo de preparo
Bata a vodca, o licor de menta e o leite condensado com o gelo. Sirva em um copo com calda de chocolate

Assim como a versão passa-quatrense do Pau na Coxa, o Adrenalina também é uma espécie de sundae alcoólico, que deve ser finalizado com a calda de chocolate para piorar tudo. 😉

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Felms/Ilustração

Espanca Neném

Ingredientes
50 ml de conhaque Dreher
200 ml de refrigerante de laranja Sukita
½ limão
Gelo

Modo de preparo
Em um copo alto com gelo, misture o conhaque, o refrigerante e o limão espremido

Essa receita é do meu amigo João, lá de São Bernardo do Campo. Nunca vi ninguém de fora da galera fazer. Aqui, a dica para o Espanca Neném perfeito está nas bebidas usadas. Não adianta usar um conhaque melhor que Dreher, nem qualquer outro refrigerante de laranja que não seja Sukita. Parece brincadeira, mas já tentamos de tudo e não fica a mesma coisa.

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Felms/Ilustração

Porradinha

Ingredientes
50 ml de vodca
Refrigerante de limão

Modo de preparo
Em um copo longo, coloque a vodca e complete com o refrigerante de limão. Tampe com a mão, chacoalhe, bata na perna e beba

Tão clássico como um negroni, a porradinha deve ser tomada sem gelo para que a gaseificação ultrapasse os níveis aceitáveis e queime os olhos. Aviso aos bêbados: NUNCA bata o copo em uma superfície dura, como uma mesa. Trata-se de uma obviedade, mas é bom dar o toque.

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Felms/Ilustração

Toddynho

Ingredientes
250 ml de conhaque
500 ml de leite
3 colheres de sopa de chocolate em pó
1 lata de leite condensado

Modo de preparo
Misture o conhaque e o leite bem gelados com o chocolate em pó e o leite condensado. Bata no liquidificador

Conhaque com leite, uma mistura tão nociva quanto leite com manga.

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Sexo na Lua

Ingredientes
50 ml de rum
50 ml de curaçau blue
25 ml de Contreau
2 colheres de sopa de groselha
2 colheres de sopa de leite condensado
1 copo de suco de abacaxi

Modo de preparo
Bata todos os ingredientes com gelo no liquidificador

Qualquer coisa feita com curaçau blue é um perigo. Meu primeiro porre foi uma mistura do licor com Malibu. Simplesmente horrível. Sobre o Sexo na Lua, um amigo paraibano tem outra receita igualmente ruim: misturar cachaça Pitu, kisuco de maracujá e leite condensado.

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Felms/Ilustração

Caralhinho

Ingredientes
50 ml de Fogo Paulista
40 ml de café
Gelo

Modo de preparo
Misture o Fogo Paulista e o café quente em um copo com gelo

Trata-se de uma versão brasileira do drink espanhol Carajillo, substituindo o Licor 43 por Fogo Paulista e um espresso de boa qualidade por qualquer café tosco (vale Pilão, sim!). No original, toma-se quente mesmo, mas aqui a gente estraga mais a coisa com o gelo. Essa é uma criação do Diogo.

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Beijo na Boca

Ingredientes
50 ml de vodca
Halls preto
Açúcar
Suco de limão

Modo de preparo
Jogue três pacotes de Halls preto em um litro de vodca, guarde até que as balas dissolvam e se misturem no álcool. Use a infusão para fazer a mistura com o suco de limão e o açúcar.

Outra criação do Diogo, que é maluco por vodca com Halls. Apenas um comentário sobre essa tosqueira avançada: não estrague uma vodca boa com essa infusão de Halls.

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