envolvimento

Somos responsáveis por construir novas possibilidades

Em sua estreia como colunista da Elástica, a vereadora paulistana Erika Hilton faz um apelo para que olhemos para as vidas trans

por Erika Hilton Atualizado em 16 jul 2021, 23h29 - Publicado em
18 abr 2021
22h26

erika hilton

N

este meu primeiro texto aqui na Elástica, apesar do contexto dificílimo que estamos vivendo, tinha pensado em fazer um texto mais pra cima, mais glow, com uma mensagem positiva e de esperança – afinal, a gente tem que acreditar que as coisas vão melhorar, se não a gente nem sai da cama, né? Mas, semana passada, recebi a notícia de que Madalena Leite, primeira travesti eleita vereadora em Piracicaba, no interior de São Paulo, foi encontrada morta, assassinada de forma brutal. Praticamente todas as semanas recebo notícias assim. E fico me perguntando: por que as nossas mortes não chocam a sociedade? Por que as vidas trans e as vidas negras importam tão pouco ou quase nada?

Estamos cansadas. Estamos cansadas de sofrer violências, estamos cansadas de denunciar violências. Estamos cansadas de ser abjetas. Estamos cansadas de ser objeto de desejo e de repulsa, no país que mais consome pornografia com pessoas trans e também o que mais mata pessoas trans. Cerca de 80% dessas pessoas trans assassinadas eram negras, como Madalena Leite, Dandara dos Santos, Flávia Furtado, Luanny Kelly, entre muitas outras que não chegamos nem a saber os nomes.Ser travesti e negra aumenta a vulnerabilidade. Sofrer racismo e transfobia não é para principiantes. Segundo o dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2020, nós, travestis negras, temos menos acesso ao mercado de trabalho e, consequentemente, ficamos mais expostas e corremos mais risco nas esquinas.Mas e aí, tem saída? Como é que a gente faz pra resolver isso?

“Estamos cansadas. Estamos cansadas de sofrer violências, estamos cansadas de denunciar violências. Estamos cansadas de ser abjetas. Estamos cansadas de ser objeto de desejo e de repulsa, no país que mais consome pornografia com pessoas trans e também o que mais mata pessoas trans”

Bom, sempre tem a opção do meteoro, por muitos e muitas aguardado, mas que não tem data certa para explodir o planeta Terra, acabar com a humanidade e começar tudo de novo. Enquanto isso, todas, todos e todes nós somos responsáveis por construir uma alternativa, por buscar um novo marco civilizatório, por restituir a humanidade aos corpos dissidentes, enfim, por colocar em prática um projeto emancipatório que abarque todas as existências. E como fazer isso?Com respeito às diferenças. Com efetiva cidadania. Com igualdade de acessos e direitos. Com condições de vida digna para todes. Com educação e saúde públicas de qualidade. Com moradia, emprego e direito à cidade. Mas, sobretudo, com amor. Não falo do amor romântico burguês – possessivo e monogâmico, muitas vezes – mas daquele amor que nos motiva a fazer algo pra transformar a realidade. Aquele amor que nos move para as lutas diárias e nos mantém de pé nas batalhas que travamos por nós e por nossos pares. Esse amor que se mistura com raiva e nos impulsiona para um novo mundo.Sigamos em desconstruções e construção.

Axé.

Continua após a publicidade

____________________

ERIKA HILTON é a primeira mulher trans eleita como vereadora em São Paulo. Nascida em Franco da Rocha e criada em Francisco Morato, periferia de São Paulo, Erika atuou como codeputada estadual no mandato da Bancada Ativista do PSOL em 2018. Mesmo antes de entrar na política, já era ativista em prol dos direitos das travestis, das pessoas negras e das LGBTQIA+.

Tags Relacionadas
mais de
envolvimento
Selecionamos pessoas que trazem discussões sobre demarcação de terras, igualdade de gênero e saberes ancestrais
3-2-mov-negro

Fogo!

Por
Com as tensões acirradas, a sociedade brasileira teve que encarar de frente e debater o racismo em 2021
obrasiltalascado_cartuns-fí_1

O Brasil tá lascado

Por
Alguns fenômenos econômicos e a instabilidade política têm feito seu bolso virar do avesso e o país sugar todo seu dinheiro
IMG_9983-1

Camilla: de repente 35

Por
O Brasil ainda tem uma das menores expectativas de vidas para travestis e mulheres trans. Para elas, o que significa chegar na velhice?
mtst-marighella_121221_1101

Sem tempo para o medo

Por
Acompanhamos a exibição de 'Marighella' na ocupação do MTST Carolina Maria de Jesus e vimos que a luta do guerrilheiro está mais viva do que nunca

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.