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O juliet não impede de ver novos horizontes

Ainda que o funk seja um dos maiores movimentos da cultura brasileira, ele ainda é estigmatizado e alvo de preconceito por parte da sociedade

por Beatriz Lourenço 25 Maio 2021 01h24
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Clube Lambada/Ilustração

Era trabalhador, pegava o trem lotado, tinha boa vizinhança, era considerado. E todo mundo dizia que era um cara maneiro, outros o criticavam porque ele era funkeiro. O funk não é modismo, é uma necessidade. É pra calar os gemidos que existem nessa cidade” — este é um trecho da música Rap do Silva, do MC Bob Rum. Após 26 anos de seu lançamento, a letra, que conta a história de um trabalhador marginalizado por seu estilo, ainda é atual.

No Brasil, o funk carioca nasceu em meados de 1970, nos chamados bailes black, onde o ritmo se juntava ao soul. Na época, as festas contavam com DJs, paredões de som e reuniam milhares de pessoas. De lá para cá, a sonoridade se transformou ao incorporar batidas repetitivas – o chamado tamborzão – e hoje representa um dos mais importantes fenômenos de massa do país. Para se ter uma ideia, o maior canal brasileiro no YouTube é o do diretor e produtor musical Kondzilla, com mais de 64 milhões de inscritos. Ainda assim, o movimento é alvo de estigmatização, reflexo dos preconceitos contra a origem racial e social de seus seguidores.

Um exemplo disso é a declaração do produtor Rick Bonadio em sua conta do Twitter sobre a apresentação da cantora Cardi B no Grammy deste ano. Acontece que a artista inseriu um trecho do remix de “WAP”, feito pelo DJ Pedro Sampaio, e Bonadio não se agradou com a animação dos brasileiros. “Já exportamos Bossa Nova, já exportamos Samba Rock, Jobim, Ben Jor. Até Roberto Carlos. Mas o barulho que fazem por causa de 15 segundos de funk na apresentação da Cardi B me deixa com vergonha. Precisamos exportar música boa e não esse ‘fica de quatro'”, disse.

Mas engana-se quem pensa que esse é um alvo novo. Na verdade, tudo começou em 1992, quando a imprensa associou alguns arrastões ocorridos nas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro aos funkeiros. “Uma reportagem do Jornal do Brasil traçou o perfil do funkeiro como morador de favela, amante de filme de violência, usuário de drogas e eleitor da candidata Benedita da Silva (PT). Aí ele ficou conhecido como um inimigo público. É como a elite via e ainda vê o jovem preto que anda na cidade”, explica o antropólogo Dennis Novaes, também criador do festival Favela Sounds.

“Uma reportagem do Jornal do Brasil traçou o perfil do funkeiro como morador de favela, amante de filme de violência, usuário de drogas e eleitor do PT. Aí ele ficou conhecido como um inimigo público. É como a elite via e ainda vê o jovem preto que anda na cidade”

Dennis Novaes

A criminalização por parte do Estado tomou forma quando, em 1999, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) a fim de investigar as festas nas periferias. O resultado foi a promulgação da Lei nº 3.410, que impôs uma série de regras aos encontros: passou a ser necessária uma autorização prévia, bem como a presença de Policiais Militares do início ao encerramento do evento e a proibição de músicas com apologia ao crime. Já em 2008, a Lei Estadual 5.265, criada pelo então deputado estadual Álvaro Lins, dificultou a organização dos bailes ao solicitar a apresentação de uma série de documentos para sua realização, como contrato de empresas autorizadas pela Polícia Federal – abrindo espaço para arbitrariedades nas decisões.

Só em 2009 que o funk foi institucionalmente considerado como cultura, com a Lei nº 5543. Segundo ela, este é “um movimento cultural e musical de caráter popular”. Além disso, a decisão indicou ao poder público o dever de assegurar suas manifestações próprias, como festas, bailes, reuniões, sem quaisquer regras discriminatórias e nem diferentes das que regem outras manifestações da mesma natureza. Já os assuntos relativos ao funk foram destinados a órgãos do Estado relacionados à cultura, e não à Segurança Pública, como vinha sendo realizado até então. E, por fim, ficou proibido qualquer tipo de discriminação ou preconceito, seja de natureza social, racial, cultural ou administrativa contra o funk ou seus integrantes.

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Criatividade e impacto social

Se o conceito de cultura passa pela experiência histórica de gerações anteriores, conjunto de crenças e desenvolvimento de uma linguagem, é certo dizer que o funk cumpre todos esses requisitos. “Ele resgata os nossos ancestrais negros na base rítmica, nas formas de canto e nas suas temáticas. Algumas bases das músicas também são construídas com atabaques e tambores, que se ligam ao maculelê (dança tradicional da cultura afro-brasileira)”, declara Novaes. “Ao mesmo tempo, ele tem uma espécie de futurismo sonoro já que, geralmente, é criado em computadores de baixa qualidade e com condições mínimas de produção musical”.

“Usei o meme justamente para instigar a atenção dos jovens e porque é mais leve. Quero que qualquer um entenda esse conteúdo, já que faço como se fosse para falar com meus amigos. No fim, o funk tem muita semelhança com a literatura. Os proibidões, que falam sobre armas e crimes, relatam o cotidiano das favelas e o que a gente vive. E isso é exatamente o que um escritor faz”

Dayrel Teixeira

Segundo o antropólogo, a preocupação dos jovens criadores não está no tom de voz ideal, mas nas possibilidades de explorar, investigar e testar inúmeras variações sonoras. “Eles incorporam tudo e não se limitam às noções canônicas da música ocidental. Os artistas pensam no som em um sentido amplo: uma garrafa batendo em uma porta pode virar música e um meme engraçado pode ser o tema principal de uma letra”, conta. “Quando essas vozes ecoam no Brasil inteiro e em outros países, é um marco importantíssimo porque a periferia ainda é uma minoria que precisa ser ouvida”.

Pensando na valorização dessa cultura, o coletivo Funk no Poder, formado por pesquisadores, artistas e ativistas ao redor do país, está se mobilizando para criar o Dia Nacional do Funk. A data escolhida, 12 de julho, visa celebrar a primeira festa que se tem conhecimento, o chamado Baile da Pesada – que ocorreu no ano de 1970. “A nossa ideia é que o Estado reconheça a potência cultural, política, social e econômica do funk para que possamos pensar em políticas públicas e de incentivo para aqueles que rodeiam essa área”, conta a historiadora Juliana Bragança, que faz parte da organização. Para ser aprovada, a ideia ainda precisa passar por uma audiência pública na Câmara dos Deputados, pelo Senado e, por fim, necessita da aprovação do Presidente da República.

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Instagram/Reprodução

Reinventando o imaginário da população

A fim de quebrar paradigmas sobre os amantes da música, Dayrel Teixeira, de 21 anos, criou a página do Instagram Funkeiros Cults. Nascido na periferia de Manaus, o jovem teve a ideia de juntar literatura e funk a partir de um incômodo: “Fui trabalhar em uma uiversidade particular e, para mim, foi um choque de realidade. No dia a dia, era estranhado pelas minhas roupas e aparência. Piorava quando eu ia para a biblioteca pegar algum livro porque parecia que estava fazendo algo errado”, conta. “Aí, me atentei à forma como a sociedade vê o funkeiro e acredita que ele não tem cultura”.

Contrariando o documento da Receita Federal que diz que os livros são consumidos pela faixa mais rica da população, Teixeira passou a se interessar por literatura quando cursava o ensino médio em escola pública. “Meu primeiro contato foi com a poesia de Augusto dos Anjos, que funcionou como um escape para o momento em que eu estava vivendo. Acabei me interessando mais e pesquisei outros escritores. Além disso, passei a consumir cinema e arte no geral”, relembra. “A criação da página foi importante para dizer para as pessoas que ouvir um estilo musical mais popular não nos impede de gostar do universo erudito”.

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Ao todo, a Funkeiros Cults já tem mais de 250 publicações que unem fotos dos funkeiros lendo seus livros favoritos. Entre os títulos estão O Sol é Para Todos, de Harper Lee; Manifesto Comunista, de Friedrich Engels e Karl Marx; O Príncipe, de Nicolau Maquiavel e Mulheres, Raça e Classe, de Angela Davis. A legenda das imagens, sempre divertida, traduz a ideia principal das obras para as gírias da quebrada. Para Dayrel, essa foi a forma encontrada de disseminar o conteúdo. “Usei o meme justamente para instigar a atenção dos jovens e porque é mais leve. Quero que qualquer um entenda esse conteúdo, já que faço como se fosse para falar com meus amigos”, afirma. “No fim, o funk tem muita semelhança com a literatura, mas parece que ele não tem a liberdade de ter o ‘eu lírico’. Isso acontece porque são relatos da periferia. Os proibidões, que falam sobre armas e crimes, relatam o cotidiano das favelas e o que a gente vive. E isso é exatamente o que um escritor faz”.

Outra conta que embarca nessa ideia é a Se Poema Fosse Funk, criada pelo publicitário Murilo Lense, de 30 anos. Ele, que se aproximou da poesia na casa dos pais durante a pandemia, pensou em como seria transformar essa linguagem para os dias atuais. “Foi lendo poemas do Carlos Drummond de Andrade que pensei em fazer a tradução para letras de funk. A ideia é tentar sempre manter o sentido original, a rima e a sonoridade”, explica. Como resultado, o poema de Paulo Leminski que diz “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além” passou a ser “essa fita de querer ser mó do jeito que nóis é ainda vai deixar nóis foda”.

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Para Lense, há uma riqueza em aproximar dois universos diferentes e, muitas vezes, distantes. “Entendi que eles podem conversar entre si uma vez que os sentimentos de um poeta que viveu há anos atrás pode ser o mesmo de alguém que vive hoje. O que acontece é que eles são transmitidos de maneiras diferentes”, diz. “A ideia da página também é incentivar as pessoas a se interessarem por outros universos, quebrando barreiras entre o popular, o erudito e minimizando o preconceito”.

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