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Desacompanhados pelo SUS

Fila de mais de uma década, depressão e esperança: homens trans periféricos falam sobre seus processos de transição

por Rahzel Alec da Silva Atualizado em 20 abr 2021, 13h33 - Publicado em 12 abr 2021 03h28
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Clube Lambada/Ilustração

uando o endocrinologista listou os possíveis efeitos colaterais da testosterona, pensei que precisaria apenas de fé para a chegada das mudanças corporais. Hoje, após um ano e dez meses de hormonização, entendo que o processo demanda muito mais do que acreditar. É preciso abrir mão de muita coisa.

Eu tinha 20 anos quando incluí no meu processo de transição a ideia de me submeter a um tratamento hormonal. No início, meu sonho era ser visto pelas pessoas como um homem cisgênero, isto é, que se sente confortável com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Procurei pessoas parecidas comigo e foi no YouTube que encontrei, pela primeira vez, homens trans contando sobre suas experiências com a testosterona. Alguns recorriam ao acompanhamento por hospitais particulares, outros contavam sobre ambulatórios públicos direcionados para a população trans, mas a maioria relatava ter recorrido à hormonização por conta própria. A ideia de ter pelos no rosto, voz mais grave e um corpo com outro formato foi muito atrativa, mas eu sabia que, por ser hipertenso, a aplicação de testosterona sem prescrição médica poderia me causar complicações. Preferi, então, procurar o posto de saúde perto de casa.

“Eu estava feliz por ser o segundo na minha favela a conseguir um documento oficial com meu nome, mas toda vez que ia ao posto, eu era chamado pelo nome antigo”

Rahzel Alec da Silva

Tracei na cabeça um passo-a-passo: ir até o postinho, solicitar o nome social na carteirinha do SUS e, depois, o encaminhamento para o IEDE, que é um ambulatório estadual especializado no processo transexualizador na rede pública. Na minha cabeça era um plano simples, mas depois da primeira etapa tudo foi complicado. No Morro do Preventório, onde eu morava, que é uma favela de aproximadamente cinco mil habitantes na cidade de Niterói, os agentes de saúde ainda estavam se familiarizando com a inclusão do nome social no programa em que são realizados os cadastros dos usuários do SUS (a inclusão do nome social nos órgãos públicos foi decretada em 2016 no Decreto n° 8.727), daí o nome de registro veio em letras garrafais e o nome social meio escondido, em letras menores. Eu estava feliz por ser o segundo na minha favela a conseguir um documento oficial com meu nome, mas toda vez que ia ao posto, eu era chamado pelo nome antigo.

Quando fui solicitar o encaminhamento ao endocrinologista, os profissionais me disseram que o SisReg – sistema web no qual são agendadas consultas, exames e cirurgias – tem um longo tempo de espera e que, por isso, não sabiam quanto tempo levaria. Fui ao posto todos os dias depois da escola durante 2017 e a resposta era sempre a mesma: ainda não sabemos.

Em 2018, por conta da minha entrada na universidade, me mudei para a capital do Rio de Janeiro e resolvi recomeçar o processo em outro posto de saúde. Lá, descobri que em Niterói nunca haviam feito uma solicitação para mim.

Cleo Oliveira, assistente social e assistente de pesquisa clínica do INI/Fiocruz, diz que “esse encaminhamento às vezes não acontece por conta de uma estrutura burocrática que impede que a gente possa fazer um encaminhamento direto ou procurar diretamente os serviços. E isso está posto devido ao sucateamento da saúde no Brasil”.

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Arte/Redação

Nathan

Ciente de casos como o meu, Nathan Victoriano foi direto ao Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), pioneiro, desde 1999, nesse tipo de tratamento. Durante os sete meses de espera, a incerteza e o medo de sofrer transfobia consumiam o jovem de 25 anos, que na época morava no Morro dos Tabajaras, no coração de Copacabana. Se havia má vontade para marcar uma das primeiras consultas, o que não poderia acontecer ao longo do processo de hormonização? Tal pensamento o levou a tomar duas doses de testosterona clandestina por conta própria.

Após alguns meses de acompanhamento no IEDE, Nathan viajou para São Paulo e se cadastrou em uma Unidade Básica de Saúde na Barra Funda, bairro da zona oeste. Lá, percebeu que o sistema funcionava de forma diferente quando comparado aos ambulatórios públicos do Rio de Janeiro: “Eles têm testosterona gratuita, ginecologista que atende o público trans em dias específicos. Só isso é muito especial, muito necessário para a gente evitar um pouco desse constrangimento”, diz Nathan. O não acesso à ginecologia é um dos problemas mais enfrentados pelos homens trans.

“Já que eu não conseguia esse atendimento pelo SUS, eu consegui fazer um exame [por convênio particular da empresa em que trabalhava] e vi que o meu útero estava seis vezes maior. Para cuidar disso ou eu tomaria progesterona, que iria contra o meu acompanhamento hormonal com testosterona, ou eu tiraria o útero”

Nathan Victoriano

Nathan conseguiu contrapor as intervenções existentes no sistema público ao realizar a mastectomia masculinizadora e a histerectomia, mas teve que recorrer à rede privada para alcançar seu objetivo. Os quatro cirurgiões com quem teve contato no SUS o orientaram a emagrecer 50 quilos para passar pelos procedimentos. “Era sempre a mesma coisa: ‘o seu peso, o seu peso, o seu peso’.”

Ele já havia emagrecido 20 quilos quando percebeu que o esforço pessoal e a gordofobia dos profissionais estavam afetando sua saúde mental e decidiu juntar dinheiro para pagar pela cirurgia. “Quatro anos atrás, eu não tinha essa ansiedade, hoje eu tomo remédios por conta dela. Isso tudo por conta dessas instituições de saúde que, na verdade não cuidam da nossa saúde”, diz Nathan.

Ainda em recuperação da cirurgia, ele percebeu sinais de hemorragia e procurou a emergência médica ginecológica do SUS. Por conta da retificação de nome e gênero, não conseguiu atendimento: “Já que eu não conseguia esse atendimento pelo SUS, eu consegui fazer um exame [por convênio particular da empresa em que trabalhava] e vi que o meu útero estava seis vezes maior. Para cuidar disso ou eu tomaria progesterona, que iria contra o meu acompanhamento hormonal com testosterona, ou eu tiraria o útero”.

Enquanto fazia os procedimentos, Nathan conheceu uma ginecologista que não só atuava no setor privado, mas também em uma unidade de saúde pública, e que o encaminhou para uma maternidade pública para realizar a cirurgia. Nathan precisou lidar, mais uma vez, com o despreparo de todo um sistema, para receber uma pessoa trans: “Eu consegui chegar no Hospital Maternidade, em São Cristóvão e aí, mais uma vez foi toda uma problemática, uma problemática muito maior. Porque eu já estava realmente no SUS e cheguei lá, e era um local totalmente para mulher, não se pensa no corpo transmasculino de nenhuma forma”.

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A burocracia gera inacessibilidade

Somos a primeira geração a utilizar testosterona em larga escala – e os efeitos da hormonização em corpos transmasculinos ainda são incertos. À medida que os fatores biológicos se somam aos sociais, o resultado da equação é uma desordem psicológica. No início, o sentimento de coragem, potência e imensidão dominam. Anos ou meses depois, encaramos a busca pelo pertencimento, a tristeza profunda e a oscilação diária de humor.

Os fatores sociais, atrelados à transfobia estrutural, como a ideia de que nossos corpos não se encaixam na rua, na chuva, na fazenda e até numa reunião familiar em uma casinha de sapê, trazem consequências para o corpo. O uso do binder – faixa que comprime o volume dos seios, por exemplo, é um dos artifícios mais dolorosos para pessoas transmasculinas que não desejam ter olhares voltados para seu peitoral. O sentimento de deslocamento é tanto que, em alguns casos, o nome “seio” dá lugar à palavra “intruso”.

“Minha felicidade durou apenas um ano e um mês, mas foi tempo suficiente para interromper a menstruação, desenvolver alguns pelos corporais, iniciar a redistribuição da gordura corporal (quadril, ombros, peitoral), mudança no formato do rosto e alterar o tom da minha voz”

Rahzel Alec da Silva

Durante o tempo que estive esperando minha vaga no IEDE (que não chegou), procurei outras saídas para o meu processo de transição. Em grupos nas redes sociais, descobri como realizar a aplicação da testosterona e as formas de conseguir clandestinamente, mas nunca segui com a ideia de me auto aplicar. Então, utilizei alguns tipos de binders cada vez mais apertados, comprimindo cada vez mais a minha respiração e causando dores na coluna e costelas, elasticidade na pele dos seios e modificações na área em que a faixa aperta.

Em novembro de 2018, foi inaugurado o Ambulatório de atenção à saúde da população travesti e transexual João W. Nery e, em abril de 2019, eu já não morava em Niterói, mas tive a oportunidade de fazer um acompanhamento digno e de qualidade, com assistente social, psicólogo e endocrinologista. A criação do ambulatório foi um sopro de energia, pois já não tinha mais esperanças em relação à minha hormonização. Pude sorrir.

Minha felicidade durou apenas um ano e um mês, mas foi tempo suficiente para interromper a menstruação, desenvolver alguns pelos corporais, iniciar a redistribuição da gordura corporal (quadril, ombros, peitoral), mudança no formato do rosto e alterar o tom da minha voz.

Morei nos bairros de Marechal, Bonsucesso e em duas favelas do Complexo da Maré: os gastos com deslocamento para o ambulatório, realização dos exames e compra da testosterona (T) deram lugar aos gastos com moradia, estudos e alimentação. O que fez com que eu atrasasse as aplicações da T e sofresse com complicações, que iniciaram com grandes variações de humor, tristeza profunda, o desenvolvimento de crises de ansiedade e alguns sangramentos.

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“Minha menstruação voltou a descer e o nível de testosterona ficou abaixo do recomendado pelos endocrinologistas. A partir disso, senti cólicas como nunca havia sentido, as crises de ansiedade aumentaram, meus sentimentos estavam cada vez mais confusos e, quando vi, não sentia mais vontade de me alimentar, sair da cama, trabalhar ou tomar banho”

Rahzel Alec da Silva

Em 2020, com a instauração da pandemia, o funcionamento do ambulatório mudou, eu peguei covid-19 e precisei pausar a hormonioterapia até a recuperação. Dado o momento, minha rotina com o estágio em home office e o isolamento social – que manteve a cidade de Niterói isolada do município do Rio – impedia o deslocamento até o ambulatório para realizar o acompanhamento. Estava desamparado.

Minha menstruação voltou a descer e o nível de testosterona ficou abaixo do recomendado pelos endocrinologistas. A partir disso, senti cólicas como nunca havia sentido, as crises de ansiedade aumentaram, meus sentimentos estavam cada vez mais confusos e, quando vi, não sentia mais vontade de me alimentar, sair da cama, trabalhar ou tomar banho. Havia me perdido de mim mesmo.

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Arte/Redação

Dez anos é muita coisa: Pablo Henrique

A expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos – esse dado é baseado nos assassinatos de mulheres trans de todo o Brasil. O mapeamento sobre a expectativa de vida de homens trans é ainda muito incerto, porque a nossa existência ainda é invisível. Se pensarmos sob a ótica da nossa expectativa de vida geral, dá pra entender porque o tempo é muito precioso, nunca se sabe quando a transfobia irá nos impedir de viver.

Faz mais de dez anos que Pablo Henrique, 27, sonha em poder viver sem o uso do binder. Aos 17, ele deu entrada no processo transexualizador no SUS, mas não conseguiu dar conta do protocolo.

“Tinha que seguir o protocolo à risca. Passar primeiro pelo psiquiatra, depois pelo urologista, pra depois chegar no endócrino, para aí você passar dois anos fazendo acompanhamento psiquiátrico e, enfim, conseguir o laudo de que você é uma pessoa trans”.

“O que ocorre é que, muitas vezes, essas pessoas não conseguem passar desse primeiro atendimento, porque o sistema é o que a gente chama de Cistema com C, o sistema cis”

Pablo Henrique

O laudo daria acesso ao acompanhamento e uma vaga na fila para a cirurgia de retirada das mamas, mas, sem disponibilidade para as idas ao ambulatório alocado no Pedro Ernesto, em Santa Isabel, e a frequência de consultas desmarcadas, Pablo começou a hormonioterapia aos 21 anos por conta própria e destaca as desvantagens da aplicação sem acompanhamento médico. “São altos e baixos hormonais, aumenta o desgaste, a irritabilidade. Quando não se tem esse acompanhamento, você acaba tendo que gastar mais para poder adquirir o hormônio de forma clandestina e isso encarece, torna inviável em muitos dos casos”.

“O que ocorre é que, muitas vezes, essas pessoas não conseguem passar desse primeiro atendimento, porque o sistema é o que a gente chama de Cistema com C, o sistema cis [cis, de cisgênero, é a pessoa que se identifica com o gênero designado ao nascer, logo, não é trans]. Chegando aos serviços de saúde e encontrando profissionais que não sabem como atender, que consideram que homem é somente aquele que tem pênis e mulher é somente aquela que tem vagina, esse homem não vai querer mais voltar lá.”, diz Fabiana Albino, enfermeira especialista em saúde pública.

Aos 24 anos, Pablo retornou à hormonioterapia, supervisionado por uma endocrinologista da Fiocruz, mas os impactos que poderiam ser gerados no futuro, por conta da Deposteron – a hormonização mais sintética – fez com que o jovem preferisse parar, mais uma vez, com o processo. “Esse hormônio sintético é metabolizado no fígado, então acaba sendo um pouco agressivo para pessoas que estão acima do peso ou em algum nível de obesidade, que é o meu caso. Acabei preferindo não continuar”, conta.

Nesses dez anos em que busca a inserção no Processo Transexualizador do SUS, Pablo reconhece que o Sistema Único de Saúde tem avançado, mas alerta que a transfobia institucional ainda é uma inimiga a ser vencida. “O SUS está se atualizando agora, com a inclusão do nome social, mas muita transfobia ainda é reproduzida nos procedimentos, pela equipe médica”, ressalta.

Para os homens trans e transmasculinos que pretendem realizar algum tipo de cirurgia do processo transexualizador, a burocracia e o tempo de espera são problemas estruturais para a sonhada fase final: “É uma fila de quase uma década. Pensar que você vai ter que fazer o uso de binder por uma década até conseguir fazer uma cirurgia é um tempo muito grande para algo que é tão prejudicial à saúde e que incomoda tanto, que afeta a sua rotina, a sua disposição, as suas possibilidades. E não se trata de um uso estético, e sim necessário para muitos homens trans. Pensar nesse processo pelo SUS se torna inviável, porque dez anos é muita coisa”.

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Essa reportagem foi produzida com o apoio do data_labe e edição de Fred Di Giacomo.

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