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Uma diáspora politicamente brilhante

Filhas, filhos e filhes de imigrantes indianos formam uma nova geração longe da terra natal – e começam uma nova história de representatividade

por Juily Manghirmalani Atualizado em 28 Maio 2021, 11h56 - Publicado em 27 Maio 2021 23h01

Desmistificando Índia

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osso especial “Desmistificando a Índia” está chegando ao fim e, nessa última reportagem, pensamos em abordar as vozes e perspectivas da juventude que estão na diáspora, criando abertura para novos diálogos em um viés que transcende o espaço fechado da comunidade indiana imigrante.

Recapitulando, vale lembrar que a Índia é um país independente há somente 74 anos e que viveu grandes mudanças nessas últimas décadas. Após a saída dos britânicos, a Índia fechou seus portos em medidas protecionistas até o ano de 1991. Mas, com demandas globais e econômicas, esse enorme país retornou ao mercado capitalista e grandes migrações aconteceram em consequência disso. As movimentações em massa de indianos para países de língua inglesa, como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Austrália, tiveram um boom expressivo entre 1980 e 1995, com famílias inteiras saindo da Índia em busca de melhores condições de vida – uma diáspora em decorrência de fatores econômicos. Vale lembrar que estamos falando de um fluxo inicial de globalização, em um período pré-internet.

“As comunidades de imigrantes indianos sofreram algumas pressões em suas novas casas, como a tentativa de neutralização do sotaque; cooptação com as imposições sócio-culturais do novo país; a ambivalência da cultura de dentro e de fora de casa. Uma crise de expectativas sociais”

Juily Manghirmalani

A partir dessa linha de raciocínio histórico, podemos entender que: pessoas com algum acesso ao ensino superior tiveram maior oportunidade de imigrar para países completamente diferentes em cultura e religião. Chegando lá, tiveram que se adaptar da melhor forma possível para sobreviverem e serem aceitos no mercado de trabalho. Isso acarretou mudanças internas nas diversas comunidades imigrantes, como a tentativa de neutralização do sotaque; cooptação com as imposições sócio-culturais do novo país; a ambivalência da cultura de dentro e de fora de casa (do qual, muitas vezes, o idioma de origem indiana era passado pelos pais oralmente, sem metodologia alguma, enquanto o ensino formal é dado completamente na língua do país de imigração – criando hierarquias e até uma forma inicial de apagamento de origens); uma crise de expectativas sociais; as noções religiosas, gastronômicas, entre muitas outras versões de realidade são colocadas em xeque o tempo todo por essas primeiras gerações de imigrantes, mas especialmente por seus filhos.

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Conservadorismo como manutenção e liberdade de expressão 

É comum em estudos sociológicos sobre processos diaspóricos a ideia de que os primeiros imigrantes constroem formas de manutenção da própria cultura em casa, com forte nostalgia pelo país que deixaram. Muitas vezes, isso faz com que essas pessoas criem métodos de manter a cultura que acabam sendo muito mais tradicionais e conservadoras do que as mudanças que o país de origem em si está vivendo internamente. A dificuldade de diálogo entre a Índia e seus imigrantes gerou novas formas de viver a própria cultura e criou novos ruídos em suas expressões. E isso tudo faz parte da experiência imigratória. 

Por um lado, temos a ideia de reconstrução de primeiras gerações em busca de identidade em países ocidentais. Por outro, temos integrantes críticos da cultura tradicional que abrem espaço para novas discussões em território estrangeiro. Como vimos nos últimos textos, o projeto político indiano atual faz de tudo para manipular e censurar formas alternativas de vivências e pensamentos com a justificativa de que são realidades importadas e não puramente indianas. Com isso, a potência de diálogo crítico se encontra visivelmente na diáspora, em que indianos progressistas constroem narrativas paralelas. 

“É comum em estudos sociológicos sobre processos diaspóricos a ideia de que os primeiros imigrantes constroem formas de manutenção da própria cultura em casa, com forte nostalgia pelo país que deixaram. A dificuldade de diálogo entre a Índia e seus imigrantes gerou novas formas de viver a própria cultura e criou novos ruídos em suas expressões. E isso tudo faz parte da experiência imigratória”

Juily Manghirmalani
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Barah/Ilustração

É nesse escopo que surgem, por exemplo, as diretoras de cinema indianas que trabalham temáticas de gênero na maior parte de suas produções. Elas trazem finalmente as questões das mulheres para o debate político e público. Incluindo, também pautas de sexualidade, relações interraciais, política governamental, histórias de violência e abuso, falta de pertencimento. Problemáticas de pessoas da diáspora com as noções da casa marrom e da sociedade branca, entre muitas outras pautas que colocaram a Índia no holofote cinematográfico mundial. 

Foram essas mulheres, mais significativamente Mira Nair (Estados Unidos), Deepa Mehta (Canadá) e Gurinder Chadha (Inglaterra) que, entre 1985 e 2001, fizeram do cinema de diáspora indiano um grande pólo de reflexão sobre a Índia e que influenciou enormemente os produtores independentes dentro da própria Índia. Elas abriram espaço para a formação de um novo cinema indiano de massa, bem mais crítico e mais consciente, que desde o começo dos anos 2000 vem interagindo com a censura de formas a trazer questões nas entrelinhas e bater de frente com os fundamentalismos políticos. 

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Masala mental dos filhos da primeira geração

Imaginem, então, como é a organização mental dos filhos desses primeiros imigrantes. Nós, me conto nisso, precisamos aprender desde cedo que existem muitas possibilidades de verdades e realidades. Na escola, aprendemos uma coisa; em casa, vivemos outra. A inerente poética de viver mais de uma cultura e saber que precisamos cooptar, negociar e traduzir, as três regras do cotidiano comum.

É preciso saber sobreviver no país em que crescemos, com as regras sociais dali. Mas também é preciso respeitar e interagir dentro das regras culturais impostas pela realidade que nossos pais foram criados, a única em que eles souberam nos criar. É necessário entender como a educação ocidental coloca nossa cultura de casa como algo distante e com julgamento de valores, um papo de diversidade sem integração. Aprendemos a cooptar principalmente com essa sociedade que nos apresenta relações sociais do cotidiano e expectativas de futuro. Precisamos negociar os desejos e estímulos do que está fora de casa com o que está dentro. Traduzir pensamentos, desejos, idiomas, simbolismos – inclusive nossas prioridades e valores, que costumam ser bem diferentes de pessoas que não foram criadas por pais asiáticos.

“É preciso saber sobreviver no país em que crescemos, com as regras sociais dali. Mas também é preciso respeitar e interagir dentro das regras culturais impostas pela realidade que nossos pais foram criados, a única em que eles souberam nos criar. É necessário entender como a educação ocidental coloca nossa cultura de casa como algo distante e com julgamento de valores, um papo de diversidade sem integração”

Juily Manghirmalani

Com todas essas misturas, há um levante lindo de filhas, filhos e filhes de primeira, segunda e demais gerações de imigrantes que utilizam de seus fenótipos, construções culturais e discursos para apresentar essa realidade híbrida e multicultural. Dentro de um quadro contemporâneo de discursos políticos e identitários que abordam gênero, classe, raça, sexualidade e libertação, com a possibilidade de narrativas dissidentes e decoloniais que não buscam reforçar expressividades brancas e cristãs.

Influencers indianes

Quero então trazer pra vocês algumas carinhas dessas pessoas tão jovens mas já tão importantes que estão nas televisões, nas séries mainstream, como também influenciando via redes sociais e outros meios de comunicação toda uma nova geração.

Alok Vaid-Menon | @alokvmenon
Alok é uma das minhas pessoas favoritas dos últimos tempos. Sua identidade de gênero está no guarda-chuva da não conformidade de gênero, se identificando como trans ativista e não binárie, utiliza them/they como pronomes, como também ela/dela.

Alok Vaid-Menon é filha de pais malaios e indianos, cresceu sofrendo violência por sua raça e expressão de gênero no Texas, Estados Unidos. Era a típica criança tímida até que em certo ponto da sua vida adulta, Alok resolveu dar espaço para suas indagações e hoje é uma das pessoas da diáspora que mais produzem pensamento sobre a condição da subjetividade de imigrantes em plataformas digitais e com metodologia performática e jovem. Em 2020, lançou sua primeira obra literária, Beyond the Gender Binary. Gritantemente canceriana, possui grande sensibilidade, carisma e poder de comunicação. Trabalha com poesia, comédia, performance, moda e mídias sociais. Alok utiliza do seu próprio corpo e experiências para trazer riquíssimas reflexões sobre história, gênero, raça, trauma, pertencimento e outras discussões relacionadas à ser queer, marrom e jovem. Vocês PRECISAM ouvir essa grande mente falando! 

Lilly Singh | @lilly
Vocês estão preparadas para conhecer a dona do mundo? Sim, Lilly Singh é outra grande representante da diáspora indiana nos Estados Unidos. Youtuber, começou sua carreira em 2010 e, em 2016, saiu em terceiro lugar na lista da Forbes como a youtuber mais bem paga do mundo, foi considerada pela mesma revista, em 2019, como uma das 40 comediantes mais importantes. Lilly já ganhou diversos prêmios de fãs como Teen Choice Awards, MTV Fandom Award, People’s Choice Award, entre outros.

Ela lançou livros e documentários, mas foi em 2019 que sua plataforma cresceu quando estreou como produtora e apresentadora de um programa de TV da NBC chamado The Little Late With Lilly Singh. Ela é a primeira pessoa de ascendência indiana a encabeçar uma produção de televisão como essa. Com apenas 32 anos, Lilly traz para suas esquetes de comédia discussões sobre ser filha de imigrantes, sobre ser indiana, ser mulher, ser bissexual e também abre espaço para trocas com outras pessoas incríveis. Seu talk show teve convidados dos mais diversos e pautas sobre gênero e raça que poucas pessoas trouxeram para a grande televisão. Inclusive, segue aqui a conversa com Alok e com Rupi Kaur.

Zorawar Waraich | @zeesw
Zorawar mora em Londres, é fashionista e trabalha com uma premissa linda de auto amor radical. Desde 2019, ele tem trazido tópicos sobre bem estar e representação na saúde mental para pessoas não-brancas e sobre ter mais psicólogos de diversas origens trabalhando nessa frente. Sua identidade de gênero queer e ser uma pessoa de cor o coloca em duas minorias e isso criou diversos estigmas que Zorawar está trabalhando firmemente em seus trabalhos.

Mindy Kaling & Maitreyi Ramakrishnan | @mindykailing & @maitreyiramakrishnan 
Esses são dois grandes da Netflix atual. Mindy Kaling é filha de pais indianos e é atriz,  conhecida por papéis em diversos shows de comédia e que agora encabeçou a série Eu Nunca (2020). A obra acompanha uma jovem filha de indianos que mora nos Estados Unidos e suas vivências como mulher, adolescente, pertencimento, luto e sexualidade. Protagonizada por Maitreyi Ramakrishnan, a série tem criado diálogos inéditos com uma juventude indiana da diáspora. A série foi renovada para segunda temporada e tem data de estreia para julho desse ano!

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Bad Brown Aunties | @badbrownaunties
Podcast feito por duas mulheres queers da diáspora indiana que se autodenominam “aunties” (aquela mulher da família que ficou pra tia, mas que também possui características culturais como “fofoqueira”, “a que cuida da vida dos outros”, aquela “segunda mãe”). R. Kidvai e Thanushka trazem pautas incríveis nessa primeira temporada que possui 6 episódios, com convidades como Fariha Róisín, Lupita Nyong’o e novamente a ilustre Alok Vaid-Menon. Em contato com as produtoras, soube que o podcast está em um hiato, mas torcendo muito aqui para seu retorno. É de longe um dos materiais que mais gostei de entrar em contato no último ano.

Anjali & Sufi | @anjalichakra e @sufi.sun
Aqui temos um casal que viralizou no ano passado. Anjali é uma mulher bissexual na casa dos seus 20 anos, trabalha com planejamento de eventos e é de origem indiana e de religião hindu. Sufi é não-binarie de origem paquistanesa de religião muçulmana, também com 20 e alguns anos, trabalha com educação e fotografia. Suas fotos bombaram com elas assumindo relacionamento queer e também entre religiões que possuem muitas adversidades. Tem sido muito gostoso acompanhar esse relacionamento pelas redes, como também como ambas pessoas abordam discussões tão maduras de forma responsável sobre gênero, sexualidade, religião, família e afeto.

Priyanka | @thequeenpriyanka 

Vencedora da primeira edição de Canada’s Drag Race em 2020, Priyanka é a drag queen de Mark Suknanan. Ele possui origem indiana e guianesa e foi criado no Canadá. Sua drag persona utiliza de muitos itens culturais indianos e apareceu na capa da Gay Times digital e também no clipe “Montero (Call Me By Your Name)” de Lil Nas X. 

Existem muitas outras pessoas que adoraria colocar na lista aqui mas escolhi principalmente as que falam de gênero e sexualidade, exatamente por ser um tema tabu em território indiano. Até uma próxima, obrigada, Elástica! 

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As ilustrações que você viu nessa reportagem foram feitas por Barah. Confira mais de seu trabalho aqui.

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