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Indique uma preta!

Consultoria criada por três publicitárias negras promove transformação e reforça a importância da inclusão de mulheres pretas no mercado de trabalho

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 8 mar 2021, 16h23 - Publicado em 8 mar 2021 02h08
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Arte/Redação

ão sei como funcionam todos os mercados de trabalho, mas sei que um fator em comum une a maioria das profissões: a indicação. Muitas empresas oferecem bônus aos funcionários por recomendações certeiras para preencher uma vaga. Tenho certeza de que você, que está lendo, já indicou e foi indicado. Então, pergunto: quantas vezes a sua indicação foi de uma pessoa negra? Ou, então, de uma mulher negra, para ser mais específico? Se a sua resposta for não, assim como a minha, não pense que isso é apenas coincidência. 

“A indicação funciona por conta de uma estrutura. No nosso mercado criativo, as pessoas querem contratar amigos, querem chamar o hype do momento, não estão muito a fim de buscar um perfil diferente delas, apesar de se acharem tão diferentes de tudo. Rola uma reprodução do que a sociedade sempre produziu. Essa indicação branca e padronizada prejudica muito a inserção das pessoas negras no mercado de trabalho e isso fala de racismo estrutural, que é como as coisas funcionam no Brasil”, explica Amanda Abreu, sócia e cofundadora da Indique Uma Preta, consultoria em empregabilidade e desenvolvimento profissional para mulheres negras. 

“A indicação funciona por conta de uma estrutura. No nosso mercado criativo, as pessoas querem contratar amigos, querem chamar o hype do momento, não estão muito a fim de buscar um perfil diferente delas, apesar de se acharem tão diferentes de tudo. Rola uma reprodução do que a sociedade sempre produziu”

Amanda Abreu, sócia e cofundadora da Indique Uma Preta

Criada em 2019, a Indique nasceu alguns anos antes, em 2015, como um grupo no Facebook criado pela publicitária Danielle Mattos. A ideia era conhecer outras mulheres pretas no mercado criativo e de comunicação para que sua jornada ficasse um pouco menos solitária. Foi lá que Amanda a conheceu e, alguns meses depois, conheceu também Verônica Dudiman, terceira mulher a integrar o time do Indica. São elas as cabeças que prestaram consultoria para a Magazine Luiza, gigante do varejo que ganhou as manchetes no ano passado ao anunciar o primeiro programa de trainee apenas para pessoas negras ocuparem cargos de liderança.

A pauta da inclusão e da diversidade nas empresas é, além de justiça social, uma forma de tornar os negócios mais inovadores e lucrativos. De acordo com dados da consultoria McKinsey divulgados em 2019, empresas que têm um cenário de diversidade mais bem trabalhado conseguem lucrar 36% a mais do que as outras empresas, porque têm várias cabeças com origens diferentes pensando em mais soluções. “É importante falarmos disso para reforçar que inclusão e diversidade não é favor. A gente precisa ultrapassar essa moeda humanitária, porque existem dados de mercado que comprovam: inclusão e diversidade também é modelo de negócio”, completa Amanda.

Em um país com maioria da população negra – 56% – e onde o maior grupo populacional é de mulheres negras, 28%, a Indique Uma Preta é mais do que necessária para tornar o mercado de trabalho menos branco e, assim, mais inovador. Neste Dia da Mulher, ouvimos Amanda, uma mulher preta que transforma o mercado e a nossa sociedade.

Apesar de serem o maior grupo social do país, representando 28% da população brasileira, elas sofrem as piores condições no mercado de trabalho.
Apesar de serem o maior grupo social do país, representando 28% da população brasileira, elas sofrem as piores condições no mercado de trabalho. Pesquisa Potências (in)visíveis / Indique uma Preta/Reprodução
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Conta pra gente sobre o nascimento da Indique. Em que momento a ideia surgiu e como foi tirá-la do papel?
A Indique Uma Preta surgiu de 2015 para 2016. A Danielle Mattos, minha sócia e uma das cofundadoras, criou o grupo no Facebook com esse nome porque ela era uma mulher solitária nos espaços que ocupava na indústria criativa: sempre a única mulher negra. A Dani fez isso para conhecer outras mulheres, porque ela sabia que essas profissionais existiam, mas não as conhecia. O objetivo era trocar ideias com outras mulheres negras da comunicação. Descobri o grupo e entrei, logo vi muitas discussões sobre empregabilidade, autoestima, finanças. Eu era muito ativa ali e a Dani também. Um dia, disse pra ela que a gente tinha que conhecer essas mulheres ao vivo e organizamos um workshop sobre empregabilidade. Chamamos a Verônica Merege para ministrar – ela não é negra, é branca, foi uma super aliada – e montamos um dia para falar sobre carreira. Nesse workshop, estava a Verônica Dudiman, minha outra sócia da Indique, e tivemos uma conexão muito rápida com ela. De repente, ela estava mandando dicas, foi muito orgânico virarmos um trio. O grupo no Facebook ainda existe e continua sendo nossa rede, onde a gente discute os assuntos, mas hoje somos também uma consultoria, desde 2019, um braço para conversar com a outra parte do nosso negócio. Conversamos com mulheres negras e com as empresas que precisam enxergar e contratar essas pessoas. Escolhemos nos transformar em consultoria porque percebemos que, com o crescimento do grupo, as marcas queriam estar lá também – e a gente não ia fazer isso de graça. Tudo que é conversado ali é muito rico e precisamos cobrar por esse conhecimento, para dar uma devolutiva para o grupo. Seja em vagas, em coisas criadas para elas, em bolsas de estudo. Faltam no mercado políticas reais de diversidade e precisamos fazer mais do que apenas criá-las – precisamos mexer nas estruturas. Surgimos como consultoria para preencher essa lacuna.

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Amanda Abreu/Reprodução

Todas vocês vieram do mercado publicitário, certo? Vocês ainda atuam paralelamente em outros trabalhos em agências?
Hoje, a Indique virou nosso emprego e nosso trabalho fixo. A gente teve um impulsionamento essencial para que isso acontecesse, que foi a incubação da Indique na Mutato. Eles nos aconselharam muito no quesito negócios, como formatar produtos que seriam interessantes para empresas. Isso foi muito importante para esse processo. Dani e Verônica já estão 100% na Indique há cerca de 6 meses e eu estou saindo do meu trabalho para tocar junto com elas. 

Fala-se muito sobre como mais diversidade nas empresas colabora, inclusive, para que elas sejam mais lucrativas e entreguem produtos melhores. Queria que você falasse um pouquinho disso e também sobre como essa diversidade colabora para o bem estar das pessoas pretas dentro das organizações.
Ano passado, lançamos a pesquisa Potências (in)visíveis, que fizemos junto com a Box1824, na qual estudamos e entendemos o cenário da mulher negra dentro do mercado de trabalho brasileiro. Entrevistamos mais de 2 mil mulheres negras para entender como elas estão inseridas nesses ambientes. A partir daí, identificamos vários problemas entre as empresas, como o processo de contratação dessas pessoas, e conseguimos enxergar que precisamos urgentemente tirar o olhar de vulnerabilidade para com as pessoas negras dentro desses espaços e transformar essa vulnerabilidade em potência. Afinal, contratar só porque está chegando novembro e você precisa mostrar que tem um negro na sua empresa, mas sem colocá-lo no espaço de tomada de decisão, também é uma atitude racista.

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Pesquisa Potências (in)visíveis / Indique uma Preta/Reprodução

Quando você insere pessoas negras dentro de um espaço de trabalho, existem três níveis de melhora no seu negócio: reputação, já que as pessoas vão entender que sua empresa é preocupada com a diversidade e, por isso, aumentam as chances de você se preocupe também com a inserção de PCDs, sustentabilidade e outros temas como estes; performance, pois quando você coloca pessoas diversas em um ambiente, entregando projetos, até o lucro aumenta – de acordo com dados da consultoria McKinsey divulgados em 2019, empresas que têm um cenário de diversidade mais bem trabalhado conseguem lucrar 36% a mais do que as outras empresas, porque têm várias cabeças com origens diferentes pensando em mais soluções. E, por fim e por conta das duas melhoras anteriores, você tem inovação no geral. É importante falarmos disso para reforçar que inclusão e diversidade não é favor. A gente precisa ultrapassar essa moeda humanitária, porque existem dados de mercado que comprovam: inclusão e diversidade também é modelo de negócio.

O nome do grupo e da consultoria que vocês criaram faz referência a um comportamento muito comum do mercado de trabalho: a indicação. Por que, mesmo nos mercados mais “desconstruídos”, como a comunicação, as indicações ainda carregam traços do racismo?
A indicação funciona por conta de uma estrutura. No nosso mercado criativo, as pessoas querem contratar amigos, querem chamar o hype do momento, não estão muito a fim de buscar um perfil diferente delas, apesar de se acharem tão diferentes de tudo. Rola uma reprodução do que a sociedade sempre produziu. O que a gente escuta bastante é que a vaga precisava ser preenchida com urgência, que não sabiam onde achar uma profissional negra, não sabiam onde pesquisar, que nem sequer conhecem uma pessoa negra. Essas barreiras falam da nossa estrutura como sociedade. A partir do momento que temos espaços corporativos onde pessoas não pensam no modelo de recrutamento e seleção realmente focados em diversidade, pensando em índices que eles precisam cumprir – quantos pretos contratadas durante o ano, por exemplo, e isso quase não existe –, a indicação facilita e exclui, ao mesmo tempo, outros perfis. Não existem pessoas de grupos minoritários em cargos de decisão – mulheres negras representam apenas 1%. Essa indicação branca e padronizada prejudica muito a inserção das pessoas negras no mercado de trabalho e isso fala de racismo estrutural, que é como as coisas funcionam no Brasil.

“Não existem pessoas de grupos minoritários em cargos de decisão – mulheres negras representam apenas 1%. Essa indicação branca e padronizada prejudica muito a inserção das pessoas negras no mercado de trabalho e isso fala de racismo estrutural, que é como as coisas funcionam no Brasil”

Amanda Abreu

Quais são os principais desafios de trabalhar com grandes empresas na hora de implementar uma política para contratação de mulheres negras?
Criamos uma metodologia chamada Jornada da Transformação. Entendemos a maturidade de cada empresa para desenvolver coisas factíveis para essa empresa. Cada uma tem seu problema. Nas grandes, por exemplo, é difícil mobilizar e tentar mudar estruturas de coisas que estão há anos ali. Nesses casos, estabelecemos uma motivação em relação ao assunto, entregar um letramento, um beabá mesmo, que vai desde falar que a maioria da população do Brasil é preta, 56%, e que o maior grupo populacional no brasil é de mulheres negras, somos 28%. Entender a maturidade do cliente é o passo 1 para começarmos a trabalhar.

O que acontece muito também é recebermos pedidos de urgência, de gente querendo pensar diversidade e implementar rápido, gente que não quer o questionamento em novembro, mas a gente sempre fala de dar um passo para trás. O que os funcionários entendem sobre isso? O quanto a empresa de fato quer conversar sobre isso? A Jornada da Transformação fala sobre estabelecer essa motivação – sensibilizar funcionários, mobilizar lideranças, perceber quais são os melhores espaços para inserir as primeiras pessoas negras – para depois aprimorar esses temas. Quando a empresa entende o que é a negritude brasileira, aí começamos a falar em ações: como melhorar a política de contratação, como vai ser o desenvolvimento, quais perfis de pessoas serão contratadas e o acompanhamento que elas terão depois de serem contratadas. Em seguida, partimos para uma sensibilização de todos os colaboradores, incluindo as pessoas pretas, até de fato chegar na transformação: cultura organizacional, segurança do lugar, KPIs de representatividade em cargos de decisão e por aí vai. Esse processo leva, em média, de seis meses a um ano. É um problema e um assunto que demanda muito coisa. Conscientizar as lideranças é o passo inicial, muitas vezes. Depois vem o RH, aí depois é a galera. É uma escadinha e, quanto maior a empresa, mais demora. 

Em março, comemora-se o dia da mulher – uma pauta que, por muitos anos, não contemplava as mulheres negras. Por que é importante apresentar esse recorte também neste mês de luta?
Falar de mulher não fala com todas. O Dia da Mulher traz uma coisa muito importante para pensarmos, que é a interseccionalidade. Por muito tempo, as mulheres negras tiveram essa imagem de guerreira, batalhadora. Então, quando não estamos super vulneráveis, estamos numa posição de maravilhosa, de endeusamento. Isso tira total nossa humanidade e, por sua vez, não nos torna dignas de estarmos contempladas do Dia da Mulher. É uma data interessante, que faz a gente pensar nas intersecções e na naturalização de várias coisas, como mulheres negras decidindo coisas, pensando. As pessoas precisam ver exemplos atuais, a comunicação costuma trazer muita coisa do passado, mostrando mulheres negras que tiveram sucesso há 100 anos. Isso é importante, mas também precisamos ver mulheres pretas pensando o presente, o contemporâneo, e não só falando sobre racismo. Dentro da Indique, quando tocamos nesse tema, também nos preocupamos em trazer outros pensamentos de mulheres. A gente não representa todas as mulheres negras do Brasil. Tem as trans, as PCDs, as nortistas. Mulheres não são apenas mulheres brancas de São Paulo. Tem outro rolê, tem muita mulher fazendo coisas foda.

Queria que você me contasse, para terminar, dois projetos mais bacanas que desenvolveram no último ano e dois que vocês possam me adiantar, coisa boa que vai vir em 2021.
Um que a gente tem muito orgulho é o processo de desenvolvimento do Programa de Trainee da Magazine Luiza 2020. Foi muito interessante, nunca uma empresa pensou um processo de trainee para líderes que fossem negros. Foi muito bom acompanhar e temos muito orgulho, dá para ver o antes e depois nítido da nossa consultoria. Pensamos muito na nossa comunidade e, por isso, esse ano queremos fornecer cursos e encontrar parceiros que possam compartilhar conhecimento gratuito para elas. No ano passado, oferecemos um curso de planejamento estratégico para pessoas negras, LGBTQIA+, pessoas periféricas do nordeste e PCDs. Conseguimos descentralizar o conhecimento, foi um curso de um mês com professores dando aula gratuitamente. E vamos fazer um curso em 2021, em parceria com a Brasa Mag, um coletivo de hip hop. Estamos montando junto com elas um curso em as pessoas vão aprender a tirar projetos do papel, entender mais sobre a cultura hip hop no Brasil. É um curso que vamos abrir para toda a comunidade negra, LGBTQIA+, indígena. Também gratuito. E, sem dúvida, não posso deixar de mencionar nosso primeiro projeto com o Facebook, em 2019, que foi um workshop para pensar a carreira de mulheres negras na comunicação. Sem dúvidas, abriu muitas portas para onde estamos agora.

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