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Folclore brasileiro para o mundo

Jéssica Córes, a sereia Iara de "Cidade Invisível" fala sobre representatividade na série, resgate do folclore, machismo e a próxima temporada

por Gabriel Portella 21 abr 2021 22h55
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Clube Lambada/Ilustração

omo as águas dos rios que atravessam, desbravam e irrigam a terra fértil do nosso país, a cultura brasileira, em suas variadas manifestações, percorre cada canto da nação, se ramificando e se adaptando às características da vida que pulsa nos diferentes locais. Em um território de tamanho continental, traços dessa cultura rompem a fronteira da regionalidade e se tornam propriedades do povo e da história do Brasil, como algumas comidas, festas, gírias, costumes e, é claro, lendas e crenças populares. 

A série Cidade Invisível, escrita por Raphael Draccon e Carolina Munhoz, chegou à Netflix com a missão de criar um suspense policial envolvendo figuras consagradas do folclore brasileiro. Produzida por Carlos Saldanha, diretor de filmes como Rio e A Era do Gelo 2, a série ficou entre as mais assistidas do serviço de streaming no mundo durante várias semanas após sua estreia, no início de fevereiro, garantindo assim sua renovação para a segunda temporada.

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Vinícius Mochizuki/Fotografia

Em meio a nomes consagrados da TV brasileira, como Marco Pigossi e Alessandra Negrini, uma das revelações e protagonistas da série é a atriz e modelo Jéssica Córes, que interpreta a personagem Camila ou, como conhecemos há mais tempo, a sereia Iara. Extremamente atenciosa e simpática, Jéssica contou, em um bate-papo com Elástica, que recebeu com muita felicidade a notícia da renovação da série e ficou muito empolgada em poder interpretar sua personagem novamente.

“De repente, nós recebemos uma chamada para uma reunião e eles falam que a Netflix resolveu produzir uma segunda temporada. É um projeto totalmente diferente do que eu estou acostumada a fazer, então estou muito feliz e contente em vestir novamente a Camila e encontrar todas as outras entidades”, comenta Jéssica.

O retorno positivo, no entanto, não veio apenas da Netflix. Cidade Invisível já conquistou uma multidão de fãs ao redor do mundo, que não esconde seu amor pela série. “Aquece o coração! Estou muito contente em receber o carinho de cada pessoa, de cada cidade, é muito bonito”, explica Jéssica, que admite usar o tradutor para poder entender e responder algumas mensagens que chegam para ela.

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Vinícius Mochizuki/Fotografia

A criação e o canto da Iara

Uma das figuras mais emblemáticas do folclore nacional, a sereia Iara, também conhecida como Mãe D’água, é uma entidade metade mulher e metade peixe que usa sua voz e beleza para atrair homens para o fundo dos rios, afogando-os. De origem indígena, a versão mais aceita da lenda é que Iara era uma nobre e forte guerreira, cujas habilidades eram invejadas pelos seus irmãos. Inundados de raiva, eles a atacam, mas ela consegue se defender e acaba matando eles. Com medo da reação do seu pai, o pajé da tribo, Iara foge, mas é encontrada por ele, que pune ela pelos seus atos jogando-a no rio. Entretanto, os peixes e as águas a salvam e a transformam em uma sereia.

Na série Cidade Invisível, a origem da Camila, como também a sereia é chamada, é um pouco diferente. Vítima de feminicídio, Iara é esfaqueada pelo seu companheiro, que joga o corpo da mulher no mar. As mudanças nas origens dos personagens e a falta de representatividade indígena foram alvos de críticas nas redes sociais por parte de alguns ativistas e sociólogos.

“Minha preocupação foi construir a Camila de uma forma legal. Há muitas histórias de sereias, mas é muito raro uma sereia negra. Primeiro que eu não sou índia, vou para um lado muito mais afro, então foi posto essa missão nas minhas mãos e eu peneirei ao máximo as informações para que pudesse entregar”

Questionada sobre essa questão, Jéssica disse que não se incomodou com isso durante o processo de criação da Iara. “Minha preocupação foi construir a Camila de uma forma legal. Há muitas histórias de sereias, mas é muito raro uma sereia negra. Primeiro que eu não sou índia, vou para um lado muito mais afro, então foi posto essa missão nas minhas mãos e eu peneirei ao máximo as informações para que pudesse entregar”, esclarece Jéssica.

A atriz explica que sua personagem tem inúmeras características da lenda e desenvolve um papel importante dentro da trama, sendo o elo entre Erik (interpretado por Marco Pigossi) com o mundo do folclore. “A Camila tem indícios, adjetivos e qualificações de uma Iara. Ela consegue ser essa mãe, essa mulher guerreira, forte, inteligente e corajosa. Acho que consegui trazer a força dessa figura que é o nosso sagrado feminino, dessa imagem que é sempre associada à origem da vida.”, finaliza a atriz.

Jéssica, que já havia trabalhado na novela Verdades Secretas, de Walcyr Carrasco, conta que, desde o início da produção, ela e os outros intérpretes das entidades trabalharam com a direção da série para que não houvesse um exagero na abordagem e interpretação dos personagens, tornando-os muito caricatos.

Outro cuidado que a produção tinha que ter, obviamente, era com o “super poder” da Iara. Assim como na lenda, a sereia usa seu canto para seduzir Erik, ao som do clássico Sangue Latino, da banda Secos & Molhados. “Eu estou dublando a cantora Mariana Froes, que é uma jovem linda que conheci através do próprio projeto”, comenta Jéssica, “Foi fácil porque é uma música que, além de ser em português, eu já conhecia, de família.”

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Vinícius Mochizuki/Fotografia

Trabalhando com um veterano das animações

Um dos pontos mais elogiados e admirados por Jéssica foram os profissionais que tornaram a realização da série possível, em especial seu showrunner Carlos Saldanha. Um veterano das animações, o produtor, que já trabalhou ao lado de nomes como John Cena, Queen Latifah, Jamie Fox e Anne Hathaway, estreia seu primeiro trabalho em live action com Cidade Invisível.

Jéssica comenta que brincava com Carlos por essa ser a “primeira vez” que ele trabalhava com humanos, mas não esconde a profunda admiração pelo produtor. “Ele conta essas histórias de tradição oral, passadas de geração para geração, e consegue transformar tudo que já está inserido no nosso DNA, na nossa cultura desde muito jovem, em carne, osso e alma”, conta a atriz.

“Eu gosto muito desse mundo fantástico, de subir, de voar, de ter poderes, mas fazer isso de forma ruim é muito fácil! Você tem que ter um bom investimento, saber escolher os profissionais, e creio que acertamos em cheio com essa produção”

A intérprete da Camila aponta que o Carlos é 100% brasileiro e se orgulha de suas raízes, tentando “abrasileirar” sempre que possível os seus projetos. Além disso, Jéssica ressalta a importância de um bom investimento no audiovisual através do qual, unicamente, é possível fazer com que produções como Cidade Invisível sejam viabilizadas.

“Eu gosto muito desse mundo fantástico, de subir, de voar, de ter poderes, mas fazer isso de forma ruim é muito fácil! Você tem que ter um bom investimento, saber escolher os profissionais, e creio que acertamos em cheio com essa produção”, expõe Jéssica.

Segundo a ANCINE, que desde 2018 não atualiza os dados no Observatório Brasileiro do Cinema e Audiovisual, o PIB apenas do audiovisual nesse ano foi de R$ 26,7 bilhões de reais para o país. Ainda de acordo com um estudo feito pelo Sebrae em 2016, o impacto sobre o investimento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) é de no mínimo 35,51%, podendo chegar a uma taxa de ganho de até 74,78%. Diferente do que o senso comum aponta, a economia e o audiovisual andam de mãos dadas.

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Vinícius Mochizuki/Fotografia

Similar às outras produções originais da Netflix, Cidade Invisível se destaca entre os produtos audiovisuais brasileiros pela qualidade da produção, principalmente pelos seus efeitos especiais. Desde o cabelo flamejante do Curupira até a cauda da Camila, a série trabalha em diversos momentos com o uso do CGI e efeitos práticos.

É uma novidade. Como eu estava mais na parte das entidades, pude ver bem o efeito especial sendo criado ali. Eu lembro que teve um dia, bem no início das gravações, que entrei em uma sala onde foram me fotografando centímetro por centímetro, era tudo muito minucioso”, explica Jéssica, que também comenta que a Netflix apostou em uma leva de profissionais mais jovens para colaborarem na produção.

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Bem acompanhada

Mesmo não sendo seu projeto de estreia como atriz, Jéssica não esconde a importância que é para ela poder fazer parte da série. Ao lado de atores e atrizes consagrados da TV brasileira, ela conta como foi sua relação com Marcos Pigossi e Alessandra Negrini, intérpretes do Erik e da Cuca, respectivamente.

“Eles me deram muito espaço, não me conheciam e com muito respeito receberam essa pessoa que estava chegando”, revela a atriz. Como Jéssica também interpreta uma entidade, seu contato mais próximo foi com a Alessandra, com a qual ela afirma ter tido uma ótima relação e companheirismo em prol da história.

“Alessandra e eu participávamos juntas dos laboratórios. Ela era essa mãe que se relacionava com todas as figuras místicas. Ela tem muito o lado da escuta, trocava conosco para, juntos, criarmos a história”, explica a atriz.

A relação da Camila com o Erik, personagem do Pigossi, também é de extrema importância para a trama e costura os acontecimentos de Cidade Invisível. “Meu último teste foi com ele, então era algo que precisava encaixar já ali. Quando se trata de dois atores, é necessário haver uma química para que funcione bem, e eu acredito muito nas relações familiares que acontecem ali dentro da história”, comenta Jéssica.

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Vinícius Mochizuki/Fotografia

O canto e grito das mulheres de uma nação

A intérprete da Camila, no entanto, se mostra cautelosa ao responder a pergunta que encerraria esse bate-papo tão gostoso que tivemos. Ao ser questionada sobre como ela vê o impacto da sua personagem nas meninas e mulheres brasileiras, a atriz assume que é bastante responsabilidade, mas que crê passar, através da sereia Iara, a força e a resiliência da mulher brasileira.

“A mulher brasileira passa por muita coisa, ainda mais se tratando em mulheres de de classes sociais mais baixas ou de etnias não brancas. Socialmente, estamos mais abaixo, mas nem por isso temos que abaixar a cabeça. A Camila é essa mulher forte que tem coragem de se arriscar, de receber um não, de ver o desconhecido. Ser brasileira é muito do que a gente está acostumado a ouvir, que é: nunca desistir.”

Sobre a segunda temporada, a atriz revela que ainda não sabe do que está por vir, mas espera poder explorar ainda mais a sua personagem e anseia para que outras lendas do nosso vasto folclore brasileiro apareçam na série.

“Eu tenho visto que pouquíssimas pessoas hoje em dia, principalmente os mais jovens, nas escolas, estão aprendendo sobre o folclore, então fiquei muito contente da gente retomar a nossa história, as nossas raízes. Mas, o que eu gostaria que acontecesse, falando da personagem Camila, é vê-la mais dentro do mar, gostei muito do efeito especial, pra mim foi muito divertido fazer aquelas cenas, ver uma sereia em cena, dentro da água é o que eu to desejando”, relata.

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