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Jesuita Barbosa não tem mais medo de se encontrar

Às vésperas da estreia do remake da novela “Pantanal”, batemos um papo com o ator sobre carreira, pandemia, família e sexualidade 

por Humberto Maruchel 21 jan 2022 10h08
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Arte/Redação

comum, ao fim de uma entrevista, perguntar ao entrevistado se gostaria de acrescentar algo além do que já foi dito. “O que mais você acha que preciso saber?” Acontece que, quando o perfilado é o ator Jesuita Barbosa, a resposta pode ser um tanto enigmática. 

“Isso eu não posso te contar, você vai ter que descobrir sozinho”, ele responde do outro lado da linha antes de nos despedirmos. Pois bem, se um perfil é um quebra-cabeça, talvez uma peça fique perdida no meio de tantas palavras. Ou talvez fosse apenas graça. Só ele pode dizer. “O texto é corpo a corpo com a vida”, escutei recentemente. Então, o silêncio também faz parte do processo.

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Jesuita nasceu em 26 de junho, em Salgueiro, no interior de Pernambuco. Cresceu em Fortaleza, no Ceará, mudou-se para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo. É chamado de Jesu entre os mais próximos. Tem 30 anos e é canceriano em dobro – sua lua também é em câncer –, o que explica seu lado mais maternal. Nasceu na mesma data que Gilberto Gil, fato que ostenta com muito orgulho. E, curiosamente, no mesmo dia de Ariana Grande, de quem é fã.  

Falamos num dos primeiros dias após a virada de ano, que ele passou em Fortaleza. Começou 2022 muito tranquilo: o ano virou, projetou coisas que deseja, abraçou as pessoas que gosta e foi dormir. Mas valeu a pena depois de um período tão atribulado e cansativo. “Virei o ano feliz por estar vivo, e também um pouco perplexo com a velocidade do tempo, [de perceber] como tudo é efêmero.” 

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Fabio Audi/Fotografia
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Marcas do isolamento

Jesuita ficou órfão de coisas, de pessoas e também de um tempo que se foi durante o isolamento social. “Tem um hiato no meio disso tudo, de um tempo que não existiu. E acho que ainda preciso encontrar essas coisas que ficaram pelo caminho.”

Foi durante a pandemia que passou a morar sozinho. Estava construindo seu lar em São Paulo, mas a experiência, em vez de entusiasmo, trouxe muita solidão. São três anos vivendo na capital paulista, porém a descoberta da cidade foi corrompida pela covid-19. “Ficou um desejo de poder habitar aquele espaço que eu construí e poder refazer essa imagem.”

No meio disso tudo, veio também o anúncio do remake da novela Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 1990. Na nova versão, adaptada por Bruno Luperi, Jesuita vive Jove, um rapaz sensível que chega do Rio ao Mato Grosso e, com sua presença, estabelece um forte contraponto à figura do pai, o criador de gado José Leôncio, interpretado em duas fases – por Renato Góes e Marcos Palmeira. A produção logo colocou o ator novamente na estrada. É estar em movimento, com o corpo para jogo, que o deixa feliz.

“A novela traz essa discussão, afinal o Pantanal mudou radicalmente. O bioma está muito diferente. Antes era um lugar cheio de água e hoje está seco, demora muito mais para encher”

Foram dois meses vivendo no Mato Grosso do Sul, em contato com o bioma que dá o mesmo nome à novela – uma vivência “muito quente” –, convivendo com o elenco, produção e direção. Dois meses fora de casa a trabalho é muito tempo para permanecer inalterado. “Nós vamos nos modificando. Acredito que criamos um vínculo muito grande ali. Acho que todo mundo fica imbuído de uma força. Conseguimos fomentar uma energia, uma força estranha que, agora, nós guardamos como memória para poder entrar no estúdio.”

De forma inevitável, a adaptação diz muito sobre o Brasil atual e traz à memória um antigo Pantanal que não existe mais após desmatamento e inúmeros incêndios. “A novela traz essa discussão, afinal o Pantanal mudou radicalmente. O bioma está muito diferente. Antes era um lugar cheio de água e hoje está seco, demora muito mais para encher.”

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Fabio Audi/Fotografia

Todos por um

O trabalho criativo em equipe foi o que colocou Jesuita de volta aos eixos e o ajudou a encontrar equilíbrio. Essa é uma das grandes lições de vida e de atuação que aprendeu. Para isso, descobriu que precisa dividir a responsabilidade para não se sobrecarregar. “Hoje não sei mais trabalhar sozinho.”

Parece uma eternidade desde que começou. Muita coisa mudou, inclusive o valor que se atribui à cultura. “Peguei uma época em que eu consegui fazer teatro e pude habitar políticas públicas, em que as pessoas pensavam cultura completamente diferente de hoje em dia. E acho que pude viajar pelo Nordeste, pude começar a trabalhar com audiovisual muito porque o governo olhava para isso.”

Mas não foi só isso que foi alterado. Antes, costumava sofrer em seus trabalhos. Pensava que, para conseguir resultado em cena, precisaria se martirizar. Era uma cruz que carregava. O resultado veio: logo cedo, chamou atenção nas primeiras produções no cinema, em 2013, com Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda, e foi premiado como melhor ator no Festival de Cinema do Rio. E em 2014 com Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, contracenou com Wagner Moura, que logo tornou-se fã do jovem. Mas tudo acompanhado de um custo muito alto.

“Peguei uma época em que eu consegui fazer teatro e pude habitar políticas públicas, em que as pessoas pensavam cultura completamente diferente de hoje em dia. E acho que pude viajar pelo Nordeste, pude começar a trabalhar com audiovisual muito porque o governo olhava para isso”

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Fabio Audi/Fotografia

“Eu tinha que estar muito cansado antes de qualquer cena, precisava fazer muitos exercícios para conseguir chegar num estado [físico e emocional], e às vezes isso tudo me dava um saldo negativo quando terminava o trabalho. Meu corpo estava exausto e eu levava muito tempo para me recuperar”, compartilha. “Já gostei muito de atuar quando estava com o corpo desestressado, mas também já gostei de atuar quando estava completamente fatigado, exausto. Eu só posso pensar o meio disso.”

Antes de seguir para a próxima pergunta, ele lembra de outro aprendizado: “Acho que a grande lição como ator é não ter medo de tentar continuar se encontrando.”

E foi isso que fez nessa última década. Foram muitas vidas e personagens, e um enorme percurso de amadurecimento para o ator, dentro e fora de cena. Falar de Jesuita sem falar sobre sua saga até se tornar ator parece uma narrativa incompleta. É o fato de ser ator que o coloca em uma posição de estar sempre se revendo. “Não posso criar uma certeza do que eu sou. Atuar é estar vivo. Se eu me enrijeço em uma coisa só, não vou mais conseguir atuar. E eu tenho me percebido múltiplo agora.”

“Não posso criar uma certeza do que eu sou. Atuar é estar vivo. Se eu me enrijeço em uma coisa só, não vou mais conseguir atuar. E eu tenho me percebido múltiplo agora”

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Fabio Audi/Fotografia

Fora do armário

Descobrir-se muitos ultrapassa os papéis que interpreta, e se expressa na forma como vive, como se relaciona e como olha para o mundo. Isso implica em acompanhar as discussões e todo o movimento que acontece ao seu redor. Mesmo atento, percebe que corre o risco de ser passado para trás, afinal tem uma “força jovem” que sempre surpreende e exige mudanças. “Não interessa quantos anos você tem, mas você entende que tem algo vindo ali que é recente.” As questões de gênero e de sexualidade estão entre algumas das quais olha com curiosidade. “Eu me vejo em alguns lugares hoje em dia em que me acho careta também, que preciso prestar atenção. Minha irmã Rebeca é mais nova do que eu e tem uma ideia sobre sexualidade muito mais livre do que a minha em muitos aspectos.”

Pergunto se precisou sair do armário mais jovem. Ele diz: “O armário é uma instituição objetificada. Ele está presente para qualquer um, independente da sexualidade. Prefiro pensar o armário como aquela movelaria pesada que sempre existe na casa de algum familiar. Uma peça incômoda e datada. Você tem medo do que pode existir ali dentro. Mas ali dentro está o medo que você mesmo inventou. Se estive em algum armário, prefiro pensar que já consigo olhar para ele do lado de fora. Daqui, observo e agora devo pensar um projeto de um móvel novo.”

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“O armário é uma instituição objetificada. Ele está presente para qualquer um, independente da sexualidade. Você tem medo do que pode existir ali dentro. Mas ali dentro está o medo que você mesmo inventou. Se estive em algum armário, prefiro pensar que já consigo olhar para ele do lado de fora”

A conversa sobre sexualidade remonta aos tempos de Tatuagem, onde interpretou Fininha, um soldado gay que se apaixona por um diretor teatral anarquista, em Recife, em meio à ditadura militar. Ele diz que aprendeu muito com o filme sobre as várias camadas da palavra liberdade. As diversas discussões com o grupo, com quem conviveu por meses, e a pesquisa para a obra “me deixaram muito mais à vontade comigo e com o meu corpo.”

Mas foi o teatro que tirou suas amarras antes mesmo de ir para o cinema ou televisão. Lá, ele deu os primeiros passos. “Acho que consegui tirar essa ideia de negação de mim desde quando eu comecei a fazer teatro. No teatro, eu já entendia uma liberdade que eu não conseguia compreender, uma liberdade de corpo, de ideias, de liberdade sexual. Tem toda uma libertinagem no teatro que nos faz muito bem.” Possivelmente, foi o teatro que tirou o medo dos rótulos que poderiam vir na sua carreira na televisão, e que aprisiona tantos outros atores.

TATUAGEM (TATTOO) | Official Trailer from Carnaval Filmes on Vimeo.

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De volta aos palcos

Jesuita conheceu o teatro ainda muito menino. Deveria ter oito anos, ele não lembra ao certo. Aquele primeiro contato, no entanto, não foi das experiências mais felizes que tem guardadas. Na época, era uma criança muito tímida, mas repleta de coragem e prontidão. Era noite de natal e ele interpretava um anjo em uma peça da igreja que a família frequentava. A família sempre foi muito católica, lembra. Ali no púlpito, ele carregava apenas uma firmeza ousada, pois não tinha nem uma fala decorada. Foi uma decepção para a sua avó Terezinha, que ficou brava com o menino. Mas, apesar de tudo, a experiência não criou traumas para a vida adulta, só motivo de riso. Fazer teatro na igreja foi sua “primeira subversão”, diz.

“Acho que consegui tirar essa ideia de negação de mim desde quando eu comecei a fazer teatro. No teatro, eu já entendia uma liberdade que eu não conseguia compreender, uma liberdade de corpo, de ideias, de liberdade sexual. Tem toda uma libertinagem no teatro que nos faz muito bem”

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Fabio Audi/Fotografia

Das imagens de infância que ergueram seu imaginário, lembra de uma história de quando sua mãe, Elizabeth, viajou do interior de Pernambuco para Recife e lá venceu um festival após performar Elba Ramalho. “Era uma aula de determinação que ela me dava quando contava isso. Eu nunca vi minha mãe se apresentar, mas entendo que ela tem esse espírito de artista, e eu tenho muito dela nesse sentido.” Foi Elizabeth que incentivou Jesuita na carreira. “Era sempre ela que estava ao meu lado, me vestindo e me colocando em lugares e competições, dividindo comigo a vontade que eu tinha de ser ator.”

Quando, mais crescido, começou a fazer aulas de teatro no colégio, ficou encantado. A relação com o palco foi mais um amor à segunda vista. “Acho que o fato de ter ido fazer teatro estava ligado às questões que eu queria criar e tudo que eu queria responder. Não só as respostas, mas eu queria criar questões sobre a minha vida, minha existência, minhas relações familiares e os meus traumas.” O vínculo que firmou a partir dali diz muito sobre as transformações que Jesuita viveu ao longo dos anos. “Fazer teatro foi uma salvação para mim.” 

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Gradualmente, como um relacionamento, marcado por incertezas, descobriu que aquilo que lhe dava prazer, e muitos enxergam como puro hobby ou escapismo, poderia, sim, ser um caminho profissional.  “A confusão geral é que, quando você faz uma coisa que você gosta, parece que não é merecedor de um retorno. Você não pode trabalhar com aquilo e, durante muito tempo, pensava que o que eu estava fazendo era uma experiência apenas prazerosa e não tinha a ver com a minha vida profissional.”

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Fabio Audi/Fotografia

“Ter ido fazer teatro estava ligado às questões que eu queria criar e tudo que eu queria responder. Não só as respostas, mas eu queria criar questões sobre a minha vida, minha existência, minhas relações familiares e meus traumas. Fazer teatro foi uma salvação para mim”

Quando conheceu o professor João Andrade Joca, em um curso que fez em Fortaleza, o pensamento mudou. “Ele parecia um cientista do teatro, foi a primeira experiência em que pude espelhar como algo que eu queria fazer. Tanto que prestei faculdade de pedagogia e de teatro, pensei em lecionar, ensinar teatro, e sobreviver dessa forma. Muito por ele.” E, no futuro próximo, é no teatro que Jesuita gostaria de estar. Deseja retomar a peça Lazarus, dirigida por Felipe Hirsch, e viajar para Portugal e países da África de língua portuguesa.

Num salto de ideias, após falarmos sobre liberdade e destemor, pergunto do que sente medo hoje em dia, especialmente após conhecermos uma pandemia. Ele responde: “De me perceber morto ainda estando vivo. De me perceber sem meios ainda em vida. Tenho medo da morte em todos os aspectos: a morte física, a morte no sentido de um término, no sentido da perda de um ente. De algo que estava ali e hoje não está mais.”

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