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Ancestralidade canábica

A história da cannabis no Brasil está intimamente ligada a chegada dos negros ao país. Olhar para o passado é entender a criminalização e o preconceito

por Danila Moura Atualizado em 25 mar 2021, 12h48 - Publicado em 25 mar 2021 00h29
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arte/Redação

m qual região do mundo a cannabis é cultivada há quase cinco séculos? Neste local, desde as origens, a erva é utilizada para fins recreativos, terapêuticos e religiosos. Outra pista: o baseadinho enrolado na seda divide espaço com vaporizadores centenas de anos antes de criarem estratégias para redução de danos, em voga somente a partir dos anos 1980. Tem um palpite de onde seja? Caso tenha pensado em Califórnia ou algum lugar famoso por ter a ganja comercializada livremente, errou feio.

Os Estados Unidos tiveram o primeiro contato com a ganja um século depois, em meados do século 17, mas o foco era totalmente no cânhamo, versão livre de psicoativos. Some umas centenas de anos até os norte-americanos iniciarem os experimentos no uso medicinal. A roda do consumo recreativo só abriu por lá em 1900, graças aos imigrantes mexicanos. Curiosamente, a badalada Califórnia só teve os primeiros cultivos de cânhamo em 1795.

Seria algum lugar no Canadá, país que movimenta bilhões de dólares no mercado canábico? Esquece… bolaram primeiro baseado canadense somente no começo do século 20.

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Mayara Ferrão/Ilustração

Acertou quem disse Brasil. E o mérito pela introdução pioneira, usos diversificados e manutenção da cultura do “ouro verde” é totalmente do povo africano. Escondidas dentro de bonecas amarradas nas tangas, as primeiras sementes de ganja chegaram ao país em 1549 por intermédio dos negros escravizados, conforme registro histórico do Ministério das Relações Exteriores. Desde então, a cannabis foi utilizada amplamente apenas entre a população negra, enquanto a classe branca começou a fazer uso da erva somente a partir dos anos 1960, após o movimento hippie e da contracultura.

Um padre jesuíta descreveu o provável uso da cannabis infusionada entre os negros no final do século 14 para doenças como asma, dores de cabeça e estômago, além do uso recreativo registrado como: “para alguns, faz muito mal, atordoa e embebeda; a outros, faz bem e faz soltar muitas rimas pela boca”. Estudos do antropólogo Edison Carneiro evidenciam o cultivo comunitário de cannabis entre outras plantas no Quilombo dos Palmares durante o século 17, quando o tal “fumo de Angola” era degustado em cachimbos feitos à base de coco.


Primeiro país no mundo a criminalizar o uso da cannabis, o Brasil escancara a inquestionável origem racista da perseguição da erva, documentada nos termos redigidos da norma

Primeiro país no mundo a criminalizar o uso da cannabis, o Brasil escancara a inquestionável origem racista da perseguição da erva, documentada nos termos redigidos da norma. Instaurada em 1830 na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a Lei de Posturas penalizava os “escravizados e outras pessoas” consumidoras do “pito do pango” com três dias de cadeia e chicotadas. Porém, os boticários da classe branca, cujos estabelecimentos fossem flagrados vendendo a erva, ou seja, traficantes ao invés de consumidores, apenas tinham que se preocupar em pagar uma multa, pois eram isentos da prisão.

Criada em um momento de instabilidade política com a vinda da corte portuguesa ao país, aumento do tráfico escravagista e de revoltas da população escravizada, a norma de proibição da maconha estava inserida em um contexto de controle social perante os meios de trabalho e o raro lazer da classe oprimida. A história mostra que nada mudou até os dias de hoje em relação aos meios racistas de aprisionamento.

O Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias) de 2016 aponta que 64% da população carcerária brasileira é preta, um índice que atinge 95% no Acre e 91% no Amapá. O maior motivo de encarceramento geral é tráfico de drogas, razão de 28% dos crimes ocorridos no país em que a diferença salarial entre brancos e negros atinge 45%, conforme dados de 2019 do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio). O varejo de drogas pode ser o único meio de subsistência em um mercado de trabalho constituído para manter a segregação racial por séculos.

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Pioneirismo

lei do Pito de Pango “É proibida a venda e o uso do ‘Pito do Pango’, bem como a conservação dele em casas públicas: os contraventores serão multados, a saber, o vendedor em 20<img src=

O povo preto é pioneiro no uso da cannabis para fins recreativos e terapêuticos em tradições seculares no Brasil, com benefícios comprovados pela ciência há poucas décadas. Em busca da verdadeira história da maconha no Brasil, fizemos um mergulho nos escassos registros desde o Brasil Colonial.

Conhecida por nomes como fumo de Angola, pango, diamba, riamba, liamba, fumo brabo, fumo de caboclo e até macumba, a cannabis brasileira sempre foi designada com referência direta à origem africana em todos documentos históricos.

Originária da Índia, Pérsia, Arábia Saudita e, sim, de algumas partes do continente sul-americano, onde era utilizada por indígenas amazônicos e andinos, a maconha chegou na África por intermédio de comerciantes árabes em rotas comerciais que atingiam a costa leste do continente, onde comerciantes construíram assentamentos fixos. Nesta região, aconteceram os primeiros contatos com povos bantus, que aderiram ao uso da erva. Por meio de rotas comerciais, a cannabis se espalhou ao longo da Bacia do Congo e África Central, quando era utilizada como moeda de troca entre povos para compra de animais e outros itens.

Originalmente chamada de banghi ou bangi na Índia, os termos riamba, diamba e liamba, amplamente utilizados no Brasil, foram criados pelos povos de língua kimbundo, na qual também também é designada como kangonha e o ato de fumar “makanha”.

Evidências etnolinguísticas, documentos e escavações arqueológicas que encontraram cachimbos com resíduos de ganja dão sinais da presença da cannabis no continente desde os séculos 13 e 14, apesar de pesquisadores suspeitarem do uso ser mais antigo. Outra prova importante da influência árabe vem do funcionamento dos cachimbos, adaptados para realidade africana. Inspirados e com funcionamento semelhante aos narguilés árabes, materiais como cabaças, bambus, cocos e chifres deram uma estética local ao item.

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A maconha no continente africano

A origem dos nomes da erva derivam do indiano banghi ou bangi e o nome árabe haschisch
POVOS
Thonga: mbange
Shona da Rodésia: mbanji
Swahili: bhang
Hotentotes: daXab
Sotho: lebake
Lamba: wangula

Aliviar a opressão

O cachimbo é peça fundamental para contar a história da cannabis da África ao Brasil. O item era chamado de mu-topa ou mutópa em kimbundo, aqui ganhou o nome de marica, parecido com o originário, grogoió, bomba e boie. Kimbundo era uma das diversas línguas amplamente utilizadas por parte dos negros escravizados vindos ao Brasil, muitos de etnia Bantu. A cabaça era o material mais utilizado na constituição do cachimbo, confeccionado a base de argila, madeira, chifres, cerâmicas e pedras. Chama atenção o uso da cabaça com água de forma semelhante ao cachimbo africano, dispositivo criado para esfriar e “lavar” a fumaça, evitando tosses, espirros, náuseas e vômitos, além de produzir um característico som das bolhas gorgolejando. É surpreendente averiguar o uso antenado em questões de redução de danos centenas de anos antes de criarem as primeiras políticas do tipo no mundo. Os negros davam valor artístico aos cachimbos ao personalizá-los com desenhos e formatos especiais, conforme relatos de consumidores no século 19.


Já o tradicional baseado, desde as origens, era tragado coletivamente. Enrolado em palha de milho ou papel de embrulho de baixa combustão, ganhava a fama como morrão, fininho, dirijo e tauari, dependendo da região do país

Já o tradicional baseado, desde as origens, era tragado coletivamente. Enrolado em palha de milho ou papel de embrulho de baixa combustão, ganhava a fama como morrão, fininho, dirijo e tauari, dependendo da região do país. Nas capitais do nordeste, o baseado era mais frequente do que as maricas, utilizadas no interior e no Baixo Rio São Francisco, em locais longe da ostensiva vigilância da polícia. Afinal, até os dias de hoje, é mais fácil esconder um baseado do que um bong, por exemplo. Os buds eram chamados de “camarão”, as flores mais potentes “manga rosa”. Cannabis ruim era pêlo de macaco ou poeira.

Depoimentos de fumadores no começo do século 19 eram repletos de elogios à cannabis. Pessoas afirmavam que a erva os deixava mais espertos, inteligentes e com facilidade para ter novas ideias. O ato de fumar a ganja era descrito como causador de bem-estar, satisfação, felicidade e alegria. Os consumidores mostravam-se amáveis, com expansões fraternais, falavam demasiadamente, davam estrepitosas gargalhadas, ficavam agitados, pulavam em euforia positiva. Na sequência, caíam na larica ou no sono, geralmente, embalado por sonhos deliciosos.

O aumento do vigor sexual era exaltado por fumadores beneficiados pelos efeitos afrodisíacos capazes de “corrigir os efeitos da idade” e até gerar sonhos eróticos com direito a ejaculações durante a noite. Entre mulheres, os relatos da época falavam do aumento de apetite sexual a ponto de algumas terem sexo grupal e lésbico, porém, pode ter sido uma informação distorcida de propósito machista.

Diversas vezes, o uso da diamba era associado aos trabalhadores como suporte para amenizar as durezas impostas por rotinas de trabalho altamente influenciadas pelos abusos escravagistas, perpetuados mesmo após a abolição da escravatura em 1888, executada de forma arbitrária, sem nenhuma reparação ou suporte aos ex-escravizados.

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Mayara Ferrão/Ilustração

Pescadores no nordeste utilizavam a erva para aumentar a disposição, ficarem mais alegres, vencerem com maior facilidade os desafios do mar, como o frio e as longas jornadas. Um relato da época afirmava que após fumar, os pescadores alegravam-se, conversavam de forma mais amável, contavam história e versos, o riso ficava solto, tinham gostosas alucinações visuais e auditivas, perda da noção do tempo. Depois, muita fome e sono.

“Se é um músico, predominam as alucinações auditivas; se é um pintor, são as alucinações visuais; se é um poeta, é a visão fantástica de tôdas as quimeras que lhe povoam a alma de artista”

Achiles Lisboa, médico, em 1918

Castigos intensos faziam parte da rotina dos soldados naquela época, cujo alistamento obrigatório era mantido à base de muitas agressões diárias. Não à toa, o uso da ganja era bastante arraigado dentro dos quartéis, como forma de aliviar o estresse e a dor, evidências da intersecção entre o uso recreativo e o terapêutico.

Um relato de época fala sobre a história de um carregador que teve uma bad trip após fumar a ganja para aliviar dores de dente. Sudorese, medo e mania de perseguição acometeram o cidadão. Mas, novamente, o desfecho clássico da larica. Após devorar muitas batatas doces e farinha de mandioca, ele ficou numa boa.

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Racismo nos EUA

As táticas de Guerra às Drogas iniciada nos anos 1960 nos Estados Unidos foram projetadas para exterminar as comunidades negras e enfraquecer a esquerda política. Em uma entrevista ao repórter Dan Baum, John Ehrlichman, então conselheiro do ex-presidente Richard Nixon falou a real: “Você quer saber do que se trata realmente? A campanha de Nixon em 1968, e a Casa Branca de Nixon depois disso, tiveram dois inimigos: a esquerda antiguerra e os negros. Você entende o que estou dizendo? Sabíamos que não poderíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou contra os negros, mas fazendo com que o público associasse os hippies à maconha e os negros à heroína, e depois criminalizando ambos fortemente, poderíamos desorganizar essas comunidades. Poderíamos prender seus líderes, invadir suas casas, interromper suas reuniões e difamá-los noite após noite no noticiário noturno. Sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim.”

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Planta sagrada

Além do recreativo, o emprego da planta para tratar doenças estava avançado em nível surpreendente. Inclusive, denotava um ato de resistência à dominação branca, pois os africanos tinham conhecimentos únicos sobre o poder de diversas ervas. Os negros utilizavam a maconha para combater dores de estômago e dos dentes, cólicas menstruais, aliviar câimbras, estimular a circulação sanguínea, despertar o apetite, agir como cicatrizante, analgésico e anestésico, melhorar o humor. Hoje, a cada dia as pesquisas científicas corroboram estes benefícios outrora amplamente conhecidos pela população negra brasileira há séculos.


Junto da sabedoria fitoterápica, os africanos mantiveram o aspecto sagrado da erva. Fumada por babalorixás e seus filhos, a cannabis era presente nos cultos de candomblés, catimbós e xangô

Junto da sabedoria fitoterápica, os africanos mantiveram o aspecto sagrado da erva. Fumada por babalorixás e seus filhos, a cannabis era presente nos cultos de candomblés, catimbós e xangôs. Provocava o êxtase nos pais e mães de santo, provavelmente identificada com algum orixá era utilizada como oferenda ou em rituais de proteção contra trabalhos maléficos. Acreditavam que o uso abria um canal espiritual, fechava o corpo e provocava sonhos felizes.

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Mayara Ferrão/Ilustração

Conhecida pelo nome de Ewé Igbó, os rituais à base de ganja atraíam dinheiro, mas também confusões na vida do praticante. Nos cultos era identificada às vezes com Oxalá, mas também majoritariamente a Exu. Ligada a elementos de fogo e de caráter masculino, era sacralizadora dos objetos utilizados nos rituais da entidade. Em obras, há relatos de uma pessoa incorporada por um Exu que só sossegou após fumar um baseado. Declarações mencionam a presença de homens e mulheres nus em rituais de candomblé a base de cannabis, porém, não dá para saber se era verdade ou uma forma depreciativa para atrelar a erva a possíveis perversões sexuais. Os centros religiosos exaltavam a cultura negra como resistência às crenças brancas impostas à revelia. Até hoje paira a dúvida se a ganja era utilizada em centros religiosos por causa do efeito psicotrópico ou das qualidades terapêuticas, mas fato é que era consumida pelas duas razões.

Cânhamo

“A maconha (cannabis) teve, ao menos, três tipos de usos no Brasil: como um produto para a indústria de cordame, desde o período colonial, denominado de cânhamo; no século XIX, como medicamento presente nas farmacopeias oficiais; e, desde esse mesmo século, mas especialmente a partir do século XX, como uma substância psicoativa criminalizada, com seu uso atribuído a camadas subalternas e pobres da população, especialmente entre os afro brasileiros e os nordestinos, que foram associados com esta planta. O cânhamo como produto industrial se diferenciou da maconha, consumida como droga psicoativa, e foi plantado no período colonial para servir de matéria-prima para tecidos e cordas.

O Marquês de Lavradio, Vice-Rei do Brasil, em 19 de junho de 1799, mandou sementes de cânhamo para a ilha de Santa Catarina, ‘mas não só na ilha há sítios excelentes para a plantação de cânhamo, ele se produz no Rio Grande de São Pedro e nos recôncavos desta cidade, como é Santa Cruz’. Foi no estado do Rio Grande do Sul onde, conforme os registros disponíveis, o cânhamo teve, aparentemente, mais êxito. Antônio José Gonçalves Chaves escreveu em suas Memórias econômico-política sobre a administração pública no Brasil, publicada em 1822, que: ‘sob o ministério do Marquês de Pombal, tempo em que se olhava para as coisas grandes e de utilidade pública com a devida atenção, mandou-se criar uma Feitoria de cânhamo nesta província’.

No sul da colônia, em Canguçu, próximo da cidade de Pelotas, se instalou em 1783 a Real Feitoria do Linho Cânhamo. Desde 1788, a Real Feitoria se deslocou para as margens do rio dos Sinos onde funcionou até 1824, chegando a ter três centenas de escravos dedicados ao plantio e beneficiamento em pano e estopa de cânhamo. Quando foi fechada, o local de sua Casa Grande foi usado para abrigar os primeiros imigrantes alemães vindos para o Brasil sob o patrocínio da Imperatriz Leopoldina, fundando assim, oficialmente, a cidade de São Leopoldo. Não há evidências que apontem para um uso psicoativo das plantações gaúchas. Talvez o uso de fumar as sumidades floridas tenha sido posterior a essa primeira introdução oficial do plantio para fabricação de tecidos.”- Henrique Carneiro em Proibição da Maconha: racismo e violência no Brasil

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Clube da diamba

Semelhante a outras práticas como o repente, jongo, candomblé e embolada, os clubes dos diambistas promoviam sessões embaladas por duelos de rimas sobre o universo da erva. Documentados a partir do começo do século 20, os encontros rolavam costumeiramente aos sábados na casa do anfitrião, o mais experiente da turma e o responsável por preparar o cachimbo antes de passar pela roda.

Acompanhados de música ou não, os participantes entoavam “trovas da maconha” em linguagem às vezes cifrada, com expressões referentes à ganja compreensíveis apenas aos demais colegas presentes. Um dos envolvidos soltava uma estrofe, na sequência, todos respondiam em coro, ou individualmente se interpretada como um desafio. Os temas sempre envolviam a ganja, em versos divertidos que retratavam o universo canábico da época: “Eu sou enoque afamado. Porque não tem cerimônia. Em todo lugar que canto minha cara é sem vergonha. Deixei de beber cachaça agora só tomo maconha”. Fãs do grupo Planet Hemp vão reconhecer a rima proferida por um agricultor nos anos 60 na região do Amazonas: “Dirijo é coisa excelente. Remédio de dor de dente. Assim como Deus não mente. Dirijo não mata a gente”. O verso é uma das referências da composição “Dig Dig (Hempa)” e fala de uma verdade comprovada: até os dias de hoje, ninguém morreu de overdose de cannabis no mundo.

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Mayara Ferrão/Ilustração

Outro fato dos clubes, verificado em um registro provavelmente entre a década de 1920 e 1950, era a utilização de roupas brancas e calças de linho entre os praticantes, cuja camisa de manga comprida entre os demais sinalizava quem era o mentor da roda. As vestimentas combinadas e sinalizando linhas hierárquicas estavam consoantes às práticas do candomblé, capoeira e outras manifestações do povo negro.

O costume diambista de atrelar sentido artístico ao consumir cannabis em grupo, único neste formato do gênero no mundo, foi resultado do uso psicoativo da erva somado às ricas criações culturais dos negros brasileiros. Pesquisadores acreditam que a prática exclusiva para homens tinha origem na cultura bantu. Curiosamente, as mulheres também não podiam colher as flores da diamba, utilizadas para o fumo, pois acreditava-se que elas poderiam fazer as plantas fêmeas tornarem-se masculinas, versão sem efeito psicoativo.

Duas dissertações de mestrado da UFBA (Universidade Federal da Bahia) foram essenciais para obtermos as informações deste panorama histórico nacional da cannabis. “Fumo de Negro: A Criminalização da Maconha no Brasil”, de Luísa Saad, e “Sonhos da Diamba, Controles do Cotidiano: Uma História da Criminalização da Maconha”, de Jorge Emanuel Luz de Souza, obras indicadas pelo historiador Dudu Ribeiro.

Infelizmente, grande parte do registro histórico brasileiro referente à cannabis foi escrito a partir da visão racista de intelectuais brancos higienistas. O primeiro estudo especificamente sobre a erva no país é de 1915, intitulado “Os Fumadores de Maconha: Efeitos e Males do Vício”, do pernambucano José Rodrigues Dória, perseguidor ferrenho da erva. O texto foi apresentado em Washington, nos Estados Unidos, durante o Segundo Congresso Científico Pan-americano. Na visão do médico, os escravizados trouxeram e espalharam a ganja no Brasil para se vingar dos brancos que roubaram sua liberdade.

A mente criminosa de Dória criou a teoria estúpida de que os brancos agiram de boa intenção ao roubar a liberdade dos africanos, pois estavam civilizando a raça preta “selvagem”, “ignorante” e “intemperante”. O alerta dado no evento norte-americano era de que o terrível vício da diamba, se não fosse repreendido, poderia se espalhar pelas classes sociais supostamente superiores brancas contaminando os elementos sustentadores de uma boa raça. A maconha destruiria o futuro promissor da nação. Outro relatório, feito pelo engenheiro agrônomo Leonardo Pereira ao Ministério da Agricultura, em 1925, vociferava a respeito da “terrível planta” que poderia causar danos maiores do que os do ópio, capaz de imbecilizar as futuras gerações dos filhos de maconheiros, “o caboclo que usa a diamba é imbecil e de uma indolência fantástica”

Com a Lei Áurea e o advento de República, no final do século 19, as teorias do racismo científico em voga na Europa serviam perfeitamente para os ideais segregadores dos governantes brasileiros e da elite branca. A República apregoava os valores de “liberdade e igualdade”, mas a sociedade aristocrata não queria ver o grande número de escravos libertos com acesso a direitos e oportunidades, dividindo os mesmos espaços em patamar igualitário. Importar teorias raciais e bio deterministas beneficiadoras do homem branco foi o caminho escolhido pela elite intelectual para justificar a manutenção do racismo e da desigualdade social em todos os âmbitos. Criminalizar as atividades de origem africana foi a maior arma de opressão neste sistema.


O Código Penal de 1890 perseguiu a cultura preta, como o samba, candomblé e a capoeira, e não deixou de fora desta lista de exclusão o conhecimento fitoterápico africano

O Código Penal de 1890 perseguiu a cultura preta, como o samba, candomblé e a capoeira, e não deixou de fora desta lista de exclusão o conhecimento fitoterápico africano. A norma proibia a atuação ilegal da medicina, além da prática de magia. A função de curandeiro foi extinta e qualquer prescrição de substância natural de função curativa só poderia ser feita por um profissional habilitado na área da saúde.

Nessa época, a classe médica começou a combater todos profissionais envolvidos em tratamentos de cura que não fossem da área, como uma forma de monopolizar o uso das substâncias. Não havia muitas diferenças entre a formulação das beberagens vendidas nos boticários e as utilizadas em rituais de cura. A sabedoria milenar sobre uso das plantas para tratar diversas doenças que os pais e mães de santo detinham era combatida pela elite branca conservadora, que não valorizava tais conhecimentos, taxados de “feitiçaria”. Desta forma, a sociedade justificava a repressão do candomblé como um combate legítimo à falsa medicina, feita por curandeiros forjadores da medicina. Jornais e a imprensa em geral ajudaram a propagar a imagem pejorativa da cannabis. Em jornais baianos dos anos 1930, por exemplo, artigos falavam o tempo todo da maconha como uma planta africana extremamente tóxica e perigosa. Associar a maconha à origem africana e o uso à delinquência e crime eram práticas comuns da imprensa daquele tempo.

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Mayara Ferrão/Ilustração

Neste contexto, o Decreto 20.930 de 1932 agregou a cannabis junto da cocaína e ópio no grupo das substâncias tóxicas a serem perseguidas conforme indicação do Departamento Nacional de Saúde. Em 1937, a Inspetoria de Entorpecentes e Mistificações foi criada para combater tanto a venda e uso de tóxicos quanto práticas religiosas afro-brasileiras.

Promulgada em 2006, a Lei das Drogas brasileira não se refere mais diretamente aos negros em seus termos conforme visto em normas anteriores. Porém, ainda mantém brechas perpetuadoras do racismo, como as determinações vagas a respeito da caracterização feita pela polícia do crime de tráfico de drogas em relação ao porte. Não existe uma quantidade específica para determinar se é tráfico ou não, o policial ainda pode incriminar com base no endereço onde a pessoa detida mora ou estava no momento do flagrante, entre outras questões de caráter duvidoso.

Essas anomalias da lei permitiram Lucas Moraes, 28, ser preso como traficante por menos de 10g de maconha. Condenado a cinco anos de reclusão, ele morreu encarcerado vítima de Covid-19. Dados de 2015 do instituto Igarapé sinalizam que 75 % das detenções por causa de ganja no Rio de Janeiro foram por quantias menores do que 50 gramas.


Essas anomalias da lei permitiram Lucas Moraes, 28, ser preso como traficante por menos de 10g de maconha. Condenado a cinco anos de reclusão, ele morreu encarcerado vítima de Covid-19. Dados de 2015 do instituto Igarapé sinalizam que 75 % das detenções por causa de ganja no Rio de Janeiro foram por quantias menores do que 50 gramas

Portanto, é assustador averiguar que o mesmo racismo desencadeador das leis proibicionistas de drogas é refletido na estrutura de trabalho dos chamados “heemprendedores” brasileiros. Justo quem mais reclama e pede o fim da proibição da maconha, grande impedimento para o desenvolvimento de negócios, não abre mão nem um pouco do seu privilégio para dar espaço a negros em todas esferas de atuação.

De que adianta colocar às pressas fotos de modelos negros no feed e abordar temas da negritude após a morte de George Floyd, se dentro da empresa os negros não ocupam nem a metade das vagas de trabalho? O racismo estrutural também impede as oportunidades para negros empreenderem neste setor dominado pela classe branca.

Apesar da falta de números a respeito da participação negra no mercado canabista nacional, basta acompanhar eventos e feiras do segmento para constatar a falta de representatividade. Na edição de 2018 da Expo Head Grow, um dos principais eventos brasileiros do universo canábico, apenas uma marca era de um empreendedor negro, dentro de um universo de 35 participantes. Em 2019, eram duas marcas negras em um total de 50 expositores. Ciente da falta de representatividade negra nos quadros de expositores e debatedores no evento, reflexo do racismo estrutural do país, qual é a postura do Expo Head Grow em relação a este panorama? Existem planos para criação de mecanismos para possibilitar aumento da atuação negra no evento?

“Essa pergunta me deixou muito pensativo, pois comecei pensar possíveis formas de ter essa inclusão, e concluí que já fazemos isso desde o início que é informar. Falar sobre maconha é tabu, em todos nossos eventos nos preocupamos muito em entregar muito conteúdo e informação para todos. E não é um evento elitista, prezamos acessibilidade a todos em nosso evento. Claro, temos um caminho longo a construir. Com certeza, vamos focar sempre em incentivar mais negros a estarem no mercado e dentro da Expo Head Grow, como já fazemos”, afirma Henrique, do Cultura Dab, sócio do Expo Head Grow.

“Falar sobre maconha é tabu, em todos nossos eventos nos preocupamos muito em entregar muito conteúdo e informação para todos. E não é um evento elitista, prezamos acessibilidade a todos em nosso evento. Claro, temos um caminho longo a construir. Com certeza, vamos focar sempre em incentivar mais negros a estarem no mercado e dentro da Expo Head Grow, como já fazemos”

Henrique, do Cultura Dab

Nos debates da primeira edição do evento, nenhuma pessoa negra participou das palestras feitas com seis pessoas. Na segunda, foram nove palestrantes no total, em relação a dois negros, número que se manteve perante oito palestrantes totais do terceiro ano de Expo Head Grow. Os temas de palestras que abordaram temas referentes à repressão policial, proibicionismo e outras questões de cunho social englobadas à população negra brasileira canabista foram sobre redução de danos nas políticas de segurança pública, discussão sobre sistema proibicionista de drogas brasileiro, desafios das associações canábicas, direito à paz no universo da guerra às drogas e medidas básicas para fortalecer o discurso regulatório.

Organizar uma roda de conversa sobre cannabis no Brasil e não ter pessoas negras participantes enfraquece a discussão, por mais bem intencionada que seja. A situação se agrava quando na pauta são citadas as questões do tráfico e encarceramento devido à Lei de Drogas, sem dar voz aos verdadeiros porta-vozes inseridos nesta realidade, o discurso vira apropriação.

Quando o assunto é acesso à cannabis dita medicinal, novamente a exclusão vocifera na comercialização de remédios com valores exorbitantes. Uma prova disso é o Metavyl, cujo valor de R$ 2.500 é inacessível em um país assolado por uma grave crise econômica. A opção de tentar um habeas corpus de cultivo para uso próprio, mesmo comprovado por laudo médico, pode ser muito arriscada para quem é negro, mora nas favelas e periferias à mercê da violência policial em ações contra o tráfico de drogas. “Eu sonho em fazer o primeiro HC de cultivo de uma pessoa negra e moradora de favela no Rio de Janeiro”, afirma Erivelto Melchiades, integrante da Rede Reforma, coletivo de advogados que atua fortemente na liberação de plantios para fins medicinais.

“Eu sonho em fazer o primeiro HC de cultivo de uma pessoa negra e moradora de favela no Rio de Janeiro”,

Erivelto Melchiades

O processo de regulamentação da cannabis no Brasil urge por elementos de reparação histórica e defesa dos corpos negros, que por séculos foram pioneiros no uso da cannabis em diversas frentes, inclusive medicinal. A ganja chegou ao Brasil como ato de resistência ao sistema escravocrata opressor. Os Estados Unidos começaram a estabelecer ações reparatórias devido às opressões causados aos negros e latinos em função da tal política de Guerra às Drogas, que por décadas gerou violência para povos não-brancos. Em 2017, foi instituída a Lei de Justiça da Maconha pelo senador Cory Booker, de Nova Jersey, a primeira a lidar abertamente com danos históricos ao punir os estados que prendem desproporcionalmente indivíduos de minorias e baixa renda. Também foi constituído um Fundo de Reinvestimento Comunitário destinado a financiar projetos de desenvolvimento comunitário nos bairros mais atingidos pela proibição, com destaque para ex-encarcerados por crimes relacionados à maconha. Porém, no momento, ativistas da comunidade negra norte-americana reclamam da execução da fila de espera para conseguir as autorizações para o empréstimo, situação que prejudica muito os beneficiados.

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Mayara Ferrão/Ilustração
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Encarceramento feminino

No Brasil, o tráfico de drogas é a principal causa do encarceramento feminino. Segundo o Infopen (sistema de informações estatísticas do sistema penitenciário nacional) de 2018, “crimes relacionados ao tráfico de drogas correspondem a 62% das incidências penais pelas quais as mulheres privadas de liberdade foram condenadas ou aguardam julgamento em 2016”

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Mayara Ferrão. Confira mais de seu trabalho aqui.

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