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Mahmundi para relaxar e despertar

Depois de lançar "Mundo novo”, a cantora, compositora e produtora carioca fala sobre racismo pós-George Floyd, critica as lives e diz não querer se limitar

por Bruno Porto Atualizado em 8 jul 2020, 13h24 - Publicado em 8 jul 2020 09h44
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Clube Lambada/Ilustração

omo combater a ansiedade e o mal estar na civilização (ou no fim dela)? Dê unfollow em quem faz festinha em plena quarentena (e também em quem passa o dia fiscalizando o isolamento social alheio), silencie aquele grupo de WhatsApp com amigos que garantem que não votaram no Bolsonaro, mas gostam que ele “diz umas verdades” e ouça Mahmundi na hora de comer, transar e dormir – se o Ministério da Saúde pode indicar um remédio sem comprovação científica, acho que podemos fazer essas sugestões inofensivas, certo? Os discos da cantora, compositora e produtora carioca têm o poder de nos transportar do inferno (o Brasil de 2020) para uma outra realidade, aveludada, às vezes solar e outras (gostosamente) triste, mas sempre envolta em beleza.

Basta ouvir o reggae pop “Sem medo”, do seu recém-lançado disco Mundo novo, a contagiante “Alegria” (Para dias ruins, de 2018) ou “Hit” (Mahmundi, de 2017), outro reggae híbrido, e, puf, os milicianos e negacionistas deixam de existir em nossas mentes (por alguns abençoados minutos, ao menos). Se a audição dos seus discos possui essa qualidade de nos entorpecer positivamente, uma conversa com a artista, que hoje mora em São Paulo, pode ter o efeito oposto, nos despertando para muitas questões. E esse despertar não é sutil em alguns momentos: se assemelha a acordar de manhã com alguém sacudindo você.

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Mahmundi/Divulgação

“Todas as pessoas brancas são racistas”, afirma Mahmundi em entrevista, via Zoom, à Elástica. Ela, que durante o isolamento criou a rádio Mahmundi FM (vai ao ar todas sextas e sábados, às 23h, no Instagram e no Twitch), também fala das cobranças que recebe para militar, compara o boom das lives ao TikTok e comenta a pluralidade de opiniões da família, onde convive com um irmão policial bolsonarista e uma irmã professora de escola pública. 

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Mahmundi/Divulgação

O nome do seu disco recém-lançado, Mundo novo, permite várias leituras. Pode ser entendido como um manifesto por um nova era, uma referência ao livro de Aldous Huxley, Admirável mundo novo… Afinal, que mundo é esse?
Acho que, no fim das contas, a definição dessa coisa do mundo novo é muito sobre mim. Sobre me entender como uma multiartista, o que para mim é muito recente. Quando as pessoas perguntam sobre o nome do disco, eu falo ‘não é um jingle sobre pandemia’. É um processo em que eu me descubro artista multidisciplinar. Sou uma mina de periferia e que não tinha acesso a isso, ser multidisciplinar. Era muito limitante para mim. ‘Ah, você vai cantar x, y e z, com essa forma, com essa roupa, com essa temática’. Aquilo nunca coube para mim. Eu passei por desafios muito pessoais na minha infância e lidar com a única coisa que eu gostava, a única coisa que eu gosto, de um jeito que não tinha controle foi uma grande dificuldade. 

Como assim?
Em Para dias ruins [seu disco anterior], eu acho que estava ilustrando as coisas como eu estava vivendo, saindo um pouco desse processo de ser só romântica e imagética. Já os meus trabalhos anteriores têm uma pesquisa muito pessoal minha, de como fazer um som lo-fi, das coisas que eu tava ouvindo, como Ariel Pink e Toro y Moi. Sigo tentando entender quando as pessoas falam em Marina Lima e Rita Lee [comparando o estilo de Mahmundi ao delas]. É muito doido. As leituras são muito diferentes e a arte é sobre isso. Voltando ao Mundo novo, toda vez que me encontro num processo pessoal de conhecimento e curiosidade, estarei produzindo independentemente do tempo, da época. Para dizer as coisas que eu quiser, pois são sempre sobre mim. Eu sempre acho que os meus estados são muito internos, as coisas acontecem muito aqui dentro. 


“Toda vez que me encontro num processo pessoal de conhecimento e curiosidade, estarei produzindo independentemente do tempo, da época. Para dizer as coisas que eu quiser, pois são sempre sobre mim”

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Mahmundi/Divulgação

Você falou de em algum momento terem cobrado de você cantar assim e assado. Isso ainda é muito comum, de dizerem como você deve se comportar artisticamente? Você ainda sente esse tipo de pressão?
As duas coisas. Eu sinto que o relacionar das pessoas no mundo digital, nessas cidades digitais, passa pela padronização de outros movimentos. Quando a gente acha que está super evoluindo, vemos que as pessoas não aceitam que eu possa ter uma disposição diferente de tratar de música e arte. E acabam me levando para esse lugar de ser militante. 

Eu lembro que uma vez estava conversando com uma pessoa e ela estava me elogiando muito. E o elogio dela partia do princípio de que “agora existe no mercado essa música LGBT preta, né?”. E eu falei “me explica, porque eu quero entender o que você está vendo”. As pessoas vão continuar colocando a gente numa caixa porque tem a ver com o entendimento delas. Não tem muito a ver com o que eu estou fazendo. Tem a ver com como você me lê e vai publicar isso. Como uma pessoa num cargo alto quer me chamar para fazer uma campanha e quer que eu conte uma história triste, que eu vire um TED. 


“As pessoas vão continuar colocando a gente numa caixa porque tem a ver com o entendimento delas. Como uma pessoa num cargo alto quer me chamar para fazer uma campanha e quer que eu conte uma história triste, que eu vire um TED”

Um outro aspecto é que o jovem brasileiro também precisa de posicionamento, de espelhamento. Por muito tempo, você viu a educação sendo feita na música. Caetano, Gil, Dominguinhos, Elba Ramalho, Clementina de Jesus. O falar dessas pessoas educam outras. Eu sinto que a relação da molecada com a internet é meio essa, quase paternalista. ‘O que você vai me ensinar, como eu posso ser?’. Eu lamento, mas não posso ser responsável por explicar uma saga que nem eu sei. Eu acho que fui me dando conta desse lugar. Já recusei muitos trabalhos de publicidade, como festival que quer a pauta negra, a pauta LGBTQI+, mas, ao mesmo tempo, o contratante é um escroto, a divulgação é toda branca, o patrocínio é gigante e as pessoas te pagam mal. Eu acho que quero ser uma artista como as pessoas são. Não quero me limitar a ser uma artista negra. Ninguém precisa se limitar. Não é sobre isso, ninguém precisa se explicar. 

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Mahmundi/Divulgação

Recentemente, falou-se muito das lives serem um caminho para os artistas durante o isolamento social. Você tem feito algumas. Acha que elas se consolidarão como ferramenta importante?
Eu não sei dizer o que é o ideal para os outros. Mas, nessa história da live, o que começou a me irritar profundamente é mais uma vez essa agenda. ‘Olha, o Tik Tok você tem que usar assim [imita dancinha do Tik Tok]’. Mas, cara, e se eu não quiser fazer isso, o que eu vou fazer no Tik Tok? ‘Ah, mas o Tik Tok tá dando dinheiro’. Beleza, mas o que eu faço além dessa agenda? 

Lembro que eu fiz uma primeira live com a gravadora, na primeira semana de isolamento. Eu achei interessante porque a gente estava mobilizando os fãs e tal. Mas quando eu comecei a receber pedidos de live com cachês baixos… A qualidade do meu som não vai mudar por ser uma live, no meu caso particularmente. Por que eu estou recebendo três vezes menos e por que uma pessoa que faz outro tipo de coisa recebe dez vezes mais?

O isolamento social me fez desenvolver outras formas de criação. Fazer a rádio Mahmundi FM foi exatamente isso. E, agora, estou passando pela coisa dos direitos autorais, as gravadoras estão derrubando as músicas que coloco na rádio. São os problemas que as descobertas trazem. Tem sido um bom desafio, porque eu estou ouvindo pessoas, vozes diferentes. E eu não sou o centro da atenção. Tem gente de Fortaleza, do Amapá. Todo mundo manda áudio, que eu ouço e toco no ar. Ninguém concorda comigo [risos]. É uma troca maravilhosa. 


“Teve o lance da tela preta, de as pessoas virem perguntar para você ‘me conta um pouco’. Cara, não vou te contar nada. Vai estudar, sacou? Se não vira esse lugar meio chato. Contrata um coach aí”

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Mahmundi/Divulgação

Como seu olhar de carioca enxerga São Paulo hoje? E como o seu olhar de moradora de São Paulo olha o Rio?
São Paulo tomou um lugar melhor que antes. Eu vim para cá em 2015 trabalhar com o Miranda [o produtor Carlos Eduardo Miranda, morto em 2018], na época do Skol Music, quando eles se reuniram para fazer aquele selo. Eu tinha vencido o prêmio Multishow, o Miranda conseguiu meu telefone e me encontrou. Teve todo aquele deslumbramento de falar “nossa, finalmente uma pessoa vai cuidar de mim”. Mais uma jovem paternalista. E foram desafios que não foram fáceis em nenhum momento. O Miranda era exatamente aquela pessoa lá do [programa de TV] Ídolos, aquele maluco meio grosseiro que era maneiro. E eu lidei com ele nesse nível. 

Fui entendendo que São Paulo, como Nova York, tem um ritmo de receber as pessoas. Ela faz com que as pessoas criem a personalidade dela, que é não ter personalidade. É muito difícil. Eu lembro que vim para cá na mesma época que a Letrux. Ela ficou um tempo, eu fiquei um tempo, e a gente vazou para o Rio de novo. Voltei agora em agosto de 2019, muito mais afim. Já fazendo terapia, psicanálise, me empoderando internamente. Sabendo o que eu queria fazer, então isso me ajudou muito.

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Mahmundi/Divulgação

O Rio sempre vai ser um lugar inspirador, motivacional. A minha história está lá, a minha família está lá. Inclusive o meu irmão, que é policial e tem a foto do Bolsonaro no perfil do WhatsApp, que pegou covid e apoia o Witzel. E que discute comigo, ‘você acha que tem que chegar no morro fazendo carinho nas pessoas?’. Eu tenho diálogos complexos com meus irmãos. Minha irmã é professora de escola pública em Nilópolis, onde tem que lidar com a milícia, que fecha e abre escola. Minha casa é muito diversa.

O que eu aprendi na periferia, no Rio, é que, independentemente do que está acontecendo, você vai botar uma máscara e vender álcool-gel. Você vai dar um jeito daquilo acontecer. O que é um retrato do Brasil. Isso para mim é muito inspirador. Continuar existindo. Eu venho de uma realidade onde a gente vendia sacolé e latinha e tinha que voltar com dinheiro para casa. Essa realidade da realidade, ela me move muito no Rio. Mas essa coisa de desapegar é bom. Pode ser que eu esteja em outro lugar daqui para frente. Não em Portugal [risos]. Dizem que Portugal está igual Botafogo [bairro do Rio com forte núcleo artístico, ao ponto de ter sido apelidado de BotaSoho]. Você ficando dando tchau para as pessoas na rua. Eu adoro Portugal, mas eu acho que iria para o nordeste do Brasil descobrir outra narrativa. 

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Mahmundi/Divulgação

Passado um tempo, o que você acha que ficou da mobilização que ocorreu depois da morte de George Floyd, que foi de passeatas às telas pretas no Instagram?
Não dá tempo de virar chave nenhuma. Todas as pessoas brancas são racistas. Em qualquer nível. Os meus amigos, que eu amo, eu sei que eles têm uma parte racista. Natural. Às vezes é o jeito como fala. Assim como eu tive que descolonizar a minha mente colonizada. Mas eu sempre tento entender o que as pessoas têm de melhor. Eu não sou a pessoa que vai ficar definindo brancos e pretos. Para mim, isso é muito limitante. Mas eu, hoje, estou muito mais atenta a ver quais negociações me interessam. Quais relações humanas me interessam. Teve o lance da tela preta, de as pessoas virem perguntar para você ‘me conta um pouco’. Cara, não vou te contar nada. Vai estudar, sacou? Se não vira esse lugar meio chato. Contrata um coach aí.  

Mas voltando ao George Floyd, é uma indignação que dura uma semana. Mesmo com aquela cena chocante de um cara morrendo, o outro com a mão no bolso. Aquilo simboliza tanta coisa. Perder a respiração é uma coisa muito forte. Mas no final das contas é um hype fudido. É muito maravilhoso ver uma socialite achar que, se ela não postar, está fora. É engraçado como as pessoas vão criando essa etiqueta constrangedora. 

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Mahmundi/Divulgação

Para dias ruins acaba de ganhar uma versão maravilhosa em vinil pela Três Selos. Você tem uma relação afetiva com o formato?
O vinil tem uma relação comigo de descoberta. Eu nunca vou comprar um vinil de uma coisa que eu já conheço. Eu pego um vinil para descobrir. A relação com o Miranda me influenciou bastante nos vinis. Quando eu dou para o fã isso, é legal construir uma história com ele. Que daqui a 20 anos ele tenha isso. Foi um lançamento muito foda, foi para o Japão e teve uma tiragem esgotada. Fico feliz de ocupar esses lugares que antigamente só faziam parte da minha memória. Queria muito fazer isso, era meu sonho. Aí, teu sonho acontece e você tem 30 anos ainda. Aí, você tem que buscar outros sonhos.

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