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Haridade é sinônimo de humildade e originalidade

MC Hariel fala sobre ativismo em prol aos direitos das crianças, sobre o descaso com a cultura em São Paulo e reflete sobre os 10 anos de sua carreira

por Gabriel Portella 11 fev 2021 00h04
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Clube Lambada/Ilustração

e acordo com o dicionário, “raridade” é um substantivo de múltiplos sentidos. Significa 1. a qualidade do que é raro; 2. algo original; 3. algo que não acontece com frequência. Já o fenômeno “Haridade” abraça mais duas definições: 4. qualidade de quem é humilde e 5. indivíduo que defende o direito de uma infância saudável. As palavras afiadas de suas rimas e as críticas ríspidas que costuram os seus versos exemplificam, em alto e bom som, o artista que Hariel se tornou nesses dez anos de carreira. No entanto, elas estão longe de representar por completo o Mc, nascido da quebrada de Vila Aurora, que hoje desponta como uma das vozes artísticas mais autorais da atualidade.

Em meio a sorrisos e um comportamento brincalhão, Hariel logo evidencia a sua maior qualidade: a humildade. Com jeito de moleque, a estrela do funk recebeu mais de 243 milhões de visualizações apenas nos clipes lançados a partir de outubro do ano passado e, mesmo com apenas 23 anos, já acumula hits e parcerias de sucesso, com nomes como Negra Li, Alok, Djonga, Sabotage e MC Don Juan.

Mc Hariel

Membro do GR6 Explode, a maior plataforma do ritmo de funk no mundo, com mais 290 artistas agenciados e 400 colaboradores, Hariel também emprega diretamente em sua equipe 22 pessoas. Fã de MPB e Bossa Nova, o cantor altera entre canções festivas e letras que se assemelham muito ao rap, no que ele denomina funk consciente.

No entanto, a característica que mais o distingue dos outros artistas do momento é uma bandeira que ele orgulhosamente e publicamente levanta: a da proteção à infância. O funkeiro explica que essa ânsia por ajudar a garotada começou no momento em que percebeu o descaso pela infância no lugar onde cresceu.

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“Depois que eu cresci, vi que ali onde eu morava havia poucas oportunidades para as crianças se encaminharem”, explica Hariel, “Eu já tinha uma brisa de que, quando eu estourasse, traria uns MCs para perto, faria shows nem que fosse só no Dia das Crianças, nem que fosse só às vezes”.

“Depois que eu cresci, vi que ali onde eu morava havia poucas oportunidades para as crianças se encaminharem. Eu já tinha uma brisa de que, quando eu estourasse, traria uns MCs para perto”

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WYSSBRAZIL/Divulgação

Hariel conta que em São Paulo, assim como em outros lugares no Brasil, o “incentivo” ao esporte é a construção de um campinho que posteriormente é negligenciado pelo poder público. Já na cultura, há a forte marginalização da produção artística proveniente do povo. “Quando a criança se interessa por algum tipo de cultura, falam que aquilo não é cultura, marginalizam ela. Colocam o que a criança está aprendendo como errado”, explicou Hariel. “Depois que crescemos, nós vemos que não há só um caminho que vai dar certo, há milhares de caminhos. Falta que o sistema, ao meu ver, incentive as pessoas a pensarem; eles não querem que as pessoas pensem, só que sejam bonecos.”

Anualmente, na Vila Aurora, onde o cantor cresceu, há a Festa do Dia das Crianças, que reúne diversos artistas para uma série de shows aberta ao público. Além das apresentações dos MCs, há também a realização de peças de teatro e outras formas de entretenimentos, os quais, segundo o próprio Hariel, não são de fácil acesso para a juventude da comunidade durante o ano.

Se dedicar fortemente e com modéstia em sua profissão já rendeu – e está rendendo – a Hariel grandes frutos. Entre goles de um energético e abocanhadas em um lanche, Hariel se orgulha em contar que o convite para todas as parcerias que ele faz sempre parte dos outros artistas para ele. “Eu procuro ser visto como um cara que respeita todo mundo. Que faz um funk da hora e, além disso, é uma pessoa boa. Eu sei que isso abre portas e te dá a chave para tu por no bolso, tá ligado?”, explica o compositor.

O MC também conta uma condição importante, mas não surpreendente vindo dele, que usa para filtrar as suas parcerias: a humildade. Hariel foi categórico em dizer que não quer nem chegar perto daqueles que não possuem esse valor moral em si.

“Há muitos artistas que são muito bons, mas não sabem como tratar uma pessoa”, conta o compositor, “A gente sabe quem vive numa caixinha da música, quem acha que é sucesso, e quem é mesma fita, então se for mesma fita, a música vai sair com certeza”.

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A ilusão do uso de drogas

Além de acesso a bons projetos culturais na infância, outra preocupação do cantor é em relação a entrada prematura de adolescentes e pré-adolescentes no uso das drogas. Na canção de sucesso “Ilusão (Cracolândia)”, parceria com o Alok, MC Davi, MC Ryan SP, Salvador da Rima e Djay W, que já alcançou mais de 132 milhões de visualizações no YouTube, Hariel deu voz e compôs alguns versos intensos que alertam e expõem os anos do uso das substâncias narcóticas.

Segundo o MC, há sim uma certa romantização em relação ao uso das drogas. “É sempre uns boyzinhos, sempre uns caras que não querem saber de nada. Quem conhece mesmo onde esse filme vai parar, trata as drogas com o devido respeito que elas merecem. Não atravessa a risca”, comenta Hariel.

A adolescência é a faixa etária de maior vulnerabilidade para a experimentação e o uso excessivo de álcool e drogas ilícitas, conforme indica o Instituto PENSI, braço propagador de informações científicas da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, em São Paulo. De acordo com o Instituto, os motivos que levam a essa experimentação são diversos, mas alguns fatores principais estão relacionados a sensação de prepotência dos adolescentes, que creem que podem fazer o que quiserem, alinhada a necessidade de desafiar a família e a sociedade, buscando novas experiências.

“Eu acho que o lança-perfume é uma dessas drogas que é sem volta, só que tá mascarado como uma coisa legal. Ele existe desde sempre, só que é um dos maiores males hoje em dia. Eu estou em cima do palco, estou cantando e estou vendo a droga. É um bagulho que não é bom, mano, por mais que as pessoas queiram usar”, confessou Hariel.

“Eu acho que o lança-perfumes é uma dessas drogas que é sem volta, só que tá mascarado como uma coisa legal. Ele existe desde sempre, só que é um dos maiores males hoje em dia. Eu estou em cima do palco, estou cantando e estou vendo a droga”

O lança-perfumes, conhecido popularmente como lança ou loló, é uma droga inalatória que acelera os batimentos cardíacos exageradamente, destruindo células cerebrais e podendo levar o usuário ao desmaio ou até mesmo à morte por parada cardíaca. Popularmente, o lança é inspirado através de uma lata, como entoa Hariel nos versos da canção “Ilusão (Cracolândia)”, e seu consumidor majoritário são os jovens.

Ainda de acordo com o Instituto PENSI, um fator de influência no uso de drogas pelos jovens são os grupos nos quais eles estão inseridos. Se o grupo achar legal experimentar e usar drogas, o indivíduo será coagido a achar também. “A vida é sua, faz o que você quiser, só não incentive outras pessoas a fazerem o que você sabe que não é bom. Usar isso e arrastar uma pá de gente para esse buraco. Não é visão de malandro, não, é visão de bundão”, defende Hariel.

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No entanto, ao lado do grande hit que alerta para o uso dessas substâncias, há também canções de funk que descrevem o uso de drogas de maneira prazerosa e inofensiva. Questiono Hariel sobre como ele vê a presença dessa mensagem em músicas do ritmo e o cantor me responde que não é algo exclusivo e muito menos originário do funk, mas que é um fator a ser prestado atenção. “A Rita Lee, se você for parar para escutar a discografia dela, muitas músicas são sobre drogas. A rapaziada dessa época do rock, se você for parar para ouvir, irmão, é muita droga também. É uma caminhada que não entra como algo problemático, mas é de se prestar atenção. Cantaram lá, muita gente se inspirou, cantaram depois, muita gente se inspirou, tão cantando hoje, vão se inspirar, vão cantar amanhã e aí até quando isso vai rolar?”, questiona Hariel.

“Agora, isso não é culpa só do funk, isso aí não começou no funk. A gente ainda tem muito o que aprender, e a gente tem ciência disso, só que também não é justo tudo ser culpa do funk. Muitas coisas já aconteciam no Brasil antes do funk rolar, o estupro, a violência contra a mulher, o crime com a polícia, e falam que é o funk que explana isso. O Brasil nunca foi um país de santos. O funk também está querendo mudar isso e não está querendo bater palma para essas coisas”, ressalta o cantor.

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A mídia engole o funk

Mesmo frente a todos esses estigmas que o ritmo ainda encara, o funk teve um crescimento em seu consumo a nível global de 4.694% entre 2016 e 2020, segundo levantamento feito pelo Spotify. Pergunto a Hariel sobre como ele vê o papel da grande mídia perante a imagem do ritmo e ele responde sem pensar duas vezes: “A mídia engole o funk. A mídia engole o funk porque ela já tentou fazer funkeiros, só que ela nunca conseguiu”.

Segundo o paulistano, que afirmou que a televisão está fora de sintonia faz tempo, a grande mídia possui muito poder, mas não consegue comprar a originalidade do funk. Hariel comenta que já houve tentativas falhas de modelar o ritmo, mas que, para a rua, isso não funciona.

Contudo, o funkeiro ressalta que a mídia não é a única culpada pela forma hostil em que o ritmo ainda é visto e aponta tal preconceito como algo cultural do Brasil. “Quando as pessoas veem um povo mais fraco, elas querem ir lá e querem oprimir, acabar com tudo, dilacerar, só que o funk é um movimento gigante”, explica Hariel, “Nós temos o dobro de bala no pente para trocar porque nós temos bem mais disposição, mais vontade de trabalhar, mais força de vontade de estudar e isso faz nós ficarmos gigantes, tá ligado?”

Hariel ainda relembra a tentativa falha e constitucional da criminalização do funk como crime de saúde pública em 2017, que ocorreu através de um projeto de lei proposto pelo paulista Marcelo Alonso, que definiu o ritmo como “falsa cultura”. A ideia foi rejeitada pelo Senado. “Tem uma pá de gente que tenta atrapalhar, mas não consegue, porque o funk é gigante”, finalizou o compositor.

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Ei, Doria, vai tomar no cu!

O som envolvente da flauta do hit “Bum Bum Tan Tan” marcou o ano de 2017. A música do MC Fioti, que tem mais de 1.5 bilhões de visualizações no Youtube, voltou a causar euforia recentemente ao ser considerada o “Hino da Vacina”. O MC inclusive regravou a canção, em uma parceria com o Instituto Butantan, para incentivar a vacinação da Covid-19.

Em seu Instagram, Fioti publicou um vídeo onde o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), elogia o funkeiro pelo seu trabalho. Ligeiro, MC Hariel, na aba dos comentários, elogiou seu colega de profissão mas mandou uma mensagem bem clara para Doria: “Toma no olho do seu cu, Doria”.

Como alguém cujo trabalho sustenta inúmeras famílias diretamente, Hariel explica que o governador foi negligente com o setor cultural e de eventos, um dos mais afetados pela pandemia, não colaborando com os milhares de profissionais que precisam de amparo. Além disso, o MC também apontou uma pretensão por parte da classe política em usar o funk apenas para autopromoção. “Estão deixando a nossa escala de profissão marginalizada, porque queremos fazer um bagulho legítimo e eles estão transformando isso em clandestino. Ninguém quer ser clandestino aqui, nós fomos para a música para não ser clandestino”.

“O MC, o cantor, ele tá suave. O Doria tem que olhar as pessoas que trabalham com a música e que não tem milhares de seguidores para fazer uma parceria, para ganhar um dinheiro com o Instagram, com o Spotify, tá ligado? Que é a maioria dos artistas. A minoria é quem está ganhando bastante dinheiro”, ele diz. “O artista, se for inteligente e não emocionado, vai ter dinheiro para passar por pandemia. Se for uma pessoa centrada, que sabe o que quer da vida, ela está se preparando para o momento ruim. Eu estava me preparando para isso, sabia que a qualquer momento poderia dar uma merda na minha vida.”

Sobre a situação de sua carreira, Hariel explica: “Não perdi muitos funcionários durante a pandemia, eu consegui ajudar. Mas acho que o Doria precisa olhar essas pessoas, mano, porque depois vem querer pagar de funkeiro para pedir voto, vem querer fazer campanha com funkinho e, sem maldade, ‘nóis’ não é gado, não. Nós podemos ser um pouco menos entendidos em questão política, mas não somos gado, não. Então mandei ele tomar no cu mesmo.”

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Foguete não tem ré!

Após um comovente discurso em retrospectiva a todos os difíceis momentos em que passou nesses 10 anos de carreira, e ressaltando a lição valiosa que aprendeu sobre a vida e sobre nunca ter a arrogância de achar que já aprendeu o suficiente, Hariel se empolga e contar todos os seus planos para 2021.

“Eu tô planejando 2 singles, um agora para fevereiro, dia 26, e outro falando de 2020 que vai vir em março; depois disso, vamos tentar fazer uns feats, bastante coisa; vamos vir com uma trilogia, uma parada com três músicas, e depois vai ter um DVD em novembro, explorando esses 10 anos de YouTube com um trabalho também bem diferente”, confirmou o cantor.

Em um cenário comercial onde artistas buscam cada vez mais acertar os anseios das suas personas publicitárias, Hariel ascende como um funkeiro que entende a realidade sócio-política envolvida ao ritmo que canta e o poder e a necessidade da originalidade em cada verso de suas canções. Ciente do alcance que seu trabalha tem e testemunha do poder de transformação que a arte faz na vida das pessoas, o humilde garoto de Vila Aurora tem como alvo de sua mensagem uma juventude à espreita de criar algo extraordinário, e a espera de alguém que olhe para eles e veja ali apenas uma coisa: oportunidade.

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WYSSBRAZIL/Reprodução
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