expressão

O que Mussum ainda nos ensina sobre racismo e humor?

No dia em que ele completaria 80 anos, Helio de La Peña, Jacy Lima, Yuri Marçal e outros humoristas refletem sobre o papel dos negros na comédia brasileira

por Roger Cipó 7 abr 2021 00h54
-
Clube Lambada/Ilustração

m 07 de abril de 1941, Antônio Carlos Bernardes Gomes veio ao mundo. E certamente esse foi o evento mais feliz daquele ano triste marcado pela Segunda Guerra Mundial. Cria e orgulho do Morro da Cachoeirinha, no Complexo do Lins, no Rio de Janeiro, o garoto não teve vida fácil. Quando criança, entrou para a escola não apenas para aprender, mas também para ensinar sua mãe Malvina Bernardes Gomes, doméstica de profissão e maior incentivadora, a ler.

Cresceu, estudou mecânica, foi militar e virou Carlinhos Reco-Reco, um dos sambistas mais charmosos da Estação Primeira de Mangueira que, com mais seis amigos, criou o grupo Sete Modernos do Samba – mais tarde, se tornariam Os Originais do Samba, o primeiro conjunto do gênero e joia da música brasileira. E não foi só o grupo que mudou de nome. Antônio, que era Carlinhos foi batizado por ninguém mais ninguém menos que o Grande Otelo e agora, passava a ser o Mussum.

Mussum, que batizado por Otelo nasceu de Carlinhos, que nasceu de Antônio, que se tornou um marco na história da nossa televisão e música.

Eu não gosto da expressão “Se vivo…”, porque pessoas profundamente ligadas com a cultura negra, como Mussum, não morrem. Tornam-se ancestrais que pulsam em seus descendentes diretos e em cada manifestação de cultura. Mussum é vivo no samba e na comédia. Hoje, nesse dia 07 de abril, completa 80 anos de sua existência, agora transformada em luz.

O homem amado que amou demais se foi cedo, com problemas no coração, mas não sem deixar por aqui uma trajetória que marcou gerações, e que até hoje embala sambas e risos, eternizado como um d’Os Trapalhões.

No Mussum – Um Filme do Cacildis, de Susanna Lira, com música original de Pretinho da Serrinha, os parceiros Renato Aragão e Dedé Santana deixam escapar que queriam colocar um “negão” no projeto. A princípio, a procura era por alguém que cumprisse o estereótipo do “negão malandro do morro”. Fico imaginando que, para eles, essa era (e talvez, ainda seja) a única forma de retratar, mesmo que em comédia, identidades negras. O malandrão, caricato, trapaceiro… Até compreendo que houve boa vontade em usar dessa figura para fazer críticas sociais, urgentes da época, mas eu sempre provoco: era o único caminho mesmo?

Continua após a publicidade

Esse é um problema sério a se discutir, todos os dias, na arte das representações que aprisionam nossos corpos. As tragédias produzidas pelo racismo podem ser caminhos para satirizar vidas pretas? Mas, é possível rir do racismo e provocar críticas sociais sérias? Óbvio, e conseguimos ver isso no legado de Mussum.

Ainda que interpretando textos que perpassavam essas questões, Mussum subvertia a ordem e oferecia um outro humor, que também afirmava posição contra o racismo. Ele, que não tinha certeza se seria um comediante, se viu dominando esse universo à medida que Os Trapalhões se tornavam uma das apresentações mais requisitadas no país. Um sucesso absoluto, que fez com que Mussum decidisse deixar os Originais do Samba, com quem rodou o mundo fazendo música, para se dedicar a televisão, com todos obstáculos. Corajoso que, no fundo, sabia que a arte era seu ar.

-
Fernando Seixas – Copyright @/Grupo Abril

Com Os Trapalhões, Mussum participou de centenas de apresentações, temporadas na TV, inúmeras bilheterias para milhões de espectadores e entrou para o Guinness Book, o livro dos recordes, como parte do conjunto que passou mais tempo juntos.

Por isso que o dia 7 de abril deveria ser feriado nacional. Dia da comédia brasileira. Para manter viva a memória do Mestre Antônio Carlos, que revolucionou o jeito de fazer piada e gravou a cor preta no humor brasileiro. Mussum, como batizado por Grande Otelo, é peixe caro e raro de se encontrar. É riso em cadência de samba dos Originais e amor que só seu Flamengo explica. Por tudo isso, imortal. E é certo que essa luz vive, ainda hoje, no humor de quem chegou depois.

Mussum é, sem sombra de dúvidas, o ancestral de nossa arte que ensina sorrir para que as nossas belezas não sejam deixadas nos cantos da vida, e para que nossos sonhos não se tornem esperanças perdidas. Mussum é luz do riso, e como dizia, deve ser celebrado “foveris”. Salve, Mussum!

Continua após a publicidade
Sandro e Mussum
Sandro e Mussum Arquivo Pessoal/Divulgação

Herança

Perguntei a Sandro Gomes, um de seus herdeiros diretos, sobre as lições que aprendeu sorrindo com seu pai: “Uma das coisas mais bonitas que ele me ensinou foi o respeito com o próximo. Fui criado no meio de muita gente, sempre. Ele recebendo pessoas em casa, saindo muito para trabalhar e, sempre que podia, me levava também. Ele era uma pessoa muito prestativa e muito preocupada com quem estava ao seu redor. Procurava fazer de tudo para as pessoas próximas estarem bem. E essa é uma das coisas mais bonitas que ele deixou para mim”.

“Uma das coisas mais bonitas que ele me ensinou foi o respeito com o próximo. Ele era uma pessoa muito prestativa e muito preocupada com quem estava ao seu redor. Procurava fazer de tudo para as pessoas próximas estarem bem.

Sandro Gomes

Sandro, que toca a cervejaria Cacildis, em homenagem ao bordão eternizado pelo pai, continua: “Como me sinto levando o legado de Mussum adiante? Esse é um sonho que sempre tive. Desde quando ele era vivo, eu já pensava em alguma que o eternizasse. Quando a gente fala do Mussum, isso já gera um sorriso. É impressionante como as pessoas lembram de alguma história que tiveram com Mussum em suas cidades, seus estados. Eu sempre escuto, em qualquer lugar que viajo e todo lugar que estou, alguém contar uma história. E, como sempre sonhei em fazer alguma coisa para ele, creio que o lance da cerveja foi a melhor sacada, porque é uma forma de preservar seu legado, mantê-lo sempre na casa das pessoas, nos lugares.”

O empresário conclui: “Meus filhos já sabem quem é o avô. Daqui a pouco, meus bisnetos saberão. E, então, meus tataranetos descobrirão o legado do Mussum e de quem foi ele para a história do Brasil. E fico feliz em saber que, com a cerveja, estamos conseguindo realizar essa preservação.”

Continua após a publicidade

Legado

Somos um tempo de Helio de LaPeña, Yuri Marçal, Jacy Lima, Thamirys Borsan, Felipe Kot e tantos outros e outras que buscam no riso a forma de transformar, criticar e movimentar discussões, embalados pela força do Mussum Forevis. Também conversei com algumas dessas pessoas, todas fãs de Mussum e que se reconhecem partes dessa história.

-
Arquivo Pessoal/Divulgação

Helio de La Peña

“Mussum é um ícone. Um dos comediantes mais populares da nossa história. Abriu mão do sucesso na carreira musical para se tornar um comediante talentoso, líder de audiência e campeão de bilheteria no cinema. Muito se fala que o Mussum representava personagens depreciativos, mas, para mim, representava a alegria. E, mesmo não tendo um trabalho autoral nos programas humorísticos, tinha sempre um caco, uma última raquetada em que denunciava a presença constante do racismo. É preciso ter atenção ao olhar sua obra, suas frases, suas atitudes e perceber que ele nunca abaixou a cabeça para o preconceito. E, ao rir de si mesmo, ele tirava sarro da cara dos racistas”.

“Uma das lições que Mussum deixa é que você não pode julgar a arte de uma época com os parâmetros de outra. Hoje, olhar no retrovisor, há 30, 40, 50 anos e querer ver ali uma visão de um jovem ativista do século 21 é uma visão simplista e, mais uma vez, depreciativa do trabalho de um artista que é um ícone da comédia brasileira. Como de fatis”.

__________

-
Arquivo Pessoal/Divulgação

Jacy Lima

“Mussum era um homem preto com todas as características que a sociedade invisibilizava, como ainda faz com os corpos pretos: homem preto retinto, traços negroides e cabelo 4C. À época, o debate racial não tinha a mesma proporção e visibilidade como tem hoje, mas ali se fazia presente um corpo preto irreverente, autêntico, vivo e contagiante nas suas falas, gestos e expressões. Dificilmente alguém não lembra da sua expressividade. É algo que me marca muito e, pessoalmente, amo usar na vida e no humor também. Mussum é vivo, pois ele está presente em cada humorista negro. É impossível não o ter como referência e é lenda”.

__________

-
Arquivo Pessoal/Divulgação

Felipe Kot

“Meu humor bem ‘vida loka’, sobre os dilemas de vidas nas periferias, sempre foi influenciado por Mussum, pois ele é um desses caras que, só de olhar, eu já dou risada. Ele nos faz rir à toa, uma graça totalmente natural, e isso impacta demais no meu trabalho. Mussum é total referência, no que eu faço”.

Continua após a publicidade

__________

-
Arquivo Pessoal/Divulgação

Yuri Marçal

“Mussum é referência, principalmente para nós que somos pretos. Mesmo sendo muito novo, tenho ótimas lembranças da comédia de Mussum. A identificação com as coisas que ele trazia é muito grande. O fato de ele ser um sambista sensacional traz uma aproximação muito maior. Então, no meu trabalho, não tem como ignorar a existência do Mussum. É um cara que eu estudo a sua arte, expressões faciais, o humor corporal. O que a gente pode aprender com ele é que, mesmo em um tempo de muita dificuldade para expressar esse humor, ele fazia com genialidade. Fico pensando que, se ele tivesse mais espaço no audiovisual, nossa… O infinito seria o limite desse cara. É uma pena não termos visto mais. A gente fica com essa sensação…”

__________

-
Arquivo Pessoal/Divulgação

Thamirys Borsan

“O nosso povo é feliz no pouco, aprende a buscar felicidade mesmo não estando nada bem. Nos inspiramos mesmo afogados na dor. Minha missão, assim como a de Mussum, é ser esse respiro. Ajudar quem não consegue ver graça nas coisas. É uma missão difícil, nem sempre consigo, mas quando consigo, é a melhor sensação do mundo”

“Mussum é o princípio, o que botou o pé na porta. Se fez visto pra nos fazer sermos vistos hoje. Se eu pudesse dizer algo a ele, diria obrigada por ter passado por coisas que eu nem faço ideia, pra eu não fazer ideia que elas existiram. Com certeza, vivo o sonho que ele conquistou. Ele se foi no ano que eu nasci e isso pra mim é bem simbólico. Eu só tenho direito de ocupar o espaço que ocupo hoje porque antes de eu estar aqui, ele conquistou esse espaço pra nós e pelos nossos”.

__________

Continua após a publicidade
Tags Relacionadas
mais de
expressão
Maior bailarina brasileira hoje lança biografia e luta para incluir a maternidade e as mulheres negras dentro de uma expressão artística tão conservadora
Mundos fantásticos, sociedade cansada, os bastidores da música e um spa controverso povoam nossas dicas para este fim de semana
cama-elástica_laura-brito

Laura Brito na Cama Elástica

Por
A youtuber e influenciadora fala sobre representatividade nordestina e responde nosso questionário
Música para dançar ou para relaxar, pinturas que dão tesão e lançamentos para assistir e ouvir são nossas dicas da semana
Jorge_du_Peixe_FotoJosedeHolanda_Horizontal_menor

No fino do baião

Por
Jorge du Peixe interpreta Luiz Gonzaga em “Baião Granfino”

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.