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Ô fecha alas, que eu não posso passar

Vai ou não ter Carnaval em 2021? Prefeituras, blocos de rua, trabalhadores e foliões se posicionam sobre o adiamento e cancelamento da festa

por Lara Santos Atualizado em 8 fev 2021, 11h58 - Publicado em 7 fev 2021 22h55
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Clube Lambada/Ilustração

ela terceira vez na história, os brasileiros testemunham o adiamento da festa popular mais querida de todas: o Carnaval. Em 1892, o governo carioca mudou as datas da folia para junho, por “precaução higiênica”, devido ao calor de fevereiro; duas décadas depois, a morte do ministro de Relações Exteriores, conhecido como Barão do Rio Branco e tido como herói nacional, causou a transferência da festa para abril; e, em 2020, prefeituras de cidades chave para o Carnaval comunicaram que adiariam o evento do ano seguinte por conta da pandemia do novo coronavírus.

É a primeira vez, no entanto, que lidamos com um adiamento por causa de uma crise sanitária. Mesmo em 1919, depois do auge da gripe espanhola no Brasil, que matou por volta de 50 milhões de pessoas pelo mundo, teve Carnaval – considerado, inclusive, o maior de todos os tempos, com direito à marchinha inspirada na doença. E nem precisamos ir tão longe assim: em fevereiro de 2010, a epidemia de H1N1 ainda estava a todo vapor e as programações carnavalescas não foram suspensas, o que mostra que hoje os governos municipais são um pouco (mas só um pouquinho mesmo) mais responsáveis.

Pela terceira vez na história, os brasileiros testemunham o adiamento da festa popular mais querida de todas: o Carnaval. É a primeira vez, no entanto, que lidamos com um adiamento por causa de uma crise sanitária. Mesmo em 1919, depois do auge da gripe espanhola no Brasil, que matou por volta de 50 milhões de pessoas pelo mundo, teve Carnaval – considerado, inclusive, o maior de todos os tempos

Em nota à reportagem, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo declarou que “o Carnaval 2021 está condicionado à imunização da população contra o Covid-19, e por conta disto, não há uma data definida.” A Riotur, órgão da Secretaria Especial de Turismo do Rio de Janeiro, também divulgou que “sem vacina, não é possível termos o carnaval nos moldes tradicionais, como conhecemos há décadas.”

Gilberto Castro, presidente da Belotur, empresa municipal de turismo em Belo Horizonte, afirmou em entrevista à Elástica que “o trabalho da Prefeitura continua sendo prioritariamente o combate à Covid-19. Partindo desse princípio, o qual a gente vem trabalhando há nove meses arduamente, a gente não consegue pensar na possibilidade de autorizar um carnaval sem a segurança sanitária.”

As prefeituras de Salvador, Recife e Olinda também anunciaram à imprensa que a folia só acontece se houver vacina contra o novo coronavírus.

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Afoxé Filhos de Gandhi no Carnaval. Salvador – BA, 1964
Afoxé Filhos de Gandhi no Carnaval. Salvador – BA, 1964 Marcel Gautherot/Acervo Instituto Moreila Salles/Reprodução

Eu quero ver meu bloco na rua

A mesma decisão foi tomada por blocos de rua de diversas cidades, como o Havayanas Usadas (BH), Agytoê (RJ) e Acadêmicos do Baixo Augusta (SP). 

“A gente está acompanhando os níveis de transmissão do vírus e seguindo as normas sanitárias e de isolamento social. Já estávamos com o planejamento do ano todo traçado desde março, mas enquanto não tiver vacina a gente não vai pra rua”, constata Heleno Augusto, cofundador do bloco Havayanas Usadas. O grupo surgiu em 2016 com a proposta de “fazer um Carnaval popular e inclusivo, musicalizando a cidade através da bateria e banda que estuda ritmos e canções da festa, além de discutir conceitos políticos e sócio-ambientais.”

Apesar da decisão consciente, Heleno lamenta a impossibilidade de realizar a festa na capital mineira. “Afeta principalmente a parte financeira e a continuidade das nossas ações. Vínhamos construindo uma evolução musical com as oficinas rítmicas da bateria e contávamos com a receita dos shows e atividades do bloco que a gente não vai poder realizar”, diz.

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O bloco Agytoê, que tem como propósito pesquisar, divulgar e reviver a cultura e a luta dos carnavais de blocos afro-baianos, divide da mesma opinião e angústia do Havayanas Usadas. “Fomos diretamente impactados, estamos tendo que nos reinventar a cada dia para seguirmos nesses tempos sombrios. O Carnaval é o motivo da nossa existência, então é uma decisão muito dolorida. Mas é o que acreditamos ser o melhor e isso nos conforta”, assegura Leon Miguel, professor e músico do grupo.

No entanto, o bloco Agytoê traz outra aflição em relação ao parecer do Fórum Carioca de Blocos de não participar do Carnaval sem vacina. “Ficamos preocupados com a brecha que a situação causa. O projeto de ‘gourmetização’ do Carnaval de rua do Rio de Janeiro pela prefeitura da cidade é antigo e anterior à pandemia da Covid-19”, diz.

Leon faz referência, principalmente, ao Blocódromo, projeto que institucionaliza uma avenida para os blocos passarem, como acontece no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, mas sem competição. As justificativas contra essa iniciativa estão relacionadas ao desejo do governo em enquadrar os blocos a um “choque de ordem”, tirando a espontaneidade do Carnaval de rua. “O nosso medo, nesse momento, é que o argumento da ‘defesa da saúde pública’ sirva também para o enquadramento da festa”, desabafa.

Assim como em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, os blocos de rua paulistanos têm se adaptado à nova, porém já esperada, realidade. “É claro que ficamos tristes com o adiamento, mas não dá para querermos ocupar as ruas sem antes pensarmos na responsabilidade social e na saúde dos foliões”, reconhece Ale Natacci, presidente do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, um dos maiores e mais tradicionais do Carnaval de São Paulo.

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USP/Carnaval Antigo/Arquivo

Pelas quadras

Obviamente, as escolas de samba também não saíram ilesas das mudanças na agenda carnavalesca. O presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), Jorge Castanheira, afirmou à imprensa em setembro de 2020 que: “em função de toda essa insegurança e instabilidade em relação à área da ciência, de não saber se lá em fevereiro vamos ter ou não a certeza da vacina, nós chegamos à conclusão de que esse processo tem que ser adiado.” A Liga SP defendeu o adiamento de forma similar.

Afinal, elas costumam começar a planejar os desfiles do ano seguinte um mês depois que a festa acaba. Em 2020, os preparativos deveriam se iniciar em março, mas a crise do novo coronavírus obrigou a população a cumprir com o distanciamento social e interrompeu os planos das agremiações (e tantos outros).

Mas com algumas vacinas em fases avançadas e com bons resultados, como a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Life Science e o Instituto Butantan, o governo paulistano e soteropolitano tinham estabelecido novas (e frias) datas para o Carnaval: 8 a 11 de julho. No entanto, em janeiro de 2021, as autoridades do Estado de São Paulo já descartaram essa possibilidade devido ao aumento de casos da doença e de hospitalizações. A expectativa é de que a definição atualizada ocorra de forma conjunta entre os principais polos da festa brasileira.

“A ideia é estender as tratativas para outros centros carnavalescos como as cidades de Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, para que o Carnaval 2021 possa acontecer em todas as cidades brasileiras na mesma data, mantendo a tradição cultural e sua potência turística”, comunicou a Prefeitura de São Paulo.

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Folia dentro de casa

Isso não significa que o mês oficial da festa passará em branco. O presidente da Belotur e os blocos de rua entrevistados para esta reportagem declararam que a folia poderá acontecer em outros formatos. “Sem segurança sanitária, o Carnaval da vida como ela é não vai acontecer. Quem sabe não pode acontecer virtualmente ou em outra plataforma”, diz Gilberto Castro. Será que vem mais uma coleção de lives por aí?

Afinal, a internet pode garantir a renda de muitos trabalhadores que dependem da festividade. Na verdade, é o que já tem acontecido. A Portela, tradicional escola de samba do Rio, se virou na pandemia fazendo delivery de sua famosa feijoada e investiu em sua loja virtual, por exemplo. Outro caso é o da Mangueira, que vendeu rifas do posto de destaque central no carro abre-alas para arrecadar recursos para pagar salários.

No entanto, não é todo mundo que consegue garantir parte de seu sustento sem o Carnaval. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do primeiro trimestre de 2020, o desemprego no Brasil atingia 12,3 milhões de pessoas. Nesse mesmo período, foi registrado um total de 38 milhões de trabalhadores informais no país. Só na capital paulista, mais de 12 mil pessoas estão credenciadas pela Prefeitura de São Paulo para trabalhar na comercialização de bebidas nos dias de folia.

Segundo dados do IBGE do primeiro trimestre de 2020, foi registrado um total de 38 milhões de trabalhadores informais no país. Só na capital paulista, mais de 12 mil pessoas estão credenciadas pela Prefeitura para trabalhar na comercialização de bebidas nos dias de folia

Além destes, são inúmeros outros afetados pelo cancelamento ou adiamento do Carnaval, festa que, segundo a estimativa da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), movimentou R$ 8 bilhões em 2020. É o trabalho dos informais, dos fornecedores das escolas de samba (costureiros, artesãos, cenógrafos, etc.), das indústrias do turismo, de televisão e rádio, de empreendedores e de tantos outros que fazem o nosso Carnaval ser grandioso.

Islênia Pinheiro, por exemplo, mora em Olinda e também é proprietária, junto com o marido, de uma barraca de pastel na cidade. A Pasteletto, como é chamada, só abre durante a folia e, apesar de não ser a principal fonte de renda da família, ajuda a atender uma parcela de suas necessidades. “Ela nos dá um respiro, uma folga. A gente paga coisas com o trabalho da Pasteletto que são os extras, como o IPTU, o IPVA e a terapia do nosso filho, que é especial”, conta.

Até novembro de 2020, a Prefeitura de Olinda não tinha se manifestado sobre as datas do Carnaval 2021, o que preocupa Islênia. Ainda assim, ela não planeja conseguir essa renda extra de outra forma. “Se o Carnaval não acontecer, a gente não pensa em procurar outro lugar pra fazer a Pasteletto. Que vai fazer falta no orçamento, vai, né, porque já é apertado e a gente realmente não tem de onde tirar pra suprir isso”, diz.

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Passista de frevo em frente à Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio, c. 1957
Passista de frevo em frente à Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio, c. 1957 Marcel Gautherot/Acervo Instituto Moreila Salles/Reprodução

Cair no frevo

O Carnaval de Olinda costuma ter suas ruas de paralelepípedo ocupadas por desfiles de blocos a partir do mês de setembro (sim, na cidade do frevo são seis meses de folia!), mas o novo coronavírus as deixou vazias. Por outro lado, em fevereiro de 2020, atraiu 3,6 milhões de foliões e movimentou R$ 295 milhões na economia.

Além dos tradicionais blocos de rua, como O Homem da Meia Noite e Pitombeira dos Quatro Cantos, existem festas fechadas com shows da Anitta, Ludmilla, Marília Mendonça, Alceu Valença e outros artistas famosos. Muitos desses camarotes, inclusive, já estão vendendo ingressos para 2021 com preços variando de R$ 440 a R$ 1880. E o que não falta é gente comprando.

“Quando eu comprei, achei que daqui até o Carnaval, talvez a gente já estivesse em uma situação melhor, não estivesse mais em pandemia”, relata Ana Maria Fernandes, advogada e recifense. “Esses ingressos, sempre que você compra em cima da hora, você paga o dobro e eu imaginei que, caso não venha a acontecer ou o Carnaval mude para outra data, eles vão dar a opção de manter os ingressos ou de devolver o dinheiro”, justifica.

Mas, se os eventos forem mantidos diante de uma piora da pandemia, ela não pretende comparecer à festa. “Se não estiver numa situação boa, eu não me sinto confortável pra ir. Eu prefiro perder o dinheiro do que ir de qualquer forma”, afirma. Com o aumento de casos do novo coronavírus no final de 2020 depois de uma possível estabilização dos números e a falta de imunização dos brasileiros, fevereiro parece perto demais para aglomerações.

A jornalista Maíra Monteiro, por outro lado, nunca nem considerou ir à folia sem vacina. “Pular um Carnaval com o novo coronavírus rolando, sem proteção e colocando a vida de milhões de pessoas em risco, não tem nenhum sentido. Carnaval celebra a vida e não a morte!”, expõe.

E olha que ela é fã da festa: já foi musa do Bloco Amigos da Onça no Rio de Janeiro em 2017, integrou o corpo de baile do Bloco Casa Comigo da capital paulista em 2019, e foi diretora da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo, ajudando a organizar o bloco da entidade, o UMES CARAS-PINTADAS. “O que me encanta no Carnaval é a cultura. É a festa popular, todo mundo junto. É um sentimento de brasilidade muito grande, me sinto em casa e gosto muito dessa casa. Carnaval é expressão, arte e muita alegria”, conclui. Agora o que nos resta é esperar, né?

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*As imagens de Marcel Gautherot foram gentilmente cedidas à Elástica pelo Instituto Moreira Salles

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