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O ano do boi preso

Na promessa de dias melhores, ficamos sem vacinas nem perspectivas. Como lidar com mais um ano baixo-astral?

por Artur Tavares Atualizado em 15 mar 2021, 19h54 - Publicado em 14 mar 2021 22h07
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Clube Lambada/Ilustração

arece que foi ontem, mas faz um ano que a primeira brasileira morreu de covid-19. Era 12 de março. Pouco depois, o vírus foi considerado pelas nossas autoridades máximas como uma “gripezinha”, e hoje estamos aqui, piores do que começamos. De lá para cá, passamos de uma morte para quase 280 mil, recordes diários de aumento de casos, negligência institucionalizada e nenhuma perspectiva de que a vacinação será rápida.

Estamos no ano chinês do boi, mas parece que, por aqui, 2021 será o ano do boi preso. Preso e sem massagem, nada daquelas técnicas japonesas de amaciar a carne fazendo shiatsu no bicho enquanto ele ainda está vivo. E, enquanto o gado pasta pacificamente sem imaginar que o dia seguinte pode ser o do seu abate, deveríamos deixar de lado o debate sobre o novo normal e começar a falar sobre o velho anormal.

Enquanto o gado pasta pacificamente sem imaginar que o dia seguinte pode ser o do seu abate, deveríamos deixar de lado o debate sobre o novo normal e começar a falar sobre o velho anormal

Em 2020, fomos otimistas demais. Por um momento, acreditamos que haveria união entre as pessoas para enfrentarmos isso juntos, algo mais ou menos como a concretização universal daquele livro de autoajuda, O Segredo. Provavelmente, só a Nova Zelândia chegou perto disso – hoje, é um lugar livre de coronavírus e com o cotidiano funcionando normalmente.

O que me lembra que a Nova Zelândia tem Peter Jackson – além de Jacinda Ardern, claro, a primeira-ministra que se tornou referência mundial no combate à pandemia – e nós temos Jair Bolsonaro. O cineasta da trilogia O Senhor dos Anéis passou 2020 finalizando um documentário com registros inéditos dos Beatles, um apanhado de mais de 60 horas de gravações da época em que a banda se separava. Bolsonaro não fez nada.

Ainda não aprendemos a nos responsabilizar por nossas vidas e aquelas que nos cercam. E, como sociedade, colhemos o resultado das nossas escolhas diárias, frutos podres com sabor de aumento de mortes, desemprego, inflação, que comemos enquanto vemos nossa economia, saúde mental e cotidiano em frangalhos. Preso em casa, talvez seja hora do boi começar a meditar.

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Arte/Redação

Em estado de alerta

Agora que a maioria das capitais brasileiras volta a estar em estado vermelho, temos a oportunidade de mais um encontro com nosso eu interior. Vamos deixar de lado a baixaria que promovemos no verão e colocar em prática aquela coisa que sempre sonhamos em fazer, mas não tínhamos tempo? Se esse papo soa muito 2020 pra você, talvez seja melhor se acostumar com a ideia de que 2021 será tudo igual, de novo. Não vamos voltar para nossos trabalhos, universidades, escolas, festas.

No ano passado, minha companheira começou a praticar yoga. Eu comprei uma bicicleta ergométrica e desisti depois de um mês (VENDO), mas me conectei com as plantas do jardim. Alguns amigos tomaram a decisão de morar juntos, outros terminaram suas relações. Teve gente que saiu do emprego porque cansou e também quem se renovou profissionalmente. Aprendemos a pintar, plantar cannabis, cozinhar. Voltamos a estudar. Muitas pessoas foram morar na praia, e outras não aguentaram três meses em um sítio.

E agora, o que a gente faz?

Fico pensando nos pais e mães nessa pandemia. Deve ser absurdo o tanto de coisas que eles tiveram que inventar para entreter seus filhos durante 2020. O que resta para eles de novidade, a não ser algo extraordinário? Aprender contorcionismo, alguns truques sérios de mágica, teatro só pra interpretar O Rei Leão para as crianças?

Dá vontade de colocar a cabeça na janela e gritar por socorro, mas a verdade é que todos nós já começamos a tomar medidas extremas a fim de preservar nossa sanidade

Um dia desses, chegou aqui em casa uma panela de ferro para assar pães. A Talita nunca havia feito um pão na vida, mas descolou um pouco de levain. De repente, a “pãodemia”. Me senti em um looping temporal direto para março de 2020, só que dessa vez o horror do padeiro hipster bateu na minha porta.

Dá vontade de colocar a cabeça na janela e gritar por socorro, mas a verdade é que todos nós já começamos a tomar medidas extremas a fim de preservar nossa sanidade.

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Arte/Redação

Mudanças não vêm rápido

Embora pareça que elas estão vindo devagar demais, a verdade é que mudanças acontecem para ser duradouras, e qualquer coisa além disso é apenas um desvio no caminho. Na geração da internet, nos iludimos com a velocidade e o vazio das coisas, e recuperar um pouco da própria identidade leva tempo.

2020 trouxe novas certezas e costumes cotidianos para cada um de nós. E, com mais um ano de marasmo pela frente, agora é hora de continuar colocando em prática aquilo que aprendemos. Toda planta tem um ciclo que começa com as sementes brotando na primavera e termina com as folhas mortas caindo no inverno, para se renovar de novo na próxima estação.

Se dias ruins prenunciam colheitas insatisfatórias, eles também servem para dar mais resistência às árvores que sobram

Se fez chuva ou se fez sol, engolimos a seco no ano passado aquilo que os dias nos trouxeram. Mas, se dias ruins prenunciam colheitas insatisfatórias, eles também servem para dar mais resistência às árvores que sobram. Talvez, na alvorada do segundo ano de pandemia, nossas cascas estejam mais fortes para enfrentar as intempéries da vida.

Estar mais forte não significa, porém, estar pronto. Chegar lá é não pensar no caminho percorrido e nem querer voltar atrás. Tenho certeza que, para muita gente, o primeiro ano de pandemia trouxe tal constatação.

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história pra boi dormir

Sair da bad vibe coletiva

Todo aquele papo de estarmos juntos no mesmo barco era verdade, afinal. Entre omissos e militantes trancados em suas casas, estamos todos arcando com nossas escolhas coletivas. E só vamos sair se ajudarmos uns aos outros. We are the world, we are the people, aparentemente.

As pessoas podem ser obrigadas a alterarem seus comportamentos, mas só mudam de verdade se quiserem. Pergunte para qualquer dependente de drogas ou ninfomaníaco em recuperação. Em vez de ficar aqui falando sobre sociedade tóxica, o que vale é lembrar que não podemos forçar ninguém a nada, mas podemos dar belos incentivos a quem ainda parece estar perdido.

Em vez de ficar aqui falando sobre sociedade tóxica, o que vale é lembrar que não podemos forçar ninguém a nada, mas podemos dar belos incentivos a quem ainda parece estar perdido

Depois do gigante, é a hora do boi preso acordar. Se não abrirmos os olhos, vamos continuar brigando por porcos que dão banhos em seus diamantes com o nosso sangue. 280 mil, 300 mil, 500 mil mortos. Qual será o limite antes do despertar coletivo? Haverá mesmo um? Vamos sacrificar mais vidas e nossa sanidade para alcançá-lo?

A real revolução é interior. São nossas atitudes que fazem o mundo. Passou-se um ano em que esperamos que alguém fizesse algo por nós, e, pois bem, nada fizeram. Podemos crescer, finalmente?

Bem-vindos ao ano dois da pandemia da covid-19. Ou você muda, ou vai viver nesse tédio e loucura por muito mais tempo. A escolha é só sua.

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