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Nem todo surdo quer escutar

Pedro Neschling fala sobre a beleza, a falta de sensibilidade e a representatividade necessária da comunidade surda em "O Som do Silêncio"

por Pedro Neschling Atualizado em 30 abr 2021, 12h43 - Publicado em 26 abr 2021 00h14
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Clube Lambada/Ilustração

ma das partes mais complexas de se conviver com a deficiência auditiva é que ela é uma deficiência invisível. Quando eu chego em um lugar, ninguém olha para mim e percebe que está conversando com um deficiente. Há ainda uma série de outros conceitos equivocados em relação à surdez, como, por exemplo, que ela está relacionada ao avanço da idade, como se apenas velhos ficassem surdos. Ou que seja impossível ter uma vida profissional bem-sucedida. Por isso, geralmente quando eu, um homem de trinta e tantos anos (que já foi mais novo, acreditem) reconhecido pelo que faço, aviso a alguém que sou surdo, a reação é uma risada como se eu estivesse contando uma piada.

É extremamente cansativo e complicado fazer os outros compreenderem o quão desafiador é para nós, deficientes auditivos, levar uma vida normal. Existem diversos tipos de surdez, assim como existem diversos tipos de deficiências visuais, físicas, mentais. Cada uma afeta a vida do portador de forma diferente, em graus diferentes, exigindo diferentes recursos e adaptações em seu cotidiano.

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Pedro Neschling/Acervo Pessoal/Reprodução

Um dos aspectos mais interessantes do belo filme The Sound of Metal – que foi lançado no Brasil como O Som do Silêncio, uma escolha bastante insensível por parte dos tradutores, já que a substituição influencia bastante no sentido do título e sua relação com a obra – é deixar claro o desconhecimento do que é na prática a surdez.

Ruben, o protagonista do filme vivido pelo excepcional Riz Ahmed, é um baterista de um duo de metal-experimental com sua namorada Lou, interpretada pela também ótima Olivia Cooke. Os dois vivem em um trailer excursionando pelos Estados Unidos quando Ruben é repentinamente acometido por uma surdez profunda (existem diversos níveis de surdez: leve, moderada e profunda). Completamente atordoado, ele não compreende o que está acontecendo e é levado por Lou para uma comunidade de surdos comandada por Joe, um veterano de guerra acolhedor, mas extremamente rígido em suas regras.

Através de um trabalho espetacular de edição de som, o diretor e co-roteirista da história Darius Marder, que faz sua estreia em longa-metragens, consegue em algumas sequências transmitir ao espectador a sensação aproximada do que é a realidade de uma pessoa que perdeu a audição. Uma confusão de barulhos abafados e sem definição, a perda de noção do que está de fato acontecendo ao seu redor. Chegou a ser angustiante para mim assistir a algumas das partes do filme, ao mesmo tempo que me aliviava olhar para a minha namorada e dizer, “tá vendo? É assim mesmo que acontece”.

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O personagem, em sua ignorância sobre a repentina condição, acredita que se fizer um implante coclear voltará a escutar como antes. Então, novamente a edição de som ajuda o público a compreender como é a sonoridade que nós, surdos, temos quando auxiliados pela tecnologia.

“Chegou a ser angustiante para mim assistir a algumas das partes do filme, ao mesmo tempo que me aliviava olhar para a minha namorada e dizer, ‘tá vendo? É assim mesmo que acontece'”

Um dos grandes desafios para quem decide (e pode) utilizar aparelho auditivo ou implante é se acostumar e se adaptar aos sons que escuta. Novamente, estamos falando de tecnologias completamente diferentes e indicadas de acordo com a singularidade de cada caso. Aparelhos amplificam os sons nas frequências onde temos perdas; já os implantes transformam os sons em estímulos elétricos que são enviados diretamente ao nervo auditivo. Os resultados práticos são bem diferentes. De qualquer forma, jamais o que um surdo que ouve escuta é igual à audição natural de uma pessoa.  

Isolado do mundo na comunidade de surdos capitaneada por Joe (uma das regras para poder ficar lá é não escutar), Ruben aprende a língua de sinais americana (ASL) e passa a conviver com um estilo de vida completamente diferente do que estava habituado, acabando por passar por um bonito processo de transformação interior.

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Reprodução/Divulgação

Está aí o aspecto mais controverso do filme. Sua conclusão pouco sutil é habilidosa do ponto de vista técnico dramatúrgico, mas questionável enquanto simbologia. É uma grande polêmica dentro da comunidade dos deficientes auditivos a “aceitação” ou não da surdez, sobre o quanto é válida a busca por recursos tecnológicos que possibilitem algum tipo de escuta e inserção normalizada no cotidiano das pessoas que escutam sem problemas, mesmo que isso custe muito dinheiro e um tremendo esforço pessoal.

“É uma grande polêmica dentro da comunidade dos deficientes auditivos a ‘aceitação’ ou não da surdez, sobre o quanto é válida a busca por recursos tecnológicos que possibilitem algum tipo de escuta e inserção normalizada no cotidiano das pessoas que escutam sem problemas”

Costumo tentar explicar aos meus amigos que, se muitas vezes pareço antissocial, é apenas uma forma de me preservar. Uma mesa de restaurante com mais de quatro pessoas me demanda uma concentração que, ao chegar de volta em casa, sinto como se tivesse estado numa festa lotada tentando conversar com todo mundo enquanto dançavam. Ainda assim, graças aos aparelhos que uso em ambas as orelhas, consigo compreender melhor o que minha filha fala e escutar sons que nem imaginava que estavam ali, como o apito que o elevador do meu prédio faz a cada andar que passa.

“Aceitar” o silêncio ou não e como lidar com ele é uma escolha particular de cada deficiente auditivo dentro da sua realidade e possibilidade de tratamento e deve ser respeitada como tal. O que definitivamente difere da necessidade que temos todos de, assim como o inquieto Ruben, encontrar paz interior, essa que representa nosso “silêncio” próprio, em um mundo tão caótico e poluído. Tanto sonoramente quanto de incontáveis outras maneiras.

poster do filme o som do silêncio

O som do silêncio - The sound of metal

box de serviço

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