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SP-Arte sai do óbvio

Evento aposta na diversidade para pautar o mercado. Seguindo tendência, inclui galerias e artistas que abordam o feminino, temáticas LGBTQIA+ e arte urbana

por Beatriz Lourenço Atualizado em 20 out 2021, 12h48 - Publicado em 19 out 2021 23h12
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Clube Lambada/Ilustração

pós um longo tempo sem exposições de arte e eventos culturais, o circuito começa a voltar ao normal – ainda que com todas as medidas de segurança necessárias para frear a Covid-19. Após a Bienal de Arte de São Paulo, agora é a vez da SP-Arte mostrar as movimentações e inovações do cenário artístico.

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A 17ª edição do evento acontece de 20 a 24 de outubro na ARCA, galpão de nove mil metros quadrados localizado na Vila Leopoldina, em São Paulo. “Esse espaço tem vários significados, foi uma metalúrgica nos anos 1950 que simbolizava a modernização e a industrialização do país naquele momento – e agora estamos ressignificando o local com arte”, explica a idealizadora Fernanda Feitosa.

Quem ainda não se sente seguro para sair de casa não ficará de fora, já que a plataforma digital da Feira conta com o Viewing Room, um espaço online onde o público terá acesso às obras, atividades diversas e palestras. Até agora, são 125 expositores confirmados entre galerias nacionais e internacionais. No espaço anexo, o STATE, editoras como a Cobogó, Ubu, Edições SESC, Fotô Editorial e Olhares marcam presença com livros de artista e publicações especializadas. “O formato híbrido nos permite alcançar mais lugares ao redor do mundo. No online chegamos, pela primeira vez, à marca de 15% de visitas internacionais. Isso é muito importante porque o Brasil está muito distante fisicamente dos principais eixos comerciais de arte.”, conta Feitosa.

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Arca/Divulgação

Sobre a importância da cultura em meio a crises políticas, sanitárias e financeiras, a diretora afirma que as indústrias criativas são vozes de denúncias e de críticas ao comportamento da sociedade como um todo. “A arte tem um papel fundamental em denunciar as distorções e refletir sobre diversas visões de mundo, sejam elas sobre a representatividade de gênero, a representatividade de raça ou até a representatividade regional”, diz. “Eu costumo dizer que ela é o termômetro da sociedade e, por isso, ganha o papel de conscientização.”

Papel esse que também tem feito parte da conduta da SP-Arte quando o assunto é inclusão e diversidade. A organização traz, em seu programa, expositores que priorizam artistas trans, mulheres e artistas racializados. “É possível perceber essa preocupação crescente na criação do line-up e do time das galerias. A Gentil Carioca e a Mendes Wood são exemplos muito bons disso”, afirma Feitosa. “Desde o ano passado já tínhamos previsto a participação da 0101 e da Hoa, por exemplo, galerias focadas em trabalhos de artistas negros. Ações como essa não são apenas uma reparação de justiça social, mas de justiça profissional. Portanto, eu fico muito feliz que esses lugares e nós estamos reagindo a isso.”

Abaixo, selecionamos cinco galerias e artistas que você não pode perder ao visitar o evento:

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Alê Jordão, Welcome, 2021
Alê Jordão, Welcome, 2021 foto de João Liberato / Choque Cultural/Reprodução

Choque Cultural

A Galeria Choque Cultural foi fundada em 2004, em São Paulo, com o objetivo de disseminar e valorizar a arte urbana. O programa de exposições é focado na apresentação de artistas e coletivos, como Alê Jordão, Tec e Rafael Silveira.

Entre as obras apresentadas na SP- Arte, está a chamada “Welcome”, de Jordão: a palavra que dá título aparece escrita em neon e envolta em uma cerca de arame farpado. “Ela mostra bem o senso de humor com o qual o artista aborda temas complexos da violência urbana”, afirma Baixo Ribeiro, fundador da galeria. Com a mesma força e ironia, Alê apresenta “Cadeira blindada com tiros”, obra na qual as marcas de balas são usadas para dar relevo ao assento.

Outro destaque vai para o conjunto de pinturas “A”, “Nem” e “Pop”, de Daniel Melim. “As pinturas representam a síntese do melhor diálogo entre o graffiti e a pintura contemporânea, pois ali está presente a essência da energia urbana, representada pela volúpia gráfica, a colagem, os clichês da propaganda, um caos visual com o qual Melim lida com prazer e dali cria uma linguagem única”, explica Ribeiro.

Para o galerista, o estilo urbano tem se tornado cada vez mais importante no mesmo ritmo que os problemas da cidade se agravam e exigem soluções inventivas, criativas e, muitas vezes, disruptivas: “a arte tem um papel fundamental na sensibilização da população para essas questões. Os artistas urbanos estão na linha de frente das pesquisas de linguagens que impactam públicos diferentes, até mesmo aqueles que não são especializados em arte.”

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Trovoa/Reprodução

Levante Nacional TROVOA

Fundado em 2017, o coletivo de artistas visuais e curadoras racializadas nasce a partir das preocupações com a falta de representatividade no circuito artístico. São mulheres cis e trans pertencentes às cinco regiões brasileiras, desde a Bahia ao Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

As obras apresentadas na SP-Arte têm um recorte que propõe a percepção de mundo afro-indígena: mitologias, vivências, conexão e reconexão entre corpo, memória, ancestralidade, natureza, necessidade e desconforto.

Segundo as integrantes e artistas Bárbara Milano e Glauce Santos, a participação do grupo no evento significa a demarcação de um território conquistado com muita luta. “Sempre trazemos nossas produções buscando somar uma força contrária ao apagamento histórico que fomos submetidos por séculos. E cada vez que um colecionador adquire uma obra nossa, contribui para que esse ciclo se fortaleça”, dizem. “É de extrema importância pensarmos em um Brasil múltiplo e com as mais diversas nuances – já que somos um território grande que passou por diferentes contextos de colonização, industrialização e diferenças de acesso”, completam.

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Márcia Falcão

Em seus trabalhos, a artista plástica Márcia Falcão aborda a temática feminina vista através de experiências pessoais, tendo como pano de fundo o Rio de Janeiro – lugar de onde fala. Suas questões passam pela maternidade real, corpo, racismo e, principalmente, os sentimentos de solidão, medo e cansaço que rondam o cotidiano da mulher. “Como sociedade, colocamos a mulher para formar nossos filhos como mães, babás, professoras, enfermeiras e, por outro lado, tiramos dela o crédito na fala. É uma ambiguidade cruel que precisa ser combatida”, diz Falcão.

No evento, uma obra estará presente no stand da Fortes D’Aloia & Gabriel, “Escombros e Feridas”, que evidenciam a relação entre corpo e casa, um lugar comum para o feminino. “O corpo da mulher é metamorfo mas, antes de tudo, é a casa da dona. A composição pretende reforçar a ideia do peso desse corpo e a claustrofobia que ele implica sobre a mulher”, conta a artista.

Para ela, tratar desses temas na arte é um passo importante para dar visibilidade a eles. “Vivemos um período em que ainda existem discursos de negação dessas realidades. Onde quer que estejamos temos que ser agentes para acabar com essas violências. Assim, por atuar na construção de pensamento através da cultura, preciso ocupar esse espaço com essas questões”, ressalta. “Penso nas minhas obras como denúncia. Muitas vezes sinto raiva no processo, mas acredito que essa semente precisa ser plantada.”

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Casa Chama/Reprodução

Casa Chama

A Casa Chama é uma ONG fundada em 2018, na cidade de São Paulo, por pessoas transvestigêneres, cuja atuação sociopolítica e cultural visa garantir emancipação, valorização e qualidade de vida para as populações trans. Ela pode ser compreendida através das frentes psicossocial, jurídica, cultural e financeira.

No campo das artes, a proposta é divulgar artistas trans e mostrar sua força às instituições e galerias. “A ideia é mostrar que existem artistas talentosos que poderiam ser representados e inseridos no circuito cultural”, diz o fundador Digg Franco. “Neste evento, queremos dignificar e criar possibilidades e ferramentas para eles. Não porque são trans, mas porque são bons.”

Ocupar esse espaço é também uma resposta para o momento político e social no qual o Brasil vive. São diversas correntes de diálogo propostas pela Organização, tanto no campo da luta, quanto no campo da representatividade e da inserção no mercado artístico. “As pessoas trans ainda necessitam de mais espaço e precisam ser vistas pelas suas competências – e não com um olhar de assistencialismo. Além disso, ressalto que temos dificuldades, porém temos a competência de qualquer outro artista, curador ou galeria”, conta Franco. “O que nos falta é a estrutura. Ainda assim, nadando contra a corrente, muitos de nós conseguem fazer um trabalho muito bem feito.”

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HOA

A HOA é uma galeria de arte dedicada à arte contemporânea latino-americana. Fundada em 2020 por Igi Lola Ayedun, ela se destaca por ter uma equipe inteiramente negra e propor um modelo híbrido inédito, que mescla experiências presenciais e virtuais.
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Quem visitar a Arca, encontrará cerca de 15 trabalhos das artistas Ana Clara Tito, Larissa de Souza, Rainha F, Mariana Rocha, Juliana dos Santos, Rafaela Kennedy e da própria Igi Lola Ayedun. Serão apenas artistas mulheres com representações sobre a perspectiva do feminino na sociedade com fio interseccional. O destaque vai para a estreia de Kennedy no corpo de artistas representadas pela galeria, com trabalho de fotografia que documenta as expressões culturais populares na comunidade trans de Manaus.

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