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O gozo é livre

Terapias do tantra ajudam homens heteros a desconstruírem padrões de masculinidade herdados da pornografia, permitindo que encontrem o êxtase (e o clitóris)

por Carlos Messias Atualizado em 27 Maio 2021, 12h52 - Publicado em 24 Maio 2021 17h47
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Clube Lambada/Ilustração

estaurantes geralmente adotam o lema “servir bem para servir sempre”. Agora por que no sexo, onde um homem hetero deveria se comprometer em satisfazer uma mulher, ele tende a desconsiderar completamente as preferências dela? É grande o rol de crenças limitantes disseminadas pelo patriarcado e muitas delas encontram-se infiltradas na maneira como transamos.

Para entender o que é uma crença limitante, pense no tio Osmar (todo mundo tem um), do grupo da família no WhatsApp. A partir do momento em que ele acredita que o coronavírus é um artifício do comunismo para dominar o mundo, ele passa a aceitar todo tipo de maluquice – que lockdown é renunciar à liberdade, que a vacina possui um microchip 5G etc. – e cria uma sucessão de crenças limitantes para justificar aquela ideia limitante original.

Mas a proliferação de fake news sem consciência não é exclusividade do tio Osmar e é possível passar uma eternidade desfazendo crenças limitantes introjetadas ao longo da vida. Especialmente com relação ao sexo, às mulheres e ao sexo com mulheres. Em O Segundo Sexo, Vol.1: Fatos e Mitos (1949), Simone de Beauvoir expôs o falocentrismo da sociedade patriarcal, na qual o falo torna-se símbolo dos privilégios concedidos aos homens, que, desde crianças, são ensinados a silenciar e oprimir os corpos que possuem essa diferença biológica. Ou seja, o próprio pênis se torna um instrumento de opressão.

Doutrinado pela pornografia e os seus desserviços, o homem hétero médio cresceu com a convicção de que é tudo sobre o pau dele. Tio Osmar já pensava assim e um bom indício do quanto não passa de uma crença limitante é a venda de vibradores que, ano após ano, segue batendo recordes – só nos três primeiros meses da pandemia foram vendidas um milhão de unidades no Brasil. O que significa que a mulher entendeu que não precisa do homem – e muito menos do pau dele – para ter prazer.

Essa relação em torno do falo que objetifica a mulher parece cada vez mais satisfazer apenas o ego do hetero. “O pau é o maior símbolo de masculinidade e de superioridade. Antigamente, se dizia que mulheres eram seres inferiores porque eram naturalmente frias e tinham seu órgão genital para dentro, atrofiado. Freud só chama o falo de falo porque ele, como resultado do seu tempo, sabia que o maior símbolo cultural de dominância era o pênis”, explica João Luiz Marques, academicista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que pesquisa assuntos referentes à masculinidade.

As imagens que ilustram esta reportagem são de retiros tântricos com alunos de Carol Teixeira
As imagens que ilustram esta reportagem são de retiros tântricos com alunos de Carol Teixeira Alle Manzano/Fotografia

“É interessante notar como os homens pensam que podem conquistar uma mulher justamente com a foto de seus pênis, mandam como se fosse mala direta para mulheres que nunca solicitaram. Ele inconscientmente pensa: ‘Bem, eu tenho aquilo que ela mais quer, o poder e o sexo, não há como ela não se apaixonar por mim’. Há muito tempo se sabe que as mulheres não têm qualquer interesse no falo, visto que suas vulvas são muito mais poderosas.”

“É interessante notar como os homens pensam que podem conquistar uma mulher justamente com a foto de seus pênis, mandam como se fosse mala direta para mulheres que nunca solicitaram”

João Luiz Marques

Uma relação tão mental e mecânica com uma trepada – como aprendemos desde cedo com a pornografia – é o que se chama de prazer psicogênico, que está muito mais em uma esfera de autoafirmação do que de prazer carnal intenso. “Essa é uma excitação que te mantém refém do mental, te afasta do sensorial, te faz ter um orgasmo rápido e de curta duração”, diz a mestra tântrica e escritora Carol Teixeira, que na pandemia lançou o curso online OM Shiva (as inscrições foram reabertas especialmente para esta reportagem e podem ser efetuadas aqui), no qual aborda e ajuda a desconstruir paradigmas de masculinidade, direciona técnicas de meditação ativa e se propõe a curar as feridas emocionais dos alunos.

“O sexo pornográfico não dá prazer nem ao homem e nem a mulher, apesar de que o homem ainda consegue ter um orgasmo no final, mas a mulher nem isso. Eles metem rápido e forte e acham que estão arrasando, o que raramente deixa uma mulher excitada, haja vista a quantidade de mulheres que viveram e morreram sem ter um único orgasmo. Mas hoje elas sabem o que querem”, diz João Luiz. “Além da consciência de que o sexo com um homem está fadado ao ordinário, elas sabem que não precisam falocentrar suas vivências, pois muitas delas, além das mãos, têm tecnologias que lhe dão prazer e lhe permitem conhecer mais a si, e saber cada vez mais que tipo de homem elas definitivamente não querem na cama. Acredite, os homens já estão vivendo uma crise que é resultado de um progresso feminino.”

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Toque sutil

Derivada do hinduísmo, a tradição esotérica do tantra vem se mostrando uma ferramenta importante para os homens desconstruírem crenças limitantes referentes à masculinidade e ao sexo. No século passado, essa filosofia milenar ganhou adaptações para contextos terapêuticos que hoje, nos centros urbanos, se configuram em atendimentos em centros holísticos e retiros ou vivências tântricas.

“Quando descobri o tantra, tive uma revelação do quanto os homens são ruins de cama”, diz a assistente de direção paulistana Renata Castanhari, 37 anos, iniciada no tantra há quatro anos. “O que a gente vê por aí são homens que não têm diversidade estratégica, eles têm o pinto, a velocidade e a força. Por falta de conhecimento, a gente se cobra para gostar daquilo. Para mim, era muito comum entrar nesse automatismo e fingir o orgasmo”, revela. “O tantra te faz refletir sobre sua relação com o prazer. Ele precisa ser erotizado?”

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Cláudio Serva, criador do PrazerEle, um espaço em São Paulo que oferece cursos para homens heteros se desconstruírem na cama e fora dela, aponta que a grande maioria dos cis teve contato com pornografia muito cedo, sem orientação sobre como conhecer o próprio corpo e a lidar com as emoções, entendendo o sexo estritamente como demonstrações performáticas. “É uma pobreza de repertório para a intimidade, então fica esse sexo medíocre, ansioso, apressado e corrido onde o pau tem que estar ditando o prazer”, avalia ele, que oferece em julho o curso “Potência Sexual e Masculinidades Saudáveis”.

“Quando descobri o tantra, tive uma revelação do quanto os homens são ruins de cama”

Renata Castanhari

O PrazerEle surgiu como uma espécie de solução para o PrazerEla, fundado pela esposa de Cláudio, Mariana Stock, que faz um trabalho terapêutico para empoderar mulheres sexualmente. Muitas das quais têm ali, na maca, o seu primeiro orgasmo da vida. E passaram a impor que seus maridos fizessem o curso de Cláudio. “Hoje em dia, a mulher tem mais prazer com a costura do shorts jeans do que com o homem”, diz ele.

A terapeuta holística Ananda Litsea, do centro de práticas integrativas Ganapati OM, em São Paulo, ressalta o quanto assim se perde da troca sexual. “Como não temos acesso à informação adequada na escola e como é meio que tabu em casa, a gente acaba sempre seguindo um script no sexo, se desconectando da emoção e desvalorizando essa troca. A gente perde a potência que pode ser alcançada estando em comunhão com o outro.”

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No modelo sexual criado pela indústria pornográfica, a mulher é tida como um objeto a ser consumido às pressas, seguindo o modus operandi do capitalismo (não por acaso, machistas costumam dizer que comeram Fulana ou Sicrana). “O homem é estimulado a ficar nesse extremo masculino e não ter o feminino trabalhado, não se permitir ser vulnerável, e nós mulheres também estamos nos tornando cada vez mais masculinas para dar conta de viver nessa sociedade, senão a gente é massacrada”, avalia Ananda.

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A partir do momento em que o homem está relaxado e menos focado no próprio pau, ele pode começar a explorar (e a desvendar) o verdadeiro atlas sensorial que é o corpo feminino. Enquanto um pênis de 20 centímetros é considerado grande, a pele, o maior órgão humano, chega a ter dois metros quadrados. No tantra, este é o verdadeiro órgão sexual, que pode ser explorado de cabo a rabo em uma infinidade de maneiras. Não existe roteiro, é uma questão dos parceiros irem se descobrindo sem pressa – por isso existe o mito da duração eterna no sexo entre duas pessoas tântricas.

“Hoje em dia, a mulher tem mais prazer com a costura do shorts jeans do que com o homem”

Cláudio Serva

Desde que começou a receber massagens tântricas e, no ano passado, participou do retiro de Carol Teixeira, o humorista e apresentador paulistano Marco Luque, 47 anos, entendeu que, pelo menos no sexo, é dando que se recebe. “Antigamente, eu ia para a cama com uma mulher pela primeira vez e a preocupação com a performance me fazia sentir como se estivesse jogando em um estádio, com câmera no teto, plateia em cima do guarda roupa”, brinca. “Não tem essa de o homem ser bom ou ruim de cama, é tudo uma questão de afinidade e entrosamento com a parceira ali no ato. E o tantra te ajuda a baixar a bola, ficar mais presente, a entender como funciona a anatomia da mulher, como tocar nela, como se tocar, sentir o timing. E a interpretar o corpo do outro, esse é o grande segredo. É tentando dar prazer que se obtém um prazer genuíno.”

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Na nossa sociedade imediatista, consumista e pornográfica, o tantra é percebido de uma maneira fetichista bem diferente do que ele se propõe. Inclusive, não existe “sexo tântrico”, mas, sim, sexo entre pessoas que passaram pelo tantra e levam essa sensibilidade para a cama. Como Freud viria a apontar pela primeira vez em Três Ensaios Sobre a Sexualidade (1905), o tantra também entende a energia sexual como pulsão primordial que nos move. “É nossa energia vital e criativa, responsável pela nossa vivacidade ao acordar de manhã, nossa criatividade, nosso tesão de vida, nosso sentimento de unidade, de pertencimento”, explica Carol.

Uma corrente de pensamento que encontra vários paralelos no tantra é a do psicanalista austríaco Wilhelm Reich, discípulo de Freud. Com o entendimento de que a saúde mental está associada à qualidade do orgasmo, visto como uma descarga bioelétrica que tem a função de regular o organismo, com poder de cura sobre neuroses e até mesmo doenças psicossomáticas, como defendido em sua seminal obra A Função do Orgasmo (1927). E na visão do corpo como um grande campo bioelétrico que precisa ser estimulado.

A principal técnica do tantra é o toque sutil, que consiste em nada mais do que ir percorrendo o corpo do parceire com as pontas dos dedos em movimentos circulares, passando por todos os seus cantos e esquinas, em ritmo lento e com suavidade, o que pode transmitir acolhimento e aflorar a sensibilidade, liberando o fluxo de energia pelos sete chakras, localizados entre o assoalho pélvico e o topo da cabeça. Uma trepada normal passa a parecer fast food se comparada ao banquete de sensações oferecido pelo tantra. “Você fica mais sensível ao toque, às emoções, à percepção do outro e de si mesmo. Isso faz com que você esteja muito mais inteiro e vulnerável diante do outro, o que, obviamente, vai fazer você ter um sexo muito mais conectado e prazeroso, descobrindo sensações que nem sabia que existiam”, diz Carol.

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Reprogramação

Em um workshop ou retiro tântrico, são feitas diversas atividades para aflorar essa sensibilidade no próprio corpo, despertar a empatia e, consequentemente, a responsividade ao corpo do outro. Em seus cursos presenciais com homens e mulheres, em locais como São Paulo, Rio e Caraíva, na Bahia, Carol propõe dinâmicas em que se cheira o outro de olhos vendados; um completo estranho fica olhando outro nos olhos estilo Marina Abramovic; os dois parceiros respiram um na boca do outro fortalecendo o vínculo; movimenta-se livremente pela sala sem medo de julgamento ao som de cítaras indianas etc. Assim como técnicas de meditação ativa que provocam estados alterados de consciência.

Como as substâncias psicodélicas, essas meditações têm o poder de provocar um rearranjo na rede de modo padrão (default mode network), uma rede de larga escala que integra diferentes regiões do cérebro e costuma ficar ativa em estados de sonho lúcido, de divagação mental e até mesmo quando o indivíduo pensa em si mesmo e nos outros. A partir desse rearranjo, é possível desconstruir crenças limitantes, entraves afetivos, desfazer neuroses e ressignificar traumas.

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“A Carol te quebra e tira muitas camadas, aquelas camadas masculinas que vêm da maneira que tu foi criado, e leva para outro lugar”, diz o gaúcho Patrick Petry, 37 anos, sócio da produtora Fauna, em São Paulo, que participou de seu primeiro retiro tântrico em 2018. “Chorar para mim geralmente é muito difícil e lá eu choro que nem criança. E a partir do momento em que você tira todas essas camadas, passa a ter uma visão mais clara com relação ao sexo, sobre como tu lida com o outro. Você consegue ver como muitas das coisas que costumava fazer eram machistas. A maneira como eu lido com as mulheres hoje é completamente diferente”, expõe Patrick.

São comuns relatos de homens que encontraram no tantra a delicadeza e a sensibilidade que lhes faltava no trato com a mulher. “Sempre gostei muito de sexo, mas minha mãe me ensinou que tem de estar muito conectado ao amor e o tantra ajuda a chegar mais facilmente nesse patamar. Ele ensina para a gente um olhar diferente sobre muitas coisas como respeito com o próximo e consigo mesmo”, diz Marco Luque, que pôde aplicar as técnicas que aprendeu em sua nova namorada, a produtora artística Jéssica Correia. “Ela se deu bem”, brinca o apresentador.

Quando Patrick diz que o tantra vai liberando camadas que permitem a livre fruição do prazer e uma compreensão mais clara, ele se refere às chamadas couraças, outro ponto análogo entre o tantra e a teoria de Reich. Elas se formam como neuroses, a partir dos traumas psicoafetivos e, por obstruírem o fluxo orgástico pleno, resultariam em patologias. Na terapia tântrica, essas couraças são vistas como uma espécie de resíduo energético que fica retido no corpo muitas vezes por décadas. Enxergar e desatar esses nós requer delicadeza e cumplicidade do parceiro. “A mulher não quer mais aquele homem que dá um cuspão na mão antes de meter, depois goza e dorme”, resume Cláudio Serva. “O sexo também se torna um lugar para o cuidado.”

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“Sempre gostei muito de sexo, mas minha mãe me ensinou que tem de estar muito conectado ao amor e o tantra ajuda a chegar mais facilmente nesse patamar. Ele ensina para a gente um olhar diferente sobre muitas coisas como respeito com o próximo e consigo mesmo”

Marco Luque

“Não é esse tipo de relação falocêntrica que uma mulher busca, até porque assim pode se tornar uma troca que muitas vezes é abusiva, até mesmo violenta”, aponta Ananda Litsea. Segundo o entendimento do tantra, as couraças possuem memória diretamente relacionada ao evento traumático, e que, no caso das mulheres, guardariam angústias relacionadas a abuso sexual. “Vejo que é muito comum confundir virilidade com violência, e isso também gera uma pressão absurda em cima dos homens”, acrescenta.

Como vimos nos relatos acima, a abordagem ocidental do sexo, por si, já é abusiva, pois o homem, em sua pressa para concluir o “serviço”, geralmente machuca a mulher, ainda longe do estado ideal de excitação e lubrificação. “A pornografia por si só já não é saudável, pois ela reproduz estereótipos de gênero que contribuem com a violência contra a mulher. Eu tenho para mim que pornografia é um problema de saúde publica, justamente pelo fato de normalizar a violência”, diz João Luiz Marques, que é um influenciador relevante de masculinidade e questões raciais, com quase 70 mil seguidores no Instagram.

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Ao mostrar relações em que a mulher geralmente é mal tratada, inclusive com tapas e ejaculações subjulgantes na cara, a pornografia reforça esse padrão de comportamento. “O sexo, do jeito que vem sendo feito, está bélico. O que a cultura machista faz e a pornografia reforça é criar pretensos estupradores. Com seu jogo de cena em que a mulher não quer, aí o cara insiste e um minuto depois ela tem muito prazer com aquela violência, a pornografia normaliza o estupro”, elabora Cláudio.

No entendimento do tantra, as couraças resultantes desse tipo de relação opressiva ficariam como marcas no corpo da mulher. Assim como os traumas masculinos, geralmente provocados por exemplos castradores na infância, como o pai, um treinador e, claro, o tio Osmar. “’Não chora, seja homem’, o homem cresce com essa repressão do sentir, vendo sutileza e vulnerabilidade sendo associadas ao feminino – e o feminino em nossa sociedade é mal visto, diminuído”, aponta Carol. “Por isso a descoberta e a aceitação da potência que tem na sutileza faz o homem mudar radicalmente sua visão de mundo e sua relação com a mulher.”

Para Carol, a internalização dessas figuras castradoras, o que em Freud corresponde ao superego, é justamente o que faz com que esses modelos patriarcais sejam reproduzidos à exaustão, como se o homem ficasse sempre escutando a essa voz do inconsciente dizendo “não seja maricas”, “deixa de mimimi” etc. (cala a boca, tio Osmar!).

Um dos métodos que Carol utiliza no seu curso online OM Shiva para chegar nas couraças de seus alunos é um ritual em que cada um deve decepar figuras castradoras em suas vidas. “O homem precisa cortar o patriarcado de dentro de si, esses valores nocivos que o fazem sofrer, valores que geralmente vêm de figuras patriarcais que fizeram parte da vida dele. Por isso é tão potente visualizar essas figuras.”

“O homem precisa cortar o patriarcado de dentro de si, esses valores nocivos que o fazem sofrer, valores que geralmente vêm de figuras patriarcais que fizeram parte da vida dele. Por isso é tão potente visualizar essas figuras”

Carol Teixeira
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Templo sagrado

No tantra, a energia sexual também é vista como espiritual. Durante a Idade Média, enquanto na Europa se vivia o auge da repressão, na Índia, o êxtase sexual era tido pelos tântricos como uma forma de nos aproximar de Deus. “O tantra atinge diretamente a sua alma. Você usa o sexual pra chegar em um lugar de cura e plenitude”, dia Patrick Petry.

“Isso é uma coisa difícil para o ocidental entender porque nos disseram que nossa energia sexual é só sexual, e ainda associaram a sexualidade a uma visão suja, errada, obscena. A energia sexual é energia espiritual. O ocidental é traumatizado com Deus porque teve só uma visão dada pela igreja, associando Deus a culpa, pecado, repressão. E qualquer caminho espiritual, na visão Ocidental, entra nesse mesmo pacote”, analisa Carol Teixeira.

“A filosofia ocidental tem a razão como base para conhecer o mundo, uma visão materialista, dicotômica, que faz essa cisão entre corpo e mente. E a visão oriental tem um sistema completamente diferente, que tem por base o conhecimento imediato, sem intermédio da razão, que inclui a ideia de Deus e, falando mais especificamente do tantra, que inclui o corpo e o coloca como principal instrumento para a transcendência. Então a academia, vendo algo que escapa da limitação do cercadinho da razão, tenta logo afastar ou fazer pouco caso disso”, defende Carol, que é formada em filosofia pela PUC-RS.

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O nome de seu curso, OM Shiva, combina o mantra mais importante do hinduísmo (OM), com o nome de um dos seus principais deuses, Shiva, aquele que destrói para ceder lugar ao novo. Carol explica que, para aderir ao tantra, não é necessário ter fé em sua concepção de sagrado. O próprio curso do PrazerEle, de Cláudio Serva, se apropria do toque sutil e até mesmo utiliza o vibrador (já chegaremos lá), como nas terapias tântricas, apenas com o intuito de dar mais repertório para seus alunos, sem se ocupar do aspecto espiritual.

“É possível participar de um retiro tântrico de forma mais intuitiva, pois naturalmente o aluno vai perceber a importância da linguagem e tudo que ela contém”, diz Carol. “Cada palavra traz cravada em si uma história, valores da sociedade, símbolos e até mesmo traumas associados a ela. E isso tem um efeito imenso”, ela explica. Assim como a arte alimenta a empatia ao nos permitir nos colocar do outro, os rituais sacralizados do tantra serviriam para enganar a mente por assim dizer, permitindo conexões mentais que não faríamos sem esses signos.

Outro aspecto do tantra que escandalizaria tio Osmar é a parte do estímulo genital, que, dependendo do momento terapêutico, sucede o toque sutil. Descreveremos esse procedimento como costuma ocorrer no contexto de workshops e retiros de tantra, em uma sala com vários alunos, homens e mulheres, héteros ou gays, no mesmo processo. Mas devem ser levados para casa e podem ser reproduzidos de maneira recreativa e free style com a parceira ou com o parceiro.

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Em uma mulher, quando ela já está profundamente excitada após pelo menos uma hora de toque sutil, passando pelo períneo, em movimentos circulares que visam conduzir toda a energia despertada no corpo para a região genital, o homem chega à Yoni, como no tantra se refere à vagina, que em sânscrito significa “templo sagrado”. Como o tantra é considerado uma energia feminina, que estaria presente tanto em mulheres quanto em homens, é comum que ele leve a um lugar de exaltação e até mesmo de sacralização do feminino. O que não deveria intimidar o homem que acredita ter a mulher como objeto de desejo e afeto. Nessa posição respeitosa e de reverência, é aceito que o homem se refira à Yoni como buceta, palavra que até hoje, quando pronunciada por uma mulher, tem o poder de chocar o patriarcado.

Antes de colocar as mãos em Yoni, deve-se lambuza-la com óleo de amêndoas, de gergelim ou algum outro tipo de lubrificante natural. Então passa-se a manipular gentilmente suas camadas externas, tão negligenciadas na penetração, dos grandes aos pequenos lábios, até sua parte interna, o que inclui o ponto G. Sim, ele existe, uma camada rugosa de pele na parte interna superior da buceta, passando a abertura vaginal, acessível só com os dedos, que provoca prazer imenso. Aí, com o portal devidamente aberto, chega-se ao clitóris, que as práticas tântricas se propõem a ensinar onde ficam. Um serviço de utilidade pública, se considerado que o órgão com mais terminações nervosas do corpo humano (entre 6 e 8 mil), cuja única função é dar prazer, praticamente não aparecia nos livros didáticos até o final dos anos 1990. Pode-se e deve-se estimulá-lo com os dedos (ou, na privacidade do lar e com o consentimento da parceira, com a língua), e, finalmente, estimulá-lo diretamente com um vibrador, levando-a ao êxtase .

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Sim, um hetero pode ter um vibrador em casa e saber operá-lo para satisfazer a parceira. Mas o que deixaria tio Osmar mais horrorizado seria a parte em que o homem recebe esse trato. Depois do mesmo procedimento de massagem sutil, o pênis, também devidamente lubrificado, é manipulado não como em uma punheta, mas num movimento com as duas mãos abertas que conduz a energia da base para a cabeça do pau, o que também provoca orgasmos descomunais para os padrões masculinos. E dependendo do estágio do tratamento, inclui a próstata, também chamada de ponto P, que, ao ser estimulada com o dedo dentro do ânus, também liberaria memórias e couraças de sofrimento. ” É um ponto de absurdo prazer para o homem e uma oportunidade de ressignificar esse tabu”, diz Ananda Litsea.

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shivas

“Essa parte da vulnerabilidade tem a ver com se permitir confiar e com autorizar o seu lado feminino, o que permite acessar emoções muito ligadas à tristeza, muito ligadas à repressão, que podem ter se passado na infância ou na adolescência. Sinto que é uma forma de quebrar essa armadura que o masculino coloca, o que ajuda com que o homem se permita ser fluído”, acrescenta a terapeuta holística.

Ou seja, o tantra funciona tanto como método terapêutico e de autoconhecimento quanto como repertório para a vida sexual. Mais do que isso, Carol explica que a partir do momento que o indivíduo se abre para essas sensações e se torna uma pessoa tântrica, ele dificilmente regride ao seu estágio anterior de dormência corporal. Assim como continua mais sensível e intuitivo com relação ao corpo do outro. “Esse é um caminho sem volta, felizmente”, ela diz. “Depois que as mãos aprendem o caminho, elas vão sozinhas”, constata Renata Castanhari.

“Essa parte da vulnerabilidade tem a ver com se permitir confiar e com autorizar o seu lado feminino, o que permite acessar emoções muito ligadas a tristeza, muito ligadas a repressão, que podem ter se passado na infância ou na adolescência. Sinto que é uma forma de quebrar essa armadura que o masculino coloca e ajuda com que o homem se permita ser fluído”

Ananda Litsea

Outro dos muitos mitos que envolvem o tantra é o de que adptos só praticariam “sexo fofinho”, sem penetração. “Claro que pode ter penetração em um sexo entre pessoas tântricas, pode ter tudo que as pessoas quiserem, o grande diferencial é o estado de presença que a pessoa está e a compreensão do corpo como sagrado”, explica Carol.

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O tantra potencializa enormemente o prazer genital e o orgasmo. “É a melhor preliminar de todos os tempos”, define Marco Luque. “Uma coisa não exclui a outra. Eu gosto de penetração e sexo forte, mas o homem precisa entender que não adianta a britadeira se ele não preparar o terreno antes. Aí não funciona e corre o risco de estourar um cano”, avisa Renata Castanhari.

Nessa condição de enxergar o outro, de afeto, de acolhimento, de cumplicidade e principalmente de cuidado proporcionada pelo tantra, homens e mulheres têm muito mais condições de se envolverem e se realizarem sexual e afetivamente. “Eu valorizo muito mais um homem atencioso, que esteja presente durante o sexo do que aquele que acha que sabe tudo e já chega arrepiando. Assim a gente encontra um caminho juntos”, expõe Renata. “A relação deveria ser a finalidade em si, e não apenas um meio para se chegar ao orgasmo.”

Como define Carol: “Eu sempre digo para meus alunos e alunas: precisamos legalizar o afeto, o afeto salva.”

Chupa, tio Osmar.

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