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Olhar para dentro

Corrente urbana de adeptos e neurocientistas contemporâneos encontram evidências do poder de cura e de expansão da consciência com ayahuasca

por Carlos Messias Atualizado em 1 fev 2021, 12h43 - Publicado em 27 jan 2021 23h56
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Clube Lambada/Ilustração

ão Paulo, bairro do Butantã, maio de 2017, por volta das 20h. Eu estava prestes a consagrar ayahuasca pela primeira vez. Curiosidade jornalística, uma vez que trabalhava em uma reportagem sobre o chá de origem indígena para a revista GQ, e muitas fontes alertaram que eu não teria como entender – e muito menos descrever – o que é um trabalho xamânico sob efeito da substância sem uma avaliação empírica. De modo que lá fui eu, totalmente cético, materialista, darwinista roxo, provar da medicina que, como atestaram tantos relatos que ouvi naquela semana, nos conectaria a um plano espiritual. Isso para mim era groselha, meu real interesse era provar como tudo não passaria de alucinação induzida pelo DMT, o princípio ativo da ayahuasca, e voltar para contar a história.

Em todo caso, tinha seguido as recomendações do xamã de não comer carne e não fazer sexo (o que já teria acontecido involuntariamente) nas 48 horas antes da cerimônia. Mas eu havia bebido na noite anterior. Em qualquer conversa sobre o assunto, a primeira coisa que perguntam é: “Você vomitou?”. Pensei que, desrespeitando uma das recomendações do curandeiro, o pior que poderia acontecer seria eu… vomitar – o que, apesar dos porres homéricos na época da faculdade, nunca me tinha feito desistir de beber.

Na ficha com questões superficiais sobre histórico de doenças e saúde mental e referentes ao jejum recomendado pelo xamã, assinalei apenas a que perguntava se eu havia consumido álcool nas 48 horas anteriores. O xamã olhou bem para o meu rosto e disse que não seria problema, que tudo sairia na limpeza (como se refere ao vômito no contexto de um ritual xamânico). E deu uma risadinha.

Era uma sala ampla, com um longo vitral transparente, que dava para um jardim. Fazia as vezes de espaço de dança, vivências e cerimônias “místicas, cirandeiras, namasté da Zona Oeste”, como eu pensaria até aquela noite. Logo foram chegando os cerca de 15 indivíduos que compartilhariam daquela experiência comigo: pessoas extremamente simpáticas e sorridentes, umas meio hippies, outras mais desencanadas, todas dizendo gratidão umas às outras, naquela “vibe” alto astral com relação à qual eu tinha tanto preconceito. Portavam seus sacos de dormir ou colchonetes, além de mantas. E sacolas com itens de café da manhã que foram guardados na cozinha ao fundo da sala.

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Conforme nos acomodamos em nossos sacos de dormir ou colchonetes, o xamã se aproximou e conversou com cada um. Ele chegou em dois caras à minha esquerda e os observou. “Vocês são próximos, né?”, perguntou, por mais que a única proximidade aparente entre eles fosse a física, a mesma que estavam de mim. Os dois reconheceram que sim e, a pedido do mestre, um deles foi se deitar em outro canto da sala.

No playback, uma música suave de sabor esotérico, talvez indiana; o ambiente, à luz de velas, cheirava a palo santo, uma árvore silvestre que, queimada, espantaria as energias negativas que o xamã procurou manter fora do recinto, abanando com um talo aceso ao fechar as janelas. Natural do México, ele havia me contado que passava temporadas estudando medicinas da floresta com os caxinauás, no Acre amazônico, e de tempos em tempos trazia pajés para rituais naquele mesmo espaço. Desde a chegada da pandemia seus rituais ali deixaram de ser divulgados, embora outros grupos continuem realizando trabalhos com ayahuasca seguindo alguns protocolos de segurança.

Reconstruo, como me lembro a partir das minhas anotações, o discurso que abriu aquela cerimônia de 2017:

“Boa noite. Vejo muitos rostos novos aqui, alguns conhecidos. Gratidão por estarem presentes esta noite. E a vocês que estão vindo pela primeira vez, agradeço pela confiança. Fiquem tranquilos pois vocês serão muito bem cuidados. Tem baldes ao lado de vocês, o banheiro fica logo ali e, se precisarem de alguma coisa, é só acenar para um de nós”, disse, apontando para os dois ajudantes ao seu lado. “O que vocês vão receber aqui hoje é um presente. Tentem não pensar, apenas sentir. E fiquem à vontade, alguns de vocês vão rir, outros vão chorar, o importante é olharmos para nossos irmãos sem julgamento. Para aproveitar melhor, procurem ficar de olhos fechados o tempo inteiro. Bom trabalho, gratidão.”

Um por vez, fomos a uma espécie de altar, onde o xamã nos serviu a primeira dose de ayahuasca da cerimônia. Ele sugeriu que eu mentalizasse algo positivo. Fiz um pedido e tentei me forçar a botar fé, do que não fui capaz. Peguei o copinho de argila da mão dele, virei em um gole a bebida viscosa de gosto amargo, voltei ao meu saco de dormir.

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Set and setting

Em entrevista à Elástica, o neurocientista Sidarta Ribeiro, vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, diz que o estado mental do sujeito (set) será devidamente direcionado a partir de um ambiente controlado (setting), o que também é fundamental para garantir a segurança do indivíduo. “A experiência psicodélica tem que ser assistida que nem um esporte radical. Quanto mais especial for o setting, como uma cachoeira em um dia maravilhoso, melhor será o trabalho”, explica o cientista.”

“Uma grande parcela está relacionada ao contexto, onde você toma, com quem você toma etc.”, acrescenta Beatriz Caiuby Labate, antropóloga brasileira especializada no uso indígena de plantas medicinais que atua como coordenadora de assuntos culturais na Maps, Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos, com sede em Santa Cruz, na Califórnia.

Uma parte fundamental do contexto é a música, em frequências pensadas pelo xamã para induzir o cérebro a um estado meditativo, o que é potencializado pela ayahuasca. No meu primeiro ritual, as músicas vinham de uma playlist montada pelo curandeiro de modo a conduzir o trabalho pelos seus diferentes estágios. Mas em São Paulo, por exemplo, existem artistas especializados em música de rezo, como as bandas Madre Terra e Vozes de Gaia, ou o maestro Ale de Maria.

Em seus trabalhos realizados em um templo meio à natureza em Cotia, em São Paulo, o terapeuta xamânico Felipe Rocha, 33 anos, fundador do grupo Xamanismo Sete Raios (com sede no bairro do Campo Belo, na capital), conduz os rituais tocando tambor, tigelas tibetanas, tigelas de cristal, kalimba e Shruti box. Todos são instrumentos vibracionais, que, ao contrário dos melódicos, que têm a função de chamar a atenção para a música, nos levam muito além dela. “A matéria vibra e o som tem o poder de nos conduzir a regiões muito profundas da psiquê e potencializar o efeito da planta”, explica Felipe.

De uns anos para cá, os grupos ayahuasqueiros xamânicos vêm se tornando uma alternativa de cura e autoconhecimento cada vez mais comum nas grandes cidades. Em seu livro A Reinvenção do Ayahuasca nos Centros Urbanos (Fapesp, 2004), Bia Labate explica como os rituais tradicionalmente indígenas ganharam nas grandes cidades “uma configuração sui generis rica em simbolismos e práticas”.

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Os rituais do neo-xamanismo costumam misturar diferentes religiões e liturgias como hinduísmo, budismo, cristianismo, umbanda e candomblé. “Religiões são formas de traduzir uma mesma energia. Todas as religiões falam a mesma coisa, muitas vezes com as mesmas palavras”, defende Felipe Rocha, que diz estudar as propriedades espirituais das chamadas plantas de poder com o povo shipibo, da Amazônia peruana, há sete anos.

“O problema não é da religião, o problema é o ser humano que fica numa postura preguiçosa, de vaidade. Ele assume uma religião por questão de afinidade e adota aquilo como verdade absoluta. Aí acha justificável a perseguição religiosa, fazer questão de dizer que a minha linha ou o meu Deus são melhores que os dos outros”, acrescenta. “A maioria das pessoas vive sua espiritualidade de maneira muito superficial, o que faz com que se apegue a dogmas. Mas todas as linhas convergem para o mesmo lugar, não tem uma melhor que a outra, não existe um caminho para você chegar a um lugar da consciência maior. Todas são expressões que o ser humano encontrou para traduzir aquilo que é indecifrável, que é o mistério”, reflete o terapeuta xamânico.

Antes de tomar ayahuasca, recomenda-se procurar grupos dos quais alguém de confiança tenha participado e recomende. Longe de serem regra, existem coletivos que se aproveitam da condição de vulnerabilidade de quem toma a medicina para cometer extorsão e abuso psicológico, conforme relatado pela atriz Paula Picarelli no livro Seita (Planeta, 2018). “Seja um mecânico ou um dentista, em todas as profissões existem charlatões e oportunistas, assim como gente muito séria. Por isso não podemos generalizar”, avisa Bia Labate. O valor para participar de rituais nas grandes cidades costuma girar em torno de R$ 100, na forma de contribuições sugeridas, podendo chegar a R$ 800, caso de algumas egrégoras que atraem a elite paulistana.

Não deixa de ser curioso esse movimento de apropriação das medicinas da floresta na época em que a boiada passou e as queimadas ilegais desmataram na Amazônia o equivalente a três cidades de São Paulo. E em que a pandemia, seguindo uma linha de pensamento sistêmica ou ecológica, seria consequência direta da devastação da natureza, como foi defendido pelo físico austríaco Fritjof Capra, entre outras autoridades. O que condiz com a interpretação astral que faz Felipe Rocha. “O planeta está gentilmente convidando as pessoas a revisitarem sua consciência e a escolherem um novo estilo de vida, uma nova forma de se relacionar umas com as outras, com os animais e com o planeta. A Bíblia diz que a Terra foi criada para servir o homem, enquanto o xamanismo acredita que o humano nasceu para servir a Terra. E os índios falam que essa doença é resultado do afastamento que o ser humano se impôs com relação à natureza. Ela vem mostrando que não dá para viver dessa maneira consumista, ególatra, imperativista, doentia, com que as pessoas conduzem suas vidas. A gente se envaideceu tanto com a nossa capacidade de empilhar blocos e levantar pontes, que fomos parar em um lugar de destruição e desmatamento. Não existe planeta capaz de saciar as necessidades insustentáveis do homem”, crava Felipe Rocha. “Chegamos a esse ponto e ainda não escutamos o que os índios há tanto tempo vêm tentando nos dizer.”

A ayahuasca é usada pelos ameríndios há pelo menos cinco mil anos e até hoje é produzida e utilizada em contexto de ritual sagrado por mais de 70 povos da Floresta Amazônica peruana, colombiana, venezuelana, equatoriana e, na parte brasileira, por exemplo, pelos iauanauás, caxinauás e catuquinas. Nos centros urbanos, além do contexto xamânico, a bebida, também conhecida como Chá de Hoasca, é utilizada em doutrinas cristãs com igrejas espalhadas pelo Brasil, como o Santo Daime, fundada em 1930, e a Barquinha, de 1945, ambas em Rio Branco; ou a União do Vegetal, criada em Rondônia em 1961, hoje com sede em Brasília e mais de 20 mil fiéis. Curiosamente, um de seus mestres e principais representantes é o advogado Luís Felipe Belmonte, vice-presidente do partido Aliança pelo Brasil, que, um ano após ter sido anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro, tem menos de 10% das assinaturas necessárias para sua fundação, embora as diferentes linhas xamânicas tenham correntes de pensamento político das mais distintas.

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Purga

É importante deixar claro que um trabalho com ayahuasca é um processo totalmente individual e cada experiência é única. Cada um vê e sente coisas diferentes, muitos relatam um experiência totalmente negativa. Como diz uma frase atribuída a Mestre Irineu (1892-1971), seringueiro maranhense que desenvolveu a seita do Santo Daime, mas pode se aplicar ao uso de ayahuasca de maneira geral: “O Daime é para todos, mas nem todos são para o Daime”.

Foi coisa de meia-hora até eu sentir o efeito do chá enteógeno. Começou como uma euforia, acredito que pela ayahuasca atuar como agonista da serotonina e inibidora de recaptadores. O som trazia umas batidas tribais e, com o ambiente quase totalmente escuro, o xamã encenava um jogo de luzes com uma lança para, como depois me explicou, trazer à tona as sombras de cada um.

Podia sentir a ayahuasca percorrendo as minhas entranhas. E, com ela, uma diarréia chegando. Mesmo em estado alterado de consciência, consegui levantar e ir normalmente ao banheiro, que era mantido limpo pelos ajudantes. Até que parei para lavar as mãos, olhei no espelho e meu rosto parecia estar derretendo. Como já tinha experiência com ácido e cogumelo, lembrei-me que esse é um efeito comum dos psicodélicos e voltei para o meu saco de dormir, agora me acomodando dentro dele, com o zíper fechado.

Logo depois disso, foi uma decolagem brusca, me senti catapultado. Uma sequência rápida e difusa de imagens relacionadas à minha vida, algo como imagino que seja uma experiência de quase-morte, passou pelos meus olhos fechados. Que abri, meio por curiosidade. Através do vitral, enxerguei a Lua, enxerguei estrelas e me senti estranhamente conectado a esses astros. Assim como com as árvores e plantas do jardim do lado de fora. De repente, foi como se os vidros se estilhaçassem, mas em figuras geométricas perfeitas.

Senti frio, muito frio, mais do que a minha manta conseguia atenuar. Fechei os olhos e o padrão fractal se manteve nas imagens que corriam pela minha cabeça. Essas imagens são as chamadas mirações. De repente, foi como se uma voz falasse comigo. Falar não é bem o verbo, uma vez que eu continuava escutando as batidas tribais, mas ela se comunicava comigo por algum outro canal, e era assustador o quanto sabia ao meu respeito. “Falava” quase apontando o dedo, expunha todos os meus podres, enumerava onde eu estava falhando como filho, como namorado, como amigo, como ser humano. É o que se chama de o mestre interior, com o qual sentimos que nos comunicamos durante o trabalho. Imagens muito nítidas de situações que exemplificavam essas falhas passavam pela minha cabeça, era como se eu estivesse lá, mas bastava abrir os olhos para constatar que não.

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Dizem que um trabalho com ayahuasca equivale a anos de terapia e logo entendi por que: você consegue se enxergar de fora, como que sem o filtro do ego, e fica muito mais fácil entender os contratempos da vida assumindo a responsabilidade pelos seus próprios erros. Você sente que enxerga literalmente fora da caixa, de fora para dentro. Pensando em uma linha freudiana, o ego é como se fosse um casulo que formamos na primeira infância, a partir dos primeiros traumas, que tem a função de nos proteger de traumas futuros, e acaba por nos destacar do mundo. Sob o efeito de ayahuasca, foi como se esse casulo tivesse se derretido e com ele todas as barreiras impostas por mim mesmo com relação ao universo.

Entendi claramente, por exemplo, por que o relacionamento que eu vivia na época não era saudável. Em vez de me esforçar para revelar as falhas dela, pela primeira vez, com uma clareza incontestável, consegui enxergar as minhas próprias. Entendi que as pessoas que eu mais admirava praticavam o bem, tinham empatia, contribuíam de alguma forma com o coletivo, e nada disso condizia com o modo como eu vinha vivendo. Me senti egoísta, imaturo, destrutivo.

Olhei para o lado e vi uma mulher sentada, chacoalhando, com as mãos tremendo, como se tivesse sofrendo um ataque epilético. Essa imagem correspondia ao estereótipo que eu tinha de sessões espíritas, no que eu não botava a menor fé, mas ali era claramente real. Espera, como eu poderia estar “ouvindo” uma voz que não fala, que sabe tanto ao meu respeito, que transmitia tamanha sabedoria, sem que houvesse um elemento metafísico envolvido? Não se parecia em nada com as alucinações que eu imaginava, só poderia ser espiritual. No exato momento em que cheguei a essa conclusão, subitamente emergiu vômito da minha garganta, um único shot, que acertei dentro de um balde que estava ao meu lado e que foi prontamente trocado por um dos assistentes do xamã. Aquilo era real.

Me contorci dentro do saco de dormir, agora me sentindo pior ainda pelos anos de ceticismo intelectualóide jogados no lixo. Onde eu encaixaria Nietzsche, Freud, Sartre, Darwin!, o que eu faria com Darwin? Meu sistema de crenças e valores, minhas muletas de raciocínio que não tinham a menor serventia fora nutrir meu ego, colapsaram.

Fui quase rastejando até o altar para tomar a segunda dose de ayahuasca. Antes de me dar o copinho, o xamã perguntou se eu queria fazer algum pedido. Eu nem sabia mais quem eu era, quiçá o que eu poderia (ou me sentia no direito de) pedir. Mas sem querer perder essa chance, fiz o pedido, que mal consegui pronunciar, mas no qual consegui realmente botar fé. Então tomei a segunda dose de ayahuasca e uma de rapé, tabaco em pó composto com plantas da floresta, que o xamã assoprou diretamente nas minhas narinas com um tipi.

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Quebra de padrões

Junto com Sidarta Ribeiro, entre outros autores, o pesquisador Dráulio Araújo, professor de neurociências no Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, conduziu, em 2006, o primeiro estudo de neuroimagens do cérebro sob efeito da ayahuasca já realizado: Seeing With the Eyes Shut – Neural Basis of Enhanced Imagery Following ayahuasca Ingestion, publicado em 2011 pela revista científica norte-americana Human Brain Mapping.

Dentre as alterações que puderam observar, destacou-se o “aumento robusto” de ativação das áreas occipital, frontal e temporal, especificamente de regiões responsáveis por funções como visão, memória episódica, associações contextuais, imaginação e processamento de informações a partir de recursos internos. “Quando os indivíduos sob efeito de ayahuasca tentavam imaginar algo de olhos fechados, houve maior recrutamento de áreas visuais, do sonho lúcido”, explica Dráulio Araújo. “Os estudos mostram um estado de hiperatividade do hipocampo e formação de conexões que se estabelecem com campos visuais na área de Brodmann”, avalia Sidarta.

Portanto, uma miração jamais pode ser confundida com uma alucinação. Em um trabalho com ayahuasca, você está ciente de que aquilo é temporário e parte de um estado alterado de consciência. Em nenhum momento você pensa que é concreto, até mesmo porque enxerga mais com os olhos fechados. E os estímulos dificilmente são auditivos, diferentemente da esquizofrenia, em que o sujeito realmente acredita que tem alguém falando com ele.

Na área visual primária, a ativação foi comparável em magnitude aos níveis de ativação de enxergar uma imagem com os olhos abertos. Efeito semelhante foi observado em um estudo de neuroimagem sob efeito do LSD realizado em 2016 pela Imperial College London, do qual participou o pesquisador brasileiro Eduardo Schenberg, que lidera um estudo revolucionário com o uso de MDMA no tratamento de vítimas de estudo pós-traumático. Atualmente da fase 3 dos testes, a substância deve ser liberada para uso medicinal nos Estados Unidos até 2022.

Ele, Sidarta, Dráulio e Luís Fernando Tófoli, entre outros pesquisadores do país, lideram um movimento científico mundial da última década que ficou conhecido como a renascença psicodélica e que resgata as propriedades terapêuticas de substâncias como LSD, MDMA, psilocibina (princípio ativo do cogumelo) e ayahuasca. O chá, extraído do arbusto chacrona e do cipó jagube ou mariri, nativos da Amazônia, coloca o Brasil na linha de frente desse campo de pesquisa, não só pela questão geográfica como pela legal, uma vez que seu uso para fins religiosos é regulamentado no país. “Tomara que as universidades e os institutos de pesquisa acolham essa terapêutica sem perder sua raiz”, diz Sidarta Ribeiro.

Entre os principais efeitos do DMT no cérebro, ele destaca uma alteração na rede do modo padrão (default mode network), o que pode ser um marcador dos estados alterados de consciência. Em um estágio agudo dos efeitos da ayahuasca, é como se essa rede se rearranjasse, o que pode estar relacionado a relatos de expansão da consciência. “Além da alteração de algumas frequências, como a frequência alfa, que você mede pelo eletroencefalograma, e onde se vê uma mudança nos estágios agudos da ayahuasca”, explica Dráulio. “A quebra na rede de modo padrão é um efeito comum às substâncias psicodélicas, assim como à meditação e aos sonhos”, acrescenta Sidarta, que em 2019 publicou o livro O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho (Companhia das Letras).

Foi pela ayahuasca que a professora de yoga Ju Menz, 43 anos, encontrou o Kundalini, uma prática de meditação ativa milenar indiana que combina técnicas de respiração e posições corporais específicas, podendo levar a estados não-ordinários e de expansão da consciência. “Tomei ayahuasca pela primeira vez há quatro anos e foi tipo uma paulada, como nada que eu já senti antes. Mexeu comigo profundamente, foi como se tivesse desatado um nó da minha garganta. Passei a ter menos apego, entendi como as coisas são passageiras e passei a aprender com a frustração. Percebi que não estava feliz no meu casamento e tive força para reconstruir minha vida de uma maneira muito mais leve. Mudou até a minha forma de caminhar”, conta Ju, que, além de vinyasa, que já praticava antes do ayahuasca, tornou-se uma requisitada professora de Kundalini yoga em São Paulo. “O mestre sempre me dizia que a ayahuasca desperta o Kundalini. Até que resolvi ir para Nova York estudar Kundalini yoga e encontrei um transe e um êxtase como eu só tinha vivido na ayahuasca. Liberei uma coisa que estava sufocada, que refletia valores externos, e assumi a pessoa que estava dentro de mim a vida toda e não tinha mais voz.”

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Pela crença hindu, Kundalini é uma espécie de centro bioelétrico espiritual adormecido que, quando despertado, leva energia da base da coluna ao topo da cabeça, do primeiro ao sétimo chakra, num trajeto em formato de serpente. Ao transitarmos pelo universo das terapias alternativas, a palavra energia aparece com frequência, seja como análoga a espiritual ou vista como uma energia subatômica, muitas vezes com base em noções de física quântica.

Como o Kundalini, a ayahuasca faz a serpente brotar, por assim dizer, despertando vontades e desejos profundos. O técnico contábil Mário Sérgio Fagundes, 38 anos, de Franca, interior de São Paulo, descobriu a ayahuasca em 2008, levado por uma prima. Apesar do desconforto das primeiras sessões, persistiu com a medicina, tanto em rituais xamânicos quanto em congregações espíritas. Com as sessões, seguidas por acompanhamento de uma psicóloga, ele acabou por se reconhecer homossexual. “Foi um processo muito interessante. Eu mesmo não tinha essa consciência, embora, depois eu descobri, fosse algo tão óbvio para a minha família e para os meus amigos. Ao consagrar ayahuasca você entra em contato com aspectos seus que são conhecidos, e se aprofunda em entender coisas maiores”, rememora Mário Sérgio, que diz também ter conseguido superar a timidez com a medicina. “Isso me travava em tudo. Mas percebi que na verdade eu era vítima da minha própria arrogância, do meu próprio orgulho, que não me permitiam errar ou sequer me expor. A medicina te ajuda a encontrar quem você realmente é.”

O chá também teve efeito revelação para Nenê Altro, vocalista da banda paulistana de emocore Dance of Days. Durante a pandemia, a cantora foi assunto na mídia ao se assumir transsexual. “O isolamento social trouxe essa onda introspectiva geral. Olhando para dentro, percebi que eu não gostava da pessoa que eu era, minha identidade feminina era algo que eu reprimia dentro de mim e a ayahuasca me trouxe aceitação”, relata Nenê.

Ela se diz bissexual com preferência por mulheres, o que lhe trouxe confusão ao definir sua identidade. Até que descobriu a Florescer, casa de acolhimento para travestis e transsexuais na região central de São Paulo, onde pôde escutar o relato de outras mulheres com orientação semelhante. “Esse julgamento de que mulher trans só pode se relacionar com homem me fazia muito mal. Lá eu pude conhecer mulheres trans bem avançadas no processo hormonal que ainda se relacionam com mulheres”, conta a artista.

Nenê descobriu a ayahuasca em um momento extremo. Depois de mais de uma década de abuso e dependência de cocaína e álcool, a cantora teve uma recaída em 2011, quando se viu mais uma vez dormindo na rua – o que diz ter sido recorrente entre 2004 e 2009. Em uma noite, em que acredita que teve um princípio de overdose, com sintomas como palpitação, pediu ajuda em um post desesperado no Facebook. Um fã enviou um Uber a seu resgate, com destino a um ritual xamânico do qual Nenê diz não ter saído a mesma. “A ayahuasca me tirou aquela sensação de vazio no peito que nunca mais voltei a sentir. Tirou minha vontade de chorar e minha vontade de cheirar”, declara Nenê, hoje realocada em Cananéia, no Litoral de São Paulo. A conexão com a natureza e o ímpeto de sair dos centros urbanos são comuns entre quem toma ayahuasca. Ela diz fazer uso da medicina quinzenalmente, tanto no xamanismo quanto em rituais do Santo Daime.

Os principais estudos com relação aos efeitos terapêuticos da bebida mostram que ela pode ser um santo remedinho no combate à depressão e à dependência química, condições que estão associadas. Dráulio Araújo já conduziu três estudos com depressivos severos em ambiente hospitalar, com relatos de melhora imediata e reversão do quadro em 21 dias entre a maioria dos voluntários. Foram observadas diminuições nos níveis de cortisol, o que está relacionado ao estresse e um aumento nos níveis da proteína C-reativa (medida pelo exame PCR), que age sobre o sistema imunológico, uma das bases da depressão. “Talvez exista uma correlação entre uma maior integração de redes neurais, mudança em algumas frequências no cérebro e um aumento de neuroplasticidade. A gente mediu alguns marcadores como o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que está associado à neuroplasticidade, e vimos que esse fator é alterado pela ayahuasca. Se o chá aumenta os níveis de neuroplasticidade que costumam ser reduzidos em casos de depressão, existe a possibilidade dessas duas coisas estarem relacionadas.”, explica o cientista.

A medida dos testes, no entanto, não são tanto as modulações bioquímicas do cérebro como os sintomas relacionados à espiritualidade, mensurados a partir do questionário Mystical Experience Questionnaire, desenvolvido nos anos 60 nos Estados Unidos e usado por Timothy Leary, papa dos estudos científicos com substâncias lisérgicas. Entre os efeitos comuns estão a sensação de transcendência do tempo e do espaço, sentir valor e status de realidade sem conseguir explicar de onde vem e uma relação de melhora dos sintomas depressivos a partir da experiência mística. Dráulio não nega que para compreender o ayahuasca é preciso entrar no campo do inefável. “Se a ciência não enxergasse a espiritualidade como uma possibilidade, não aplicaria como uma escala”, defende o neurocientista. “A comunidade médica precisa entender esse fenômeno com humildade”, diz Sidarta Ribeiro. “O trabalho com ayahuasca certamente é uma conexão com algo maior ou superior. Agora, se é um conteúdo do próprio sujeito ou externo a ele, eu não tenho como saber, é sempre uma possibilidade.”

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Nirvana

Perto do amanhecer, com a cerimônia conduzida por uma música de louvação, senti que a segunda dose havia chegado ao ápice. Agora eu estava distante do fundo do poço do primeiro estágio, pela primeira vez experienciei a plenitude, atingi o êxtase, me senti conectado ao universo (outra expressão com a qual eu costumava ter preconceito), atingi o Nirvana. Bateu uma paz como não lembro de já ter sentido, senti amor por mim mesmo, por todas as pessoas que eu conhecia, senti amor pela vida. E, veja só, a mais profunda gratidão por tudo.

Eu estava humilde, com a guarda lá embaixo, já tinha aceitado as questões que me atormentaram e tinha uma visão clara de como lidar com elas. Também compreendi o conflito que eu enxergava entre ciência e espiritualidade, percebi como era coisa da minha cabeça, resultado de um pensamento binário e dicotômico que eu equivocadamente associava à ciência. Percebi como o mundo espiritual, ou a força, como se diz no meio ayahuasqueiro, e o mundo físico não se excluem à priori. As Leis de Newton continuavam valendo por aqui e a possibilidade de existirem outras dimensões, as quais eu, confinado aos meus cinco sentidos, não conseguia perceber, não invalidavam A Origem das Espécies. Minha experiência acabara de reforçar noções freudianas de ego e neurose e o que eu entendia como existência refletida, com base em Sartre, foi levado a outro patamar. O chá ainda, arrisco dizer, teria dado um boost e tanto no martelo de Nietzsche. Ou seja, as correntes desses pensadores se mantinham coerentes e revolucionárias ao meu olhar, por mais que os próprios se resignassem ao mundo material e fossem céticos em suas visões. Já Newton, que, além de físico, matemático, astrônomo e filósofo, era alquimista, ganhou ainda mais pontos no meu conceito.

Entendi que a ciência ocidental, por mais longe que já tenha nos levado, não é a única, e que saberes orientais ou indígenas ainda mais antigos podem muito bem complementar o que ainda não conhecemos sobre o ser humano e sobre o universo. Lembrei que há menos de 200 anos a medicina ainda não tinha noção de que lavar as mãos evita a propagação de doenças. Percebi que a história humana ainda está sendo escrita, que talvez estejamos distantes de termos todas as respostas. E que eu precisaria aceitar aquela experiência como um mistério.

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O xamã tocou Raul. Quando a playlist do meu ritual chegou na canção Tente Outra Vez, uma das mais emotivas e inspiradas de Raul Seixas, as pessoas começaram a aterrissar e a se espreguiçar. A “vibe” era a mais serena e tranquila possível. Seguindo as orientações do mestre, montamos ao centro da sala uma “mesa” de café da manhã com bolos, pães, frutas e iogurtes que havíamos levado, ao redor da qual nos sentamos. Cada um compartilhou algumas experiências de vida, o que os havia levado ali e o que tinha ido buscar na medicina. Entre as justificativas estavam depressão, dependência química e até problemas de saúde mais palpáveis, como dor nas costas. Eu havia perdido o preconceito por aquelas pessoas; pelo contrário, passei a sentir carinho por elas, consegui enxergá-las além dos estereótipos, e comecei a entender o significado de empatia. Ao término nos abraçamos um a um e dissemos gratidão uns aos outros, o que, pelo menos da minha parte, foi com intenção.

Saí de lá me sentindo leve e energizado, capaz de ir embora correndo, o que equivaleria a meia-maratona. Ainda não podia imaginar, mas passaria as próximas semanas sem conseguir comer carne e os meses seguintes sem nem sentir vontade de beber. Eu só queria ir para casa, o mais rápido possível, para conseguir processar e colocar em prática tudo que a experiência havia me revelado. Mal sabia eu que o verdadeiro trabalho do ayahuasca ainda nem tinha começado.

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