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A política da imagem, o entretenimento com consentimento

Muito além de Bollywood, a Índia é terreno fértil para diversos tipos de produção cultural cinematográfica – mas nem tudo sai do papel por conta da censura

por Juily Manghirmalani Atualizado em 7 Maio 2021, 01h06 - Publicado em 7 Maio 2021 01h03

Desmistificando Índia

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alar sobre cinema, entretenimento e cultura é um dos meus temas favoritos. Estudo os cinemas indianos desde 2011 exatamente porque acredito que esse é um dos assuntos que mais abrem espaço para entender essa cultura tão complexa. O cinema é, além de uma forma de arte, um importante construtor cultural. Ele apresenta tecnologias disponíveis, quais suas relações com os outros cinemas mundiais e, principalmente, quais as discussões e pautas que se espelham e refletem a política nacional do momento. 

O cinema chegou na Índia e abalou as estruturas da sociedade desde o seu início. Como em todo o mundo, era uma arte para elites coloniais e gerava grande comoção. Porém, com o passar das primeiras décadas, os rolos de filme chegaram em vilarejos e em cinemas de tendas de eventos itinerantes. Foi assim que, no começo da década de 1910, Govind Phalke, o primeiro cineasta indiano, tomou conhecimento desse meio de comunicação e teve a brilhante ideia de utilizá-lo de forma educativa, buscando re-ensinar a cultura e valores hindus, que estavam há anos sob poder do Império Britânico, de volta para a população através das imagens em movimento. 

Em 1913, Phalke lançou seu primeiro filme, o Raja Harishchandra, que trazia contos mitológicos para as telas – que, até então, só apresentavam histórias européias ou jornalísticas sobre a Índia. Nessa mesma época, a Índia passava por grandes mudanças políticas em vigência do levante de movimentos anti-coloniais e em prol de uma possível independência. É nesse momento que surgem figuras como Jawaharlal Nehru e Mahatma Gandhi, dois líderes e ativistas políticos chaves para a emancipação indiana através de uma lógica nacionalista. Antes disso, em 1906, inicia-se o movimento Swadeshi (etimologicamente, significa a tradução do sânscrito para swa: “próprio”, “domínio” e desh: “país”, resultando em “do próprio país”) – e, muito influenciado por esse pensamento, Phalke deu um caráter intrinsicamente nacionalista ao emergente cinema indiano.

“Govind Phalke, o primeiro cineasta indiano, teve a brilhante ideia de utilizá-lo de forma educativa, buscando re-ensinar a cultura e valores hindus, que estavam há anos sob poder do Império Britânico, de volta para a população através das imagens em movimento”

Juily Manghirmalani

A Índia tornou-se completamente independente só em 1947, entrando em um modelo protecionista socialista até 1991, quando uma enorme crise econômica fez com que o governo abrisse seus portos para economias externas, entrando em contato com o intercâmbio global capitalista. O que ocorre nesse processo todo, entre a estruturação do cinema feito por indianos e as negociações mundiais, é uma batalha interna por órgãos estatais em busca de um controle sobre essa arte, o que só reforça sua potência como formadora de pensamento.

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Barah/Ilustração

A formação do cinema

A cinematografia indiana teve seu grande crescimento pelo território nacional nessa primeira fase, logo após sua chegada, entre 1890 e 1920. Ainda mudo, a sétima arte proliferou entre os estados que não falam os mesmos idiomas, sendo apenas necessária a inserção de cartelas nos idiomas locais. No começo da década de 1930, quando o som entrou em conjunto à película, o cinema indiano tornou-se ainda mais plural e, sob influência do cinema americano, começou a se industrializar.

Entre 1940 e 1960, há o início de produções em estúdios, a criação de departamentos entre os setores internos – como fotografia, arte, captação de som, entre outros –, o fomento do governo para produção de filmes e o início da Era de Ouro do cinema indiano. É nessa época que o cinema começa a ser produzido por diversos pólos regionais e um dos grandes expoentes diretores da época é Satyajit Ray, conhecido até hoje por ser um dos grandes nomes do Cinema de Arte – ou Cinema Paralelo – por utilizar influências francesas e italianas no seu jeito de contar histórias. Ou seja: o cinema comercial estava produzindo histórias relacionadas à família, às subjetividades que precisam entender a tradição e a modernidade, dentro de estúdios, com uma certa higienização da imagem, com a contínua representação da classe média e alta e o controle total que os estúdios provêm.

Satyajit Ray, conhecido até hoje por ser um dos grandes nomes do Cinema de Arte – ou Cinema Paralelo
Satyajit Ray, conhecido até hoje por ser um dos grandes nomes do Cinema de Arte – ou Cinema Paralelo Arquivo/Reprodução

Enquanto isso, o Cinema Paralelo estava utilizando imagens externas, do campo, dos vilarejos, das dinâmicas de sobrevivência das classes baixas e do imaginário em relação às industrializações que alteravam tanto a vida dos cidadãos com baixa educação formal. Câmera na mão, imagens de natureza e apresentação da pobreza – elementos tão negados pelo cinema comercial em concordância a um discurso político – fizeram desse Cinema de Arte um bom material de exibição em festivais e vislumbre internacional. Claro que isso não foi tão bem recebido pelo mercado interno – e falaremos melhor daqui a pouco.

Com o crescimento dos cinemas alternativos, há a formação dos Cinemas Regionais na década de 1970. A demanda por filmes que falassem as próprias línguas, tratassem de assuntos de seus próprios estados e tivessem suas próprias formas de fazer cinema, somados à maior inserção no mercado vindo de pólos produtores diferentes, gerou um boom de novas criações. Hoje, há 5 grandes indústrias cinematográficas reconhecidas, que são as que utilizam as seguintes línguas: Kannada, no estado de Karnataka; Malayalam, em Kerala; Telugu, em Andhra Pradesh; Hindi e Marathi, em Maharashtra; e Tamil, em Tamil Nadu. 

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As cinco principais indústrias cinematográficas indianas e onda elas estão localizadas no país –
As cinco principais indústrias cinematográficas indianas e onda elas estão localizadas no país – Barah/Ilustração

A censura

Mesmo antes de que existisse um cinema que desafiasse a visão que o governo aprovava, já existiam mecanismos de censura na Índia. O Ato Cinematográfico Indiano teve sua formação em 1918, ainda no período colonial, apenas alguns anos após o primeiro filme indiano ser registrado. Ele é administrado pela CBFC (Conselho Central de Certificação de Filmes, em tradução livre), um braço estatal do Ministério da Informação e Transmissão do Governo da Índia. Esse documento busca preservar morais nas obras cinematográficas. O que atacaria as morais? A representação livre sobre sexualidade, sem autorização para falar de homossexualidade de forma aberta, nudez, beijos, referências à prostituição, entre outros. Ele busca “proteger” o público indiano da visão “depravada” da sociedade ocidental, especialmente da mulher americana.

“Uma das formas de controle da antiga colônia britânica foi a criação de censura desde o início do cinema na Índia, feita para ‘proteger’ o público da visão ‘depravada’ da sociedade ocidental especialmente da mulher americana”

Juily Manghirmalani

Isso só se tornou possível porque, em conjunto com essa censura instaurada pelo governo britânico, e também em concordância com os primeiros cineastas entusiasmados pelas filosofias protecionistas, associações como Bombay Cinema and Theatres e Indian Motion Picture Producers Association protestaram a favor de que filmes indianos tivessem 50% das telas de cinema, com a ideia implícita de diminuir a entrada de Hollywood no mercado de competição nacional. Isso fez com que a produção interna de cinema aumentasse muito desde o seu início, criando público cativo indiano que até hoje não reage bem à entrada de filmes estrangeiros, preferindo inclusive a produção de releituras de filmes como Super Homem, Batman, entre outros.

Mesmo após a independência, em 1947, o conselho de censura se manteve vivo e regula a exibição pública de filmes sob a supervisão prevista no Ato Cinematográfico de 1952, agora com a mudança de nome para Conselho Central de Censura Fílmica. Em 1983, o órgão sofreu nova revisão e foi renomeado para CBFC. A estrutura interna é composta por uma aprovação das obras que, quando rejeitadas, vão para um setor de Revisão e, se mesmo assim tiverem ainda mais alterações, podem entrar com um apelo para revogar a permissividade da obra em ser exibida. Ou melhor, podiam: em uma ação inesperada, agora em abril de 2021, o Tribunal De Apelo de Certificação de Filmes (FCAT) foi desfeito pelo governo indiano.

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Barah/Ilustração

O que isso significa?

Com um atual governo de direita, a Índia vive uma relação muito complexa com fundamentalismos hindus que acabam por desqualificar narrativas não hegemônicas e reprimir muitas liberdades de expressão. Apesar de a Índia se gabar por ser uma das maiores democracias mundiais, esse governo nacionalista tem colocado em prática muitas iniciativas que contrapõem essa afirmação.

Por lá, os pequenos produtores de filmes são os que recebem as mais severas restrições em seus roteiros, exatamente por trabalharem no mercado alternativo e mais artístico do que os cinemas de massa. Sem o órgão do qual eles conseguem apelar para uma última revisão de suas obras, será necessário entrar em um Tribunal Superior menos qualificado para negociações cinematográficas. Além de custar muito mais caro, sendo por si só isso uma forma de peneirar esses produtores independentes, a nova realidade acarretará uma diminuição estratégica da formação de obras alternativas. 

“Com um atual governo de direita, a Índia vive uma relação muito complexa com fundamentalismos hindus que acabam por desqualificar narrativas não hegemônicas e reprimir muitas liberdades de expressão. Apesar de a Índia se gabar por ser uma das maiores democracias mundiais, esse governo nacionalista tem colocado em prática muitas iniciativas que contrapõem essa afirmação”

Juily Manghirmalani

Muitos cineastas acreditam que esse será um mergulho profundo em uma crise cinematográfica e que o governo deveria classificar – e não censurar – esses filmes. A Freedom House, organização que escala os países baseado em sua liberdade de expressão, civil e política, colocou a Índia esse ano no 67º lugar dentre os 100 principais líderes, evidenciando esse movimento retrógrado se comparado aos últimos anos.

Outra grande polêmica atual tem sido os streamings. Os gigantes Netflix e Amazon Prime estão investindo na Índia como um dos maiores produtores de conteúdo mundiais – há cerca de 25 milhões de assinantes da Netflix na Índia atualmente. Tem sido através deles que ótimos roteiros estão sendo filmados, alguns bem mais progressistas que até então somente a diáspora tinha possibilidade de produzir. Séries como Palatal Lok, Sacred Games, Leila e Rasbhari não seguiram os padrões restritivos da mídia tradicional e, por isso, abordam temáticas desafiadoras e politicamente sensíveis como sexo, violência sexual, homofobia, desigualdade de castas, nacionalismo hindu e perseguição contra muçulmanos. 

No entanto, o governo indiano ordenou ano passado que existam políticas de censura e regulamentação estadual para esses exibidores. Segundo a Freedom House, a liberdade na internet tem diminuído gradativamente e há temores de que isso crie um corte nos setores criativos e jornalísticos. Como aqui no Brasil, a Índia também está vivendo um processo de desmonte de poderes que buscam equidade e fortalecimento social. Com uma censura ainda tão viva, podemos facilmente concluir que há pela frente uma corrente fria e tempos sombrios, na qual a falta de acesso à informação e liberdade estão cada vez mais restritas.

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As ilustrações que você viu nessa reportagem foram feitas por Barah. Confira mais de seu trabalho aqui.

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