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Festejar a década

Prestes a fazer um festival para comemorar seus 10 anos, Gop Tun mira em uma cena eletrônica mais inclusiva - até mesmo com funk carioca no line-up

por Artur Tavares Atualizado em 17 mar 2022, 19h49 - Publicado em 1 mar 2022 23h41
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Clube Lambada/Ilustração

e você está em São Paulo ou não se importa de ir para a cidade em busca de uma festa boa, marque na sua agenda: o dia 2 de abril será especial. Na data, a Gop Tun comemorará seu aniversário de dez anos com um festival imperdível na cidade.

Serão 48 atrações, quatro palcos e nada menos do que 20 horas de festa, uma rave que agradará fritos gregos e troianos. Isso porque o line up terá artistas de house e disco music, techno e até funk carioca. Atrações como o gigante Danilo Plessow, alemão conhecido como Motor City Drum Ensemble, dividem a pista com o angolano DJ Nigga Fox e brasileiros como Cashu, uma das fundadoras da Mamba NegraMilos Kaiser, e Sany Pitbull.

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Hoje, a Gop Tun é uma das festas mais importantes do circuito paulistano de música eletrônica – já tendo realizado algumas edições fora da cidade – e também responsável pela organização da edição brasileira do Dekmantel, festival holandês que é um dos maiores do gênero em todo o mundo. Há uma década, ela surgiu como uma reunião de fãs que se conheceram online. “O que nos conecta é o tipo de música que curtimos”, conta Caio Taborda. “Nós nos conhecemos em um grupo de troca de músicas no Facebook. Trocávamos músicas, tínhamos interesse em artistas estrangeiros com pouca projeção no Brasil. Começamos a bater essa bola no grupo, até que decidimos nos encontrar um dia.”

Além de Caio, a Gop Tun tem outros três sócios, Bruno Protti, Fernando Nascii e Gui Scott. As coincidências não paravam apenas no gosto musical, e isso deu ainda mais gás para os quatro: “O Gui faz aniversário no mesmo dia que eu, por isso decidi convidá-lo para tocar na mesma festa e para nos conhecermos”, conta Protti. Já Scott e Nascii se conheceram pelo Soulseek, um dos primeiros clientes de pirataria de música. Eles conversavam em inglês, até descobrir que viviam em cidades vizinhas, Americana e Franca, ambas no interior paulista.

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Felipe Gabriel/Fotografia

Das festas particulares para as pistas de danças

A casa de Protti foi o primeiro palco de uma Gop Tun, mas ali os quatro amigos perceberam que havia potencial para muito mais. Hoje, o local é o escritório do grupo, onde eles planejaram rolês inesquecíveis: “Um dos primeiros artistas que trouxemos foi Night Plane, um cara pequeno de Nova York, que adorávamos”, conta Taborda. “E, a gente curtia tanto o que ele fazia que levamos ele para conhecer São Paulo inteiro. Era um tratamento muito diferente do DJ care que ele sofria normalmente. Começamos a ficar conhecidos lá fora pelo jeito que tratávamos artistas. Eles vinham ficar uma semana conosco, levávamos para comprar disco, comer nos melhores lugares”.

“Começou a rolar um boca a boca. Ele voltou para Nova York impressionado, e de repente começamos a alcançar outros artistas, até maiores, que gostaríamos de conhecer”, lembra Gui Scott. Através da Gop Tun, gigantes como Four Tet pisaram no Brasil pela primeira vez. O público, é claro, começou a encher as pistas de dança: “Como também trazíamos muitos DJs desconhecidos, o público ia para as festas de olhos fechados, sabendo que aquilo seria bom. Isso sempre nos possibilitou trazer artistas que não eram ticket sellers, ou do circuito, e nossa audiência sempre foi crescendo.”

“Começou a rolar um boca a boca. Ele [Nine Days] voltou para Nova York impressionado, e de repente começamos a alcançar outros artistas, até maiores, que gostaríamos de conhecer. Como também trazíamos muitos DJs desconhecidos, o público ia para as festas de olhos fechados, sabendo que aquilo seria bom. Isso sempre nos possibilitou trazer artistas que não eram ticket sellers, ou do circuito, e nossa audiência sempre foi crescendo.”

Gui Scott

Quem já frequentava a cena eletrônica há uma década deve se lembrar como ela era diferente, e como festas como a Gop Tun foram responsáveis por mudanças bem-vindas para músicos, empresários e para o público: “Quando comparamos com o que era a cena de dez anos atrás, só tínhamos o club como opção. Em São Paulo, naquela época, era um pouco segregacionista. Os preços dos ingressos selecionavam o público. Mesmo os lugares mais alternativos tinham preços caros não só na entrada, quanto na bebida. No final das contas, festas ao ar livre fizeram da cena algo menos excludente. Acho que as pessoas começaram a se sentir muito mais livres, e entraram em uma vibe de transgressão, de explorar novos lugares.”

As contribuições da Gop Tun incluem as primeiras festas eletrônicas feitas em locais como os clubes Homs e Piratininga, o heliponto do extinto hotel Maksoud Plaza, a Praça das Artes, entre muitos outros. “Estávamos resgatando lugares abandonados. Era um momento em que o público estava cansado de ir só nas boates, havia um ar de transgressão nesses espaços, e a galera se amarrava”, explica Taborda. “As festas foram evoluindo e começando a misturar muitas tribos, públicos diferentes. Hoje, o público que frequenta as festas do circuito é muito parecido, uma mistura do cara que é super alternativo, com o povo LGBTQIA+, com a galera mais playboy. Isso é o mais legal, porque no final das contas é sobre isso, a pista perfeita que une e conecta todos que querem curtir uma coisa única.”

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Gop Tun/Fotografia/Divulgação

Reconhecimento internacional

Em 2016, a Gop Tun trouxe o holandês Fatima Yamaha para tocar seu live em São Paulo, em uma edição da festa que também era um showcase dos residentes do festival europeu Dekmantel. Na ocasião, os quatro amigos ainda faziam toda a produção das suas noites, de carregar grades a alugar banheiros químicos. Ali, sentiram que era a hora de dar um passo além, contratando uma produtora de eventos para dar conta da montagem e organização.

Deu tão certo que, no ano seguinte, eles foram responsáveis pela primeira edição do Dekmantel no Brasil, um final de semana inesquecível no Jockey Club de São Paulo. “Quando começamos a falar com todo mundo para organizar o Dekmantel, diziam que estávamos malucos, que não dava dinheiro, e sim muito prejuízo. Não tínhamos grana nenhuma, construímos tudo para fazer o festival. Ralamos demais. Mas abriu uma porta e mostrou para muita gente que é possível fazer um festival desse nível no Brasil”, conta Caio.

“Quando começamos a falar com todo mundo para organizar o Dekmantel, diziam que estávamos malucos, que não dava dinheiro, e sim muito prejuízo. Não tínhamos grana nenhuma, construímos tudo para fazer o festival. Ralamos demais. Mas abriu uma porta e mostrou para muita gente que é possível fazer um festival desse nível no Brasil”

Caio Taborda

O Dekmantel ainda foi realizado mais uma vez em 2019, e deveria acontecer no ano seguinte caso não houvesse a pandemia da covid-19. Verdade é que de fato a vinda do festival foi precursora, abrindo as portas para o também holandês DGTL e para o alemão Time Warp, completando uma tríade de grandes eventos dedicados ao techno e ao house.

“Organizar o Dekmantel, para nós, foi uma imersão do que é esse mundo de festivais gigantes. Ajudou muito a amadurecer a ideia de termos um festival só da Gop Tun. Até brincamos que deveríamos ter feito um festival for dummies primeiro, porque fomos aprendendo tudo durante o processo. Entramos nesse mundo com os holandeses, mas sempre tivemos a vontade de fazer um festival nosso”, diz Nascii.

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Rogério 18/ BoilerRoom/Divulgação

O festival

O aniversário de dez anos da Gop Tun acontece em um antigo espaço das piscinas do estádio do Canindé, que já há algum tempo vem sendo utilizado para a realização de festas de música eletrônica. Abrindo seus portões cedo, o festival começa às 13h do dia 2 de abril, e vai até às 8h da manhã do dia seguinte.

Será a primeira vez que a Gop Tun terá uma pista totalmente dedicada aos back 2 backs – ou b2b – reunião de dois artistas dividindo a mesa de som; e que o Festival Não Existe, produção dos quatro amigos durante a pandemia, ganhará uma edição presencial. “Conhecemos e admiramos muita gente da América do Sul, da América do Norte. Temos essa vibe de ser muito variados. Então, o festival é uma mistura de artistas que já passaram por eventos nossos e temos uma afinidade musical grande, outros que sempre foram sonhos e estamos conseguindo trazer agora, e uma série de novidade que não são tão conhecidos como os grandes headliners, mas que desempenham um papel muito grande em suas comunidades”, explica Protti. “Acreditamos que essa mistura vai trazer uma coisa única, foda.”

É curiosa não só a presença de Sany Pitbull, um dos maiores heróis do funk carioca clássico, mas de Badsista, uma cantora da nova geração: “Acho que o funk sempre foi, e é, música eletrônica. Até demorou um tempo para ter essa conexão com as festas e DJs. Muita gente da cena do funk cola nas nossas festas e até pergunta por quê não rola. Foi tarde, mas antes tarde do que nunca”, explica Fernando Nascii.

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Gop Tun/Fotografia/Divulgação

A próxima década

Mesmo com uma história tão sólida, a verdade é que a Gop Tun sofreu duramente com a pandemia da covid-19, assim como todo o setor de eventos em geral. Por isso, a crew tem tomado cuidado para pensar no futuro: “O que vamos fazer depois do festival é a pergunta de um milhão de dólares”, explica Gui Scott, em tom de brincadeira. “Estamos começando os festivais agora, mas a intenção é fazer um por ano. Primeiro, esse precisa dar certo”, ele completa.

Durante a pandemia, eles realizaram o já supracitado Não Existe, um evento que reuniu novos nomes da cena brasileira em uma live. Depois de ganhar uma pista na rave de dez anos da Gop Tun, o festival deve ganhar primeira edição presencial ainda no segundo semestre.

Embora nada esteja confirmado, a Gop Tun também planeja realizar uma nova edição do Dekmantel já no segundo semestre desse ano, de acordo com seus quatro sócios.

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Gop Tun/Arquivo

Como sobreviver a um festival de 20 horas?

Se você não tem experiência de pista mas não quer perder um rolê tão especial, os sócios da Gop Tun dão dicas essenciais de como aguentar a quase 24 horas de muito som bom. Confira:

Bruno Protti: Água.

Gui Scott: Dormir cedo no dia anterior. [risos] Tomar bastante água.

Fernando Nascii: Bastante água. Meditar. Preparo físico. Se alimentar bem.

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Caio Taborda: Água, se alimentar bem, uma boa noite de sono, dar uma relaxada nas pernas na hora certa para voltar para a próxima atração.

Bruno Protti: Fazer um mapinha com o que você quer ver no festival é muito importante, até para você não estar na pista o tempo todo. Ter momentos para rodar, conhecer os outros palcos.

Fernando Nascii: Fazer novas amizades também te ajuda a aguentar.

O Gop Tun Festival acontece em 2 de abril no Live Stage, espaço onde ficavam as piscinas no Estádio do Canindé. Os ingressos já estão à venda, e podem ser comprados clicando aqui.

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