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Nath Finanças explica Imposto de Renda e educação financeira

Aprender a lidar como dinheiro pode transformar o seu dia a dia e te impedir de cair em armadilhas dos bancos

por Beatriz Lourenço Atualizado em 1 jun 2022, 01h34 - Publicado em 23 Maio 2022 22h24
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arte/Redação

nflação, juros, crédito, cheque especial e taxa Selic são termos que parecem difíceis, mas influenciam o nosso saldo bancário todo mês – e muita gente não sabe. Para mudar esse cenário, a carioca Nathália Rodrigues decidiu falar sobre isso de forma simples, descontraída e acessível em meados de 2018. Foi aí que surgiu a ideia de criar um canal no Youtube, o Nath Finanças.

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“Quando fui pesquisar sobre educação financeira, percebi que o que estava sendo feito era para um público muito específico, excluindo quem precisava mais. Queria que a realidade da maioria dos brasileiros fosse representada e que essas pessoas pudessem aprender como usar seu salário da melhor forma possível”, afirma à Elástica. Segundo ela, educação financeira não tem a ver só com aprender sobre investimentos, mas como se conscientizar sobre nosso próprio dinheiro. “Além de te ajudar a não cair em armadilhas das instituições financeiras, você passa a pensar se o seu consumo é realmente necessário ou imposto por uma sociedade que te define pelo que você tem, não pelo que você é”, reflete.

Porém, Nath alerta que o aprendizado não resolve tudo, já que existem pessoas com salários muito baixos que não têm condições nem para pagar todas as contas. Para elas, a solução vem de cima, com políticas públicas – e isso é sinônimo de voto consciente. “Não dá para a gente falar para uma pessoa trocar o fogão por lenha ou parar de tomar o café da manhã. A maioria está sobrevivendo, não conseguem economizar porque não sobra nada – na maioria das vezes até falta”, diz. “Esse público precisa é de política pública e um governo que os apoia e paga um salário decente.”

Em 2021, Nath Finanças foi a única brasileira a integrar o ranking das 50 maiores lideranças do mundo da revista norte-americana Fortune e eleita uma das personalidades da lista Forbes Under 30, que seleciona nomes promissores de criadores e empreendedores brasileiros. É por isso que não há ninguém melhor que ela para nos explicar o que é educação financeira e desmistificar o Imposto de Renda, que pode ser declarado até 31 de maio deste ano.

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Como surgiu a ideia de falar sobre educação financeira?
Quando estava na faculdade de administração, aprendi sobre o tema e fui estudar mais. Mas nas pesquisas, só encontrei conteúdo para um público específico e com dinheiro. Ou seja, quem era de baixa renda, estagiário ou estava começando a vida financeira, não conseguia entender. Isso me deixou muito incomodada e, a partir daí, decidi criar o canal Nath Finanças. Queria que a realidade da maioria dos brasileiros fosse representada e que essas pessoas pudessem aprender como usar seu salário da melhor forma possível.

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Pedro Campos/Divulgação

Qual é a importância de pessoas de baixa renda procurarem conhecimento sobre finanças?
É preciso aprender para não cair em armadilhas! Quando a gente não tem acesso a educação financeira, tudo parece uma boa possibilidade. A primeira coisa que te oferecem quando você completa 18 anos é um cartão de crédito. E você acredita que é possível pegar um limite de 2 mil sendo que seu salário é menos do que isso, aí cria-se uma sensação de que o dinheiro é seu. A partir daí, vemos jovens crescendo já com o nome negativado.

Quando você entende juros simples, parcelamento, cheque especial, empréstimo, isso te ajuda a ter uma vida financeira muito melhor. Além disso, você passa a refletir sobre os hábitos de consumo – pensamos: ‘isso é algo que eu realmente quero ou isso foi imposto pela sociedade para que eu faça parte dela?’

Na economia atual, fica difícil guardar uma parcela do salário que recebemos. Ainda assim, também há a necessidade de juntar um pouquinho para o futuro, que também não nos dá garantias. Como balancear as duas coisas sem deixar a conta no vermelho?
Não dá para a gente falar para uma pessoa trocar o fogão por lenha ou parar de tomar o café da manhã. A maioria está sobrevivendo, não conseguem economizar porque não sobra nada – na maioria das vezes até falta. Esse público precisa é de política pública e um governo que os apoia e paga um salário decente. Isso porque quem ganha um salário mínimo e sustenta uma família, faz milagre. Não existe educação financeira que salve e consiga resolver esse problema, que é estrutural e está aí desde antes de eu chegar. Ainda assim, todos precisam entender sobre dinheiro, sobre como a inflação afeta o preço dos produtos, sobre a taxa Selic e como guardar cinco ou dez reais por mês.

A educação financeira também nos ajuda a escolher nossos candidatos, certo?
Sim! O sistema financeiro é comandado por políticos ou indicados por eles. Os três responsáveis pelas normas dos bancos são o Ministro da Economia, o Presidente do Banco Central e o Secretário Especial da Fazenda. Quanto mais a gente entender sobre isso, mais compreendemos de onde vem as regras. O auxílio emergencial, por exemplo, foi definido por políticos, que também definem todo o orçamento do nosso país.

Um exemplo: o juro do cheque especial era mais de 300% ao ano. Até que, em 2020, foi definido pelo Conselho Monetário Nacional junto com o Banco Central, que os bancos não podem cobrar mais de 170%. Foi uma diferença absurda! Quem definiu isso? Políticos. No meio da pandemia, o Conselho Monetário Nacional definiu que quem tinha financiamento de casa e carro poderiam pausar essas parcelas e só pagar depois de alguns meses. A tabela do Imposto de Renda, que também pode ser citada aqui, é muito injusta para quem é de baixa renda. Quem paga mais não é quem tem um helicóptero ou uma lancha, é o trabalhador comum. Olha o quanto eles definem nossa situação financeira! Precisamos entender que a política faz parte do nosso o dia a dia e se a gente não entender isso, outras pessoas vão definir essa situação pela gente.

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Pedro Campos/Divulgação

A quem interessa não ensinar educação financeira para as pessoas?
Políticos e pessoas de poder, que não querem que a gente saiba mais sobre esse sistema que é injusto e desigual. Falar sobre finanças é algo que foi normalizado há pouco tempo, graças aos criadores de conteúdo. Acontece que o sistema sabe se adaptar. Agora, as instituições querem que o assunto seja difundido porque basta contratar esses influenciadores para fazer propaganda que tudo se resolve já que não haverá críticas por causa do conflito. É comprar o interesse dessas pessoas, basicamente.

Um estudo afirma que 32% dos empreendedores negros já tiveram crédito negado sem explicação. Como você analisa esse racismo estrutural no mercado financeiro?
Quando falamos de mercado de trabalho, precisamos entender que ele não é igual para todos. Na mesma função, primeiro vem o homem branco, depois a mulher branca, depois o homem negro e, por último, a mulher negra. Quando uma mulher tem filhos, ela deixa de ser acolhida e é vista como improdutiva no mercado. Quando essas pessoas não conseguem emprego, elas vão empreender por necessidade porque não conseguem trabalho formal. Aí chega um momento que ela precisa ter acesso ao crédito para poder crescer mais. Só que muitas vezes ela é negada por conta do racismo.

Até eu já fui negada! Não porque meu nome estava negativado ou minha cotação de CPF estava baixa. A gente tem que lutar todos os dias para ter esse acesso. E isso é estrutural! Para ter uma noção da desigualdade, eu sou a primeira da família a me formar e talvez seja a primeira a ter uma situação financeira confortável. Acho que a educação é a única saída que temos quando pensamos nisso.

Por onde começar a buscar educação?
O primeiro passo é colocar suas metas no papel. Isso porque é necessário saber o objetivo do seu dinheiro para que você consiga organizá-lo da melhor forma possível. Depois, é preciso separar suas despesas em fixas (que são aquelas que chegam todos os meses mas o valor não muda), as variáveis (que você tem todos os meses mas com mudanças de valores, como supermercado, por exemplo), as extras (gastos inesperados) e lazer. Por fim, é preciso anotar os valores da meta.

Pode ser que você demore para chegar, mas de dez em dez chega-se a mil. Esse hábito de planejamento é criado aos poucos e precisa ser uma rotina. Pode ser difícil no começo, mas isso faz toda a diferença quando chegamos no fim do mês.

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Desmistificando o Imposto de Renda

O que é e para que serve?
O Estado precisa receber uma porcentagem do nosso dinheiro para pagar as políticas públicas. A ideia é proporcionar serviços para pessoas que não têm condições, como escolas e universidades públicas, hospitais etc. Também é uma forma de mostrar que você comprou algo legalizado.

Para cada pessoa, ele é cobrado de forma diferente. Declara-se a renda a partir de R$ 28.559,70. Na hora de declarar, é preciso dizer se você paga pensão, se é MEI e quais foram seus gastos com saúde e educação.

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Pedro Campos/Divulgação

Quem paga e quem é restituído?
Geralmente quem paga são aqueles que não pagaram impostos suficientes sobre o que foi consumido. Quem recebe é aquele que pagou a mais – é um dinheiro seu que você recebe de volta. Há uma lista de coisas que dão descontos, como gastos com saúde, psicologia, educação e até testes de covid-19.

Como fazer o imposto de forma correta?
É super simples! Você pode fazer online, pelo site da Receita Federal, pelo app ou baixar o programa no computador. Hoje em dia existe a declaração pré-preenchida porque o governo já sabe o que você gastou, o que eles querem é sua validação. É preciso preencher seus dados pessoais, dizer se há ou não dependentes, mostrar o quanto você recebeu e, por fim, seus gastos. Não esqueça de declarar se você tem ações, apartamento, terreno, bolsa internacional e se há um dinheiro maior de 25 mil na poupança.

O que significa “cair na malha fina”?
Significa que as informações que você declarou estão erradas. Quando isso acontece, eles já mostram o que está errado, basta alterar as informações e reenviar. As pessoas pensam que é um bicho de sete cabeças, mas não é.

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Dicas para não errar
A dica de ouro é não deixar para o último dia e guardar todos os comprovantes de pagamentos e informes de rendimentos. Guarde também a senha e login do site porque todos os anos você vai precisar fazer o mesmo processo. Além disso, faça a cópia da sua declaração para guardar como modelo para as próximas.

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arte/Redação

O que fazer com o dinheiro da restituição? Dá para contar com ele para contas fixas ou é mais prudente investir?
Recomendo que as pessoas guardem esse dinheiro para emergências porque é um valor que não é esperado. Se você precisar no futuro, você usa esse montante sem precisar gastar sua renda mensal.

A grande polêmica é: se o dinheiro vai para a gestão pública, por que ainda precisamos pagar por serviços particulares, como plano de saúde e faculdades?
Precisamos pagar porque temos um governo corrupto que falha na manutenção das políticas públicas. O dinheiro que é desviado, que paga os Ministros, que deveria ir para a saúde, tecnologia e educação, é nosso! E ele está sendo usado de forma tão ruim que acaba nos prejudicando. É por isso que precisamos votar certo e tirar essas pessoas do poder.

Nesse sentido, qual é a importância da taxação de grandes fortunas?
Ela serve para uma distribuição de renda justa. Eu pago o mesmo imposto do que o cara que tem milhões – e não deveria ser assim. A reforma tributária precisa ser feita para beneficiar não só quem é de baixa renda, mas quem é microempreendedor. Até porque não há um sistema unificado no país que ajuda essas microempresas.

Esqueci de declarar ou pagar, e agora?
Você vai pagar uma multa e seu CPF provavelmente será prejudicado. Para resolver, é preciso entrar no site da Receita e verificar as pendências.

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4 livros para aprender mais sobre educação financeira

capas livros finanças
A psicologia financeira: lições atemporais sobre fortuna, ganância e felicidade, de Morgan Housel
Neste livro, a autora Morgan Housel apresenta casos de sucessos e fracassos financeiros que mostram a importância do nosso psicológico quando falamos em dinheiro. Além disso, a obra ensina como economizar e fazer o salário render o máximo possível.

Finanças para autônomos: Como organizar sua vida e seu dinheiro quando você trabalha por conta própria, de Eduardo Amuri
Na obra, o autor conversa com aqueles que não têm um emprego formal. Ele ensina como estabelecer um valor para o produto oferecido, como tirar férias sem prejudicar o orçamento e até como se preparar para a aposentadoria. Com uma linguagem simples e usando exemplos reais, Eduardo Amuri oferece uma abordagem mais humana e descomplicada sobre finanças.

Dinheiro sem medo, de Eduardo Amuri
Este é um livro para quem quer começar a organizar melhor o orçamento. É dividido em quatro partes, que abordam temas como o nosso relacionamento com o dinheiro, planejamento financeiro, inteligência financeira e, por fim, exemplos da vida real.

Orçamento Sem Falhas: Saia do vermelho e aprenda a poupar com pouco dinheiro, de Nath Finanças
Em “Orçamento Sem Falhas”, Nath aborda os principais temas relacionados com finanças e explica aquilo que precisamos saber para organizar as contas. O livro, que conta com um projeto gráfico moderno e colorido, é repleto de ferramentas práticas para ajudar o leitor, como tabelas, listas e até mesmo um glossário.

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