envolvimento

O algoritmo do padrão

Após ter sua conta banida repetidamente, Polly Oliveira começou #OExperimento no Instagram e concluiu: estar fora do padrão não é bem visto pela rede social

por Giuliana Mesquita Atualizado em 5 mar 2021, 01h41 - Publicado em 3 mar 2021 23h30
-
Clube Lambada/Ilustração

uito se especula sobre os algoritmos do Instagram – melhores horários para postar, quais conteúdos bombam mais, em quantos minutos é preciso curtir uma foto para que ela seja entregue para os todos seus seguidores, como aumentar o alcance dos stories e como o engajamento funciona. Fato é, no entanto, que pouco se sabe sobre a tecnologia que controla a ordem dos posts e para quem eles são entregues desde que a rede social deixou de mostrar um feed cronológico. 

Polly Oliveira já trabalha como criadora de conteúdo há seis anos e, de dois anos pra cá, reparou que seus posts eram repetidamente tirados do ar, com a desculpa de que eram sexualizados demais para as diretrizes da rede. Suas postagens sempre foram baseadas em autoestima, corpo livre e liberdade feminina, conversando com mulheres sobre padrões, machismo e a sociedade patriarcal que insiste em controlar nossos corpos. “Sempre que eu expunha meu corpo, postava vídeos dançando de biquíni ou lingerie, que é algo que sempre fez parte do meu conteúdo, recebia muitas notificações de que perderia minha conta, que eu estava ferindo as diretrizes”, conta. No dia 31 de dezembro de 2020, o Instagram derrubou sua conta – sem chance de retorno – por conta de um vídeo dublando um vídeo de Mayra Cardi. O vídeo original da “líder em emagrecimento natural” continua no ar. 

Depois de ter seu perfil devolvido por pressão de veículos denunciando sua história, como na coluna “Elas foram punidas pelo Instagram por denunciarem machismo e misoginia”, de Maqui Nóbrega, no UOL, a influenciadora criou #OExperimento, uma maneira de tentar provar que os corpos fora do padrão não tem suas postagens entregues e são boicotadas pela plataforma. Começou estudando o comportamento e as publicidades feitas pelas maiores influenciadoras do ramo – todas brancas, magras e, em sua maioria, loiras –, que anunciavam chás emagrecedores e géis redutores de medida com resultados milagrosos. Avisou suas seguidoras sobre qual seria seu conteúdo daqui pra frente, para que elas soubessem o que estava por vir (evitando muitos gatilhos) e deu início a sua experiência.

“Sempre que eu expunha meu corpo, postava vídeos dançando de biquíni ou lingerie, que é algo que sempre fez parte do meu conteúdo, eu recebia muitas notificações de que eu perderia minha conta, que eu estava ferindo as diretrizes”

Nas semanas seguintes, Polly começou a postar sobre produtos milagrosos, usando os mesmos jargões que já conhecemos, escovou seu cabelo cacheado, falou que havia feito cirurgias plásticas e publicou fotos com bastante PhotoShop, dessas que dá pra ver de longe que algo está errado. O resultado? Sua conta foi tirada do Shadow Ban (uma prática do Instagram que consiste em deixar a conta ‘invisível’: além de não conseguir encontrar o perfil pela busca clássica, o conteúdo não aparece para quase ninguém, a não ser que você digite exatamente o arroba da pessoa e entre no perfil) e suas postagens começaram a serem entregues para todos os seus 358 mil seguidores – alguns recebiam até notificações mesmo sem ter ativado o sino. 

Além da conclusão mais óbvia de que a plataforma estuda seu conteúdo para entregar aos seguidores anúncios de produtos parecidos, Polly descobriu que o Instagram ainda associa um corpo fora do padrão a fast foods (indicando a associação do corpo gordo a um comportamento), dada a mudança de anúncios que ela recebia antes de começar #OExperimento – onde se viam hambúrgueres e propagandas de aplicativo de delivery, agora Polly recebe ads de cirurgias plásticas e produtos fit. Além disso, percebeu que, ao postar um conteúdo verdadeiramente sexualizado, suas fotos eram entregues à milhares de homens, financiando uma cultura de objetificação do corpo da mulher e até de prostituição. 

A verdade é que talvez isso não seja novidade para quem trabalha com redes sociais, mas #OExperimento provou por a+b que o algoritmo dá preferência a um tipo de corpo, de cor de pele e de conteúdo. Isso é algo que deve ser combatido não só para quem acredita no fim desses padrões que matam e aprisionam, mas para quem vive de Instagram e pode ver seu “reinado” desmoronar ao não fazer mais parte do que a diretriz conhece como certo. “O algoritmo muda constantemente e, cada vez mais, a cara que eles querem os representando é o jovem, bonito, dentro do padrão. Essas mulheres que ainda lucram com isso hoje não percebem que nosso tempo está contado. Ou nós mudamos isso ou a gente só está empurrando merda ladeira abaixo”, fala Polly. Para entender um pouco mais sobre sua experiência, Elástica bateu um papo com a influenciadora – confira abaixo

Continua após a publicidade
Polly experimentou postar fotos em poses sexualizadas para ver como o algoritmo do Instagram reagiria. Resultado: o engajamento aumento. Muito –
Polly experimentou postar fotos em poses sexualizadas para ver como o algoritmo do Instagram reagiria. Resultado: o engajamento aumento. Muito – Vivi Ribeiro/Divulgação

Para começar, me conta um pouco de você.
Eu sou natural do nordeste, do Maranhão, e estou morando no sul faz cinco anos, em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Sou escritora, tenho três livros publicados e falo especificamente com mulheres. Sou mãe de dois filhos adolescentes e casada.

Como você começou a trabalhar com internet?
Tem exatamente seis anos que falo de autoestima, corpo livre e liberdade feminina como um todo. Os últimos dois anos foram os mais difíceis da internet. Mesmo ganhando um número maior de seguidores, meu conteúdo não tinha muita aceitação pela plataforma. Há dois anos, eu venho travando essa batalha com o Instagram. Sempre que eu expunha meu corpo, postava vídeos dançando de biquíni ou lingerie, que é algo que sempre fez parte do meu conteúdo, eu recebia muitas notificações de que eu perderia minha conta, que eu estava ferindo as diretrizes. Eu pensava: como eu estou ferindo essas diretrizes se meu conteúdo não é nada sexual? Por que esse conteúdo estava sendo enxergado dessa maneira?

Em meados de 2020, comecei a ter muito do meu conteúdo derrubado. A cada cinco conteúdos, três saíam do ar. Então, comecei a investigar blogueiras que tinham algum vídeo expondo seu corpo e eu reproduzia o vídeo exatamente igual. Se eu fosse notificada, teria respaldo. Por que meu conteúdo estava saindo do ar e o dela ainda tá online?

Quando foi a virada?
No dia 30 de dezembro, fui notificada, pois fiz um vídeo dublando a Mayra Cardi falando de ângulos. Reproduzi o vídeo, até com a dublagem da influenciadora. Recebi notificação, novamente, que eu estava ferindo as diretrizes. No dia 31 de dezembro, acordei sem meu Instagram. Não cheguei nem a ser bloqueada, a mensagem que eu recebi dizia que eu não tinha possibilidade nenhuma de recuperar meu conteúdo, pois ele era sexual. Entrei em contato com algumas pessoas, minha assessoria conseguiu o contato com alguém lá de dentro. Através da coluna da Maqui Nóbrega, o UOL conseguiu o contato da executiva do Instagram, que alegou que era um bug no sistema, que tinha sido um erro mas que iriam resolver. Passados 20 dias, minha conta foi devolvida.

Em #OExperimento, Polly abusa do Photoshop para modelar seu corpo no padrão de beleza e ver como o algoritmo reage –
Em #OExperimento, Polly abusa do Photoshop para modelar seu corpo no padrão de beleza e ver como o algoritmo reage – Vivi Ribeiro/Divulgação

E tudo voltou ao normal?
Mesmo após a devolução, a conta continuou com as mesmas restrições. Eu vivia no Shadow Ban, dificilmente conseguia sair. As pessoas não me achavam na busca, meu conteúdo não era entregue mesmo para quem tinha as notificações ativadas. As restrições continuavam. Comecei a pensar que nada disso fazia sentido. Já tinha visto algumas coisas relacionadas a racismo, alguns influenciadores quando postavam pessoas brancas tinham engajamento maior. Comecei a me questionar: será que a estrutura do algoritmo foi criada dessa maneira?

“As pessoas não me achavam na busca, meu conteúdo não era entregue mesmo para quem tinha as notificações ativadas. As restrições continuavam. Comecei a me questionar: será que a estrutura do algoritmo foi criada dessa maneira?”

Foi aí que você decidiu começar #OExperimento?
Sim. Fiz um vídeo informando minha audiência, dizendo que ia tentar driblar o algoritmo, entregando um conteúdo falso. Comecei a estudar como as blogueiras padrão falavam, como se comportavam, quais produtos indicavam. Havia um padrão, até as empresas que patrocinavam eram as mesmas. Comecei a aparecer nos meus stories vendendo tudo que essas blogueiras vendiam, como chá emagrecedor e gel redutor de medidas. Em menos de 24h, meu perfil saiu do Shadow Ban. Minhas seguidoras falavam que assim que eu mostrava um gel redutor de gordura, com os mesmos jargões que elas usavam, aparecia uma propaganda ligada diretamente ao que eu estava falando. Se eu falava de emagrecimento, o anúncio que aparecia era de marmita fit, academia, roupa de academia…

Peguei uma cinta emprestada, fiz alguns stories e, quando apareci usando a peça, meu alcance foi lá pra cima. Meus stories, que tinham cerca de 30 mil visualizações, chegaram a 100 mil. Pessoas que sequer tinham notificações ativadas eram notificadas do meu conteúdo. Minhas seguidoras falavam que meu conteúdo chegava até elas em 30 segundos, sendo que antes nunca era nem entregue. Comecei a perceber que algumas palavras eram muito certeiras e tinham muito poder no Instagram. Até aí, eu pensei: isso tudo deve ter a ver com o que eu falo e com o que eu escrevo. Achava que a Inteligência Artificial dizia respeito a isso. Então, comecei a testar esses algoritmos em silêncio. Eu, que tenho cabelo bem enrolado, fiz uma escova e gravei alguns stories. O conteúdo foi entregue em tempo recorde.

Polly Oliveira usa cinta e simula ter passado por cirurgia plástica para #OExperimento
Polly Oliveira usa cinta e simula ter passado por cirurgia plástica para #OExperimento Vivi Ribeiro/Divulgação

Como suas seguidoras reagiram a isso?
Muitas entendiam, mas também pediam para eu sair do personagem às vezes. Pensei que meu engajamento iria cair, mas decidi aparecer de novo dançando de calcinha e sutiã, falando do meu corpo real. O que aconteceu nesse momento foi bizarro. O algoritmo do Instagram começou a relacionar meu corpo a um padrão de comportamento. Os anúncios depois desses stories eram de hambúrguer, Nutella, biscoitos. Muita propaganda de comida. A inteligência artificial vai bastante além do que nós imaginamos, ela se comporta de uma maneira que eu não esperava.

Quando aparece em seu perfil com seu corpo real, fora do padrão, os anúncios que a rede social entrega para Polly são quase sempre de delivery e fast food –
Quando aparece em seu perfil com seu corpo real, fora do padrão, os anúncios que a rede social entrega para Polly são quase sempre de delivery e fast food – Polly Oliveira/Reprodução

A ideia era ter a certeza de que a inteligência nos ouvia e entendia nosso comportamento. Meu próximo experimento foi começar a postar fotos no feed com imagens completamente photoshopadas. Eu pedia pros fotógrafos entregarem um conteúdo bem bizarro, exagerado, para que as mulheres percebessem e entendessem que é uma crítica. Para o meu espanto, muitas mulheres acreditavam que aquele era meu corpo, pediam dicas de como emagrecer e até de como editar as fotos para ficar daquele jeito. Mesmo quando você imita as blogueiras, para algumas pessoas aquilo ainda continua parecendo real. Mesmo estando escrachado e bizarro – dava pra perceber que eu estava com um tronco largo e a cintura fina demais –, ainda tinham mulheres desejando aquele corpo. O problema, infelizmente, é muito estrutural.

Continua após a publicidade

Outro experimento que fiz foi comprar uma peruca lace e começar a me portar de maneira exageradamente sexualizada. Eu havia perdido minha conta por causa de um conteúdo sexualizado, lembra? O que aconteceu depois disso foi o contrário: o Instagram começou a entregar meus posts para vários homens – recebia convite para andar de iate, nudes e até perguntas de quanto era o programa. As propagandas seguintes eram de motel e lingerie. É muito fora do padrão ele ter sido entregue para tantos homens – minha audiência é composta por 95% de mulheres e os homens que estão no meu Instagram geralmente são gays. Então isso tudo foi muito absurdo.

“Pensei que meu engajamento iria cair, mas decidi aparecer de novo dançando de calcinha e sutiã, falando do meu corpo real. O que aconteceu foi bizarro. O algoritmo começou a relacionar meu corpo a um padrão de comportamento. Os anúncios depois desses stories eram de hambúrguer, Nutella, biscoitos”

Quais foram suas conclusões a partir desse teste?
Nós treinamos esse algoritmo com nosso comportamento e com a maneira como a gente aceita essas mentiras. Pra mim, começou a ser um desafio muito grande. Se deparar com o sistema nu e cru e perceber que, de fato, você é só um objeto. O algoritmo é financia muita coisa horrível e fortalece essa indústria. Se uma mulher começa a aparecer com todos esses estereótipos e começa a ganhar visibilidade, por que ela mudaria? O algoritmo identifica, ele sabe para qual público você quer falar e ele vende isso aos patrocinadores. Ele usa essas blogueiras e influenciadoras como vendedoras. A gente só acha que tá usando a plataforma de graça. Meu pensamento é: até quando a gente está sendo instigada a comprar? Até quando isso é realmente nosso desejo? 

Ao aparecer com os cabelos alisados, maquiada e de forma mais sexualizada, as propagandas mudam para biquinis e maquiagem –
Ao aparecer com os cabelos alisados, maquiada e de forma mais sexualizada, as propagandas mudam para biquinis e maquiagem – Polly Oliveira/Reprodução

Também comecei a entender porque blogueiras fitness crescem tanto. A figura atrelada ao discurso raso é o combo perfeito. Se você pegar dez meninas com esse mesmo discurso, você percebe um padrão de corpo, de rosto. Elas são parecidas em absolutamente tudo e são patrocinadas pelas mesmas empresas. Mulheres magras e brancas têm 4,5 mais alcance do que mulheres negras e gordas, comparando perfis com os mesmos números de seguidores

Tudo isso é tão louco porque, se somos nós que treinamos esses algoritmos, o ideal seria que nós nos uníssemos para tentar fazer alguma mudança. Tenho pensado muito sobre qual é a saída. Eu sou só uma falando sobre isso e algumas dezenas concordando. Muitas pessoas famosas me seguem, mas quantas já falaram sobre meu experimento? Eles crescem com isso, se alimentam disso, isso os beneficia. As pessoas que detêm o poder hoje nas redes, porque o poder são os números, não querem abrir mão de ser o opressor. 

Qual você acha que seria o futuro das redes?
Essas mesmas pessoas ainda não se tocaram que nós somos descartáveis. Daqui cinco ou dez anos, eu não valho mais nada. O algoritmo muda constantemente e cada vez mais a cara que eles querem os representando é o jovem, bonito, dentro do padrão. Essas mulheres que ainda lucram com isso hoje não percebem que nosso tempo está contado. Ou nós mudamos isso ou a gente só está empurrando merda ladeira abaixo. Se nós nos uníssemos, se a luta fosse, pelo menos, da maioria, daqui dez anos, nós não seríamos descartáveis. Essa é uma geração que vive o hoje, o agora, e não pensamos muito no futuro. Para algo mudar, teria que ser um barulho muito grande. Eu me sinto feliz porque tenho conseguido conscientizar algumas mulheres. Se eu conseguir atingir 10, 20 ou 30 mulheres, elas vão jogando pra frente. É importante que mais mulheres saibam disso. Se essa informação chegar e incomodar quem está lá em cima, meu papel tá feito.

Continua após a publicidade
mais de
envolvimento
erika-hilton_p

Sobre fome e correntes

Por
No vácuo das ações do governo, Erika Hilton enaltece o ativismo e pede mais atenção à população em situação de rua
Thelma Assis, comunicadora, apresentadora e campeã do BBB 20, bate um papo com a gente sobre cancelamento, racismo, política e maternidade
Dez anos após o início da Revolução Egípcia, o líder revolucionário Ahmed Hassan assegura que a “revolução ainda não acabou”
foto 1

O fim da primavera

Por
Movimentos da Primavera Árabe esbarraram em intransigência de regimes e em influências externas; moradores da região relatam uma década de desesperança
Parafraseando a canção de Liniker, cantora, travesti e preta, Bárbara não goza do privilégio de ser e/ou ter morada em alguém, ainda que possua nome

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.