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Mulheres cis não podem tomar PrEP?

Por que as mulheres cis não estão contempladas na política do medicamento de prevenção ao HIV, mesmo com o alto número de homens heterossexuais infectados?

por Giuliana Mesquita Atualizado em 14 abr 2022, 15h02 - Publicado em 13 abr 2022 22h43
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karolina grabowska/Pexels

Eloah* ouviu falar de PrEP pela primeira vez ano passado através de um amigo trans. Manauara, ela tem 23 anos e uma filha de 4. Durante uma visita a uma UBS, viu alguns banners sobre o medicamento e decidiu se informar. “Fui fazer um teste rápido de HIV e vi uma pessoa saindo de lá com o medicamento. Conversei com uma enfermeira, que faz uma entrevista, depois te explica tudo sobre, te dá todas as orientações e, no final, você já sai com o PrEP em mãos”, conta. “Neste dia, eu estava com o pai da minha filha e falei que seria bom que ele tomasse também e ele se envolvia com muitas mulheres. Nós dois saímos de lá com a medicação”. 

PrEP significa profilaxia pré-exposição. Ou seja, é um medicamento que se toma diariamente para impedir que o vírus causador da AIDS infecte seu organismo. No Brasil, ele já está disponível através do SUS para grupos populacionais com maior risco de infecção pelo HIV, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, trabalhadores do sexo e parcerias sorodiferentes (quando uma pessoa vive com HIV e a outra não). Vale, aqui, uma nota: faz muito mais sentido falar sobre práticas de risco do que comportamentos ou mesmos grupo mais suscetíveis ao vírus HIV, mas é possível encontrar a nomenclatura “grupo de risco”, dessa ou de outras formas semelhantes, na comunicação de diferentes órgãos de saúde.

A história de Eloah se passa em Manaus. Na cidade amazônica, apesar dos chamados grupos de risco terem prioridade, qualquer pessoa, hétero ou não, pode tomar a profilaxia. E são incentivadas a isso. É importante dizer que, mesmo tomando o remédio, o uso da camisinha é indispensável para prevenir outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

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Ao começar a apuração sobre porque mulheres cis não estão contempladas nos grupos populacionais com maior risco de infecção pelo HIV e, portanto, não aparecem em campanhas e não podem entrar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e fazer o pedido pela PrEP, as pesquisas mais importantes que encontramos sobre a eficácia da profilaxia em mulheres em situação de vulnerabilidade na África. Por conta de uma inconstância na adesão causada por diversos fatores econômicos, sociais e culturais, a PrEP foi considerada ineficiente em mulheres cisgênero. Mas não é bem assim. “Tanto para homem quanto para mulheres cis ou trans, a PrEP depende muito de adesão, ou seja, precisa tomar direito, todos os dias. Estudos mostraram que a concentração do medicamento na região anal e retal é muito mais rápida e acumula mais do remédio do que na mucosa vaginal. Isso significa que a mulher tem que ter 100% de adesão, o tempo inteiro, para que seja eficaz. O homem pode ter um pouco menos de adesão”, explica Simone Tenore, médica infectologista da Universidade Federal de São Paulo e do Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/AIDS-SP. “A gente sabe que funciona em mulheres, então por que elas não estão contempladas? Porque não é uma população-chave, bem entre aspas. E, se você tem recursos restritos, acaba priorizando o uso onde tem eficácia maior.”

E se você acha que qualquer mulher, aqui ou na África, tem independência para tomar o que quiser e quando quiser, pense de novo. “Temos algumas Áfricas aqui dentro do Brasil. Não tem porque achar que a gente é diferente. Temos questões culturais onde a mulher não consegue se posicionar, negociar, especialmente em alguns estratos da sociedade. Não faz sentido a gente achar que é tudo Jardins e Itaim. A informação precisa chegar mais na ponta”, continua Tenore. Isso posto, é indiscutível que as mulheres precisam ser incluídas nessa conversa, nem que seja para ter mais informações sobre prevenção. 

“Temos algumas Áfricas aqui dentro do Brasil. Não tem porque achar que a gente é diferente. Temos questões culturais onde a mulher não consegue se posicionar, negociar. Não faz sentido a gente achar que é tudo Jardins e Itaim. A informação precisa chegar mais na ponta”

Simone Tenore

Como se passa em Manaus, a história de Eloah, contada no início da reportagem, é diferente. “A determinação é nacional, ela não muda. Não há uma recomendação que cada estado faça do seu jeito. A gente tenta seguir a recomendação nacional, mas é isso, se está sobrando muito e a coordenação estadual conversou com a coordenação nacional e entendeu que naquele estado pode ser feito diferente, não há problema. Em São Paulo, já fizemos isso com outras coisas, mas sempre há essa conversa. Se ‘sobra’ pra mulher, não tem nenhum problema. As coordenações estaduais têm uma certa liberdade desde que seja feito tudo de acordo”, pontua Simone Tenore.

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intervenção digital sobre obra do acervo do museu Rijksmuseum (Amsterdam)/ Europeana/Unsplash

Medicamento gay?

Jennifer Besse tem 32 anos e vive com HIV desde que nasceu. Sua mãe morreu em decorrência do não tratamento do vírus quando Jennifer tinha apenas seis anos – ela e seu pai também não sabiam do seu status. Por anos, não entendia direito o que sua sorologia significava, apesar de tê-la exposta sempre que possível. Ela se mudou do país para uma cidadezinha na Suíça onde ninguém sabia que ela vivia com o vírus, mas precisou voltar para o Brasil assim que seu “segredo” ficou perto de ser revelado. Entrou em depressão e só sentiu certo alívio quando encontrou em um relacionamento afetivo o carinho que precisava para seguir em frente, aos 24 anos de idade. Hoje, ela faz parte de um casal hétero sorodiferente que não faz uso do PrEP, pois Jennifer está indetectável, mas a professora segue envolvida no ativismo de conscientização para o vírus do HIV com bom humor e informação. 

Uma das frentes em que trabalha é a BarONG, organização não governamental fundada há 26 anos e que “fala de sexualidade como se fala em quatro paredes, mas numa mesa de bar”. Fundada por Marta MCBritton e Marcelo Peixoto e com uma equipe composta majoritariamente por mulheres, que vivem com HIV ou não, eles fazem testagem gratuita, entregam medicamentos antivirais em domicílio, fazem assessoria psicológica e promovem oficinas profissionalizantes. “Na equipe, tem várias pessoas de estilos diferentes. Desde a comunidade LGBTQIA+ até idosas e héteros vivendo com HIV. Apenas pessoas que vivem com HIV dão o resultado reagente, já que acreditamos que ver uma pessoa bacana e saudável vivendo com o vírus cria um vínculo bem maior e que vamos ter uma adesão aos medicamentos com mais facilidade por causa da questão de identidade”, conta Adriana Bertini, diretora de projetos da BarONG.

Para além da testagem gratuita, a ONG trabalha para conscientizar e oferecer mais informação para populações que não estão incluídas nos “grupos de risco” definidos pelo Ministério da Saúde. “A gente percebe que a adesão da PrEP é muito maior na população masculina, mas tem pontos estratégicos que a gente atende que o público nunca nem ouviu falar do medicamento, nem imagina que existe, porque esse assunto parece voltado só para homens que fazem sexo com homens”, explica Bertini.

“A gente percebe que a adesão da PrEP é muito maior na população masculina, mas parte do público nunca nem ouviu falar do medicamento, nem imagina que existe, porque esse assunto parece voltado só para homens que fazem sexo com homens”

Adriana Bertini

A Dra. Tenore engrossa o coro e ainda adiciona que, mesmo com grupos populacionais com maior risco de infecção pelo HIV definidos, a avaliação de risco para que a PrEP seja indicada precisa ser individualizada. Para isso, uma maior conscientização se faz cada vez mais necessária. “São poucas mulheres que sabem o que é PrEP, para que serve e qual a real eficácia dela. Eu entendo que a limitação é ruim nesse sentido. Como política de saúde, talvez ela não precise estar lá, mas a informação precisa estar. Essa avaliação precisa ser feita para que a pessoa entenda o risco, independente do gênero e para que ela possa procurar e se sinta acolhida se decidir usar. É preciso haver uma oportunidade de autoavaliação e com um profissional para entender se, no contexto de vida e na vulnerabilidade dela, faz sentido. Acho ruim ser tão unilateral. Se a mulher não faz parte de um casal sorodiferente ou é uma trabalhadora do sexo, teoricamente não é para ela estar lá”, pontua. 

Ainda que o assunto seja polêmico, é importante que ele seja falado e que o número de contágio de pessoas heterossexuais nas últimas pesquisas seja levado em consideração. No Brasil, segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS do Ministério da Saúde de 2018, homens heterossexuais representam 49% dos casos, enquanto homossexuais e bissexuais 38% e 9,1%, respectivamente. Este mesmo relatório, só que de 2020, mostra que o contágio entre homens continua aumentando em várias faixas etárias, enquanto os índices de mulheres têm reduções expressivas. Mas isso não deveria significar que as mulheres não possam ter acesso a um produto que previne a contração de HIV – principalmente se levarmos em consideração o número elevado de homens heterossexuais que contraíram o vírus nos últimos anos. “O HIV foi lançado como uma peste gay – e a PrEP cometeu o mesmo erro. O medicamento foi taxado como se fosse medicamento de LGBTQIA+. A mulher cis heteronormativa, além de não ter acesso, não conhece”, completa Bertini. E isso precisa mudar.

*Alguns sobrenomes foram suprimidos para preservar a privacidade dos entrevistados

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