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Nossa história no mapa

Como o site Queering The Map, que permite o compartilhamento de histórias da comunidade LGBTQIA+ do mundo todo, fez eu me sentir parte de algo maior

por Alexandre Makhlouf 8 set 2021 23h23
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Clube Lambada/Ilustração

abe aquela frase conhecida que diz “seja gentil com as pessoas, cada uma delas está passando por algo que você nem imagina” ou algo do tipo? Além de ser uma grande verdade, ela é especialmente precisa quando falamos de pessoas LGBTQIA+. Ser uma pessoa pertencente à sigla é muito mais do que olhar para uma bandeira colorida e buscar identificação. É passar por momentos difíceis de autocompreensão, que vão de sair do armário a perceber que seu gênero talvez não seja condizente com o corpo em que você nasceu. Passa por bullying nas escolas, primeiros beijos tardios – o primeiro beijo mesmo, muitas vezes, é com alguém com quem você não se interessava de verdade –, uma solidão difícil de expressar para quem não é queer. Sentir-se sozinho é, talvez, uma das poucas coisas que une todas as pessoas LGBTQIA+, que possuem uma infinidade de vivências, histórias e características diferentes, mas nunca se sentirão 100% parte da nossa sociedade atual: machista, patriarcal, binária.

Mas ao abrir o site Queering The Map, o sentimento de solidão se abranda por alguns momentos e até um sorriso de canto de boca se abre. Bom, pelo menos foi assim comigo. O site é um mapa online em que você, pessoa queer que acessa, pode clicar em qualquer ponto e adicionar uma história sua anonimamente. Qualquer história: de amor, de dor, de primeiro beijo, de paquera, de simplesmente ter visto alguém que você achou gato ou gata ou gate e não teve coragem pra ir puxar um assunto porque não sabia se ele também “era do babado”, como diria minha mãe. De se assumir, de não ter coragem para se assumir, de ter transado loucamente e querer contar cada detalhe, de ter terminado com quem você achou que poderia ser o amor da sua vida.

(“Primeira vez nadando como uma mulher trans. Biquini preto de cintura alta com bolinhas brancas”)

O site não é novo – ele existe desde 2017 e foi relançado em 2018 –, mas descobri-lo recentemente me tocou de uma forma que eu não esperava. Passei horas navegando pelo mundo à procura de histórias de amor entre pessoas LGBTQIA+. Encontrei muitas, é verdade – são mais de 86 mil histórias em 23 línguas diferentes. Mas também encontrei muitas histórias de dor. E, por incrível que pareça, me senti menos sozinho ao saber que um homem no interior dos Estados Unidos já sentiu a mesma coisa que eu ao ter seu coração partido. Ou ao perceber que uma mulher na Inglaterra escolheu marcar ali, num mapa para todo mundo ver, o lugar onde se despediu da ex-namorada/ex-mulher, sabendo que ela para sempre seria o amor de sua vida.

“Por incrível que pareça, me senti menos sozinho ao saber que um homem no interior dos Estados Unidos já sentiu a mesma coisa que eu ao ter seu coração partido. Ou ao perceber que uma mulher na Inglaterra escolheu marcar no mapa o lugar onde se despediu da ex-namorada/ex-mulher, sabendo que ela para sempre seria o amor de sua vida”

“1. Beijei um menino brincando de pique-esconde com os vizinhos. beijamos atrás de um arbusto de bouganville.<br />2. Beijei ela no topo de um prédio abandonado<br />3. Passei muito tempo no armário aqui. Muita beleza e muita dor.<br />4. Deixei uma menina chupar meus peitos pela primeira vez.<br />5. Cresci aqui sentindo que estava sozinho.<br />6. Esta é uma Escola Católica de Ensino Médio e o primeiro lugar em que beijei minha primeira namorada. Várias vezes. Bem na frente de Jesus. Amém!<br />7. A primeira boate gay em que eu dancei!”
“1. Beijei um menino brincando de pique-esconde com os vizinhos. beijamos atrás de um arbusto de bouganville.
2. Beijei ela no topo de um prédio abandonado
3. Passei muito tempo no armário aqui. Muita beleza e muita dor.
4. Deixei uma menina chupar meus peitos pela primeira vez.
5. Cresci aqui sentindo que estava sozinho.
6. Esta é uma Escola Católica de Ensino Médio e o primeiro lugar em que beijei minha primeira namorada. Várias vezes. Bem na frente de Jesus. Amém!
7. A primeira boate gay em que eu dancei!” Queering The Map/Reprodução

Não acho que todo esse encantamento e esse acolhimento por uma experiência queer, colaborativa e totalmente digital seja apenas meu lado romântico. Muitos de nós, pessoas LBGTQIA+, passamos a vida em busca daquela sensação de pertencimento, de comunidade, de olhar para a solidão e poder considerá-la passado. Não sou porta-voz das pessoas queer do mundo, mas praticamente todas com quem já tive contato e conversei um pouco mais profundamente revelaram partilhar desse sentimento. 

Há nem tanto tempo assim, sem smartphones, aplicativos exclusivos para relacionamentos LGBTQIA+ e internet, criamos outros símbolos e códigos para nos relacionarmos e nos reconhecermos uns nos outros. Hoje, muitos estabelecimentos aqui e fora do país usam a bandeira do arco-íris para deixar claro para o mundo que somos bem-vindos da porta pra dentro, mas nem sempre foi possível ostentar esse orgulho. Na década de 1970 nos Estados Unidos, um círculo verde com um triângulo rosa invertido dentro marcava os safe spaces, espaços seguros para quem era LGBTQIA+. O símbolo é uma reapropriação dos triângulos coloridos usados pelos nazistas para marcar diferentes prisioneiros dos campos de concentração – os da cor rosas eram costurados no macacão de homens e mulheres homossexuais.

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“essas ilhas tem o formato do meu coração desde que você o quebrou há dois meses”
“essas ilhas tem o formato do meu coração desde que você o quebrou há dois meses” Queering The Map/Reprodução
“Vi uma pessoa. Era um homem com uma roupa rosada de mulher. Mas quando o vi me surpreendi e pensei nela como mulher. A primeira vez que pensei minha própria identidade.”
“Vi uma pessoa. Era um homem com uma roupa rosada de mulher. Mas quando o vi me surpreendi e pensei nela como mulher. A primeira vez que pensei minha própria identidade.” Queering The Map/Reprodução

Além das paredes de bares gays, nosso próprio corpo era usado como tela em branco para informar outro LGBTQIA+ que fazíamos parte de um mesmo mundo. Um brinco do lado direito da orelha identificava homens gays que preferiam ser passivos na hora do sexo; se estivesse do lado esquerdo, a preferência por ser ativo. Lenços coloridos no bolso de trás da calça, no pescoço ou amarrados no punho indicavam preferências sexuais diferentes conforme a cor – lenço preto, S&M; lenço amarelo, golden shower; lenço vermelho, fisting; e por aí vai. O código dos lenços, especificamente, era mais forte nos Estados Unidos, mas o brinco ajudou muitos homens gays brasileiros a, em um simples troca de olhares, saberem que não estavam sozinhos.

Eu, uma bicha branca paulistana de apenas 30 anos, sei disso porque essas informações estão presentes em livros como The Leatherman Handbook 2 (“O manual do couro 2”, em tradução livre) e Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan, que conta a história do movimento LGBTQIA+ aqui no Brasil. E acho que é por isso que Queering The Map mexeu tanto comigo: nossas histórias queer não estão nos livros da escola, não passam no jornal, não são acessíveis para adolescentes que se sentem sozinhes e abandonades no mundo. Nossos amores ganharam recentemente as campanhas publicitárias e os filmes que passam no cinema, mas sabemos que muito desse fenômeno é puro interesse no pink money, como o mercado chama nosso poder aquisitivo. É positivo, é claro. Precisamos começar de algum lugar, mas também precisamos estar atentos, fortes, vigilantes e críticos sempre, para que nossa história continue sendo valorizada mesmo quando a publicidade e o cinema tiverem novos interesses comerciais.

“Queering The Map mexeu tanto comigo porque nossas histórias queer não estão nos livros da escola, não passam no jornal, não são acessíveis para adolescentes que se sentem sozinhes e abandonades no mundo”

E, se eu puder terminar esse texto com um pedido, seria para você, pessoa LGBTQIA+ que chegou ao final desse texto, deixar sua história no Queering The Map. Não precisa ser uma história de amor, pode ser apenas um dos muitos episódios que você já viveu. Pode ser um pin na Estação Consolação do metrô sobre aquele dia que você viu um cara bonito, trocou olhares e imaginou toda uma vida com ele, mas na real nunca mais o viu. Eu deixei a minha, uma memória afetiva gostosa que aconteceu em um parque durante um evento de trabalho. Se você, por acaso, encontrar minha história por lá, espero que te faça sorrir igual tantas outras me fizeram.

“Eu comi um pacote inteiro de cheetos e você mesmo assim quis me beijar. foi o melhor beijo da minha vida.”
“Eu comi um pacote inteiro de cheetos e você mesmo assim quis me beijar. foi o melhor beijo da minha vida.” Queering The Map/Reprodução
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