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Já ouviu falar de reserva ovariana?

A startup Fertilid é a primeira do Brasil a criar o auto-exame para descobrir como anda sua fertilidade. Mas por que só agora estamos falando sobre isso?

por Giuliana Mesquita 7 dez 2021 02h13
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Clube Lambada/Ilustração

ertilidade nunca tinha sido uma pauta na minha vida até descobrir um cisto e tirar um dos ovários em 2016. À época, o médico sugeriu veementemente congelamento de óvulos, algo que não parecia viável ou importante, dado o preço e o fato de que maternidade não estava nos meus planos nem a curto nem a longo prazo. Antes da cirurgia, não foi feito um exame de hormônio Antimülleriano para entender qual era minha reserva ovariana e se isso era, de fato, necessário. 

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Quase cinco anos se passaram desde minha cirurgia quando, em 2021, ouvi falar da Fertilid, startup da paulistana Amanda Sadi que criou o primeiro auto-exame para medir a reserva ovariana. A Fertilid nasceu de uma história pessoal de Amanda que, ao fazer um check-up preventivo completo antes de passar uma temporada nos Estados Unidos em 2018, descobriu que sua reserva ovariana era baixa. Foi ali que teve um estalo: por que assuntos como educação sexual, amor próprio e empoderamento estão tão em alta e fertilidade não? Sadi decidiu estudar o assunto e, em 2021, nasce a femtech – apelido dado a startups com foco em saúde feminina – pioneira no Brasil, que tem como foco democratizar a nossa própria fertilidade. 

“Se antes esse só era um exame feito por pessoas mais velhas quando esbarravam na dificuldade de engravidar, hoje, em um mundo em que esses planos ficam cada vez mais para frente na vida, ter esse conhecimento sobre nosso corpo é essencial – até para evitar frustrações e tomar medidas preventivas desde mais cedo”

Amanda Sadi
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Amanda Sadi
Amanda Sadi Fertilid/Divulgação

Com uma caixa em tons açucarados, linguagem jovem e acessível e um protocolo superfácil de seguir, o kit da empresa chegou na minha casa em poucos dias. O exame é tranquilo de ser colhido: com apenas três furos nos dedos, daqueles pequenos de medir glicemia, você preenche três círculos com seu sangue, espera secar por duas horas, envia o envelope (que já vem na caixa) por correio e aguarda os resultados, que chegam no seu e-mail em cerca de quinze dias.

Assim que receber os resultados, você pode marcar uma consulta com uma das duas ginecologistas e uma psicóloga para conversar. Apesar do dossiê enviado ser bem completo, é importante ouvir palavras de especialistas sobre o que tudo aquilo significa. Vale dizer que há a opção, no entanto, de apenas fazer o exame e receber o relatório – o que funciona perfeitamente, já que ele é super fácil de entender e você pode levá-lo para sua médica de preferência se tiver alguma dúvida. Na consulta com a Dra. Beatriz Pavin de Toledo, que faz parte da equipe da Fertilid, ela me explicou todos os detalhes do meu resultado, que foi bastante surpreendente.

Kit Fertilid – produto aberto
Kit Fertilid – produto aberto Fertilid/Divulgação

Mesmo com um ovário a menos e sendo fumante há quase onze anos, meu exame de hormônio Antimülleriano deu 3,41 ng/ml, o que é dentro do esperado para pessoas com dois ovários da minha idade. A doutora explicou o que isso significava e ainda perguntou sobre minhas cólicas fortes – um dos indícios de endometriose – e meus hábitos no geral, pedindo para ficar de olho caso os sintomas mudassem. Como meus resultados estavam dentro do esperado, a consulta foi baseada nas minhas opções daqui pra frente, explicando como as reservas ovarianas funcionam.

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Fertilid/Divulgação

Afinal, quem deveria fazer esse exame?

Por muitos anos, o Antimülleriano foi um exame indicado apenas para mulheres que estavam com dificuldades de engravidar e para quem precisava fazer reprodução assistida. Até hoje, os planos de saúde e o SUS não cobrem esse exame, que é resultado de uma coleta de sangue simples, já que reprodução é um assunto “eletivo”. A entrada da Fertilid no mercado e, consequentemente, de mais pessoas com ovários que não necessariamente querem ter filhos agora fazendo o exame, é importante pois representa uma autonomia maior sobre nossos corpos e nossa saúde. Informar-se sobre a sua reserva ovariana não é necessariamente apenas para quem quer engravidar, mas para entender seu ciclo, a necessidade de congelamento de óvulos (se seu plano for ter filhos no futuro) e sua menopausa. Nesse caso, como em muitos, informação é poder. 

“A ideia é que mais pessoas tenham conhecimento das suas reservas para entender e fazer planos para o futuro. Se antes esse só era um exame feito por pessoas mais velhas quando esbarravam na dificuldade de engravidar, hoje, em um mundo em que esses planos ficam cada vez mais para frente na vida, ter esse conhecimento sobre nosso corpo é essencial – até para evitar frustrações e tomar medidas preventivas desde mais cedo”, explica a fundadora. A Fertilid tem como missão falar de reprodução além da maternidade e da heteronormatividade e, com apenas alguns meses de vida, vem conseguindo exercer essa função bem.

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