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Saúde mental virou moeda. E agora?

Nunca falamos tanto sobre esse assunto. Mas capitalizar em cima de empatia e militância para gerar engajamento está longe de agregar ao tema

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 31 mar 2021, 20h35 - Publicado em 30 mar 2021 00h03
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Redação/Redação

Se você chegou a março de 2021 morando neste planeta – especialmente no Brasil –, muito provavelmente você já ouviu aquela frase: “se você tem noção do que está acontecendo, não tem como você estar bem”. Estamos passando por uma pandemia que está longe de acabar, vemos uma crescente de governos de direita no mundo todo, temos um presidente genocida, a quantidade de pessoas em situação de rua só aumenta, a moeda do Brasil nunca esteve tão desvalorizada. Eu infelizmente poderia seguir listando outros motivos para arregalar os olhos e dar uma choradinha, mas eu não vou fazer isso porque nem você, nem eu, temos saúde mental suficiente para lembrar de tudo que tem de errado no mundo.

Essa, inclusive, parece ser uma das principais pautas dos tempos atuais e, talvez, dessa geração. As buscas por transtornos mentais no Google aumentaram 98% em relação à média dos últimos dez anos, de acordo com dados fornecidos pela própria plataforma. Além de falar sobre as doenças, quando olhamos para assuntos relacionados à saúde da nossa mente e esse universo de discussão, como “empatia”, é possível observar um aumento de 450% no interesse, também de acordo com o volume de buscas no Google. “É um tema que faz parte do nosso inconsciente coletivo e esse mal estar da sociedade se reflete até na produção cultural. Nunca tiveram tantas séries na Netflix falando sobre psicopatas, relacionando seus comportamentos a questões de saúde mental. Também existe um boom de séries como Euphoria e We Are Who We Are, que falam sobre as gerações mais novas, seus dramas e conflitos, seus problemas de saúde mental. Na música, temos o Emicida, com AmarElo, fazendo um álbum inteiro dedicado a essa questão. Sinto que de fato é um reflexo do que a gente está vivendo, do que a gente está passando no mundo”, pontua o escritor, consultor e palestrante André Carvalhal

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Se no ambiente digital a procura por termos relacionados à saúde mental subiu, na “vida real” o fenômeno também foi o mesmo. “Houve um aumento muito grande na demanda por profissionais de saúde mental durante a pandemia. Recebo pedidos de atendimento toda semana, muitos, e faz muito tempo que estou sem agenda. O crescimento da procura por atendimento psicológico não foi só de pessoas, mas também de organizações, porque as empresas estão entendendo que os funcionários adoeceram psiquicamente durante a pandemia”, relata o psicólogo Lucas Veiga, mestre em psicologia e expoente da Psicologia Preta, vertente da psicologia que oferece uma série de ferramentas que, em meio às violências do racismo, ajuda a promover saúde mental para a população negra. “Não vejo isso diminuindo, apenas ascendendo, e acho que isso está diretamente ligado à popularização da discussão. Até muito pouco tempo atrás no Brasil, para a grande população brasileira – que, vale lembrar, não é a gente, eu e você, privilegiados com ensino superior e que faz reflexões –, terapia era coisa para maluco. Esse discurso, que se tornou hegemônico durante muito tempo, despedaçou durante a pandemia”, ele completa.

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Pessoas que não estavam familiarizadas com terapia e discussões sobre saúde mental porque nunca tiveram acesso têm se tornado cada vez mais próximas do tema graças à internet e, mais especificamente, ao Instagram, rede em que o próprio Lucas discute questões desse universo em seu perfil. Além de profissionais, influenciadores e comunicadores também vêm se debruçando sobre o tema – nem sempre de forma responsável. E é aí que mora o problema. Um olhar rápido na timeline de boa parte dos usuários do Insta é capaz de flagrar vídeos longos no IGTV falando sobre a importância da vulnerabilidade, do diálogo e de respeitar seu próprio tempo. 

“A gente já tinha diagnosticado que existia uma ‘epidemia’ de saúde mental, principalmente entre uma galera jovem. Todo mundo que vive a onda dessa geração do trabalho precarizado, poucos direitos trabalhistas, jornadas gigantes, sem estabilidade… tudo isso acho que já agravava a discussão. A pandemia contribuiu para todo mundo ficar ainda mais desesperado e acho que a internet de uns tempos pra cá deu uma piorada”, critica Caio Braz, jornalista, apresentador e influenciador. “O conteúdo começou a ficar angustiante e começou a me irritar a forma que os criadores de conteúdo estavam começando a se apropriar desse tema. Durante um tempo, foi legal problematizar, a internet te celebra como ser pensante, isso é um elemento de distinção. Mas isso começou a se transformar numa terapia, pessoas trazendo problemas da vida privada que são colocados como problemas estruturais”, continua.

É claro que as pessoas podem se identificar com a dor do outro e isso é uma forma de exercer e propagar a empatia. Mas, quando transformamos isso em conteúdo, estamos entrando de cabeça no tecnocapitalismo: a busca incessante pelo like e pelo engajamento como forma de ganho social e, por que não, financeiro também. O impacto disso também está em perceber o desgaste que é ter a grande potência da internet em expor suas fraquezas, suas vulnerabilidades, para que outros se identifiquem. “Porra, isso não resolve nada. Tudo isso tem a ver com rede e formato. O Instagram é a mais monetizável, é tudo sobre dinheiro. A internet atualmente é muito pouco sobre sentimentos, pouco sobre o que as marcas têm cooptado. Tudo isso está perdendo sentido. Eu posso fazer um vídeo de bullying contando um caso pessoal, o IGTV distribui muito bem esse conteúdo, compartilha dentro da própria rede – coisa que o YouTube não oferece como opção –, mas ainda assim você ganha pouco dinheiro ali. A gente trabalha de graça pro Mark [Zuckerberg]”, explica Caio.

“Tudo isso tem a ver com rede e formato. O Instagram é a mais monetizável, é tudo sobre dinheiro. A internet atualmente é muito pouco sobre sentimentos, pouco sobre o que as marcas têm cooptado. Tudo isso está perdendo sentido”

Caio Braz, apresentador e influenciador

André Carvalhal endossa esse ponto e reforça que o ideal é que especialistas no assunto estejam sempre presentes na discussão ou sejam consultados para, pelo menos, produzir conteúdo em parceria. “Esse tipo de postagem traz a sensação de que, por participar da conversa, você está resolvendo alguma coisa. Só compartilhar um post ou seguir um perfil desses não faz nada para mudar o problema estrutural. As redes sociais também são responsáveis por uma série de gatilhos, um esquema parecido com o que acontece na moda, que precisamos questionar. Redes que não são feitas por profissionais qualificados podem trazer problemas enormes de recomendações e generalizações. Isso é indiscutível.”

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Saúde mental também é política

Se as causas que mais afetam a nossa saúde mental vão do preconceito que existe na sociedade a questões como remuneração nas redes e tecnocapitalismo, faz sentido relacionar esse boom no assunto – e quase uma banalização no seu tratamento – à política? A resposta é sim. “As experiências minoritárias só são minoritárias a partir do colonialismo. O sofrimento psíquico tal como conhecemos hoje é sempre político. Dizer isso não quer dizer que ele é culpa do governo, mas que ele é sempre produzido no contexto social em que aquela subjetividade está inserida. A gente vive num contexto social que produz efeitos, e um deles é adoecer. O adoecimento psíquico contemporâneo – burnout, pânico, ansiedade, depressão – são absolutamente políticos, efeito do tempo que a gente vive nas nossas subjetividades”, pontua Lucas Veiga. 

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E se o assunto cresce, mexendo com temas políticos e tão quentes das redes sociais, uma coisa é certa: as marcas também estão de olho na discussão. Há algumas semanas, o Twitter pegou fogo em críticas a uma marca de cervejas que, em plena discussão sobre tortura psicológica, bullying e bifobia, convocou seus embaixadores – nomes como a cantora Preta Gil e a influenciadora Pequena Lô – a se posicionar sobre isso. Sim, estamos falando das polêmicas em torno de Karol Conká e sua eliminação com recorde de rejeição, que esbarrou mais uma vez no papo sobre cancelamento

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“Quando o capitalismo começa a protagonizar a pauta da saúde mental, ela começa a ser esvaziada. Quando você expõe um problema seu, sério, e recebe uma enxurrada de aceitação, isso traz acolhimento, ainda que não solucione o problema. O grande problema é que saúde mental virou um capital. Se eu sou uma pessoa vulnerável, tenho dificuldades, vou capitalizá-las, e as marcas também vão. Muita gente já sacou como envelopar essas palavras do momento, que são as de representatividade, acolhimento, para narrar sua desgraça de uma maneira instagramável”, completa Caio. 

“A gente não pode achar que somente uma camiseta escrito ‘empatia’ seja capaz de mudar de fato alguma coisa estruturalmente. Muitas vezes, essas iniciativas acabam criando zonas de conforto. Quem apoia e se relaciona com uma marca desse tipo não pode achar que aquilo é suficiente para resolver o problema”

André Carvalhal, escritor e consultor

E não são apenas ações de marketing como a citada acima que se apropriam desse discurso. Recentemente, algumas marcas de moda também surgiram cunhando um novo – e quase non-sense – termo fashion: mental wear, com a proposta de produzir “roupas que melhoram sua saúde mental”, endossada inclusive por relatórios de tendências de grandes agências. Será que uma mensagem positiva em uma camiseta é suficiente para, de fato, impactar na sua saúde mental ou na de quem vê? Ou será apenas mais um discurso vazio, sem outras ações de tais marcas para ampliar a discussão de forma responsável?

 

“Assim como o documentário do Emicida, não temos como negar o quanto essas coisas podem ser positivas no sentido de estimular que as pessoas se abram, conversem sobre isso. A moda tem esse poder de entrar na vida das pessoas. Mas a gente não pode achar que somente uma camiseta escrito ‘empatia’ seja capaz de mudar de fato alguma coisa estruturalmente. Muitas vezes, essas iniciativas acabam criando zonas de conforto. Quem apoia e se relaciona com uma marca desse tipo não pode achar que aquilo é suficiente para resolver o problema”, explica André Carvalhal. O fato de comprar ou usar acaba sendo muito parecido com compartilhar um conteúdo sobre isso no Instagram, curtir uma página que fala sobre isso: traz certo conforto de que algo está sendo feito, mas isso não acontece de fato. “Roupas que ajudam a melhorar a saúde mental seriam roupas que geram empregos decentes, que são inclusivas, que promovem diversidade e inclusão na cadeia da moda, marcas que não excluem pessoas de nenhum tipo. Essas coisas sim são responsáveis por causar os problemas mentais que essas marcas estão tentando combater”, completa André.

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Linha tênue

A discussão é grande, profunda e delicada. De um lado, é óbvio que precisamos discutir saúde mental e suas causas, especialmente para populações minorizadas socialmente. Do outro, a propagação da discussão, assim como boa parte dos movimentos que acontecem na nossa sociedade capitalista, se torna um produto rapidamente e isso acaba esvaziando a discussão. Qual seria, então, o limite? Para Caio, a resposta está em não medicalizar a audiência. “Recentemente, chegou para mim um pedido de uma publicidade de um probiótico que prometia ajudar a saúde mental das pessoas através do intestino. A regular seu intestino, determinado probiótico regularia também suas emoções e isso seria benéfico para as pessoas. Achei muito problemático divulgar isso. Pode até ser verdade, mas enquanto comunicador, eu não devo recomendar isso pras pessoas, é uma responsabilidade enorme você prometer redenção”, relata. 

“Nossa empatia é muito seletiva às vezes, a gente se conecta facilmente com a dor do outro – porque é do outro e não é nossa. Eu acolho, mas não dói em mim. E é ambíguo, porque você também pode se identificar pela, mas isso deixa a gente atrapalhado. É uma questão do contemporâneo, que inclui a pandemia, mas vai além dela”

Lucas Veiga, psicólogo

Já Lucas aposta em olhar a questão por outra ótica para evitar o esvaziamento e também evitar comportamentos que pareçam benéficos, mas podem ser tóxicos. “Por que precisamos fazer conexão com o outro através da vulnerabilidade? Se estamos em um momento de menos interação, quase sempre mediada por telas, por que ela precisa se dar a partir da exposição e da partilha de vulnerabilidades? Nossa empatia é muito seletiva às vezes, a gente se conecta facilmente com a dor do outro – porque é do outro e não é nossa. Eu acolho, mas não dói em mim. E é ambíguo, porque você também pode se identificar pela, mas isso deixa a gente atrapalhado. É uma questão do contemporâneo, que inclui a pandemia, mas vai além dela.”

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