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Era faxineira, hoje é empresária e rica

A comunicadora Veronica Oliveira, criadora do "Faxina Boa", fala sobre preconceito com as domésticas, pandemia e leis trabalhistas

por Beatriz Lourenço 14 abr 2021 01h45
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Clube Lambada/Ilustração

lém da sujeira, uma boa faxina resolve as dores do chifre, términos ruins, decepções e também pode servir como uma renovação simbólica de energias. Mas, para Veronica Oliveira, criadora do projeto Faxina Boa, a limpeza foi vista como uma possibilidade de recomeço: após ser internada em uma clínica psiquiátrica por tentativa de suicídio, trabalhar como doméstica foi a forma encontrada de sustentar a família – e tudo começou com uma dose de bom humor.

Em 2016, Veronica trabalhava com telemarketing, mas ficou sem emprego após a empresa falir. Um dia, limpou a casa de uma amiga em troca de R$ 150 e percebeu que essa poderia ser sua profissão. “Se eu fizesse isso todos os dias, ganharia mais do que meu emprego anterior”, diz. Foi aí que teve a ideia de anunciar o serviço em grupos do Facebook com cartazes divertidos e inspirados em séries e filmes que gosta. Seu rosto foi parar no corpo de personagens como The Flash, Eleven e até Beatrix Kiddo, do filme Kill Bill. “Isso foi importante porque trouxe pessoas parecidas comigo, a maioria gostava das mesmas coisas que eu e eram da minha faixa etária”, relembra.

Sua visibilidade foi crescendo à medida que ela também publicava relatos de seu dia a dia na casa dos clientes. Nesse processo, a baiana de 39 anos teve que lidar com o preconceito de amigos, dos familiares e daqueles que a chamavam para trabalhar. “Eu ouvi muitas perguntas como ‘quem pensa os posts por você?’, ‘você não tem vergonha de ser faxineira?’ ou até ‘você é bonita para fazer isso’. Foi como se eu não pudesse ser faxineira e inteligente ao mesmo tempo”, afirma.

Quatro anos após viralizar, Veronica passou a se dedicar apenas à página, consolidando-se como criadora de conteúdo. Para ela, as parcerias que aceita devem abrir o debate sobre a valorização do trabalho e a depressão, além de tentar ajudar outras mulheres em situação de vulnerabilidade. No mês de novembro de 2020, sua história foi lançada no livro Minha vida passada a limpo: Eu não terminei como faxineira, eu comecei. Em uma conversa descontraída, ela nos conta o que mudou do primeiro post até hoje (além de se tornar amiga de internet da cantora Maria Rita).

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Cauê Paz/Divulgação

Você percebeu algum tipo de preconceito quando começou a faxinar a casa das pessoas? Como lidou com isso?
No primeiro momento, recebi comentários de amigos perguntando se eu não tinha vergonha do que estava fazendo ou se eu não me preocupava com o que as pessoas pensavam. Mas eu tinha que sustentar minha família e esse é um trabalho como qualquer outro, não havia motivos para ficar com vergonha. Também percebi o preconceito dos próprios clientes ao ouvir falas do tipo “como você vê séries se mora em um barraco?”, ou “quem pensa nos seus conteúdos?” e até “você é bonita para ser faxineira”. Há um pensamento enraizado de que não se pode ser inteligente e trabalhar limpando casas ao mesmo tempo.

Quando ouvia essas coisas, não costumava reagir na hora. Eu absorvia a informação e depois transformava em um post, usando a minha escrita para colocar aquilo para fora e levando essa reflexão para quem estivesse lendo. Eu penso que ainda falta empatia nas pessoas, se elas negam até água para quem está limpando a casa delas, imagina o respeito.

De que forma seu trabalho transforma a vida de outras pessoas? Você pensa em usar a plataforma para engajar outras trabalhadoras?
A primeira vez que me dei conta disso foi quando uma mulher me escreveu dizendo que ela era faxineira enquanto as irmãs exerciam trabalhos formais. A mãe delas, por sua vez, dizia que ela era a que não tinha dado certo na família, mesmo sendo a que ganhava mais dinheiro. Ela me contou que criava os filhos muito bem e ninguém conseguia ver seu valor. Porém, quando viu minha página, passou a ter orgulho do que fazia. A partir disso, comecei a perceber a importância da produção de conteúdo. Conforme fui aprendendo a gerenciar as redes sociais, entendi o alcance e o impacto que eu tinha para as pessoas que estavam me acompanhando.

“Eu penso que ainda falta empatia nas pessoas, se elas negam até água para quem está limpando a casa delas, imagina o respeito”

Veronica Oliveira

Na medida do possível, sempre tento ajudar outras trabalhadoras. Às vezes, um post acaba se tornando um projeto publicitário e isso é muito legal porque é assim que consigo fazer algo efetivamente. Por exemplo: recentemente, publiquei no Facebook falando para as pessoas incentivarem as mulheres empreendedoras para que elas consigam se manter nesse momento difícil. Também já fiz, junto com uma empresa, arrecadação de dinheiro para ajudar nas diárias das faxineiras que perderam o trabalho durante a pandemia. Sempre penso em como posso transformar o espaço e o alcance que tenho para fazer parcerias voltadas a essas causas.

Como foi conciliar o trabalho das faxinas com a criação de conteúdo?
Foi muito difícil, porque eu só conseguia usar tempo da condução entre minha casa, o bairro de Itaquera, em São Paulo, até a casa dos meus clientes para criar os posts. Em média, era uma hora e meia por dia. Durante a limpeza, eu tirava algumas fotos, mas o planejamento geral era complicado, por isso nunca teve uma regularidade de publicações.

Com o tempo, entendi esse movimento como trabalho. Quando chegou a pandemia, parei de fazer faxinas e, por passar mais tempo em casa, consegui optar por esse caminho exclusivamente. No começo, eu ganhava mais com faxina do que com as redes sociais. Eu não sabia como usar o alcance, a relevância, o engajamento e precificar o trabalho. Mas fui me cercando de outros produtores, contratei uma empresa que sabia fazer essa cobrança e as coisas fluíram super bem.

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A internet é um fenômeno que muda muito rápido, você acredita que consolidou seu nome nas redes sociais?
O que eu mais ouvi quando comecei, em 2016, foi a frase “aproveita que isso acaba logo”. Eu sempre entendi o quanto ela é real, mas também pensei como não deixar tudo isso acabar. Assim, investi em diversos conteúdos, entrei para o Instagram, para o Linkedin, para o Twitter e, hoje, performo muito bem em cada uma dessas redes. O que eu percebo é que tudo vai mudando ao longo do tempo. Sempre que chega gente nova para me seguir, por exemplo, eu preciso explicar quem eu sou e o que eu faço. Porém, a parte da construção da marca e da relevância já passou, então aqueles que querem falar sobre a valorização do trabalho, empoderamento e saúde mental me procuram pois sabem que eu posso fazer isso. Ainda que seja um desafio continuar sendo relevante na internet depois de quatro anos, eu já não preciso batalhar pelo espaço de ser notada e isso me deixa mais tranquila.

Outra coisa que eu tenho feito é caminhar por outros espaços. Apareceram trabalhos como palestrante e apresentadora! São coisas que eu nunca imaginei, mas que aprendi a fazer porque me entendi como comunicadora. É incrível pensar que fiz um post para fazer faxina e hoje estou sendo chamada para diversos eventos importantes.

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Cauê Paz/Divulgação

Como foi o processo de escrita do primeiro livro?
Eu sempre brinco que meu livro foi escrito sentada no chão do trem porque eu realmente ficava encostadinha do lado da porta digitando no celular e guardando tudo no Google Docs, mas sem nenhuma pretensão. Eu gostava de ter o registro das histórias que estavam acontecendo, até que a editora chegou com a proposta de publicação e eu tive que organizar tudo e escrever o que faltava. Foi um processo difícil porque boa parte disso foi feito durante a pandemia.

Cheguei a pensar até em contratar um ghost writer. Fiz um teste e, quando recebi o primeiro capítulo, percebi que não parecia comigo. Com isso, decidi que eu mesma escreveria tudo. Foi muito trabalhoso, mas acredito que ficou mais honesto. O que me preocupou foi o tipo de escrita simples, mas acho que isso também gerou uma conexão com o leitor. No fim, fiquei satisfeita e senti que consegui contar a minha história e pontuar algumas coisas que acho importantes, como o preconceito com quem não tem diploma, assédio e como é morar na periferia.

“[sobre o livro] Fiquei satisfeita e senti que consegui contar a minha história e pontuar algumas coisas que acho importantes, como o preconceito com quem não tem diploma, assédio e como é morar na periferia”

Veronica Oliveira
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Cauê Paz/Divulgação

A pandemia mudou a percepção da faxina e do lar?
Com certeza, mas não posso garantir que isso vai refletir positivamente no futuro. As pessoas passaram a entender o quão difícil, demorado e pesado é limpar a casa a partir do momento em que elas passaram a fazer isso sem ajuda. Fiquei muito surpresa quando, em junho do ano passado, o item de varejo mais vendido no Brasil era o MOP. Antes da pandemia, se uma faxineira pedia para o cliente comprar um desse, ele negava porque a vassoura faz a mesma coisa e é mais barata. Aí, quando eles começaram a fazer esse trabalho, sentiram a necessidade de deixá-lo mais simples.

Temos uma legislação trabalhista que reconhece o trabalho das domésticas, mas ainda há muitas que não são registradas. Você percebe isso como um problema?
É um problema e não é. Por um lado, há aqueles que têm condições de assinar a carteira e preferem contratar duas faxineiras para não formalizar as trabalhadoras. Por outro, as domésticas conseguem criar o CNPJ para ter acesso aos auxílios e não ficam tão abandonadas. É óbvio que o ideal seria o registro, mas isso ainda é muito difícil de acontecer. Precisamos lembrar que a PEC das domésticas ainda é muito recente e não tem nem dez anos. Isso quer dizer que, até pouco tempo, fazer faxina não era nem uma profissão. Por isso, acredito que ainda estamos na fase de fazer com que as pessoas entendam o escopo e o valor desse trabalho.

Outro problema que tem a ver com a lei trabalhista é que, ao longo das décadas, a relação entre cliente e empregador se aproximou e virou uma relação pessoal. Isso geralmente é usado de forma abusiva. A fala “você é como se fosse da família” faz com que a doméstica se sinta no dever de fazer mais do que sua obrigação. Dessa forma, a denúncia nunca acontece e, quando ocorre, não vai para a frente. Parece que é tudo arquitetado para que a profissão não evolua.

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Cauê Paz/Divulgação

Ainda há quem não entenda e reconheça seu trabalho?
É engraçado isso porque eu penso qual é o trabalho que as pessoas respeitam. Quando eu trabalhava no telemarketing era criticada, aí passei a ser faxineira e também fui, agora sempre ouço que blogueira não trabalha e só ganha presentes. As pessoas acham que quem trabalha com internet não faz nada, é claro que não é possível comparar com uma faxina pesada, mas é algo que demanda muito planejamento e esforço mental. Outro dia, recebi uma mensagem de uma pessoa que não entendeu minha história e perguntou “você era faxineira e agora é empresária e rica?”. Eu achei muito engraçado e respondi que sim, é isso mesmo!

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