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Pela primeira vez, uma Bienal mais diversa e com consciência política

'Faz Escuro Mas Eu Canto', título da 34ª edição do evento, nos remete à possibilidade de criar arte em meio ao caos

por Beatriz Lourenço Atualizado em 3 set 2021, 12h00 - Publicado em 3 set 2021 00h58
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Clube Lambada/Ilustração

este sábado, 4, acontece a abertura da 34ª edição da Bienal de São Paulo. A mostra traz 91 participantes e mais de mil obras ao Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera. No entanto, o aniversário de 70 anos do evento chega com novidades: consciência política, diversidade de artistas e uma proposta de diálogo com a sociedade.

“Podemos esperar muito da mostra. Acredito que será uma emoção voltar a visitar uma exposição desse tamanho”, diz o curador Jacopo Visconti — que propõe o tema “Faz escuro mas eu canto” para representar o momento social em que vivemos. O verso do poeta amazonense Thiago de Mello, publicado em 1965, mostra a força da resistência em tempos sombrios. “Há dois anos, quando começamos a organizar a Bienal, a leitura que se fazia do verso era ligada à situação política do Brasil. De lá para cá, as coisas se tornaram ainda mais difíceis de todos os pontos de vista e ele ganhou ainda mais importância”, conta Visconti. “Esse canto é entendido como uma metáfora de qualquer atividade cultural e a vontade de fazer arte em momentos de grande dificuldade.”

“Há dois anos, quando começamos a organizar a Bienal, a leitura que se fazia do verso era ligada à situação política do Brasil. De lá para cá, as coisas se tornaram ainda mais difíceis de todos os pontos de vista e ele ganhou ainda mais importância”

Jacopo Visconti

A 34ª Bienal chega em um momento de polarização política, de desigualdade e muita luta das minorias. Para o curador, mostrar que isso importa significa um esforço para diminuir as disparidades no campo da arte: esta é a primeira vez que artistas indígenas e não binários fazem parte da lista de convidados. Além disso, artistas mulheres como Ximena Garrido-Lecca, Carmela Gross e Frida Orupabo se destacam no Pavilhão.

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“As obras de artistas indígenas são extraordinárias e mereciam ser escolhidas independente de qualquer outra consideração. Entendemos que não estamos dando voz, mas reconhecendo o espaço que eles merecem ter há tempos”, afirma Visconti. “Nesse sentido, nunca criamos lugares para produções específicas. Não há uma área para a produção indígena. Elas estão integradas a partir de pontos de vista e momentos diferentes para mostrar tanto sua força, quanto a falta que elas nos fazem para entendermos fatos que achávamos que já tínhamos entendido.”

Para o italiano, no entanto, ainda há muito o que se fazer uma vez que a representatividade numérica ainda não foi alcançada no mercado da arte. Segundo ele, é preciso colocar todos os membros da sociedade no mesmo lugar de partida. “A igualdade ressignificaria o mundo como um todo”, declara. 

Visita-palestra com Lúcio Gomes Machado durante o programa Pavilhão Aberto, apresentado pela Fundação Bienal de São Paulo.
Visita-palestra com Lúcio Gomes Machado durante o programa Pavilhão Aberto, apresentado pela Fundação Bienal de São Paulo. Levi Fanan / Fundação Bienal de São/Divulgação

“As obras de artistas indígenas são extraordinárias e mereciam ser escolhidas independente de qualquer outra consideração. Entendemos que não estamos dando voz, mas reconhecendo o espaço que eles merecem ter há tempos”

Jacopo Visconti

Mas nem toda essa discussão fica clara para os visitantes. Isso porque os organizadores também trabalharam com o conceito de opacidade. Ou seja, mesmo que as obras tenham o objetivo de proporcionar o diálogo, nem sempre é possível entender tudo sobre o outro. Ainda assim, estar disposto a construir relações faz toda a diferença. “Falando especificamente da arte contemporânea, as pessoas entram em uma exposição achando que precisam gostar de tudo mas, na verdade, não é bem assim. Se você entrar com uma predisposição e saber que a sua interpretação é muito importante, a maneira como você vai se sentir será mais gratificante”, completa Jacopo.

Para saber um pouco mais sobre os trabalhos apresentados na Bienal, conversamos com cinco artistas que contaram suas histórias, visões de mundo e falaram sobre sua arte. 

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Gustavo Caboco / Bienal de São Paulo/Divulgação

Gustavo Caboco

As obras de Gustavo Caboco têm a ver com a história de sua família. Lucilene, sua mãe, que nasceu na terra indígena Canauanim, em Roraima, foi deslocada de forma forçada e ficou anos longe dos seus. Essa prática criminosa era muito comum durante a ditadura militar no Brasil. Apenas em 2001, 33 anos depois de ter sido tirada de sua terra, conseguiu voltar — levando consigo o filho. Assim, Caboco cria a partir de sua ideia de retorno à terra e de fortalecimento de suas raízes. Entre os desenhos, bordados e pinturas que irá apresentar, ele mostra as vozes do povo Wapichana e de entes como as plantas, as pedras, as serras, os rios e o céu.

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Gustavo Caboco / Bienal de São Paulo/Divulgação

Suas obras evidenciam o retorno à terra. Como ele aconteceu e o que ele significa para você?
Esse é um retorno contínuo. Sempre digo que é um caminho de ida, e não de volta. O retorno específico para Roraima tornou mais evidente algumas histórias que eu ouvia e ressignificou a própria assimilação de família. Ao mesmo tempo, foi e ainda é muito confuso. Esse movimento acabou trazendo à tona uma reflexão sobre o porquê dessas remoções forçadas e as tentativas de apagamento serem tão comuns. A nossa história é apenas uma das histórias não ouvidas dentre diversas outras por aí. 

No campo da história da arte, você sente que há uma mudança de protagonismo em relação à arte indígena?
Quando abrimos algum livro didático, há pinturas que vemos e não aproximamos da nossa própria realidade. Quando olhamos para as questões indígenas, muitos desses registros são portais para um passado que também é presente. Isso porque ele conta muito do que somos ainda hoje. Muitos artistas, ao longo do tempo, tentaram representar e apresentar os indígenas. Acontece que sempre soubemos contar nossa história, atravessamos o campo da arte nesse momento fazendo algo que já havia sendo feito por muito tempo. No entanto, agora é a hora de mostrarmos o nosso protagonismo, no qual precisamos estar nos auto representando e trazendo nossos multiolhares ao público. 

Detalhe Watuminpen waparadan day pedra do céu, 2021
Detalhe Watuminpen waparadan day pedra do céu, 2021 Gustavo Caboco / Bienal de São Paulo/Divulgação

“Quando abrimos algum livro didático, há pinturas que vemos e não aproximamos da nossa própria realidade. Quando olhamos para as questões indígenas, muitos desses registros são portais para um passado que também é presente. Isso porque ele conta muito do que somos ainda hoje”

Gustavo Caboco

Como as obras dialogam com o momento social que estamos vivendo?
Uma das ideias das obras é a de “campo em chamas” que mostra que tudo está sob ataque e em fogo, no sentido da memória e do apagamento histórico. Assim, a gente entende que a arte é uma ferramenta que nos ajuda a atravessar e esse momento e, mais ainda, funciona como um ato de resistência. 

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Mauro Restiffe, Inominável #1
Mauro Restiffe, Inominável #1 Bienal de São Paulo/Divulgação

Mauro Restiffe

Mauro usa uma câmera analógica Leica para trabalhar e, entre 2003 e 2019, suas lentes registraram fotografias que documentam o percurso da política brasileira: as posses do presidente Lula e de Jair Bolsonaro. Os contrastes e as semelhanças dos dois eventos, que estarão juntos na mesma parede, são revelados de forma que o espectador conseguirá refletir sobre a dualidade em que a sociedade vive hoje. “Estamos divididos, mas estamos no mesmo território”, diz Restiffe. 

É possível comparar a sensação dos momentos das fotos com as atitudes dos dois governos?
O que me marcou muito no momento de registro das duas séries foi o contraste do direito de ir e vir. Na posse do Lula, foi tudo aberto e sem barreiras, era possível circular por qualquer lugar da Esplanada dos Ministérios. Já na do Bolsonaro, fui barrado assim que cheguei. Em relação ao governo Lula, acredito que conseguimos viver uma inserção social e de classes. Pela primeira vez, o brasileiro teve acesso à cultura, educação e, principalmente, direitos. Também foi o momento em que o país saiu da pobreza. Em contraponto, agora estamos passando por uma crise sanitária que está sendo extremamente mal conduzida e nos custando muito caro. 

Mauro Restiffe, Empossamento Revisitado #14
Mauro Restiffe, Empossamento Revisitado #14 Bienal de São Paulo/Divulgação

Muito se fala sobre a disseminação da fotografia e da democratização da imagem. O que isso gera para a sociedade?
Eu acho que vivemos em um mundo em que milhões de imagens estão sendo captadas a cada segundo. Isso tem um lado bom porque cada pessoa também pode ser considerada fotógrafa. Além disso, as condições das câmeras melhoraram e criamos uma capacidade de registro muito grande. Mas, ao mesmo tempo, existe uma dispersão por conta dessa quantidade. Quando fotografamos pelo celular, por exemplo, é possível que a foto fique lá e nunca mais seja acessada. A minha prática é analógica, ou seja, tem outro tempo e relação com a fotografia. Hoje eu penso neste trabalho como uma desaceleração do ritmo do cotidiano — assim, é possível tratar das instâncias da vida com mais calma e contemplação.

“Vivemos em um mundo em que milhões de imagens estão sendo captadas a cada segundo. Isso tem um lado bom porque cada pessoa também pode ser considerada fotógrafa. Mas, ao mesmo tempo, existe uma dispersão por conta dessa quantidade. Quando fotografamos pelo celular, por exemplo, é possível que a foto fique lá e nunca mais seja acessada”

Mauro Restiffe

O papel do fotógrafo também é um papel de denúncia?
Depende do fotógrafo. Eu não trabalho no viés fotojornalista, faço mais fotos sobre o viver e o cotidiano. Pensar na fotografia como denúncia tem alguns perigos porque isso pode cair no sensacionalismo. Com essa série, eu proponho um tipo de questionamento mais sutil. A ideia é colocar os pontos de vista para o debate e a reflexão. A arte é uma forma de provocar pensamentos — e eu tento fazer isso colocando a história do país no plano da parede.

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Paulo Nazareth, CA _ C` QUE VOUS VOULEZ ?, 2013. Cortesia do artista e Galeria Mendes Wood DM
Paulo Nazareth, CA _ C` QUE VOUS VOULEZ ?, 2013. Cortesia do artista e Galeria Mendes Wood DM Bienal de São Paulo/Divulgação

Paulo Nazareth

Paulo é conhecido por suas andanças pelo mundo, que questionam os limites da performance como linguagem artística. Uma vez, foi de Minas Gerais para Nova York e, em seguida, para Miami a pé e de carona. Em um ato emblemático, o artista afirma ter lavado os pés no rio Hudson, onde deixou um pouco de terra da América Latina. Na Bienal, ele questiona o sistema carcerário e exalta personalidades que são conhecidas pela resistência ao sistema opressor.

Quais são os trabalhos mais marcantes que você apresentará na Bienal?
Eu fiz uma série de panfletos, que serão distribuídos, que falam sobre o fim dos presídios. Acredito que precisamos sair à frente e empregar os egressos. É preciso entender que essas pessoas têm plena condição de trabalhar na área cultural, seja como designers, artistas, seguranças, guardadores de volume, monitores, educadores ou qualquer outra função. Além disso, vou apresentar uma série de esculturas de pessoas importantes para nossa história que estarão espalhadas pelo Parque do Ibirapuera. Ao todo, são nove peças que incluem nomes como Marielle Franco, Carlos Marighella, João Cândido, Zequinha Barreto carregando Carlos Lamarca, Dina do Araguaia e Aqualtune. 

Como você escolheu esses personagens?
A escolha tem relação direta com o momento em que estamos vivendo. Todos eles são pessoas que fazem resistência ao sistema opressor desde que se fundou essa colônia. Aqualtune, por exemplo, é a mãe fundadora de Palmares: ela vem da África e aponta para esse lugar de luta da mulher negra. Já pensando no século 20, João Cândido é um homem negro marinheiro que fez resistência na base militar. Ele também é importante quando analisamos esse movimento de ressignificação dos monumentos. Isso porque há alguns anos foi proposta a criação de um busto dele no Rio de Janeiro e a marinha não permitiu que isso acontecesse. É por isso que eu o escolhi para a Bienal. A Marielli, por sua vez, marca a luta contra a milícia. 

Performance [A] LA FLEUR DE LA PEAU durante a<br />abertura da exposição Vento, parte da 34ª Bienal de São Paulo
Performance [A] LA FLEUR DE LA PEAU durante a
abertura da exposição Vento, parte da 34ª Bienal de São Paulo Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

“Essa Bienal tem um papel essencial porque há artistas que mostram a luta das minorias. Estamos vivendo em um momento muito conturbado, mas a resistência tem se mostrado muito forte. Quando comparamos a primeira Bienal com essa agora, podemos ver as diferenças: enquanto lá atrás o povo negro aparecia como objeto de estudo, hoje esses corpos estão como sujeitos pensantes”

Paulo Nazareth

O que falta para alcançarmos a igualdade racial no meio artístico?
Acredito que estamos caminhando pouco a pouco, mas ainda há muito conservadorismo. Na minha visão, essa Bienal tem um papel essencial porque há artistas que mostram a luta das minorias. Estamos vivendo em um momento muito conturbado, mas a resistência tem se mostrado muito forte. Agora é consolidar tudo isso e chamar outros artistas que não estejam no círculo branco. Quando comparamos a primeira Bienal com essa agora, podemos ver as diferenças: enquanto lá atrás o povo negro aparecia como objeto de estudo, hoje esses corpos estão como sujeitos pensantes. Ainda assim, é preciso um aumento de curadores negros e indígenas para que haja um reconhecimento de pares. 

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Uýra Sodoma
Uýra Sodoma Keila Serruya/Divulgação

Uýra Sodoma

Uýra Sodoma se define como uma entidade híbrida. Ela reflete conhecimentos científicos, luta pela natureza e sabedorias indígenas. Sodoma nasceu em 2016, quando o biólogo Emerson decidiu compartilhar seus conhecimentos acadêmicos com as comunidades de Manaus e seus arredores. De forma lúdica e simples, Uýra ensina sobre conservação ambiental, ancestralidade e direitos LGBT+. 

A arte é a melhor forma de propor o debate sobre temas como a conservação ambiental, os direitos indígenas e LGBT+ e o resgate da ancestralidade?
Falar sobre esses assuntos é caminhar com palavras e argumentos sobre a história política e a situação atual de cada um desses campos. O caminho da razão é necessário, mas também precisamos acessar o lado emocional. Para ensinar a uma criança sobre conservação ambiental, por exemplo, eu posso falar três dias sobre uma árvore ou estimular para que ela sinta a árvore. Provavelmente, juntando esses dois campos, ela entenderá muito melhor o que eu quero dizer. Já quando falamos sobre direitos indígenas, falamos de leis, de constituição e de uma história, mas, que por si só contada, e vemos isso no Brasil, não conectam as pessoas. É preciso que elas se solidarizem e coloquem-se em um local indígena pelo menos uma vez. Nesse sentido, a arte chega como um caminho para acioná-las pelo coração. 

Como as obras apresentadas na Bienal dialogam com o Brasil?
Todas as obras que serão apresentadas narram a natureza. De um lado, as fotos da série Mil quase mortos expõem uma natureza estranha de poluição das águas e do ecossistema e toda a naturalidade envolvida em torno dessas paisagens de violência. De outro, os demais trabalhos a elucidam a nível de ancestralidade, de beleza e de forma que demarcam sua potência. É preciso lembrar que não é de agora que vivemos o genocídio de povos indígenas. O último dia 25 de agosto foi marcado por uma tentativa do governo de retirar o direito constitucional aos territórios dos povos através do marco temporal. No mesmo momento em que isso está acontecendo, artistas indígenas estão em trânsito demarcando as violências e contando as histórias de suas vidas para que se lembrem de nós. Mais uma vez estamos na linha de frente da necessidade de uma nova postura em relação à vida.

“Quando falamos sobre direitos indígenas, falamos de leis, de constituição e de uma história, mas, que por si só contada, e vemos isso no Brasil, não conectam as pessoas. É preciso que elas se solidarizem e coloquem-se em um local indígena pelo menos uma vez. Nesse sentido, a arte chega como um caminho para acioná-las pelo coração”

Uýra Sodoma

Como a história de Uýra se relaciona com a brasilidade?
A Uýra é uma manifestação da minha vida. A existência das minhas e meus compõem a pluralidade e os diferentes tensionamentos e realidades que são íntimas da sociedade brasileira. Uýra, para mim, é uma entidade de comunicação que habita diversos canais que eu também habito enquanto pessoa, que é a dimensão indígena, trans, pessoa LGBT, periférica, amazônica e múltipla. A sociedade brasileira é o que eu sou: plural. 

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Alice Shintani, Mata, 2019-2021. Guache sobre papel. Cortesia da artista
Alice Shintani, Mata, 2019-2021. Guache sobre papel. Cortesia da artista Alice Shintani / Bienal de São Paulo/Divulgação

Alice Shintani

Conhecida por questionar o mercado artístico e incorporar de forma sutil às suas obras os afetos e as críticas sociais. Por quatro anos, ela vendeu brigadeiros na Av. Paulista para garantir sua liberdade artística e, nesse período, viu e viveu a disparidade de classes. Na rua, Alice passou pelo medo de não ganhar dinheiro, correu da polícia e fez amigos. “Tem muitas camadas no espaço urbano que parecem absolutamente invisíveis. É uma sociedade totalmente segmentada em castas e com conflitos entre as camadas sociais”, diz. Na Bienal, ela apresenta a série “Menas” — sanfoninhas pintadas que são organizadas em cima de caixas de papelão, que se assemelham à montagem da barraca de um feirante ou do tabuleiro de um ambulante. Já a série “Mata” é um trabalho de guache sobre papel com composições baseadas em elementos da flora e da fauna amazônicas.

Em seus discursos, você questiona a arte como mercadoria. Como você percebe esse caminho?
Quando eu fui convidada para a Bienal, eu estava com esse conjunto de guaches de flores, que eu jamais imaginaria apresentar em um evento do tipo. Elas são bonitas e, portanto, é muito fácil de virar produto. Ainda assim, eu quis compartilhar por ser um evento institucional. Mas eu parto do princípio de que tudo é produto. Qualquer expressão que eu coloque em circulação já é mercadoria de partida. Mas, será que é só mercadoria ou pode ser algo além disso? Acredito que todo trabalho é político! 

Alice Shintani, Mata, 2019-2021. Guache sobre papel. Cortesia da artista
Alice Shintani, Mata, 2019-2021. Guache sobre papel. Cortesia da artista Alice Shintani / Bienal de São Paulo/Divulgação

Como a instalação “Menas” tem a ver com a política nacional?
Essas sanfoninhas eu fui pintando nos últimos seis anos enquanto estava trabalhando de ambulante. Também foi o momento das manifestações anti-impeachment da Dilma. Eu vi uma menina, que estava do meu lado, perder o olho por conta de uma bala de borracha da Polícia Militar. Nesses momentos eu chegava em casa e, para desopilar, eu pintava. Então, aparentemente, não tem uma relação direta, mas é uma produção que eu fiz para aliviar meus sentimentos durante todo esse período.

“Estamos vendo um incêndio e destruição da nossa própria subjetividade. A série ‘Mata’ é embasada numa pesquisa de flora e fauna. Mas, se a gente abstrair um pouquinho, o que estamos perdendo nesse período recente? Uma certa sensibilidade em razão dessa violência toda”

Alice Shintani

E a série “Mata” também chega em um momento de queimada e de perda de flora e fauna brasileira.
Sim, mas mais do que isso, acho que estamos vendo um incêndio e destruição da nossa própria subjetividade. A série é embasada numa pesquisa de flora e fauna. Mas, se a gente abstrair um pouquinho, o que estamos perdendo nesse período recente? Uma certa sensibilidade em razão dessa violência toda. Então, acho que tem essa questão mais factual de políticas do Ministério do Meio Ambiente, do Bolsonaro, das redes sociais. Mas eu queria ir além e pensar: que outros lutos a gente também está vivendo? Assim, “Mata” tem dois sentidos: mata de floresta, e mata da atitude de matar algo. 

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