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A luta pela leitura

Diante de um momento de sufoco no meio literário, Elástica reuniu especialistas para debater o panorama e apontar soluções

por João Varella Atualizado em 14 set 2021, 12h10 - Publicado em 22 ago 2021 23h06
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Clube Lambada/Ilustração

pandemia atingiu em cheio diversas atividades, o mundo carregará sequelas. Embora seja arriscado fazer previsões, dá para afirmar que a relação que temos com os livros será modificada.

Essa linguagem dependente da materialidade física (os prognósticos dos anos 2000 do fim do impresso envelheceram feito leite) ficou sufocada. O isolamento social restringiu a atividade de livrarias e eventos, os espaços do contato de leitores com a literatura. A venda por meio de sites cresceu, mas será suficiente?

Antes da covid-19 já era difícil manter uma livraria em um país com fracos índices de leitura, alto analfabetismo e baixa percepção de valor do livro. Como se não bastasse isso, o governo de Jair Bolsonaro ameaça aumentar o imposto sobre os livros.

Para entender esse cenário e buscar soluções, Elástica reuniu um time de quatro notáveis para discutir o assunto:

Ketty Valencio, bibliotecária e criadora da livraria Africanidades;
Larissa Mundim, da editora Nega Lilu, feira e-cêntrica e livraria O Jardim;
Mariana Bueno, da Nielsen, que faz levantamentos como a Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro;
Zoara Failla, do Instituto Pró Livro (IPL), responsável pela pesquisa Retratos da Leitura.

Fui mediador e instigador do debate. Por transparência, aviso que também participo no meio editorial com a editora Lote 42 e as livrarias Sala Tatuí e Banca Tatuí.

Em uma conversa de quase duas horas, elas traçaram um panorama da situação e apontaram maneiras de estimular a leitura, cativando novos leitores. Uma luta atravessada pela política e a perspectiva de futuro do País. A seguir os principais trechos

Estamos lendo menos?
Zoara Failla: Nem mais, nem menos. Digo isso ao comparar com 2007, quando inicia a série histórica da Retratos da Leitura. Continuamos num patamar de cerca de 50% de leitores. Em 2015 melhorou um pouquinho, para 56%, agora a gente veio parar em 52% de brasileiros leitores. O que está em dúvida é o que as pessoas estão lendo. A leitura de livros teve uma queda importante, inclusive em estratos onde havia um maior percentual de leitores, entre as pessoas com nível superior e de classe A. Essas pessoas estão migrando para outras leituras, para as redes sociais. Isso que o conceito é super generoso, considera-se leitor quem lê qualquer gênero e até um trecho. Leitores de literatura são menos ainda, o percentual cai para 18%. Quantos fizeram a leitura de um livro inteiro? 31%. Então, na verdade, 52% é porque leu um pedacinho do livro, Bíblia, livro técnico, didático. É pouco.

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Instituto Pró Livro/Redação

Por que há essa perda de interesse nos livros?
Mariana Bueno: Os índices educacionais são muito ruins. Temos uma política de governo, não de estado. A nossa capacidade de leitura é muito curta e restrita. O Inaf [Indicador de Alfabetismo Funcional] mostra uma mobilidade da base para o meio, mas os plenamente capazes de ler permanecem em 12%. Desenvolver essa capacidade demanda tempo, às vezes uma geração inteira. Há também uma mudança de comportamento mundial no mercado do livro. As pessoas dividem seu tempo de maneira diferente, não se dedicam só ao livro.

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Mariana Bueno/Divulgação

ZF: É importante olhar para os não-leitores por conta do analfabetismo funcional, aquele que não compreende aquilo que lê. Quando a gente pergunta por que você não lê, quase 50% informam por dificuldade de compreensão leitora.

Larissa Mundim: Com a queda do número de analfabetos funcionais, veremos o número de leitores crescer, mas não necessariamente de leitores de literatura. Só quem tem acesso pode decidir se tornar leitor. Nesse sentido, vale ressaltar o trabalho das bibliotecas públicas, que estão desatualizadas, num processo de desmonte. Uma pesquisa do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas constata que a biblioteca pública é o centro cultural mais presente nos municípios brasileiros, em 2015 eram mais de 6 mil. Outra frente é o próprio mercado. Precisamos apoiar a formação e a qualificação de leitores.

MB: Do ponto de vista econômico, para o mercado livreiro o leitor representa demanda. Se metade da população não é leitora, temos uma restrição estrutural de demanda. A cadeia baixou o preço procurando escala. Houve um aumento de tiragem, mas há um teto da restrição estrutural. Livro é acesso ao exercício da cidadania, da busca pelo conhecimento. Hoje qualquer dado macroeconômico considera os índices educacionais. O Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], é contemplado nos relatórios de desenvolvimento do Banco Mundial. Isso determina o tipo de investimento direto externo. Qual é a qualidade desse investimento? É em ciência, em tecnologia ou é em mão de obra precarizada? Que país a gente quer ser? A macroeconomia de qualquer país é vinculada aos índices educacionais, que por sua vez têm relação fortíssima com a leitura. O livro cumpre papel central na formação do indivíduo.

“Com a queda do número de analfabetos funcionais, veremos o número de leitores crescer, mas não necessariamente de leitores de literatura. Só quem tem acesso pode decidir se tornar leitor”

Larissa Mundim, da editora Nega Lilu
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Larissa Mundim/Divulgação

O que falta em termos de políticas públicas?
ZF: O maior problema é dentro da escola. Não é só a questão do letramento, é o despertar do interesse pela literatura. E isso não acontece porque temos professores que não são leitores. 58% dos professores não leram nenhum livro em três meses. Os 42% restantes estavam lendo Bíblia, livro religioso, autoajuda… Qual é o repertório que esse professor tem para desenvolver práticas leitoras para uma garotada que está nas redes sociais, nos games, nos vídeos? Em 2019, o IPL fez uma pesquisa para saber como é que estão os equipamentos das bibliotecas escolares. A escola com biblioteca bem equipada e integrada às atividades do professor tem impacto equivalente a um ano e meio de aprendizagem. Agora, 60% das escolas brasileiras não dispõe de um espaço de leitura e muitos dos livros que chegam ficam dentro de caixas.

Ketty Valencio: Os cursos de formação de professores têm uma grande falha, que é a perspectiva homogênea. Esquecem que eles vão se deparar com um universo plural, que reflete a verdadeira face do Brasil, um país de pessoas não brancas e povos originários. A educação não reconhece essas populações. Ocorreu uma correção com as leis 10.639 e 11.645, que inserem a história afro-brasileira e africana e indígena nas unidades de ensino. Essas leis aqueceram bastante o mercado editorial, foram criados selos e livros, porém muitas vezes num formato mercadológico, sem um compromisso social e cultural. Fazem um produto, não cumprem o objetivo de transformação política.

As outras mídias afetam a leitura?
LM: É necessário compreender essa transformação cultural profunda que está acontecendo, o ser, estar, fazer, morar, curtir, o que é que as pessoas gostam. Nesse espaço-tempo existe um mistério que pode orientar uma ação mais estratégica nesse momento.

ZF: Será que é uma mudança na cultura ou nas formas de acesso à cultura? As pessoas continuam curtindo as narrativas, a forma de acesso à ficção é que está em transformação. O que não conseguimos entender é como ser um mediador dentro dessa transformação. O compartilhar das experiências é muito forte. Antes era a roda de amigos, agora você compartilha no WhatsApp o tempo inteiro. Quando a Retratos da Leitura perguntou “o que fez você se interessar pelo livro que está lendo”, em segundo lugar foi um filme. Houve uma inversão, o leitor assiste o filme antes e para depois ler o livro. Foi por meio de uma linguagem que conseguiu se comunicar com ele, despertou uma curiosidade. Como curiosidade, os professores permanecem em primeiro lugar como influenciadores de leitura.

LM: A cultura vem na base, no contrapiso, até mesmo antes da educação. Antes da escola a pessoa tem como referência onde mora, os hábitos do lugar, o clima, o meio ambiente. Isso é cultura. Compreendo bem quando você fala que a gente não está dando conta de utilizar uma ferramenta nova, mas me parece, Zoara, que na base, até mesmo antes da criação da ferramenta, está uma escuta e uma observação do que a cultura pede. É preciso estar vigilante para as tecnologias não fazerem esse papel e terminem por influenciar nossas vidas a ponto de criar culturas de acordo com o interesse econômico.

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ZF: Larissa, você tem toda a razão. Quando você falou em cultura eu pensei em arte, literatura. Ao pensar na cultura enquanto criação de valores, sem dúvida a gente precisa tomar cuidado com essas mídias.

“As pessoas continuam curtindo as narrativas, a forma de acesso à ficção é que está em transformação. O que não conseguimos entender é como ser um mediador dentro dessa transformação”

Zoara Failla, do Instituto Pró Livro
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Zoara Failla/Divulgação

Ketty, você alcança um público periférico com a Africanidades. Qual é a sua perspectiva?
KV: Meu público é específico. A livraria existe há oito anos e é especializada em literatura negra e feminista, meu público é periférico. Temos um espaço físico na periferia de São Paulo. Com a pandemia a livraria está fechada há um ano, mas antes a gente disseminava literatura e outras linguagens. Durante a pandemia, crescemos bastante. As pessoas periféricas são consideradas não leitoras, mas, na verdade, tem muitas escritoras, sarau, slams. Eles consomem o material que eles produzem e eu vendo esses produtos.

ZF: Em 2019 levamos a Retratos da Leitura para a Flup [Festa Literária das Periferias] e tem tudo a ver com o que a Ketty está falando. O percentual de leitores, que no Brasil é de 52%, na Flup é de 98%. O número de livros lidos é maior do que sete num período de três meses, enquanto no Brasil são dois. A lista dos livros lidos mostram interesse por crítica social, história, sociologia. Nas periferias tem muita coisa acontecendo e que de alguma forma quebram a visão que temos do Brasil.

KV: Estamos cansados de ler literatura que não representa a população brasileira. Uma das queixas dos meus leitores é essa, eles não se veem dentro dessas unidades de memória, nessa literatura imposta. Atualmente isso tem sido revisto, mas ainda é uma coisa muito pequena.

ZF: A literatura preenche vazios. Eu tenho que me identificar com a narrativa. Por isso que a gente tem que ter essa diversidade de histórias, de autores.

Larissa, o que você acha da questão da representatividade?
LM: Lembrei de uma outra pesquisa da UnB, da professora Regina Dalcastagnè, dando conta que 72% das grandes editoras no mercado tradicional publicam homens brancos, residentes nas regiões Sul e Sudeste, que se declararam heterossexuais. Os 28% são mulheres, sendo que as mulheres indígenas não aparecem na pesquisa. No mercado independente, que não tem uma pesquisa específica ainda, essa questão não se confirma. Por isso é tão importante que a bibliodiversidade seja fortalecida. São pequenas editoras, às vezes publicadores informais. A possível taxação do livro vai impactar justamente aí, nos independentes.

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O governo entende o livro como objeto de luxo, que precisa pagar mais impostos. É isso mesmo?
ZF: 47 milhões de pessoas consomem livros, sendo que 27 milhões são das classes C, D e E. Portanto, em números absolutos, você tem muito mais brasileiros das classes menos favorecidas que compram livros. A taxação é reflexo de um projeto para o país. Esse é o desejo, que só os ricos leiam. Porque quem lê é crítico, não vai aceitar bobagens. Isso mexe com toda a cadeia. As livrarias pequenas terão 14% de elevação nos seus custos. Vai reduzir a oferta de livros, as bibliotecas terão um acervo menor, as pequenas editoras vão sofrer.

MB: No fim das contas, estamos falando de um mercado de R$ 5 bilhões. Não é nem 1% do PIB brasileiro. O quanto o governo vai arrecadar? O efeito multiplicador pela não arrecadação é muito maior, estamos falando de fomentação de livros, desenvolvimento econômico, sociocultural. Ao taxar o governo tira isso do horizonte. Então é uma arrecadação muito baixa de um mercado muito pequenininho, que está sufocado há muito tempo.

ZF: A questão não é econômica.

MB: Não é. São pouquíssimos países do mundo que não dão algum tipo de isenção para o livro. Todo mundo concorda que o Brasil precisa de uma reforma tributária, a questão é qual reforma.

KV: Taxar o livro é uma forma de dizer quem pode ler. Quem é o leitor padrão que eu quero? O restante não faz parte do Brasil, não é reconhecido. É isso o que ele quer dizer, não tem uma outra forma, é um projeto genocida, é somente isso.

“Estamos cansados de ler literatura que não representa a população brasileira. Uma das queixas dos meus leitores é essa, eles não se veem dentro dessas unidades de memória, nessa literatura imposta”

Ketty Valencio, da livraria Africanidades
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Ketty Valencio/Divulgação

Qual é a importância da livraria nesse contexto?
LM: A livraria é um espaço de encontro de pessoas, para troca de ideias. A livraria colabora para uma cadeia produtiva. E as pequenas, aquelas que têm acervos diversos como a Africanidades, a Banca Tatuí, O Jardim e outras centenas de livrarias no Brasil, são espaços de resistência. Os livros com um conteúdo mais pasteurizado estão mais disponíveis. Para uma editora independente, uma questão importante é não precisar chegar a todas as livrarias. Não adianta estarmos num lugar para manter um encontro com um público que não nos compreende. Aliás, não vai nem olhar para a gente, porque o nosso livro estará no porão.

ZF: A livraria, principalmente a física, é a principal forma de acesso aos livros. Precisaria rever os modelos de livraria. Não que vá mudar a missão. Além do café, do bolinho, tem que ser um espaço aconchegante. A livraria tem que ter um livreiro, alguém que seja um mediador para indicar livros. Ter até assim conhecer quem são os seus frequentadores para tá pronto, o que ele gosta.

KV: A livraria e os livros têm um aspecto elitizado. Aqui em São Paulo a livraria sempre foi um espaço elitizado. Ela não fala quem pode entrar ou quem não pode, mas você percebe as demarcações de território. Quando a Africanidades vai para um espaço periférico traz outro contexto, diz que eles e elas podem ocupar esses espaços. A questão das pessoas não lerem, às vezes tem a ver com outros aspectos, de racismo institucional, classe, psicologia. A minha livraria oferece outras atividades. A gente também fazia, antes da pandemia, atendimento psicológico da escola dentro da livraria. O espaço do livro não é só cultural, é um espaço sociocultural. É um trabalho como se fosse trabalho de ONG. Não é somente vender um livro, é fazer pesquisa, é fazer política. Isso demonstra o serviço do livro, a transformação que ele faz.

MB: A livraria não existe sem o livro. Esse ano houve um crescimento de 84% das livrarias exclusivamente virtuais e uma queda nas livrarias físicas por conta da pandemia. Em todos os países que monitoramos estamos vendo que as pessoas estão voltando às livrarias, estão retomando esse espaço. A livraria é o lugar onde o leitor descobre o livro. Você não descobre o livro na internet. A livraria é uma atividade de lazer em que você vai passear. O maior acesso ao livro é com a compra. Em segundo lugar é o presente, quer dizer, precisa comprar também.

KV: Os livros deveriam ser parte da cesta básica do trabalhador brasileiro, são alimentos para alma. Nossos corpos são feitos de histórias, histórias dizimadas, apagadas, mas que continuam lá e merecem ser lidas e narradas.

*****
A conversa terminou mas o assunto não se esgota aqui. Fica a recomendação para acompanhar a livraria Africanidades, a editora Nega Lilu e ler a íntegra dos levantamentos da Nielsen e a Retratos da Leitura. Vale também puxar o assunto livros sempre que der, na conversa do jantar, no WhatsApp da família ou onde puder. A luta pela leitura continua.

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