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Sob o porrete de Al Sisi, Tahrir dorme e sonha com independência

Dez anos após o início da Revolução Egípcia, o líder revolucionário Ahmed Hassan assegura que a “revolução ainda não acabou”

por Artur Alvarez, Gustavo Honório e Natalia Molinari Atualizado em 20 set 2021, 18h19 - Publicado em 19 set 2021 22h04

A Revolução Egípcia não morreu. O povo está sofrendo mais pressão a cada dia e, por isso, acredito que cedo ou tarde as pessoas voltarão às ruas para exigirem seus direitos”. Como um dos líderes do movimento que transformou o cenário do Egito, o revolucionário Ahmed Hassan, 34, entregou sua vida à causa. Apesar da realidade atual de opressão sem precedentes no país, totalmente contrastante com a euforia inicial da revolução, ele acredita que o legado de luta cultivado nesses 10 anos desde o início da revolução pode ser chave para a conquista de maior liberdade, direitos constitucionais e condições menos desiguais no país.

Segundo Ahmed, a Revolução Egípcia foi resultado da inflamação causada no povo egípcio pela derrubada do ditador Ben Ali na Tunísia, país pioneiro do fenômeno chamado Primavera Árabe, uma série de manifestações que aconteceu em efeito dominó nos países do norte da África e Oriente Médio. Hassan tinha apenas 23 anos quando se juntou aos revolucionários nos 18 dias de manifestações intensas na principal praça do Cairo, Tahrir, que culminaram na queda do ditador Hosni Mubarak. Com sua militância, Hassan logo se tornou um dos mais emblemáticos personagens do movimento.

Ahmed Hassan protagonizou e dirigiu a fotografia do filme The Square, que mostra os primeiros anos da Revolução tomando por fio condutor a praça onde ela eclodiu. O filme ganhou três prêmios Emmy e foi indicado ao Oscar em 2014. Como alguém que participou ativamente da revolução, ele tem uma forte ligação sentimental com seu país e vivenciou todas as transformações ocorridas no Egito nesses 10 anos: a queda de Mubarak com a pressão de Tahrir; o período militar até a chegada de Mohamed Morsi ao poder que, apesar da margem estreita, foi o primeiro presidente eleito democraticamente na história do Egito; o golpe militar e a volta do autoritarismo com Abdel Fatah al-Sisi, que conseguiu desarticular os revolucionários com uma lei antiprotesto.

Ahmed Hassan conseguiu sair do país em 2018, mas ainda alimenta uma esperança cautelosa quanto ao futuro do Egito: ele conseguiu ver a capacidade de revolta do povo egípcio, mas também teve que enfrentar, junto de seus colegas revolucionários, o potencial destrutivo do governo do país. Apesar da chama da revolução ter sido extinta por al-Sisi, o revolucionário egípcio diz que foi doloroso sair do país. “Não é fácil deixar isso tudo para trás. Durante 10 anos, eu tinha sonhos e expectativas [de um futuro melhor] e, quando a esperança sofre esse baque, é muito difícil de recuperá-la”, lamenta.

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Como foi crescer sob o regime ditatorial de Mubarak e como foi o início das manifestações no país em 2011?
Não é sua escolha, você apenas cresce e descobre um sistema ditatorial, ele é o líder de um país com um sistema corrupto. E nós, como jovens, queríamos dar uma vida melhor para nossas famílias, algo difícil de projetar sob Mubarak, o futuro fica obscuro.

Então, depois de 30 anos de governo Mubarak e a condição social já chegando ao limite, nós vimos o sucesso na Tunísia com a queda de Ben Ali, e isso nos inspirou a ir para as ruas no dia 25 de janeiro de 2011 e protagonizar protestos por todo o Egito durante três dias, em que o povo dizia “não” ao governo. A primeira coisa que as milhões de pessoas que foram às ruas fizeram foi atear fogo nas delegacias, porque a polícia, pivô do regime Mubarak, não nos tratava com dignidade. Essa era a primeira demanda do povo egípcio.

Com o movimento, nós sentimos o quão poderosos nós éramos, porque, na rua, tínhamos os mesmos sentimentos, esperanças, demandas e paixão pelo nosso país e conseguimos derrubar o sistema. Depois de 18 dias sentados na praça, Mubarak sentiu aquilo e renunciou, porque não era apenas Tahrir, era em todo lugar do Egito.

Confronto entre manifestantes e forças de segurança do governo em frente a um quartel da polícia perto da Praça Tahrir, em 16 de dezembro de 2011.
Confronto entre manifestantes e forças de segurança do governo em frente a um quartel da polícia perto da Praça Tahrir, em 16 de dezembro de 2011. Ahmed Hassan/Fotografia

No documentário, você diz ‘era uma guerra na praça, não era uma revolução’. Qual era a atmosfera em Tahrir naquele momento?
Foi o momento mais difícil da minha vida. Eu via pessoas morrendo ao meu redor, balas passavam pela minha cabeça, eu carregava corpos, havia fogo em todo lugar, a atmosfera era horrível. Era uma guerra completa.

A revolução foi às ruas querendo paz, anunciamos isso o tempo todo, mas eles não queriam saber, só queriam nos calar [com repressão violenta aos protestos]. Junto disso, queriam nos sufocar. Criavam campanhas enganosas e difamatórias contra nós e, infelizmente, muitas pessoas acreditavam nisso, o que era um problema para nós, porque não tínhamos voz. Não éramos muito organizados, não tínhamos respaldo de nenhum partido político e nem de algum canal, como a mídia, para falar sobre isso.

Nesse contexto de guerra em que você se encontrava na revolução, você teve medo de morrer em algum momento?
No começo, eu tinha medo de morrer, sim. Mas essa era minha luta, meu sonho. Durante os primeiros dias da revolução eles estavam atirando em nós e era assustador, mas eu me sentia feliz quando estava junto dos revolucionários. E ficamos viciados nesse tipo de embate. Sabíamos que estávamos fazendo a coisa certa, estávamos lá pelo nosso país e para dar uma vida melhor para nossas famílias.


“Criavam campanhas enganosas e difamatórias contra nós e, infelizmente, muitas pessoas acreditavam nisso, o que era um problema para nós, porque não tínhamos voz. Não éramos muito organizados, não tínhamos respaldo de nenhum partido político e nem de algum canal, como a mídia, para falar sobre isso”

Protestos, em 16 de dezembro de 2011, em oposição à nomeação do ministro do Interior. Confrontos começaram após manifestantes serem violentamente reprimidos na rua Mohamed Mahmoud, perto da praça Tahrir.
Protestos, em 16 de dezembro de 2011, em oposição à nomeação do ministro do Interior. Confrontos começaram após manifestantes serem violentamente reprimidos na rua Mohamed Mahmoud, perto da praça Tahrir. Ahmed Hassan/Fotografia

Após os primeiros protestos, Mubarak disse que a juventude revolucionária deveria ser a primeira a sofrer as consequências. O que você sentiu quando ouviu isso?
Na época, eu amei quando escutei Mubarak falando isso. Mas, analisando 10 anos depois, percebo que suas palavras eram reais, ele disse que estaríamos acabados e realmente sofremos. Antes dessa fala ele já havia dito que era ele ou o caos, e isso aconteceu. Ele era um demônio e mesmo após a queda de seu governo ele ainda detinha muito poder.

Naquele tempo, éramos apenas jovens, sem muita noção de política, pessoas normais que foram às ruas com o sonho de mudar seu país. Não conseguimos nem colocá-lo na prisão por um tempo, porque o governo ainda era ele, nada havia mudado. Pior, atualmente temos dezenas de milhares de jovens egípcios presos por arbitrariedades.

Você mencionou que, até hoje, milhares de pessoas estão presas no Egito, é isso mesmo?
Sim, ninguém sabe o número exato nesse momento, porque cada mês sai uma nova estatística. O que acontece é que desde a saída de Mubarak, o regime começou a mudar completamente a abordagem, as pessoas começaram a desaparecer. Seu amigo que estava com você ontem, de repente desaparece e você o encontra em uma prisão ou encontra o seu corpo em algum lugar. Nós não estamos lidando com um governo. Estamos lidando com bandidos que destroem o país de todas as formas, acabando com os nossos recursos, vendendo a nossa terra. Neste exato momento, nós estamos perdendo nosso rio Nilo.

Depois da deposição de Mubarak, os militares assumiram com a proposta de fazer a transição entre governos e de atender algumas demandas do povo. Mas não foi isso o que aconteceu. Qual era a sensação dos manifestantes?
Todos estavam muito felizes com a queda de Mubarak, até quem era contra os revolucionários de Tahrir. Ficamos bem felizes por alguns meses, todos imaginavam que a vida seria diferente dali para frente. Mas, infelizmente, o exército logo tirou esse sentimento do povo. Assim que Mubarak caiu, todos queriam a presidência e começaram a discutir sobre quem tomaria o poder e escreveria a nova constituição. Nisso, esqueceram o principal, o Egito.

A primeira coisa que fizeram após a revolução foi dar presentes à polícia. Essa mesma polícia que mata cidadãos há mais de 60 anos. A única comunidade egípcia que vive bem são milionários. Enquanto isso, outras pessoas vivem com um dólar por dia. E deram mais riquezas a essas pessoas já ricas.

Percebemos que a Irmandade Muçulmana inicialmente fazia parte da revolução. Mas, o grupo ascendeu à presidência com Morsi e mostrou ser alheio aos ideais revolucionários. Como foi o sentimento quando vocês perceberam que eles sequestraram a revolução para chegar ao poder?
A Irmandade Muçulmana nunca foi revolucionária, eles queriam apenas “consertar” a sociedade, porque o ideal de revolução é legalmente proibido para eles. Eles começaram a utilizar a religião como principal ferramenta nesse jogo político, passaram a criar mentiras para nos difamar por conta dos nossos ideais libertários, e em uma sociedade sensível, como a egípcia, o povo acreditava. Começaram a costurar acordos com o exército e foram conquistando espaço aos poucos, até chegarem ao palácio presidencial.

Nas eleições de 2012, tivemos que votar em Morsi, representante da Irmandade, para não voltarmos ao antigo regime. Após vencerem, eles emplacaram uma nova constituição, que ainda mantinha os princípios da lei islâmica (Sharia) de outros governos, o que gerou insatisfação nas camadas da população que esperavam mudanças mais estruturais. Com isso, o novo governo parecia mais do mesmo, só que com barba. Em um ano, estava tudo destruído. As pessoas foram às ruas e, com uma petição com 30 milhões de assinaturas rejeitando a presidência de Morsi, fizeram com que ele renunciasse.

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“O novo governo parecia mais do mesmo, só que com barba. Em um ano, estava tudo destruído. As pessoas foram às ruas e, com uma petição com 30 milhões de assinaturas rejeitando a presidência de Morsi, fizeram com que ele renunciasse”

Escombros de um dos embates, ocorrido em 21 de novembro de 2011 na rua Muhammad Mahmoud, do confronto generalizado entre manifestantes e forças policiais que durou seis dias e foi o mais violento após a queda de Mubarak, com mais de 40 vítimas. O confronto se iniciou em 19 de novembro de 2021, após a polícia reprimir violentamente protesto pacífico de famílias no local em memória dos mortos da Revolução Egípcia de janeiro e fevereiro daquele ano. A rua e a Praça Tahrir foram o epicentro dos constantes embates entre população e tropas do governo desde o início da revolução.
Escombros de um dos embates, ocorrido em 21 de novembro de 2011 na rua Muhammad Mahmoud, do confronto generalizado entre manifestantes e forças policiais que durou seis dias e foi o mais violento após a queda de Mubarak, com mais de 40 vítimas. O confronto se iniciou em 19 de novembro de 2021, após a polícia reprimir violentamente protesto pacífico de famílias no local em memória dos mortos da Revolução Egípcia de janeiro e fevereiro daquele ano. A rua e a Praça Tahrir foram o epicentro dos constantes embates entre população e tropas do governo desde o início da revolução. Ahmed Hassan/Fotografia

Após Al-Sisi se tornar presidente em 2014, ele começou a perseguir opositores e aumentou a repressão. Isso afetou a luta da oposição a ponto de conseguir desarticular os revolucionários ao longo dos anos? Você sofreu com esse aumento da repressão no seu país?
A situação ficou muito difícil a partir de Sisi. Quando chegou ao poder, ele focou primeiro em destruir a ideia da Irmandade Muçulmana, sua maior dor de cabeça naquele momento. Depois disso, ele foi atrás dos revolucionários liberais, porque nós falávamos demais e a essa altura conhecíamos a mídia, jornalistas do mundo todo e sabíamos falar sobre Direitos Humanos em todo lugar em que aparecíamos. Em 2014, ele criou uma nova lei antiprotesto, em que se 5 pessoas andassem juntas na rua, elas seriam presas. Ninguém sabia o que ia acontecer, o poder está nas mãos de pessoas difíceis de lidar.

Os tempos mais bonitos foram os primeiros três anos da revolução, sentíamos que tínhamos voz, que tínhamos liberdade, de verdade. A gente conseguia lutar de fato. Hoje em dia, as pessoas estão deprimidas, milhares estão presas e outras milhares exiladas. A situação está mais complicada. Mas a revolução ainda não acabou, porque o povo está sofrendo mais pressão a cada dia e isso alimenta uma força interna que as fará retornar às ruas. Nessa toada, você morrerá de fome ou morrerá de frente para um tanque.

Qual foi a repercussão do documentário, lançado em setembro de 2013, no Egito e como isso afetou a vida de vocês?
O filme não passou nos cinemas egípcios e isso se tornou um case internacional. Por que o primeiro documentário egípcio indicado ao Oscar não podia ser passado no Egito? A produção foi nossa, dos revolucionários, e não aceitamos as condições impostas pelo governo para passá-lo. Com isso, automaticamente todos os cinegrafistas e produtores do The Square se tornaram ‘espiões’ para o governo.

O documentário foi bloqueado, mas conseguimos fazer chegar a alguns jovens, que assistiam ao filme por meios ilegais. Eu sinto que eu carrego uma grande responsabilidade em meus ombros, porque eles começaram a perguntar para mim ‘Ahmed, a gente deveria ir às ruas no próximo protesto? Deveríamos fazer isso, aquilo?’ mas eu não sou o líder da revolução, não posso levá-los às ruas porque é uma grande responsabilidade, se eles morrerem ou forem presos a culpa é minha.

Protesto de um ano do confronto sangrento da rua Muhammad Mahmoud. / Revolucionários assistindo às notícias na Praça Tahrir durante ocupação, em 23 de novembro de 2012.
Protesto de um ano do confronto sangrento da rua Muhammad Mahmoud. / Revolucionários assistindo às notícias na Praça Tahrir durante ocupação, em 23 de novembro de 2012. Ahmed Hassan/Fotografia

Você acha que a mídia tradicional falhou com vocês?
Sim, a mídia tradicional não deu o mínimo apoio aos revolucionários. A televisão egípcia, por exemplo, não mostrava o que estava acontecendo. O único meio que tínhamos eram as redes sociais, porque não tínhamos dinheiro. A revolução começou nas redes sociais e foi por meio delas que ela continuou, criamos páginas e por lá falávamos com pessoas de todo o Egito. Esse era o nosso “jornalismo independente”.

Com a ascensão da Irmandade Muçulmana, sentimos que começamos a ter algumas chances de aparecer na mídia. Políticos nos deram respaldo para falar contra o regime da Irmandade para, no final das contas, reaverem o poder com a queda da Irmandade. Eles nos usaram, isso acontece quando você é bom na política.

Como as redes sociais ajudaram vocês a resistir e a incentivar mais pessoas para se juntarem ao movimento?
A revolução alcançou uma reputação considerável com o Facebook. As pessoas recorriam à rede social para tentar entender o que estava acontecendo, e começaram a se envolver com o movimento por lá.

Khalid, um dos líderes do movimento, convocou todo mundo que tinha uma câmera para ir às ruas, gravar o máximo que conseguisse e fazer upload da maior quantidade possível de conteúdo, para mostrar ao povo o que estava acontecendo. Os militares egípcios matavam pessoas e agora tínhamos evidências para embasar a acusação. Com todo esse material, nós criamos uma base de dados onde colocamos todas essas filmagens, chamada “archive 858” (disponível até hoje), que contêm horas de gravações da revolução.

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Ahmed Hassan/Fotografia

Os manifestantes queriam uma realidade melhor para seu país, lutavam por direitos civis, por uma nova constituição. O que foi conquistado pelo povo nesses anos?
Infelizmente, nada mudou. A gente conseguiu expulsar um regime ditatorial e recebemos em troca um regime fascista, o atual, que não apoia o povo e nunca o ajudou. A cada dia que passa, a situação se torna mais complicada política, diplomática e economicamente. Tudo está pior, o que me faz ter certeza de que em algum momento os egípcios vão recorrer aos jovens revolucionários para mudar sua realidade.


“Infelizmente, nada mudou. A gente conseguiu expulsar um regime ditatorial e recebemos em troca um regime fascista, o atual, que não apoia o povo e nunca o ajudou”

Manifestantes ateando fogo em veículo da polícia egípcia durante manifestação na Praça Tahrir do segundo aniversário da Revolução Egípcia, em 28 de janeiro de 2013. Nessa data simbólica, os manifestantes protestavam efusivamente contra Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, presidente eleito no ano anterior. A intensidade da manifestação lembrou o revolucionário Ahmed Hassan das primeiras manifestações da Revolução Egípcia, lá em 2011, em que “a primeira coisa que as milhões de pessoas que foram às ruas fizeram foi atear fogo nas delegacias, porque a polícia não nos tratava com dignidade”.
Manifestantes ateando fogo em veículo da polícia egípcia durante manifestação na Praça Tahrir do segundo aniversário da Revolução Egípcia, em 28 de janeiro de 2013. Nessa data simbólica, os manifestantes protestavam efusivamente contra Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, presidente eleito no ano anterior. A intensidade da manifestação lembrou o revolucionário Ahmed Hassan das primeiras manifestações da Revolução Egípcia, lá em 2011, em que “a primeira coisa que as milhões de pessoas que foram às ruas fizeram foi atear fogo nas delegacias, porque a polícia não nos tratava com dignidade”. Ahmed Hassan/Fotografia

Qual era a situação econômica no Egito naquela época? Como você e seus colegas de revolução faziam para se sustentar?
A situação econômica do país era melhor naquela época. Para você ter uma noção de como a economia piorou, o dólar americano custava 6 libras egípcias em 2011, agora, custa 15. E a economia foi destruída com as ações do governo nesses 10 anos. Hoje em dia está completamente horrível para o povo, cerca de um terço da população caiu para a condição de pobreza, muito por conta do que aconteceu ao longo desses anos.

Eu sou cinegrafista, filmava comerciais e fiz até um filme para a BBC no primeiro ano da revolução, chamado “Children of the revolution”, então o dinheiro vindo desses trabalhos me sustentava. E para meus companheiros revolucionários a situação era muito similar, era questão de se virar para achar um emprego e garantir o sustento enquanto lutava pelo que acreditava, muitas vezes não na sua área, como muitos egípcios.

Que sentimentos ficaram da revolução, desarticulada por al-Sisi, quando você saiu do país em 2018?
Já faz alguns anos que eu me sinto cansado. A situação está cada vez mais complicada. Lembro que entre 2016 e 2017 foi o tempo mais difícil para mim, os amigos sendo presos e eu tentando dizer para mim mesmo que o sonho ainda não acabou, que essa luta é longa e uma geração nova pode vir e retomar a revolução. Não é fácil deixar isso tudo para trás. Durante 10 anos eu tinha sonhos e esperança. E quando a esperança sofre esse baque é muito difícil de recuperá-la, especialmente com seus amigos ainda na cadeia.

Milhares de manifestantes reunidos na praça Tahrir no segundo aniversário da revolução egípcia. A data foi marcada por protestos contra a ascensão da Irmandade Muçulmana ao poder.
Milhares de manifestantes reunidos na praça Tahrir no segundo aniversário da revolução egípcia. A data foi marcada por protestos contra a ascensão da Irmandade Muçulmana ao poder. Ahmed Hassan/Fotografia

Dez anos depois, o que você acha que aconteceu com a revolução egípcia? Quais seriam os possíveis caminhos para uma melhora da situação no país?
Quando estávamos na Praça de Tahrir, no começo da revolução, costumávamos dizer que o Egito precisava de pelo menos dez anos para mudar. Uma década passou e não só nada aconteceu, como piorou com Sisi. Assim como meus colegas, despendi todo esse tempo para a revolução e não vivi outra realidade que não fosse essa. Senti que não vivi minha vida em 10 anos. Com o movimento queríamos apenas justiça, que seria o primeiro passo para conquistarmos os demais direitos que almejávamos.

Todos dizem que a Primavera Árabe falhou, mas isso não é verdade. A Revolução Egípcia não morreu, apenas não obteve sucesso até o momento. Como nada mudou [estruturalmente] no país, acredito que cedo ou tarde as pessoas voltarão às ruas para exigirem seus direitos. Eu imagino que ainda me restam dez anos de revolucionário. Espero que nesse tempo o povo possa ver a luz e que muitas coisas mudem até lá. Vejo que meu país atualmente está diferente do que era e é claro que ajudarei no que ele precisar. Tenho esperanças.

Placa retirada de veículo policial queimado por manifestantes em protesto contra Mohamed Morsi em 28 de janeiro de 2013. Segundo o revolucionário Ahmed Hassan, havia um sentimento de “transbordamento de raiva” nos manifestantes da Praça Tahrir nessa data, que marcava dois anos do começo da Revolução Egípcia. A insatisfação com o presidente se dava porque a Irmandade Muçulmana, grupo religioso que Morsi representava, ‘sequestrou’ a Revolução para chegar ao poder e, no final das contas, aplicaram a sua versão de governo repressivo.
Placa retirada de veículo policial queimado por manifestantes em protesto contra Mohamed Morsi em 28 de janeiro de 2013. Segundo o revolucionário Ahmed Hassan, havia um sentimento de “transbordamento de raiva” nos manifestantes da Praça Tahrir nessa data, que marcava dois anos do começo da Revolução Egípcia. A insatisfação com o presidente se dava porque a Irmandade Muçulmana, grupo religioso que Morsi representava, ‘sequestrou’ a Revolução para chegar ao poder e, no final das contas, aplicaram a sua versão de governo repressivo. Ahmed Hassan/Fotografia
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