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Bárbara tem nome, mas não tem endereço

Parafraseando a canção de Liniker, cantora, travesti e preta, Bárbara não goza do privilégio de ser e/ou ter morada em alguém, ainda que possua nome

por Uma Reis Sorroquia Atualizado em 16 set 2021, 18h33 - Publicado em 14 set 2021 23h33
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Clube Lambada/Ilustração

ravesti, negra e lésbica, Bárbara Garcia, hoje com 22 anos, buscou sozinha, aos 14, acompanhamento no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq-HCFM/USP), que atende crianças e adolescentes trans. Mas, para dar início à transição, necessitava da autorização e acompanhamento de sua mãe, que se recusou dizendo que, se ela havia nascido homem, deveria viver como um. Bárbara, então, seguiu sem compreender muito bem o que significava se sentir uma menina. “Não era fácil conviver com a exigência de me comportar como um garoto, gostar de mulheres, e não me sentir como um homem cis. Naquele ambiente, faltou autocompreensão para me reconhecer e ser reconhecida como uma identidade feminina em vez de ser uma travesti lésbica”, ela conta.

Aqui, falamos sobre o não lugar que travestis e mulheres transexuais ocupam nas redes de afeto, cuidado e acolhimento, seja familiar, de amizades, de trabalho, com parceires “sexuais” etc. Ou melhor, ao invés de não lugar, o lugar pobre afetivamente que nos é reservado nesse tecido social, identificando os movimentos que temos realizado em direção a um lugar mais confortável e aconchegante no que diz respeito ao autocuidado e a relacionamentos transcentrados (entre pessoas trans), por exemplo.

Bárbara fuma um cigarro na área externa da casa do Murilo e Victor durante uma reunião do Coletivo Cia dxs Terroristas. Bárbara não participou do projeto Transgressoras, mas frequentemente acompanhava as oficinas e já atuou como assistente de vídeo na produção de um dos documentários realizado pelo coletivo.
Bárbara fuma um cigarro na área externa da casa do Murilo e Victor durante uma reunião do Coletivo Cia dxs Terroristas. Bárbara não participou do projeto Transgressoras, mas frequentemente acompanhava as oficinas e já atuou como assistente de vídeo na produção de um dos documentários realizado pelo coletivo. Dan Agostini/Fotografia

Paulistana criada no Jardim Maria Estela, região do Ipiranga, Bárbara é artista e tatuadora, e até pouco tempo atrás trabalhava como auxiliar administrativa no Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi, localizado no Bom Retiro, por meio do Programa Operação Trabalho (POT) da Prefeitura de São Paulo, até que houve um desligamento em massa do programa. Ela relata não ter sofrido transódio no trabalho desde quando ingressou com outra amiga trans, que o coordenador e outros funcionários são respeitosos e o trabalho em si era muito tranquilo.

Bárbara mora na Casa Florescer I há um mês, entre idas e vindas entre a Florescer I e II. É estudante do 2º ano do Ensino Médio, aguardando a liberação de uma vaga no Transcidadania desde sua saída do POT. Ba é a própria namoradeira do Brasil, uma eterna amante, em seu sentido mais positivo: você se apaixona em um piscar de olhos tamanho o afeto que ela te entrega, em um escuta atenta e delicada. Em sua personalidade também mora uma Ba festeira, divertida e sensual.

“Não era fácil conviver com a exigência de me comportar como um garoto, gostar de mulheres, e não me sentir como um homem cis. Naquele ambiente, faltou autocompreensão para me reconhecer e ser reconhecida como uma identidade feminina em vez de ser uma travesti lésbica”

Bárbara Garcia

Nos primeiros meses de 2018, quando eu estava em intercâmbio acadêmico na cidade de Córdoba, Argentina, circulou pelas redes sociais a fotografia de um cartaz em que se lia: “Você beijaria uma travesti?”. Já naquele momento, ao compartilhar a imagem em meu perfil pessoal no Instagram, eu refletia sobre se tratar de uma pergunta a nós mesmas, e não a alguém, hipotético. Passados três anos, tendo em vista que o mundo não gira, ele tomba, recentemente começou a se propagar também pelas redes a fotografia de um cartaz onde já se lia: “Uma travesti beijaria você?”, produzida por Alina Durso. A inversão do sujeito na oração ilustra um giro afetivo onde nós somos protagonistas das relações das quais escolhemos construir, e não o contrário, como nos contos de fada em que a princesa é salva por um príncipe encantado.

Retrato de Bárbara com cabelo azul durante evento do projeto Transgressoras em São Paulo. Bárbara costuma mudar de cabelo com frequência, do longo ao curto e com diversas colorações.
Retrato de Bárbara com cabelo azul durante evento do projeto Transgressoras em São Paulo. Bárbara costuma mudar de cabelo com frequência, do longo ao curto e com diversas colorações. Dan Agostini/Fotografia

Nesse sentido, a história de Bárbara denuncia, esfregando em nossas caras pálidas a face da dor ao nascermos mortas, como canta Linn da Quebrada. Desde pequenas, não somos consideradas dignas de afeto por não nos expressarmos, comportamentos dentro do padrão binário do gênero. Assim, um dia após outro, ano após ano, não somos ensinadas a ser amadas, a amar, não conhecemos o amor. Muito sintomático e comum entre nossa comunidade é ouvirmos de nosses responsáveis e familiares: “Eu te amo, mas…” Logo, vamos confundindo amor com dor, amor com violência, e internalizando que talvez o amor não seja para nós, que nunca seremos plenamente amadas, se for possível dimensionar o amor. Nessa esteira aprendemos também a negociar nossa vida em troca de migalhas afetivas; quantas de nós não nos submetemos a relações abusivas e violentas, em um faz de conta que está tudo bem, na ânsia de não perder mais alguém, dentre todes que já partiram, ou para se aproximar de alguém que acaba de chegar, seja familiar, amigue, potencial parceire.

Atualmente, eu, Uma, gozo do privilégio de ser amada, desejada e cuidada sendo quem sou, uma travesti. Mas, durante anos, provei do gosto amargo da solidão compulsória, sem direito de escolha, o desespero de não ter um peito para restabelecer a paz que o mundo insiste em nos arrancar, de buscar incansavelmente por alguém que pudesse me dar o que uma vida me fora negado, em me arriscar, inclusive, sexualmente, tudo isso porque não acreditamos que alguém possa de fato se interessar por quem somos. Quando somos rejeitadas por nossas próprias famílias, não valemos muita coisa. O aniquilamento de nossa subjetividade se funda no reconhecimento de que um dia fomos amadas, desejadas e cuidadas por nosses responsáveis e familiares, mas em algum momento no transcurso de nossa história tivemos que escolher entre nós e elus. O que parece uma escolha fácil nos arranca humanidade. A partir daí, amor se torna algo alheio, indiferente, cisgênero. E construir um outro mundo possível e habitável às nossas demandas afetivas é tarefa hercúlea, requerendo muita força, coragem e bravura.

Celina Ferraz (20) e Barbara Garcia (22) trabalham na Praça do Jaçanã, ponto de prostituição próximo da Casa Florescer II, local onde viveram juntas em 2020. Bárbara trabalha como profissional do sexo eventualmente, somente quando existiam emergências financeiras por estar desempregada. Atualmente ela aguarda o ingresso no Projeto Transcidadania.
Celina Ferraz (20) e Barbara Garcia (22) trabalham na Praça do Jaçanã, ponto de prostituição próximo da Casa Florescer II, local onde viveram juntas em 2020. Bárbara trabalha como profissional do sexo eventualmente, somente quando existiam emergências financeiras por estar desempregada. Atualmente ela aguarda o ingresso no Projeto Transcidadania. Dan Agostini/Fotografia

“Quando somos rejeitadas por nossas próprias famílias, não valemos muita coisa. O aniquilamento de nossa subjetividade se funda no reconhecimento de que um dia fomos amadas, desejadas e cuidadas por nosses responsáveis e familiares, mas em algum momento no transcurso de nossa história tivemos que escolher entre nós e elus”

Uma Reis Sorrequia
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A odisseia travesti: nem heroínas, nem humanas

A história de Bárbara, por exemplo, está edificada sobre a não aceitação e desrespeito por parte de sua mãe. Nesses casos, a regra é expulsar ou produzir tamanha violência para que a pessoa trans se retire de sua própria casa. E foi o que aconteceu: Bárbara abandonou onde morava aos 19 anos, por conta da convivência conflituosa por ser travesti, indo morar com seu namorado, um homem trans. Com o término do relacionamento, que durou pouco mais de um ano, acabou indo morar na Casa Florescer II por pouco mais de três meses, trabalhando como tatuadora e se prostituindo eventualmente. Ao deixar a Florescer II, foi acolhida por uma amiga durante algumas semanas, quando foi vender bala no transporte público, e indo, logo em seguida, morar na Casa Florescer I. Bárbara já não tem contato com a mãe – além das redes sociais, ela conta que sua mãe a procurou na Florescer I, uma única vez, em um momento que ela não estava em casa.

Bárbara (22) e Mirella Santos (22) posam para retrato durante passeio na Praça Roosevelt. Mirella teve sua primeira relação lésbica com Bárbara, antes do relacionamento ela só tinha se relacionado com homens.
Bárbara (22) e Mirella Santos (22) posam para retrato durante passeio na Praça Roosevelt. Mirella teve sua primeira relação lésbica com Bárbara, antes do relacionamento ela só tinha se relacionado com homens. Dan Agostini/Fotografia

Nesse período na Florescer I, Bárbara, muito galanteadora, conhece e se aproxima de Mirella. Como não creio em amor à primeira vista, diria que se tratou de uma paixão avassaladora, e como todo contato com tamanha intensidade, ele cobra seu preço. Me explico: por causa de todos os atravessamentos que perpassam ambas, relacionados ao afeto, Bárbara e Mirella criam, em dois meses, um ninho de proteção e segurança no qual uma se torna o acalanto da outra. 

No entanto, o mundo parece não ter sido feito para se agradar com duas travestis pretas se amando, nem para as próprias. No final de abril deste ano, Bárbara foi convidada a se retirar da Florescer I, em que Mirella também estava, depois de chutar uma porta, estressada com as dificuldades da vida. Dn, autore das fotos desta e das outras reportagens, acolhe a Ba por uns dias, enquanto a ajuda a conseguir uma vaga e retornar à Florescer II. Em quatro dias, Mirella desaparece, não atende o celular nem responde mensagens. Bárbara desmorona, entra em crise de ansiedade, sente-se culpada por havê-la “abandonado”. Nos encontramos de novo nesse momento, ela visivelmente abalada quando a deixamos de volta na Florescer II para descansar, machucada por Mirella não se preocupar em dar notícias.

Bárbara (22) e Mirella Santos (22) em um quarto de hotel no Bairro Bom Retiro, no centro de São Paulo. Bárbara foi desligada da Casa Florescer I no final do mês de abril de 2021 devido uma crise de ansiedade que acarretou à danificação de uma das portas do local.
Bárbara (22) e Mirella Santos (22) em um quarto de hotel no Bairro Bom Retiro, no centro de São Paulo. Bárbara foi desligada da Casa Florescer I no final do mês de abril de 2021 devido uma crise de ansiedade que acarretou à danificação de uma das portas do local. Dan Agostini/Fotografia

Durante aquela semana, Bárbara localiza Mirella em meio ao fluxo, em situação de rua, e na companhia de um homem cis. Dn acolhe Mirella em sua casa, lhe oferece um banho, comida e algumas mudas de roupa. É uma longa e doída conversa, mas o cis-tema vence. Mirella desiste de lutar e buscar uma vida digna dentro dos moldes ocidentais que compartilhamos. Cansada e desgostosa por não conseguir retirar seus documentos, que deixou para trás quando saiu do Pará fugida por melhores condições de vida, é mais uma vítima da cis-temática violência transodiante e das violações de direitos humanos que assolam a população trans e travesti brasileira. Sua força vital necessária para seguir acreditando que tudo ficaria bem se esgotou. Sem sua certidão de nascimento, é considerada uma indigente e, assim, não pode ingressar no Transcidadania, nem no POT, ou mesmo no TRANSgressoras. Invisível, invisibilizada, morta. Ba chegou a buscá-la depois disso algumas vezes, mas todas as tentativas foram em vão. Depois disso, nunca mais tivemos notícias da Mirella.

Bárbara aceitou a escolha de Mirella, mas não esconde a dor, o rasgo e a ferida gangrenada que se abriu ao ver, ouvir e sentir Mirella desistir não dela, mas de si própria, e o quanto toda essa situação e contexto a informa da batalha que ela tem pela frente, agora sozinha.

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Bárbara preocupada com o desligamento da Casa Florescer I em hotel no bairro Bom Retiro, no centro de São Paulo, local onde precisou passar a noite devido o horário que o desligamento aconteceu.
Bárbara preocupada com o desligamento da Casa Florescer I em hotel no bairro Bom Retiro, no centro de São Paulo, local onde precisou passar a noite devido o horário que o desligamento aconteceu. Dan Agostini/Fotografia

Sapatrans

Em pouco mais de três meses na Florescer II, Bárbara nunca escondeu seu desejo de retornar à Florescer I, pela unidade ser mais visada por iniciativas privadas e voluntários. Ainda nesse período, Ba conseguiu encaminhamento médico para acompanhamento e tratamento psicológico e psiquiátrico, bem como endocrinologista para acompanhamento e realização de terapia hormonal via processo transexualizador no SUS.

Bárbara relata lidar bem com o fato de ser uma travesti lésbica, e brinca sobre a situação, pois muitas meninas escondem o que poderíamos dizer ser um comportamento bissexual. Ela me diz, entre risos: “me chamam de maricona, esses boys héteros que se relacionam com travestis. Dizem que, no fundo, quero voltar a ser um homem cis, como se isso fosse possível ou cabível.”

Bárbara chora em seu quarto devido o término de seu namoro com Mirella Santos. Mirella (22) decidiu sair da Casa Florescer I, local onde conheceu Bárbara, para voltar a viver na rua. Mirella vive em barracas com outras pessoas em condição de rua perto da Barra Funda, desde sua mudança elas pararam de se encontrar. Entrada do quarto de Bárbara na Casa Florescer II, o qual ela dividia com outras mulheres transexuais. Bárbara morou de Julho à outubro de 2020 na Casa Florescer II, em Janeiro de 2021 até abril de 2021 viveu na Casa Florescer I e um dia depois voltou a morar na Florescer II até agosto de 2021 quando retornou para Florescer I.
Bárbara chora em seu quarto devido o término de seu namoro com Mirella Santos. Mirella (22) decidiu sair da Casa Florescer I, local onde conheceu Bárbara, para voltar a viver na rua. Mirella vive em barracas com outras pessoas em condição de rua perto da Barra Funda, desde sua mudança elas pararam de se encontrar. Entrada do quarto de Bárbara na Casa Florescer II, o qual ela dividia com outras mulheres transexuais. Bárbara morou de Julho à outubro de 2020 na Casa Florescer II, em Janeiro de 2021 até abril de 2021 viveu na Casa Florescer I e um dia depois voltou a morar na Florescer II até agosto de 2021 quando retornou para Florescer I. Dan Agostini/Fotografia

“Me chamam de maricona, esses boys héteros que se relacionam com travestis. Dizem que, no fundo, quero voltar a ser um homem cis, como se isso fosse possível ou cabível”

Bárbara Garcia

Ela também me fala sobre não ser uma travesti padrão dentro de uma estética travesti de silicone e outros signos corporais. “Não me sinto obrigada ou impelida a realizar quaisquer procedimentos para ser reconhecida ou não como mulher”, afirma Ba. “Não quero ser uma travesti considerada padrão dentro dessa estética do silicone e de outros signos corporais”, conclui, relacionando essa obrigação às mulheres cisgênero de seios pequenos.

Passar ou não passar, é sempre essa a questão?

Dia desses, Ba compartilhou em seu perfil no Facebook: “Esperando a beleza e a passabilidade chegar para eu dizer que nada disso importa e as pessoas tem que se amar como são”.

Em diálogo com uma ermã multimídia travesti preta, Diameyka Odara, ela compartilha em seu status do WhatsApp um meme: “O amor próprio não chupa meus peitos”. Respondo dizendo que odeio essa retórica cis de autocuidado e amor próprio, quando pessoas cis nasceram e cresceram rodeadas de afeto, podendo, inclusive, dispensá-lo por ter muito. Di concorda comigo com um “sim” intenso e comenta: “Eu me atravesso constantemente comigo mesma, me pego cobrando por um ‘amor próprio’ que não existe (riso de nervoso), é uma pira, sabe!”. Eu encerro o assunto assinando embaixo, dizendo: “É muita pretensão cis essas narrativas universais”.

Bárbara posa para retrato em um quarto de hotel no centro de São Paulo, local onde dormiu uma noite devido desligamento da Casa Florescer I.
Bárbara posa para retrato em um quarto de hotel no centro de São Paulo, local onde dormiu uma noite devido desligamento da Casa Florescer I. Dan Agostini/Fotografia

Passabilidade é o ato de “passar” por cisgênero, nos informando da violência e da pressão estética que travestis e mulheres transexuais, assim como homens trans e transmasculinos, estão submetidos ao circular pela cidade nas tarefas mais cotidianas, como comprar um pão, sem ser interditades em seu trânsito social ou violentades nos espaços em que frequentam por não cumprirem ou se encaixarem ao padrão de beleza cis, ao serem constantemente lembradas que são bem-vindas ali.

“”Não me sinto obrigada ou impelida a realizar quaisquer procedimentos para ser reconhecida ou não como mulher. Não quero ser uma travesti considerada padrão dentro dessa estética do silicone e de outros signos corporais”

Bárbara Garcia

Preocupa-me a diferenciação entre transexuais e transgêneros, enquanto categorias inteligíveis de nossas vivências e experiências criadas e produzidas por pessoas cis, assentada e inscrita no corpo na tentativa de borrar características do gênero atribuído no nascimento e se assimilar a norma padrão cultuada, que também é cis.

Bárbara passa batom durante comemoração do projeto Transgressoras na zona norte de São Paulo. Bárbara trabalhou como assistente de vídeo em uma das produções do coletivo Cia dxs Terroristas.
Bárbara passa batom durante comemoração do projeto Transgressoras na zona norte de São Paulo. Bárbara trabalhou como assistente de vídeo em uma das produções do coletivo Cia dxs Terroristas. Dan Agostini/Fotografia

Logo, questiono-me, pessoas trans podem ser binárias? Será mesmo que “passar” por cis é o mesmo que ser cis, binário? Parece-me, assim, um pouco leviano afirmar que, no ato de “passar”, pessoas trans produzem cisgeneridade. Seria o mesmo que afirmar que mulheres produzem machismo, negros produzem racismo, pessoas com deficiência produzem capacitismo. Não seria mais assertivo afirmar que (re)produzimos cisgeneridade? Já que não nos beneficiamos desse processo de reprodução, pois não somos cis, somente “passamos”, e no ato de “passar” alimentamos uma cultura violenta contra nós mesmas, ao dizer às outras que todas devemos “passar” como única possibilidade de habitar esse mundo. E então localizar, situar e contextualizar no corpo cis, quem produz esse desejo quase que inerente de “passar”, nos restando o anseio “disfórico” de “passar” como alternativa disponível e disponibilizada por parte da cisgeneridade para sobrevivermos, e não sermos mortas, físico e simbolicamente.

Por fim, indago-me: em uma sociedade em que não nascêssemos mortas, monstras, haveria a necessidade de “passar”? Existiria isso de “passar”?

Agora, Bárbara voltou à escola, e está na lista de espera para cursar Serviços Jurídicos em uma ETEC, sonho do qual não pensa em desistir, já que seu objetivo maior é cursar e se formar em Direito, lutando nas trincheiras do transfeminismo brasileiro por direitos em um país que se diz um Estado democrático de direito. “Direitos pra quem, caro homem cis?”, ela pergunta.

Bárbara posa para retrato em um quarto de hotel no centro de São Paulo, local onde dormiu uma noite devido desligamento da Casa Florescer I.
Bárbara posa para retrato em um quarto de hotel no centro de São Paulo, local onde dormiu uma noite devido desligamento da Casa Florescer I. Dan Agostini/Fotografia

Sua história reforça que as pessoas cisgêneros, com suas identidades generificadas, sejam responsabilizadas e se responsabilizem pelo massacre e aniquilamento de nossas subjetividades, em tom de denúncia da retina colonial incapaz de enxergar seu protagonismo nessa trama ensanguentada. Na contramão de um improdutivismo científico-social de manutenção do status quo, que responsabiliza as populações trans por suas condições, “a questão trans” da qual nós devemos resolver não é a cisgeneridade, mas o Estado brasileiro.

Observo também: Bárbara está solteira! (contém amor e humor travesticentrado).

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Serviço

Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos)
Rua Doutor Ovídio Pires de Campos, 785 – Cerqueira César, São Paulo – SP
E-mail: amtigos.ipq@hc.fm.usp.br
Site
Facebook

Casa Florescer I
Rua Prates, 1101 – Bom Retiro (Centro), São Paulo – SP
Telefone: (11) 3228-0502
E-mail: cadiversidade@gmail.com
Facebook
Instagram 

Casa Florescer II
Rua Capricho, 872 – Vila Nivi (Zona Norte), São Paulo – SP
Telefone: (11) 2337-8459
E-mail: florescercroph@gmail.com
Facebook
Instagram 

Programa Operação Trabalho (POT)

Programa Transcidadania (entenda como funciona)

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