estímulos

Queremos mesmo ser “emocionados”?

Estamos vivendo uma eterna apatia, mas será que é o suficiente para recebermos bem pessoas que não têm vergonha de mostrar as emoções?

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 17 ago 2021, 00h21 - Publicado em 17 ago 2021 00h13

Depois de mais de 20 anos rezando para ser contratado pela Globo, o apresentador Marcos Mion finalmente está realizando este sonho. E quem diz isso é ele mesmo – sempre que pode. Desde que a notícia da contratação de Mion se tornou pública, há menos de duas semanas, suas redes foram nada além de sorrisos, comemorações efusivas, compartilhamento de cada mínimo detalhe: da primeira mala para visitar o Projac à ansiedade de conhecer pessoalmente Fátima Bernardes e participar do Encontro.

E, por incrível que pareça, ver alguém comemorando tão genuinamente uma conquista, nos dias atuais, é coisa rara. Não só porque vivemos no Brasil de Bolsonaro há quase três anos e faltam motivos para de fato celebrar – isso também. Estamos passando por uma pandemia há mais de ano, mas de 550 mil pessoas já morreram só no nosso país e, das poucas vezes que aconteceu algo que de fato valesse a comemoração, nos sentimos culpados por sentir felicidade. Depois do fiscal de quarentena e do sommelier de vacina, também temos o fiscal de felicidade e os senhores “não é bem assim”, que insistem em ponderar cada mínimo detalhe e, se possível, te ensinar alguma coisa que você talvez já saiba e não tenha nada a ver com o assunto. Foi assim neste fim de semana, em São Paulo, quando rolou “a rave da vacinação” e garantiu que mais de 99% da população adulta tomasse finalmente a primeira dose da vacina. Mas, antes que eu leve minha indignação para outro lado, vou voltar a falar do Mion – e de muitos outros – emocionados.

O contato com influenciadores milionários, de estilos de vida caríssimos, nas redes sociais não é nenhuma novidade, mas fato é que essa eterna necessidade on-line de ser sempre o mais cool e fingir costume pra tudo continua aumentando, mesmo em meio ao apocalipse. A própria piadinha do “se não postar, será que a vacina funciona?” denuncia que até a felicidade por conta da imunização de uma doença muitas vezes mortal não pode ser celebrada frente aos haters de plantão. E isso independe de posição política, da cidade em que você mora ou de quem são seus amigos: a sensação de apatia é geral. E parece que muita gente cansou disso – pelo menos, na minha bolha.

Durante o último fim de semana, dias 14 e 15 de agosto, assistir os stories do Instagram era ter certeza de que você cruzaria com um card escrito: “Gente blasé é cafona demais. Seja um emocionado”. O fundo vermelho escuro e os dizeres em branco estavam distribuídos em dezenas – talvez até centenas? – de stories que eu assisti durante a tarde de sábado – entre uma faxina, uma pia imensa de louça e um armário a ser arrumado – e, principalmente, a tarde de domingo. Muita gente concordando, pedindo mais emoção, defendendo o direito de comemorar e celebrar e falar o que sente, de não se deixar sufocar e viver intensamente todas as conquistas. “O que eu vejo é que, por conta da pandemia, do isolamento, de termos tido um ano praticamente anulado, as pessoas têm sentido falta de momentos grandiosos, de romantização da vida. E disso surge uma estafa com a apatia”, comenta Melissa Resch, a autora desse post que você também viu, provavelmente.

“O viral em si não me surpreendeu, é puro funcionamento do algoritmo, de máquina, acontece e não significa genialidade minha. Com a glamourização gerada pelo Instagram nos últimos anos, se inflou uma ideia de que não é “cool” viajar e fazer overposting – tem que fingir costume; não é “cool” receber um follow de alguém que tu admira e postar sobre – tem que fingir costume; não é “cool” chegar a uma grande conquista profissional e postar sobre – tem que fingir costume. Essa ideia é cansativa”, continua. Será que estamos assistindo em primeira mão, um momento de começarmos a nos despedir de tanta apatia, blasé-zice e carão do qual estamos todos tão cansados, né? Então, eu acho que não.

Não faltaram no Twitter quem tivesse sentido a mesma coisa que eu – e que você, talvez – a ver um tanto de gente claramente blasé, que não sorri nem sob ameaça, compartilhando o post da Melissa. E sem a intenção de apontar dedos ou de me tornar a própria patrulha do pode-ou-não-pode-compartilhar, mas… um tanto quanto incongruente, não? “Acho que muita gente compartilhou só porque tá viralizado ou porque gera like. Ou que entendeu errado, mesmo. Teve aqui um cara que me mandou direct agradecendo, porque semana passada foi transar com uma mina, falou que tava apaixonado nesse 1° encontro e ela chutou ele”, Melissa conta. Acho que aqui cabe pontuar que ser emocionado, do jeito que a gente sente falta e talvez deixe de se permitir, não tem a ver com ser efusivo ou, num caso como o que ela relata, completamente sem noção. Desculpa, moço, eu sou de peixes e entendo paixões relâmpago, mas “te amo” em uma semana só vai provocar medo no outro.

Ser emocionado, do jeito que as pessoas estão sentindo falta, tem mais a ver com ser de verdade do que com ser efusivo. Eu mesmo já disse, em momentos do passado, ter pavor de pessoas emocionadas, como o tweet aqui de cima, e continuo tendo dependendo da situação ou da minha intimidade com a pessoa. Mas eu não deixo mais de comemorar minhas vitórias quando eu sei o quanto elas deram trabalho, não escondo que eu tô feliz quando eu tenho motivos para estar, e sentei o dedo no like em foto de absolutamente todo mundo que comemorou que foi vacinado, conhecesse a pessoa ou não. Gente emocionada de um jeito muito efusivo demais pode causar desconforto no outro, pode ser invadir o espaço de quem é introvertido ou simplesmente não respeitar o tempo do outro porque você quer colocar todas as emoções pra fora.

Dá pra ser emocionado sem extravagância, sem gritaria, sem 154 posts durante uma viagem no stories, ou dá pra ser emocionado assim também se esse for o seu jeito. Ser de verdade é uma baita emoção quando a gente se permite. E pode compartilhar viral se aquilo não te representa 100% só pra fazer parte da tendência porque, naquele dia, você se identificou? Pode também, mas não se admire nem vire os olhos na hora que um emocionado invadir a sua DM.

 

Continua após a publicidade
mais de
estímulos
fora-de-foco03

Fora de foco

Por
A falta de concentração, seja com as obrigações, seja nos momentos de lazer, virou motivo de angústia para muita gente no último ano
A geração Z é a mais fluida que conhecemos em questão de gênero e sexualidade, mas quer, cada vez menos, sexo e casamento
pexels-ike-louie-natividad-6279440

Você sabe o que é languishing?

Por
Traduzido como "definhamento", o languishing é um estado de vazio e estagnação que vem atingindo diversas pessoas durante a pandemia
antidepressivos-sexo-13

Gozar sem chorar

Por
Cresce o uso de antidepressivos e, com isso, a libido acaba diminuindo. Afinal, ainda dá pra ser feliz e manter o tesão?

Não é ? Sair.

Ter independência no discurso, manter uma rede diversa de colaboradores, remunerar bem a todos e fomentar projetos sociais são bases fundamentais para a Elástica.
Vivemos de patrocínios de empresas que acreditam em nosso discurso e nossas causas, além da colaboração dos nossos leitores através de assinatura digital. Na página de Contas Abertas você pode ver os valores que hoje a Elástica arrecada, e conferir os custos que incorremos para produzir o conteúdo que oferecemos.