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O som do Fado Bicha

Em turnê pelo Brasil, a dupla portuguesa apresenta seu novo álbum “Ocupação” e canta para romper o silêncio

por Humberto Maruchel Atualizado em 14 jul 2022, 18h44 - Publicado em 13 jul 2022 01h24
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Clube Lambada/Ilustração

uas artistas portuguesas LGBTQIA+ se encontram por acaso numa noite, num bar, e a partir desse momento decidem cantar, através do fado, suas dores e denunciar a homofobia e transfobia ainda fortes na cultura portuguesa. De forma simples e resumida, essa é a história da banda portuguesa Fado Bicha, composta por Lila Tiago e João Caçador, que neste mês se apresentam no Brasil. 

De modo mais detalhado, a narrativa percorre uma estrada cheia de buracos. João havia acabado de terminar um namoro. Morador de Lisboa, pensou que deveria sair para curtir e expandir seus pensamentos. Foi, então, até o Bairro Alto, uma região conhecida por seu estilo boêmio. Lá, conheceu um italiano, o Paolo, que o convidou para um show de drag que ele iria fazer em outro bar, num outro dia, em 2017.

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Com esse simples convite, o caminho de João foi sendo descoberto. Ao chegar em casa, recebeu uma mensagem pelo Facebook, com a data e local da apresentação, que seria realizada no bar Favela Lx,  afamado por acolher muitos artistas LGBTQIA+ emergentes. Ao vasculhar a página do local, João descobriu um vídeo de Lila, uma jovem cantora queer. Uma peculiaridade chamou sua atenção: ela cantava fado. 

No dia do show, João foi avisado que Lila cantaria naquele mesmo dia. Ao vê-la, a identificação foi imediata. Decidiu se apresentar e, sem constrangimentos, perguntou se ela gostaria de ensaiar algumas canções. Ele acompanharia com a guitarra. 

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Sorte ou acaso

João cursou Engenharia Civil durante cinco anos. Prestes a se formar, desistiu da profissão – a vontade de estudar música falava mais alto. Não seria uma mera aventura, pois desde criança cantava no coro da igreja e aos 11 anos aprendeu a tocar guitarra. A música nunca foi coadjuvante ou um passatempo, apenas levou um tempo para chegar ao entendimento de que deveria investir esforços naquela paixão.

Quem escuta a história da dupla corre sérios riscos de acreditar que o acaso, aqui, não tem espaço. Duas semanas e muitos ensaios depois, estavam se apresentando enquanto dupla. Dessa união nasceu Fado Bicha. 

Atravessados cinco anos e uma pandemia, a banda chega ao Brasil para uma turnê que começou em São Paulo, passa por Belo Horizonte e termina no Rio de Janeiro nesta quarta-feira, dia 13. No país, elas apresentam o álbum mais recente, Ocupação, lançado em junho deste ano.

Antes de afivelarem as malas de volta para Portugal, passarão por uma escala em Nova York, nos Estados Unidos. Lá, farão o show de abertura de outro grande artista LGBTQIA+: ninguém menos do que Ney Matogrosso, no festival SummerStage, que acontece no Central Park.

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Fado Bicha/Arquivo

Deserto cultural

Embora tenham passado boa parte da vida adulta em Lisboa, centro cosmopolita, onde é fácil se enganar por uma reputação amigável às pessoas queer (ou bicha como as duas se intitulam), cresceram em cidades subúrbios (Lila viveu entre Odivelas e a aldeia de Arrouquelas, e João em Ribatejo), em verdadeiros “desertos culturais, onde quase não havia nenhum acesso à cultura” e o machismo predominava. 

Num café, no bairro do Higienópolis, em São Paulo, a quase 8 mil quilômetros longe de casa, João e Lila contam sobre o projeto artístico, o preconceito que ainda encontram em Portugal, o apego nacional à tradição e, claro, o amor ao fado. Estão cansadas das muitas ladeiras da região, mas também pelo trabalho que foi para chegarem aqui. Além da composição das letras, são também responsáveis pela parte comercial, algo que as deixa exaustas. 

“Em Portugal, a violência física não é um fator nem aproximado do Brasil, mas eu sinto que a pauta da igreja católica, da religião, tem um peso muito forte na criação da homofobia, e dessa aversão à toda a sexualidade e através das figuras que não sejam normativas”

João Caçador

João recorda do encontro com Lila quase como um acontecimento revolucionário e mágico. “Gosto de pensar desta ideia da rua como um estímulo para os encontros. O capitalismo tem muita força de nos manter em casa, em segurança, com a companhia da televisão, do computador. E acredito que a rua é uma coisa pode ser uma coisa muito revolucionária, um contra movimento, que de repente nos torna mais humanos.”

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Fado Bicha/Arquivo
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Revolução artística

Enquanto João cria mais na parte melódica, Lila é responsável pelas composições. Apaixonada pelas letras, suas canções nascem das lembranças e de todo o universo sensível com que teve contato durante a adolescência e agora na fase adulta, como um livro, um filme, um poema e um fado.

De todas as manifestações artísticas, a música foi a que mais esteve presente quando era pequena. Havia muito bullying e preconceito do lado de fora de casa. Seu quarto era o refúgio. 

“Havia poucos contextos sociais que fossem seguros para mim, porque bastava eu pôr o pé para fora de casa e já recebia a violência. Para mim, a experiência de estar sozinha no quarto com a música tornou-se uma possibilidade de experimentar universos que eu não conseguiria de outra forma. Eu podia fingir ser Alanis Morissette ou Courtney Love e experimentava uma série de lugares, sempre relacionados à feminilidade, especialmente a uma feminilidade zangada, como essas duas. E a música me permitia isso”, ela conta. 

A paixão pelo fado, para ela, não era uma herança familiar. Não havia uma relação especial além daquela que todo cidadão português carrega apenas pelo fato de nascer e viver naquele território. Foi algo que descobriu, mais uma vez ao acaso, e a tocou profundamente.

“Por volta dos 13, muito também devido a questões que eu própria vivia na minha vida, a perda da minha mãe, a violência que sofria na escola e na rua, a violência homotransfóbica, comecei a me identificar com a expressão emocional do fado: ao fatalismo e a centralidade da palavra, que tanto me encantava.”

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“O capitalismo tem muita força de nos manter em casa, em segurança, com a companhia da televisão, do computador. Acredito que a rua é uma coisa pode ser uma coisa muito revolucionária, um contra movimento que nos torna mais humanos”

João Caçador

A primeira vez que cantou para um grupo de pessoas foi em 2014. Naquele ponto, já havia se formado em Psicologia e trabalhava na área, mas estava deprimida e sem perspectiva. Decidiu fazer um trabalho voluntário em uma ONG na Grécia, SCI Hellas, que atende principalmente refugiados. Uma das propostas da organização de socializar os voluntários era promover encontros em que cada um trouxesse algum elemento da própria cultura. Um deles ocorreu na Irlanda. Muitos trouxeram alimentos típicos, Lila decidiu cantar. 

Quando voltou a Portugal, ela se inscreveu em uma escola de fado e estava determinada a buscar uma jornada na música. Mas não foi um achado linear e a frustração logo deu as caras.

“Foi um momento de confronto porque o professor não queria que eu cantasse um fado. E eu confrontei e acabei por cantar. Senti que aquele espaço não era para mim, mas cantei, fiquei toda arrepiada e disse que insistiria mais uma vez. Voltei e senti a mesma coisa.” 

A canção que queria cantar era “Ai, Mouraria” (em referência a um bairro histórico de Lisboa), eternizado na voz de Amália Rodrigues. Não pôde performá-la devido a um trecho específico: “o homem do meu encanto”. E Lila, vista como um homem pelo professor, foi reprimida por cantá-la. Depois disso, não voltou mais para a escola, mas resolveu tomar o fado para si. Foi assim que botou os pés na Favela Lx e passou a se apresentar. 

Foi na sua segunda aparição no palco do bar que conheceu João.

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Fado Bicha/Arquivo
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Um pé no ativismo, o outro também

Desde que se conheceram, produziram dois álbuns e deram algumas voltas por solos internacionais, incluindo o Brasil. Em 2019, vieram para cá e foram surpreendidas pela recepção do público brasileiro. Havia, supunham, um entusiasmo de ver duas artistas portuguesas cantarem sobre o passado colonialista, sobre o racismo, a xenofobia e a homofobia já tão enraizadas em Portugal. E tudo isso sem meias-palavras, como fazem na música “Povo Pequenino”. 

“Creio que de alguma forma [os brasileiros] sentiram que validávamos as queixas deles que são diárias, que se ouvem, como o racismo, e por não taparmos os ouvidos e tentarmos denunciá-las”, afirma João.

A reação do público brasileiro, entretanto, não ressoa da mesma forma que no país europeu. Sentem que a modéstia ainda dá as cartas do que pode ou não ser feito ali. Há apego à tradição e aos gêneros. “Não temos uma Linn da Quebrada em Portugal”, exemplifica Lila.

“Por volta dos 13 anos, devido a questões minhas – a perda da minha mãe, a violência que sofria na escola e na rua, a violência homotransfóbica –, comecei a me identificar com a expressão emocional do fado: ao fatalismo e a centralidade da palavra, que tanto me encantava”

Lila Tiago

“Portugal tem uma cultura muito forte de silenciamento pela modéstia e pela moderação. Então as poucas pessoas que conseguem romper esse padrão caem inevitavelmente no lugar do ridículo. E, portanto, a partir daí o impacto que conseguem ter é muito limitado”, diz a cantora.

Há também o aspecto da religiosidade muito forte no país, que torna tudo mais difícil. Diferente do Brasil, em que a violência se escancara no elevado número de assassinatos, em Portugal, a discriminação é mais sutil.

“Em Portugal, a violência física não é um fator nem aproximado do Brasil, mas eu sinto que a pauta da igreja católica, da religião, tem um peso muito forte na criação da homofobia, e dessa aversão à toda a sexualidade e através das figuras que não sejam normativas”, explica João.

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Nas canções de Fado Bicha há forte conotação política. Para ambas, não é possível separar o ativismo da criação artística, pois “todo corpo é político”. Cantam o que viveram, as contradições que reconhecem ao redor, e tudo que não toleram mais. O deboche é um elemento quase obrigatório nas críticas sociais. Em “Crônica do Maxo Discreto” ele dá o tom. 

Mas mais importante: cantam aquilo que são. Uma manifestação que aparece, inclusive, na escolha do nome da banda. E também em tatuagens em seus corpos.

“Escolhemos este nome porque ele não deixa espaços vazios, não tem subterfúgios, ele nos apresenta de cara. Eu quero que tu saibas que sou bicha porque para mim é tão importante como saberes o meu nome”, declara João.

Apesar do estilo subversivo que, normalmente, é lido no estilo e canções das artistas, elas explicam que essa é uma leitura feita, especialmente, pelo fato de destoarem da normatividade. “Não somos subversivas por natureza, nem somos corpos políticos por natureza, somos confrontadas pelo sistema normativo. E esse sistema é que nos coloca neste ponto de subversão. E nos faz subversivas”, afirma João.

“Enquanto essa própria sociedade se reclama como um bastião da liberdade e tendo a ideia de liberdade, ‘da revolução pacífica’ como um elemento central da cultura. Então nossa  frustração vem desse questionamento: ‘como vocês não percebem que vocês não sabem absolutamente nada sobre liberdade?’”, provoca.

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