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Retratos de sobreviventes

Um genocídio reduziu a população Tapayuna a apenas 42 indígenas. O fotógrafo Pedro Cattony retratou essas vidas

por Artur Tavares Atualizado em 20 jul 2021, 21h04 - Publicado em 7 jul 2021 23h18
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Clube Lambada/Ilustração

ssa história poderia se passar em qualquer momento da experiência brasileira, da chegada das primeiras caravelas desse lado do Atlântico até hoje, mas aconteceu na década de 1970, quando a população índigena Tapayuna teve seu contato derradeiro com os homens brancos. Eram fazendeiros e políticos, gente poderosa que queria expandir seus territórios para dentro da floresta às margens do Rio Arinos, um curso d’água de 760 quilômetros de extensão no coração do Pantanal. Em vez de respeitarem o povo milenar que vivia ali e assentarem suas plantações de soja, algodão e sorgo em outro lugar, esses colonizadores recorreram para a solução mais simples: envenenaram uma anta morta com arsênico e ofereceram sua carne à tribo. Onde haviam mais de 600 seres humanos restaram apenas 42, uma maioria de crianças e uma totalidade de inocentes, que perderam tudo do dia para noite.

O genocídio dos Tapayunas é mais um capítulo sangrento dos abusos que os povos indígenas sofrem no Brasil. Largados à sorte em um período em que a Ditadura Militar empenhava a expansão territorial brasileira nas regiões Centro-Oeste e Norte do país, os sobreviventes da etnia foram realocados para dentro do Parque Nacional do Xingu, onde vivem até então.

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Pedro Cattony/Fotografia

Em 2018, o fotógrafo e biólogo paulista Pedro Cattony recebeu a visita de uma amiga de infância que vinha do Xingu e ficou sabendo da história dos Tapayunas. Antropóloga que realizava seu trabalho de mestrado sobre a população dizimada, ela narrou para Pedro as dificuldades dos indígenas de viverem ao lado dos seus “primos distantes”, os Kisêdjê, na reserva ambiental, uma situação que levou a ainda mais mortes entre os poucos sobreviventes. Contou também que eles agora vivem em uma antiga aldeia Kayapó, e que a miscigenação dos dois povos é o que tem garantido a continuidade dos Tapayunas.

Pedro ficou fascinado, horrorizado, inspirado. E decidiu que precisava tomar uma atitude. Organizou uma visita aos Tapayunas, uma viagem de dois dias e meio pelo ar, pela terra e por águas brasileiras para retratar como aqueles 42 sobreviventes mantiveram viva toda uma cultura e suas tradições.

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Kunitxi Tapayuna/Fotografia

Entre viagens e reflexões

Biólogo de formação, Pedro Cattony conheceu o seminal fotógrafo Haroldo Palo Júnior quando terminava sua graduação na Universidade Federal de São Carlos. Um dos pioneiros da fotografia de natureza no Brasil, Palo Júnior tornou-se uma espécie de mentor para o jovem amador, uma amizade que durou até sua morte, em 2017. Sua influência foi imediata na vida de Cattony: “No último semestre, eu estava bem tranquilo, apenas com a monografia para defender. Com mais dois amigos, escrevi um projeto para um jornal da cidade. Conseguimos levantar dinheiro para viajar por um mês e meio pela América do Sul para escrever algumas crônicas sobre as verdadeiras fronteiras do continente”, conta. Foi a fagulha para que Pedro se tornasse um biólogo comunicador – ou um documentarista biólogo.

Daquele momento em diante, formação e hobby nunca mais se separaram em sua vida. Ao fim da graduação, Cattony ingressou em um curso de mestrado em genética e evolução molecular. Com o dinheiro da bolsa de estudos, comprou uma câmera simples, algumas lentes usadas, e entrou de cabeça nos estudos visuais. Fotografou para as maiores publicações de natureza brasileiras e algumas internacionais, deu aulas de Fotografia e Antropologia Visual em São Paulo por seis anos.

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Kunitxi Tapayuna/Fotografia

Pedro visitou o Xingu em 2018 e passou pouco mais de um mês entre os Tapayunas. Depois, embarcou para a Holanda, onde foi trabalhar no corpo técnico do Pride Photo Awards, um prêmio de fotografia direcionado a narrativas de diversidade sexual e de gênero. “Levei as imagens para lá, fiz várias discussões, inclusive em Der Haag [Haia]”, ele diz. “Quando eu estava em Amsterdã, um grupo indígena foi fazer uma turnê na Europa. E foram super críticos, apontando contradições sobre os europeus falarem sobre desmatamento e condição indígena, mas sem notar o tamanho de áreas plantas em ecossistemas brasileiros que são de nações como a Bélgica e a Holanda, porque aquilo lá também é sangue indígena.”

O fotógrafo voltou para o Brasil no início de 2020, na iminência de um vírus que pararia o mundo. Seu retorno e a epidemia foram uma coincidência, ou talvez um golpe do destino. Hoje, na capital paulista, Pedro está na linha de frente da covid-19 no Instituto Butantan.


“Quando eu estava em Amsterdã, um grupo indígena foi fazer uma turnê na Europa. E, foram super críticos, apontando contradições sobre os europeus falarem sobre desmatamento e condição indígena, mas sem notar o tamanho de áreas plantas em ecossistemas brasileiros que são de nações como a Bélgica e a Holanda, porque aquilo lá também é sangue indígena”

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Pedro Cattony/Fotografia

A libertação Tapayuna

Quando Pedro começou sua jornada até o Parque Indígena do Xingu, não sabia muito bem o que encontraria na aldeia dos Tapayunas. Dos 42 sobreviventes do genocídio há quase meio século, apenas sete estão vivos. A vida entre os Kayapós gerou filhos e netos do povo original, e hoje eles são pouco mais de 160. A mais velha dentre todos é Ngemoti, uma senhora de 68 anos.

Com um trabalho calcado na etnografia, Pedro tentou evitar ao máximo o fetiche do homem branco ao fotografar os Tapayunas. Embora tivesse autorização para permanecer na tribo e apontar a câmera para o que bem entendesse, percebeu logo que aqueles sete sobreviventes originais tinham um trabalho árduo de tentar resgatar a cultura original Tapayuna e transmitir para as novas gerações. Os mais jovens, por consequência, eram extremamente honrosos com seus ancestrais: “Quando cheguei, decidi contar a história sob a ótica deles. Era complicado, porque a língua era uma barreira, o acesso deles à educação visual também. A maneira que consegui contornar isso, ainda que pouco, foi ensiná-los a fotografar, enquanto eu também só fotografava aquilo que eles tentavam fotografar. Porque aquilo, para mim, mostrava o que era relevante para eles”, explica.

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Kunitxi Tapayuna/Fotografia

No Xingu, Pedro viu coisas provavelmente correriam o mundo, sejam na forma de retratos brutais do colonialismo ou da beleza transcendental da natureza. Ele presenciou toda tribo Tapayuna assistindo um filme bíblico dublado em Kayapó em uma das ocas (a aldeia tem energia alimentada por painéis solares), e viu as crianças se refrescarem na chuva, fugindo do calor que não dá trégua no meio da floresta, enquanto os mais velhos se escondiam em seus lares. Cattony conheceu e ficou amigo de um médico cubano que passava de 15 em 15 dias totalmente desamparado de suprimentos, e viu os jovens aprenderem álgebra, uma herança dos árabes. Mas não registrou nada disso: “ Não queria fotografar aquilo que era exótico ou surpreendente para meu olhar.”

Quando entregou sua câmera reserva nas mãos dos Tapayunas, Pedro entendeu rapidamente qual era seu papel por ali: “Eles estavam em um processo de resgatar a própria cultura, de se reerguer depois do genocídio. E davam muito valor à família, era isso que aparecia para mim quando eles estavam fotografando. Então, percebi que deveria falar sobre isso, e muito menos sobre esse choque que é ver essa galera assistir filme bíblico.”

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Pedro Cattony/Fotografia


“Quando cheguei, decidi contar a história sob a ótica deles. Era complicado, porque a língua era uma barreira, o acesso deles à educação visual também. A maneira que consegui contornar isso, ainda que pouco, foi ensiná-los a fotografar, enquanto eu também só fotografava aquilo que eles tentavam fotografar”

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Pedro Cattony/Fotografia

Amigos, alunos, mestres

Qualquer visita a tribos indígenas é bastante atribulada para quem é de fora. Existe desconfiança, choque de realidades, constrangimento, medo. Pedro experimentou tudo isso bem longe de sua casa, literalmente sem ter para onde correr caso algo desse errado. “Durante as duas primeiras semanas, não fotografei nada. Era um momento muito delicado, porque eu tinha a permissão de estar lá, mas eles não se sentiam confortáveis comigo. Não bastava a autorização. As mulheres não se sentiam à vontade comigo, os homens me olhavam com um certo desdém, e eu precisava que eles criassem uma identidade positiva para mim”, ele conta.

Aluno dedicado de fotografia, o biólogo deve ter se lembrado da máxima do “instante decisivo” de Cartier-Bresson para conquistar a confiança dos Tapayunas, ou talvez tenha sido apenas sorte: “Um dia, eu estava na escolinha assistindo o professor tentando fazer uma dinâmica de matemática com as crianças, mas com alguma dificuldade com algumas frações. Ali, a situação era muito doida, porque as aulas começavam às 7h, e às 8h30 os pequenos já estavam nadando no rio”, diz. “Eles foram e o professor ficou limpando a lousa. Me aproximei e ele apontou para a equação. Resolvemos a conta juntos, e naquela hora ganhei o respeito deles na figura também de um professor.”

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Kunitxi Tapayuna/Fotografia

No Xingu, Pedro teve provas de que as políticas afirmativas e de inclusão brasileiras muitas vezes não passam de peneiras que não tapam o sol, ou simplesmente puro oportunismo. Lá, se tornou amigo de um indígena chamado Kunitxi (cujas fotografias também ilustram essa reportagem), um jovem que estudava pedagogia em uma universidade particular 600 km distante da aldeia. “Kunitxi tinha uma dessas cotas de ingresso à faculdade, mas estava na aldeia no mesmo período que eu. Várias coisas me chamavam atenção, como o fato de que ele estava escrevendo a monografia dele, mas tinha uma enorme dificuldade com português. Ele me pediu ajuda e, quando fui olhar a monografia, vi que ele estava escrevendo em folha almaço, à mão mesmo, e que o texto não fazia muito sentido.”

O fotógrafo conta que aquilo lhe soou agressivo: “Me deixou pensando em cotas, FIES, em mecanismos de ingresso nas universidades, mas… que raio de acesso é esse se ele não fala português direito? Que estrutura essa faculdade deu para ele? Tinha um intérprete lá? Então, parecia mais um sumidouro de dinheiro público com aval do governo para ir para uma universidade particular.”

Mesmo com todas as barreiras impostas pela sociedade, Kunitxi se esforçava para levar o que estava aprendendo para a aldeia dele. “Isso é louvável, mesmo com a percepção de como essas políticas são falhas em muitos níveis. Mas você não faz ideia do quanto isso dói também, porque o oportunismo está claro”, Pedro diz.

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Pedro Cattony/Fotografia

As diferenças entre a racionalidade cartesiana do homem branco e o instinto primitivo poético dos indígenas se intensificavam e ficavam cada vez mais a mostra a cada dia que Pedro e Kunitxi andavam juntos: “Tentei ensinar fotometria para ele, falar sobre profundidade de campo. Não muito, porque não tinha tempo, além dos obstáculos de língua, de compreensão à matemática, de narrativa visual. Consegui passar muitas coisas, mas ele não estava preocupado se tinha foco, profundidade, se não tinha. As fotos não ficaram esteticamente e tecnicamente boas, mas não era o que me interessava ali. Ele estava se divertindo, achava o máximo, e, ele estar fotografando me dava acessos que eu não teria sozinho”, conta. Na vontade de retratar seus irmãos, Kunitxi garantiu os retratos para o fotógrafo: “Eu não podia entrar na oca de uma família e ver o que eles estavam fazendo ali dentro. Quando ele entrava para fotografar, abria um mundo novo para mim. Eu via aquilo que ele estava interessado, esperava-no saciar sua curiosidade fotográfica em cima do tema, então eu fotografava logo em seguida.”

“Por fim, eu mostrava para ele minhas fotos, ensinava porque estava fazendo daquele jeito. Era uma troca de experiência mesmo. Era um diálogo, como se fosse uma aula, mas uma aula em que o olhar dele também tinha algo a me ensinar”, diz.


“Que raio de acesso é esse se ele não fala português direito? Que estrutura essa faculdade deu para ele? Tinha um intérprete lá? Então, parecia mais um sumidouro de dinheiro público com aval do governo para ir para uma universidade particular”

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Pedro Cattony/Fotografia

Sobrevivência por união

Embora restem pouquíssimos Tapayunas originais vivos no Parque Indígena no Xingu, não faz muito tempo que os mais velhos tentam resgatar sua cultura ancestral. Nos últimos 50 anos, eles estavam mais preocupados em sobreviver e dar continuidade à sua linhagem do que narrar as histórias dos espíritos da floresta e dos mitos de seu povo. É compreensível, afinal. Mas, o que é a cultura Tapayuna original? “As imagens que vemos quando buscamos o povo indígena no Google são, em sua maioria, dos anos 1970. Naquela época eles ainda usavam botoques labiais e outros adornos de madeira no rosto, algo que já não fazem. Todo o resto são fragmentos que resgatam de suas memórias”, explica o fotógrafo.

“Olha a responsabilidade. Eles estão tentando resgatar fragmentos de memória e da língua para passar para os mais novos. Eles fundaram essa aldeia autônoma, mas não é 100% Tapayuna. Já tiveram casamentos com Kayapós, outras pessoas moram ali, embora quem encabece a aldeia seja um cacique sobrevivente do genocídio. Eles têm esse trabalho mais árduo com as crianças, mas essa geração mais intermediária nasceu, cresceu, foi criada e casou entre os Kayapós. Para eles, não faz muito sentido. É um trabalho que começou pulando uma geração”, Pedro diz.

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Pedro Cattony/Fotografia

Povo indígena de notoriedade internacional, os Kayapós são influentes no Xingu desde 1989, quando o cantor britânico Sting decidiu ajudar o cacique Raoni e seu povo a lutar contra a hidrelétrica de Belo Monte. Pedro me conta que os indígenas não são tão solidários com seus irmãos trucidados pelos fazendeiros no Rio Arinos: “Eles convivem, mas não diria que dão apoio. Os Kayapós ganharam muita notoriedade por causa do Sting. Desde então tiveram muito acesso a recursos financeiros para promover a cultura deles, manter aquilo protegido. A balsa que cruza o Rio Xingu é administrada pelos Kayapós, são mais recursos. No entanto, a aldeia Tapayuna de hoje é uma aldeia Kayapó antiga e abandonada, porque eles vão trocando de lugar dentro do Parque do Xingu quando um ou outro recurso se esgota, ou quando uma família decide sair porque o lugar já está cheio demais.”


“Eles têm esse trabalho mais árduo com as crianças, mas essa geração mais intermediária nasceu, cresceu, foi criada e casou entre os Kayapós. Para eles, não faz muito sentido. É um trabalho que começou pulando uma geração”

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Kunitxi Tapayuna/Fotografia

Genocídios em tempo real

Em uma das suas fotografias, Pedro registrou crianças Tapayuna com as costas pintadas em vermelho com urucum, com os dizeres “Fora Bolsonario”, assim mesmo, com o nome do presidente grafado errado. Ele esteve no Xingu pouco antes da eleição presidencial, um momento em que as notícias sobre o desmatamento e o descaso com os indígenas já começavam a gritar diante das nossas caras.


“A aldeia Tapayuna de hoje é uma aldeia Kayapó antiga e abandonada, porque eles vão trocando de lugar dentro do Parque do Xingu quando um ou outro recurso se esgota, ou quando uma família decide sair porque o lugar já está cheio demais”

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Pedro Cattony/Fotografia

Ao final da nossa conversa, eu o questiono sobre como ele vê a condução da política ambiental e de proteção aos povos originários hoje no Brasil: “É catastrófica. Não tem política para proteger nada. Estamos vendo um desmonte descarado de tudo. Dos serviços de proteção ambiental, do efetivo para monitoramento”, diz. “O diretor do INPE foi exonerado do cargo porque colocou às vistas o quanto o desmatamento estava avançando, outras pessoas foram demitidas porque trouxeram luz esses esquemas de venda de madeira ilegal para os Estados Unidos e para a Europa. Não tem política nenhuma de proteção, pelo contrário. Mesmo antes do Bolsonaro já era complicado, como a vergonha do novo Código Florestal, a hidrelétrica de Belo Monte. Nunca teve política. Talvez tenha tido uma pretensão de levar mais a sério, mas o quanto foi colocado em prática não tem como dizer. Existem genocídios acontecendo agora, em tempo real.”

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