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Tão longe, tão perto

Russo Passapusso fala do disco do BaianaSystem com Gilberto Gil e sobre como se manter próximo durante o distanciamento social provocado pela pandemia

por Bruna Bittencourt 6 jul 2020 11h19
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(Clube Lambada/Ilustração)

ão era para ser um disco, mas a pandemia fez com que se tornasse. Em novembro passado, o BaianaSystem se encontrou com Gilberto Gil, mesclando repertórios, diante de um público de 40 mil pessoas, em Salvador. Veio o verão e o Carnaval. “Saímos de um furacão, do Carnaval que fizemos em São Paulo, Fortaleza e Salvador, discutindo como faríamos nos próximos anos por conta da quantidade de gente. Imagine: o Baiana não poderia sair em determinados dias por causa disso”, lembra Russo Passapusso, vocalista da banda, à Elástica. Veio também a pandemia e, em meio o distanciamento social, é difícil imaginar um show do Baiana e toda a aglomeração que ele provoca. 

 

Com o isolamento, as lives pareciam o único caminho possível na cena musical, mas o grupo preferiu outro. “Não queríamos fazer formatos reduzidos. Somos um coletivo, uma banda”, diz Russo. “No caso do Baiana, é muito difícil a gente reproduzir [a sonoridade do grupo]. A gente não quer descaracterizar isso.”

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No lugar das lives, o grupo lançou em abril dois álbuns: Futuro Dub, uma releitura no gênero jamaicano de O Futuro Não Demora (2019), terceiro disco da banda, premiado com um Grammy latino, e Gil Baiana Ao Vivo em Salvador, registro daquele show em novembro, que também ganhou edição em vinil, já esgotada, e um documentário sobre o encontro. “Quando rolou isso [a pandemia], logo veio na cabeça da gente: vai ser um dub e um ao vivo, o antagonismo. As pessoas vão mergulhar nessa cápsula que é o dub, instrumental, psicodélico, e vão para o show ao vivo”, conta. “É muito interessante ouvir um álbum ao vivo na situação que a gente está”, complementa o guitarrista Beto Barreto.  

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Tudo indicava que o grupo teria outros encontros com Gil. “Ele estava no exterior, a gente estava indo para fora, íamos nos encontrar por lá, estava tudo desenhado”, conta Russo. As reuniões não aconteceram, mas nasceu assim o álbum. “É um disco alto astral, para cima, com os reggaes, os ijexás [ritmo nigeriano levado à Bahia por escravos africanos] e, ao mesmo tempo, é extremamente político na escolha das músicas. Gil pediu para tocar ‘Pessoa Nefasta’”, conta. “Eu tinha voltado a tocar esta música algum tempo atrás, nos últimos shows que fiz antes do nosso encontro”, disse Gil, na live – sem show –, que reuniu o compositor com Russo e Beto para um conversa sobre o disco.

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A reunião de Gil com o Baiana, separados por décadas, mas com muitas influências em comum, lembra o encontro do compositor com Chico Science e Nação Zumbi, na metade da década de 1990, em shows e na gravação de faixas do segundo disco da banda pernambucana, Afrociberdelia (1996). “Isso sempre foi um grande elemento do meu trabalho. Esses laços intergeracionais estão sempre sendo refeitos, sendo levados adiante, é inevitável”, disse Gil na conversa. “Na música americana, isso é muito constante, a inglesa também tem muito disso. [Eric] Clapton e [Paul] McCartney estão sempre encontrando gente nova.” Entre seus intercâmbios, ainda jovem, com gerações mais velhas, Gil lista Riachão (1928-2020), Jackson do Pandeiro (1919-1982), Sivuca (1930-2006) e Baden Powell (1937-2000). 

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(Cartaxo/Divulgação)

Reinventando  

Lançados os dois álbuns, a banda busca agora novas formas de produção para um novo disco, sem a obrigação e o imediatismo de lançamentos de singles ou de novidades constantes. “Estamos caminhando para reinvenções, procurando produzir dentro dos novos formatos.” Russo conta que anda investigando, com amigos envolvidos com a parte técnica, aplicativos que possibilitem músicos tocarem juntos, ainda que distantes fisicamente. “Estamos procurando compor em conjunto. E, quando recebemos o material de alguém, vemos os traços dele muito mais aflorados.” Na lista, já conhecidos colaboradores da banda, como o maestro Ubiratan Marques, regente da Orquestra Afrosinfônica, e a dupla baiana Antonio Carlos & Jocafi, autor de hits como “Você abusou”. “Tão interessante quanto te ver tocar a música é te ver compor neste momento. Queria muito que o público tivesse a possibilidade de ver isso.”  

Se a pandemia impulsionou o lançamento de dois discos do Baiana, adiou as gravações do segundo disco solo de Russo, que aconteceriam agora, seis anos depois de Paraíso da Miragem, sua estreia sem a banda. “Preferimos continuar compondo até a situação melhorar e a gente entender qual a melhor forma de ir para o estúdio.”

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Neste distanciamento social, Russo conta também que anda enviando composições, melodias e pedaços de música gravadas no celular para os amigos e para a família, como uma forma de mandar um recado e algum conforto a eles. “Vou fazendo as músicas e refazendo. É como um replantio: vou tirando o galhinho que está atrapalhando”, diz. “Nunca foi tão importante mandar uma mensagem.” 

Confira também a seleção das nossas músicas favoritas do Baiana System e do mestre Gilberto Gil:

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