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Moda para salvar o planeta

Ativista ambiental e apresentadora, Giovanna Nader lança livro sobre a urgência da sustentabilidade no ramo têxtil

por Artur Tavares Atualizado em 2 jun 2021, 16h05 - Publicado em 1 jun 2021 22h30
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Clube Lambada/Ilustração

m seu estado mais puro, a moda é uma poderosa ferramenta de autoafirmação e contestação social. É através da nossa aparência, das nossas roupas, nossos cortes de cabelo, nossas maquiagens e tatuagens, que dizemos quem somos e como nos sentimos perante a questões sensíveis.

Por outro lado, assim como muitas manifestações artísticas, a moda foi absorvida pelo capitalismo predatório. Aqui, as roupas deixam de cumprir suas funções básicas de vestimenta e de expressão para se tornarem ditaduras do estilo, das tendências, dos Do’s and Don’ts. O resultado? Muitas pessoas veem moda como símbolos de status sociais, e roupas como peças descartáveis, trocadas a cada nova estação do ano.

O planeta está cada vez mais em xeque nesse ciclo sem fim. A cadeia produtiva da moda é uma das mais lucrativas do mundo, e também uma das mais predatórias. Responsável por cerca de 10% de todas as emissões do efeito estufa anualmente, a indústria precisa se reinventar urgentemente, sob o risco de colocar toda a vida humana sob o perigo da extinção.

Ativista ambiental, comunicadora, apresentadora do programa Se essa roupa fosse minha, do canal pago GNT, Giovanna Nader há muito tempo vem falando sobre a sustentabilidade na cadeia da moda, denunciando grandes redes de fast fashion, advogando a favor da natureza. Agora, ela lança o livro “Com que roupa?”, um compilado de suas ideias e de informações que transcendem os guarda-roupas, falando sobre poluição, trabalho escravo, consumismo, greenwashing e muito mais. Nós conversamos com ela, confira:

Você levou dois anos para escrever Com que roupa?. Como foi esse processo?
Ele foi se transformando. Começou sendo um livro para falar das pequenas coisas da moda sustentável, como descartar suas peças, o que é um armário cápsula, como consumir de maneira consciente, assuntos que eu já abordava nas minhas redes; então o mundo passou por diversos acontecimentos e eu também fui me transformando. Primeiro o céu de São Paulo ficou preto por causa das queimadas, depois, o petróleo no mar, no Nordeste. Então, a pandemia. Fiquei na dúvida se era relevante falar sobre moda sustentável no meio de todo esse caos. Decidi usar a moda como fio condutor para questionar o mundo. Então toda essa parte sobre autoconhecimento na moda ficou para a segunda parte do livro, e toda a primeira parte tornou-se sobre a crise climática, a questão escravagista, a poluição das águas. A moda tem números altíssimos referentes à destruição do mundo.

O livro sai em um momento de crise, em que influenciadores e pessoas famosas são cobradas a se posicionarem, deixarem a alienação de lado. Como você enxerga essas questões?
Eu vejo como velho mundo e novo mundo. Acho que essas pessoas que ainda estão nas suas redes sociais ostentando marcas dentro de um país em que 0,0001% da população pode comprá-las e, com medo de se posicionarem – porque quando você se posiciona na sustentabilidade, também está se posicionando politicamente –, isso faz muito parte do velho mundo. Claro que todo mundo tem seu público, mas acho que não tem mais espaço para essa atitude. O mundo está um caos. Não adianta pensarmos que estamos em um mundo encantado. E, se você está, então faz parte do 0,0001%. Que feio para você viver nessa bolha, que feio que você ainda não acordou para a realidade.

Acho que o novo mundo é o contrário. Várias vezes tenho essa ansiedade do fim do mundo, de uma geração sem futuro, e tento transformar esse fim do mundo no velho mundo que está morrendo. A Nancy Fraser fala em um livro que o velho está morrendo mas o novo não pode nascer. Só que vejo esse novo nascendo. Muito lentamente, claro, sei que revoluções sistêmicas levam décadas para acontecer. Mas a pandemia acelerou a situação. Se achamos que os números de desmatamento estão um caos, por outro lado outros valores urgentes se aceleraram.

Recentemente, li um relatório da WWF [a organização World Wide Fund for Nature] sobre como a influência digital aumentou muito para questões climáticas. É muito importante. Que bom seria se essas pessoas que fazem parte do velho mundo percebessem seu poder de transformação perante esses milhões de seguidores para engajá-los sobre a existência humana na Terra, algo que deveria transpassar posicionamentos políticos.

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Giovanna Nader/Instagram/Reprodução

A indústria da moda debate sustentabilidade, questões trabalhistas e ambientais já há mais de vinte anos. Por que, mesmo assim, sua cadeia ainda é tida como atrasada e predatória?
A mudança é urgente. Sou super a favor do pensamento radical de que é preciso uma mudança sistêmica, parar tudo e mudar o lado para onde estamos indo. Estamos em uma década chave, não temos 50 anos para promover essas mudanças. Países lá fora, ainda dentro do capitalismo, estão reinventando suas economias. Temos a Economia Donut na Holanda, sendo espalhada para vários países europeus, temos o Green New Deal, que é muito criticado, mas cujo avanço nunca foi tão grande. É preciso construir pontes na urgência que estamos.

A indústria faz parte dessas mudanças. Enquanto existem pessoas que querem promover mudanças genuínas, é preciso ficar muito atento porque não dá para se conformar com as coleções sustentáveis nas lojas, roupas feitas de garrafas pet recicladas. As grandes marcas já poluíram demais. Queremos ver mudanças sistêmicas, inovações na tecnologia de tecido, diminuição do mercado – porque não dá mais para crescer ano após ano.

Além disso, tem também uma questão de grande massa. Por muito tempo fui taxativa, dizia para só comprar em brechó, então recebi algumas puxadas de orelha carinhosas do meu público porque, para muita gente, acessibilidade na moda são essas cadeias de fast fashion.


“Enquanto existem pessoas que querem promover mudanças genuínas, é preciso ficar muito atento porque não dá para se conformar com as coleções sustentáveis nas lojas, roupas feitas de garrafas pet recicladas. As grandes marcas já poluíram demais. Queremos ver mudanças sistêmicas, inovações na tecnologia de tecido, diminuição do mercado – porque não dá mais para crescer ano após ano”

Os bons brechós não estão reservados a poucos lugares, alimentando uma parcela economicamente mais favorecida da população?
Isso é um mito. Existem várias maneiras de se fazer uso da roupa usada. Ela é singular, mais barata, um produto que já está no mundo. Temos um problema gigante de descarte na indústria da moda. Podemos trocar roupas em eventos públicos ou com os amigos. Podemos invadir os guarda-roupas dos nossos pais e avós. É claro que existem brechós caríssimos, com roupas de marca, mas eles existem tem todos os lugares, inclusive nas periferias, e até online. Hoje, dá para montar looks inteiros em bazares de igrejas, e grandes marcas já fazem upcycling, fazendo roupas de outras que já existiam, ou de tecidos que estavam lá parados.

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Existe uma maneira de elencar aquilo que é mais importante de se resolver na moda ou é preciso um grande reset?
Estamos diante de tantas muitas questões urgentes, mas, com certeza, as maiores delas são a produção e o descarte. Temos uma produção diária altíssima, e muitas vezes o descarte para no mundo subdesenvolvido. É muito fácil para o primeiro mundo enviar o excedente do fast fashion, o lixo cheio de poliéster, para o terceiro mundo.

Outra coisa é que a moda é responsável por um número entre 8% e 10% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. É um mercado que produz muito e sem consequência nenhuma, que joga água de tingimento diretamente nos rios. E, claro, a questão escravagista, porque ainda é o segundo mercado que mais escraviza pessoas no mundo.

E, é tudo muito complicado, porque como dizer para não comprar nenhuma roupa made in Bangladesh, quando 80% do PIB do país vem da indústria têxtil. Existem 60 milhões de pessoas trabalhando no mercado de moda, as marcas têm uma responsabilidade grande de construir um ambiente seguro, respeitoso e com direitos humanos.

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Theodora Duvivier/Fotografia

Quebrar os paradigmas que nos impedem de sermos sustentáveis é mais difícil em um país que fornece matéria-prima e mão de obra baratas, como no Brasil? Nós somos mais suscetíveis a cair nas garras do consumismo e da baixa qualidade têxtil?
Acho que o consumismo está em todo lugar. Os Estados Unidos são a maior potência produtora e também consumista do mundo. Se não ficarmos nesse viralatismo atrás de marcas multinacionais, tênis, fast-fashion, percebemos que a moda brasileira é latente e vibrante, e isso me deixa muito otimista.

Em relação à produção, somos o segundo maior exportador de algodão no mundo. Esse algodão faz parte de uma cadeia de monocultura, agrotóxico, bancada ruralista. Por outro lado, tem um movimento invisível e crescente do cânhamo, inclusive da legalização da maconha através dele, que é um tecido muito proveitoso para a indústria da moda. Além de termos um solo perfeito para a produção, o cânhamo regenera o solo.

Também temos inovações em tecidos e marcas criativas. É muito potente. O upcycling aqui vem forte, com marcas fazendo coleções todas com calças jeans antigas, transformando em vestidos, macacões, tops. Tem muita gente fazendo tingimento com pigmentos naturais de plantas da Amazônia e do Cerrado.

Há alguns anos tive a chance de jantar com representantes do setor têxtil italiano, um evento cheio de pompa em um shopping de altíssimo padrão, e ouvi reclamações de como nossos impostos são péssimos para importação. No entanto, quando perguntei se queriam produzir aqui, com tecidos e pessoas brasileiras, todos diziam que não, porque não temos a mesma qualidade. Nós somos reféns das intenções de mudança dos grandes players, nos sujeitamos aos tempos deles de corrigir os erros?
Ainda somos reféns, sim. Mas, acredito nessa mudança também. Através de mudanças sistêmicas, leis e através de uma mudança radical de governo, porque com essas pessoas nada vai acontecer.

Engraçados esses eventos de luxo e glamour de shoppings, já estive em alguns deles também, e como eles não fazem sentido nenhum mais. Shopping é um ambiente pavoroso, fechado, que não te dá contato com o mundo externo, cheio de lojas vazias que não conversam em nada contigo, tentando te empurrar coisas em liquidações .


“A moda é responsável por um número entre 8% e 10% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. É um mercado que produz muito e sem consequência nenhuma, que joga água de tingimento diretamente nos rios. E, claro, a questão escravagista, porque ainda é o segundo mercado que mais escraviza pessoas no mundo”

E então, esse tipo de evento… quando você olha pela ótica da sustentabilidade, ela também fala sobre valores que temos dentro de nós, não apenas o mercado e a economia. Esses representantes sabem que essas pautas são urgentes, mas ainda estão tão distantes, patinando tanto no assunto.

Como conscientizar uma parcela grande da população que ainda associa comprar roupa e ter uma quantidade grande de peças com status social?
Isso é algo que me pergunto todo dia, porque sinto que ainda falo com uma bolha. Como alcançar outras pessoas além daquelas que já se atentaram à crise climática? Como falar para quem está ostentando marcas de luxo ou quem gasta boa parte do dinheiro com isso? É pegar na questão do autoconhecimento. Quando você entende que pode ser estiloso repaginando o que já tem no armário ou mudando uma roupa com as próprias mãos têm muito mais valor do que comprar em uma loja cara, dividir em muitas parcelas. Não é sobre o que você tem, e sim sobre quem você é, como você arruma seu cabelo, passa seu delineador.

É muito triste você ver essas pessoas que vivem na ostentação da moda, coloca uma do lado da outra e vê o mesmo tipo de cabelo, o mesmo tom de cabelo, mesmo corte, mesma roupa, mesmo sapato. A moda é para te diferenciar do outro. Que triste quando ela te massifica.

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Theodora Duvivier/Fotografia

Quando casei, roubei um monte de roupas da minha companheira. As pessoas se beneficiariam com essa troca, ou com um armário só?
Super. Agora mesmo estou com a calça do meu marido, que na verdade é uma ceroula, mas para mim fica uma calça meio larguinha. E isso vale pros dois lados. As camisas mais largas femininas vão bem nos homens. Além disso a moda está cada vez mais agênero. Não tem essa mais de roupa de homem ou de mulher. Se serve… o grandão está legal no feminino, pega uma camisa do homem e faz de vestido, amarra um cinto, faz uma gravata de cinto. Acho que é sobre isso a criatividade. Você sai muito mais feliz sabendo que explorou todas as possibilidades do seu armário.

Quando veio a pandemia, no ano passado, a indústria da moda entrou em alerta vermelho pelo que ficar em casa poderia resultar em relação a baixas vendas. No entanto, todo mundo continua indo muito bem, obrigado. A covid-19 mostrou que o consumismo venceu a batalha contra o meio ambiente?
Venceu. Alguém chegou a dizer que o mundo entraria em colapso quando percebêssemos que só consumimos coisas que não são essenciais. A moda faz parte desse setor. Aí começou um papo do que viria, da moda do futuro, a moda pós-pandemia, mil previsões. Então, nada. O consumismo venceu. Saiu na frente quem tinha os melhores canais online.

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Editora Companhia das Letras/Divulgação
Com que roupa? Um guia prático de moda sustentável

Editora Companhia das Letras
200 páginas
R$ 64,90

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